Sofista, livro por PLATÃO

Neste diálogo que antecipa a investigação aristotélica das Categorias, Platão investiga o problema do Ser na discussão da atividade dos sofistas, através da conversa entre o Estrangeiro de Eleia (discípulo de Parmênides), e o jovem Teeteto.

Desejando sobretudo denunciar a figura do sofista, busca-se determinar como este produz um discurso sobre aquilo que não é, e desta busca se chega no problema de como é possível que o discurso sobre aquilo que não é seja algo que é.

Hoje em dia este tipo de argumentação pareceria dispensável, até certo ponto ao menos, mas precisamos recordar que a já muito desenvolvida linguagem atual dependeu dessas muitas definições prévias de conceitos e categorias. Somos herdeiros desses esforços ancestrais.

No que tem até hoje a maior importância filosófica, o Sofista mostra que há uma relação entre o Ser e o Não-Ser, uma relação que se dá pelo movimento em torno da permanência, ou ainda da manifestação do Múltiplo a partir da Unidade. Ainda não se alcança, ontologicamente, a precisão da Mônada, isto é, da Substância Simples. Mas algum caminho nesta direção já era certamente trilhado.

Já no que tem de mais enganoso, o Sofista propõe uma excelência filosófica muito mais ideal do que real, partindo da sólida posição de Humildade de Sócrates para os tenebrosos sonhos da Razão humana. Bastaria verificar que o bom idealismo só poderia ser transcendental, isto é, dirigido a Deus, para colocar a boa intenção dos filósofos acima do engano dos sofistas não por uma virtude humana, mas divina, e portanto não como uma realidade, mas como uma esperança. Os filósofos, assim, estariam sempre acima dos sofistas não por serem melhores, mas por desejarem o que é melhor: por amarem a Sabedoria que não lhes pertence, ao invés de presumirem possuí-la através da sua imagem. Mas esta oportunidade foi perdida.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,1

O Descortinar da Alta Magia, livro por Daniel MASTRAL

Finalmente, encerrada a leitura do segundo volume da série Filho do Fogo, o que posso concluir é que Mastral, tendo ele dado o testemunho de uma história real, ou de uma ficção, ou ainda de uma mistura das duas coisas, relatou de modo fraco o tamanho da Salvação e do Amor de Deus.

Ainda que tenha se impressionado com a maior força de Deus diante de todos os demônios do inferno, ao descobrir o Criador por esse exame de forças, ainda dá um testemunho débil da qualidade da excelência divina. Entendemos que o impacto que experimentou, da sua conversão particular, lhe tenha sido imenso, e importante para si próprio, por óbvio, mas isto porque era a sua história. Para cada um de nós a nossa trajetória particular parece ser mais importante do que é de fato, considerando todas as coisas.

O autor nos leva, ao fim do seu relato neste livro, a uma confirmação das verdades divinas em diversas paráfrases bíblicas, num estilo que me é familiar porque eu mesmo já o empreguei antes. Quando nos desenganamos das mentiras do mundo –e no meu caso estas não vieram por participação em seita satânica, como ele, mas por uma crença ilusória nas filosofias e sabedorias dos homens–, a primeira coisa que podemos fazer é isto mesmo: simplesmente reiterar as palavras do testemunho de Salvação que descobrimos na Bíblia. Isto é normal.

Mas o que importa é o que vem depois, isto é, a prática da nossa vida, assumindo a responsabilidade da nossa liberdade que nunca é alienada. E aqui é que encontramos alguns problemas na obra de Mastral.

Ele dá o testemunho contrário a um lado da Dialética do Ouroboros, mas não percebe que favorece o outro lado, isto é, o da Tradição Primordial. Faz isso, por exemplo, quando fala da necessidade do Sangue de Jesus, o qual ainda não é encarado como símbolo da Graça pura, mas como meio de pagamento de uma dívida, legitimando a idéia de Hebreus 9, etc. Também dá, embora aí já de maneira mais fraca, o testemunho da ameaça do Inferno.

Por fim, reclama contra a falta de União das igrejas evangélicas, como se esta tivesse algum dia sido uma preocupação de Deus. O segundo mandamento manda que nos amemos uns aos outros, sem acepção de pessoas, indiscriminadamente. E a liberdade humana vai levar, até o fim do mundo, a uma separação nos entendimentos das coisas divinas, porque ainda que a Verdade seja uma só, ela não é dominada por nenhuma criatura, e cada pessoa conhece aquilo que lhe compete do que Deus desejar revelar.

Em suma, embora o testemunho de Mastral possa impressionar desde o ponto de vista de onde ele veio, isto é, do próprio esgoto do Sistema da Besta, de forma geral é um testemunho espiritualmente fraco e até, na minha visão, contraproducente.

O Deus de Mastral é grande o suficiente para lhe salvar, e isto lhe bastou, mas ainda é pequeno demais para sublimar as categorias pequenas da religião cristã. O poder do Amor divino é muito, muito superior ao que Mastral declara. E a ênfase na perspectiva negativa acabou por viciar a lógica do testemunho, como se existisse de fato uma guerra, um risco, um perigo. Só há mal para quem escolher o mal, e isto não será feito levianamente, porque a Obra de Deus é plenamente justa. Um tanto da ansiedade e do desamparo deste tipo de testemunho provém, ainda, da confusão entre vida espiritual e vida religiosa. E isso deriva, por sua vez, do que parece ter sido uma vida muito dedicada às coisas menos importantes. Parece que Mastral simplesmente passou muito tempo buscando o que não interessava. Mesmo quando se vê liberto das maiores mentiras e enganos, sua forma mentis continua atinando com um senso de proporções e grandezas equivocado, especialmente no entendimento do Amor divino.

Talvez seria pedir demais que Mastral testemunhasse a esse respeito, da verdadeira liberdade cristã contra toda a Dialética do Ouroboros, mas tendo sido ele inteligente e capaz, creio que poderia tê-lo feito se quisesse.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo5
Nota espiritual4,1

“É preciso que o nosso domínio seja completo e inexpugnável.”

Citações L0030-012 e 013, em O Descortinar da Alta Magia, de Daniel MASTRAL.

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Aqui encontramos finalmente um indício sólido, depois de dois volumes e meio de trabalho literário-autobiográfico, da qualidade espiritual da obra de Mastral, já que ele tende a cair ou ao menos a levar ao engano do espírito da Ingenuidade.

Isto se dá por duas razões.

A primeira é mais universal e óbvia: este mundo já jaz no Maligno. Lúcifer não precisa fazer mais nada para que seu domínio seja “completo e inexpugnável”, ele já o fez quando fez pacto com os primeiros pais de toda a humanidade, Adão e Eva, ou ao menos com todos os nossos ascendentes que ratificaram a decisão mitológica em atos que implicam a mesma imputabilidade moral.

Há muitas evidências disso, mas entre as mais claras está a declaração do próprio Ouroboros diante de Jesus na última tentação do deserto: “porque tudo isto me pertence, e eu dou a quem eu quiser“. Isto poderia ser uma mentira, mas daí toda a tentação careceria de credibilidade, de modo que a mentira não estava nesse domínio, mas no pedido de louvor no lugar de Deus, onde justamente Jesus se recusou a fazer aquilo que Adão e Eva fizeram.

Embora a evolução do processo histórico nos leve necessariamente para mais perto do governo do Anticristo, como cúmulo do domínio de Lúcifer sobre este mundo, isto apenas implica numa manifestação mais clara de uma realidade que já é atual. Jesus mesmo disse que seu Reino não é deste mundo. As esferas de influência e domínio estão bem claras. E sendo assim, o testemunho desses ativistas e militantes satanistas só faz sentido no muito pequeno e mesquinho contexto das suas breves vidas de vaidade e vazio.

A segunda razão, e esta sim mais substancial para o discernimento da Ingenuidade, é a alegação de que o Mal combate especificamente a atuação e o crescimento das igrejas chamadas Evangélicas. Esta caracterização é parte do mecanismo da Dialética do Ouroboros: toda vez que uma religião é preterida ou preferida como caminho de salvação, isto só funciona para dividir e causar discórdia.

O que salva é o Amor de Deus, e o testemunho que revela a Salvação é o do Evangelho.

O Evangelho é a Boa Notícia de que Deus nos ama como um Pai.

Essa notícia é propriedade do Espírito Santo que pode inspirar a quem quiser, do jeito que quiser, sem precisar prestar contas para quaisquer criaturas, nem mesmo aos anjos, quanto menos aos seres humanos, com suas confusas religiões e culturas, etc.

Lúcifer e sua gangue não tem nenhum poder para impedir que o Espírito Santo faça o que quiser. O poder é exercido sobre as vítimas que são tentadas a evitar a Presença de Deus, e a cair nas várias mentiras da Idolatria. Ainda assim, enquanto existir prerrogativas legais da parte dos prejudicados, nada pode impedir a ação divina.

É, portanto, apenas indiretamente que Deus precisa fazer algum uso das organizações das religiões cristãs sobre a Terra, e ainda assim Ele as usa como bem entender, sem precisar dar satisfações aos espíritos infernais. Pelos meios de que dispõe, e que são incontáveis e que estão fora do controle alheio, Deus pode converter tanto um Católico quanto um Evangélico, quanto um Ortodoxo ou um Ateu, etc.

Pior, há o crescimento do fenômeno dos cristãos que seguem a Jesus e acreditam no Evangelho sem a participação em nenhum culto religioso institucional. A Obra de Deus não se interrompe, como se vê.

Assim, a diminuição do número de fiéis religiosos, ou mesmo de fiéis declarados por controles estatísticos sob qualquer denominação, não significa nada realmente, ainda mais em face da descarada e óbvia corrupção das Religiões que leva massas de pessoas a omitir ou negligenciar qualquer forma social de religião, embora pessoalmente possa viver com proximidade indeterminada ao Espírito Santo.

O máximo que o testemunho citado produz é a angústia de um sentimento de urgência que pode levar uma pessoa ingênua a endossar soluções religiosas quaisquer, como se Deus estivesse precisando de uma ajudinha.

Resta, então, a questão: por que Mastral quer nos colocar dentro da “salvação” da Igreja Evangélica?

“A doutrina passou a ser sutilmente modificada.”

Citação L0030-011, em O Descortinar da Alta Magia, por Daniel MASTRAL:

É Jesus Cristo em pessoa, e ninguém menos do que ele mesmo, quem afirma que não se deve imitar os ignorantes que vivem da repetição de orações, achando que com isso vão ganhar o favor divino, e é ele mesmo quem ensina que o Pai já sabe do que nós necessitamos, de modo que nos basta viver na Presença Dele, reconciliados com o seu Espírito Santo, amando-o acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos, e que confiemos que Ele já conhece e providencia o nosso bem, para muito além do que nós mesmos poderíamos jamais pedir em nosso favor, dadas as nossas limitações, ignorância, etc.

Jesus ensina a orar assim: “seja feita a vossa vontade“.

Por outro lado, aprendemos que a culpa do primeiro casal, no Pecado Original, foi justamente o da sua presunção de conhecimento direto do bem e do mal. Ora, como a nossa oração poderia ser boa, se ela partisse a qualquer momento deste mesmo espírito de Presunção?

Assim, o testemunho da modificação da doutrina é mentiroso. Não apenas a dispensa da oração exterior (já que a vida de oração é a vida na Presença) não é uma doutrina nova, como não é nem mesmo uma doutrina religiosa, mas uma doutrina cristã ensinada diretamente por Jesus.

Dizer que Deus é Pai e que Ele já conhece todas as nossas necessidades é confiar em Jesus e seguir o seu modelo, em suma, é a própria vida de cristão.

“Essas são as atitudes de Deus, o Justo, o Amoroso!”

Vejamos mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

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Esta passagem mostra uma grande ignorância das coisas divinas, como é de costume na cultura geral, e mesmo entre as mentiras dos vários cultos iniciáticos.

São dois os grandes erros nesse grosseiro juízo a respeito da conduta divina:

Primeiro erro: o procedimento defendido pelo autor é obviamente injusto, já que constitui Justiça da parte daquele que é Juiz não fazer acepção de pessoas, isto é, não dar preferência para quem é próximo em detrimento do distante, para o conhecido em prejuízo do desconhecido, etc. Assim, se os filhos de Aarão pecaram e isso lhes foi imputado como erro, a sua filiação não lhes poderia salvar sem que isso maculasse a Justiça divina.

Nem se fala, aqui, da dúvida a respeito de qual foi a realidade por trás dos fatos do caso em questão, já que sempre convém verificar a interferência do Ouroboros, que tipicamente age para prejudicar a integridade do testemunho da Palavra. Não é necessário nem mesmo entrar nesse tipo de mérito, para verificar a ignorância do argumento, a respeito do mais superficial e óbvio aspecto do que um proceder justo da parte de qualquer Juiz. Basicamente o autor da citação reclama que Deus não é injusto como se poderia desejar que o fosse, mundanamente, e ainda chama isso de injustiça.

Segundo erro: a suposição, por premissa oculta, de que qualquer relacionamento com Deus implique em qualquer tipo de garantia, mostra uma profunda ignorância da realidade da vida espiritual, e do que significa viver na Presença de Deus. A malícia típica dos seguidores do Usurpador é tosca e grosseira demais para compreender a força da confiança no Amor divino, e de como que qualquer idéia de garantia só significaria uma diminuição nessa alegria da entrega confiante no Bem de Deus. Novamente, o autor reclama por algo que seria indigno até dos fiéis que amam a Deus, nem para falar da ofensa contra o próprio Deus.

E aqui, novamente, nem precisamos falar de segundas implicações na alegação da qualidade de Aarão como “Sumo Sacerdote”. Como já vimos, na nossa leitura do Êxodo, este ofício religioso foi provavelmente instituído no contexto do Culto do Ouroboros, e não na adoração livre ao Deus verdadeiro, como Moisés fazia. Mas não é preciso sequer levantar este tema. A fraqueza do argumento já o destrói por dentro, sem ser necessária esta análise secundária.

“Se o próprio Deus criou o Mal, é porque ele mesmo tinha a maldade dentro dele.”

Continuemos o estudo, com a leitura e comentário de mais uma citação de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

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Aqui já estamos no pleno domínio da Abominação que confunde as coisas de Deus com as coisas dos homens e dos demônios. Façamos os esclarecimentos necessários, aproveitando a ocasião para destacar a distinção da santidade de Deus perante a miséria das criaturas, especialmente a das que são desobedientes.

Para começar, Deus não justifica os meios pelos fins, em nenhum momento, e esta crença é indigna do Criador. O que existe, da parte da criatura, é a confusão entre a sua própria ignorância da excelência da Obra divina, mesmo na escolha dos meios, e uma suposta arbitrariedade que violasse a integridade da Justiça divina.

Em segundo lugar, a morte não pode ser um “mal necessário”, desde que está escrito, por exemplo, que “Eu não tenho prazer na morte de quem quer que seja“, e também que “o salário do pecado é a morte“, etc. A aceitação da morte como parte de uma natureza compõe a cultura de normalização da mistura de luz e trevas, exatamente o oposto do Discernimento e da Obra de Separação. Foram as decisões dos nossos antepassados, e as da nossa raça até hoje, que causaram e continuam causando a morte. Apenas por um aspecto isto já fica claro: quem não reproduz o Pecado Original, isto é, o Pacto Ouroboros, não contribui para a perpetuação da morte.

Em terceiro lugar, Bem e Mal não são relativos, os nossos conhecimentos do Bem e do Mal é que são relativos à limitação da nossa forma substancial, isto é, não podemos conhecer a verdade plena como só Deus pode. Por isso às vezes as coisas parecem ser de um modo agora, ou de outro modo noutro momento, ou para uma pessoa e então para a outra, etc.

Em quarto lugar, o Mal não foi criado por Deus, a Liberdade é que foi criada e, para que ela fosse real, a possibilidade do Mal sempre teve de ser igualmente real, como mera potência, para a efetividade da liberdade dos contingentes.

Em quinto lugar, todo o resto do argumento, baseado num raciocínio de causalidade eficiente, já é uma redução das qualidades formais e teleológicas que constituem o valor espiritual da liberdade humana, e sendo assim é completamente desprezível. Pode-se afirmar que os espíritos infernais agem de acordo com as leis dessa causalidade, mas isso somente depois da condicional legalidade das suas petições junto ao Altíssimo, que por sua vez requerem a confirmação dos mais importantes subsídios espirituais, especialmente o assentimento da liberdade humana. É o arbítrio humano que está em disputa, e não o controle dos instrumentos da ação posterior à permissão divina.

Como se vê, a extensão da correção de uma compacta coleção de mentiras precisa ter o dobro ou o triplo do volume que ela mesma ocupou. Mas tudo isso será devidamente vingado, mais dia, menos dia.

“Se é o homem quem erra, não deve ser ele mesmo a pagar pelos seus atos?”

Vejamos mais uma passagem do livro O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

O sacrifício de sangue é usado para a abertura dos portais interdimensionais porque serve de subsídio legal, de acordo com as leis espirituais.

Isso não tem nada a ver com magia, ou Poder, mas com o sentido espiritual da Liberdade. É a maldade da adesão a um pacto em troca de Poder, em traição ao Amor, que concede legalidade à efetividade da influência dos espíritos infernais por sobre a realidade humana. Ou seja, o Poder em si (ou energia, como se fala com tanta obsessão), é apenas um móbile, uma causa eficiente, movido pela indeterminação singular de uma arbitrariedade livre. Não devemos confundir os meios empregados com as premissas do movimento: o sentido dos rituais sangrentos é a realização da liberdade humana de trair o Amor. Esta é a decisão que legaliza os pactos infernais, e todas as consequências decorrentes.

Para completar a confusão, acrescenta-se sempre a grande mentira de que o Deus verdadeiro tenha pedido sangue Ele mesmo, a favor da consumação da sua Aliança com o homem.

Já vimos antes o erro desta perspectiva nas nossas leituras do Gênesis, bem como do Êxodo. Quem pede sangue em troca de falsas alianças é o Usurpador, o Ouroboros.

Mas para que fique claro: a única Aliança efetiva de Deus com o homem se dá por meio da comunhão entre o Pai e o Filho, isto é, através de Jesus Cristo, o único Sacerdote a interceder com plena Justiça e Direito em nome de todos os filhos dos homens.

Todas as fracassadas tentativas anteriores de Aliança serviram única e exclusivamente para apontar para o sucesso de Jesus Cristo. Pela Lei veio apenas o conhecimento do pecado, mas foi pela Graça do Evangelho que descobrimos a Salvação, a única, a verdadeira.

A quem recusa a simplicidade da Salvação oferecida por Deus, resta apenas a confusão das muitas mentiras que se difundem, nesta tola e breve tentativa de negar a supremacia de Jesus, e o sucesso da sua Obra.

“Se o homem é Sua imagem –e Deus assim o fez– como fazer morrer o desejo?”

Vejamos mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

A correção desse acúmulo de erros é uma tarefa cansativa que me aborrece. Mas vamos lá.

Para começar, bem lido o Capítulo 3 do Gênesis, entendemos que o homem foi feito para ser feito filho de Deus, à sua imagem e semelhança, mas rejeitou a sua filiação ao recusar a vida pelo Amor divino (a Árvore da Vida) e optar pelo Pecado Original (a Árvore da Gnose). É nisto que consiste, realmente, a “semente de Lúcifer”: a decisão humana livre e totalmente imputável de se rebelar contra o Amor divino, imitando a rebelião dos anjos caídos. Essa é a primeira correção necessária: não foi Deus quem rejeitou seus filhos, mas foram eles que o rejeitaram.

Daí em diante, o homem, movido por seu Pacto com Lúcifer (o Pacto Ouroboros), perpetuou a sua rebelião na Terra, mediante o Pecado Original, produzindo a sua própria filiação gerada como Obras da Carne, uma filiação submetida à maldição divina de Gen 3,22 que perdura enquanto perdurar a desobediência, ou seja, a prática do Pecado Original.

Essa é a ordem correta dos fatos.

Os seres humanos não “desejaram ser livres”, mas sim rebeldes e soberbos, na presunção de viver sem o Amor divino. Não quiseram sair “debaixo do jugo”, mas da Graça, exatamente como os Avari.

Mas a Graça extraordinária de Deus, movida por sua infinita Misericórdia, produziu o recurso sempre suficiente do Perdão e da filiação adotiva, em favor daqueles que foram gerados à partir do pecado das Obras da Carne, bastando tão somente que quaisquer destes descendentes do pecado rejeitem a rebelião e decidam pela aceitação do Amor divino. Essa Graça, que sempre operou, manifestou-se de forma eminente e definitiva na Revelação do Filho de Deus, Jesus Cristo, para a libertação de todos que desejarem a Salvação.

Com relação a essa suposição de que “o que o Bode representa”, isto é, o espírito de rebelião e desobediência, “faz parte do mais íntimo do ser humano”, isto é apenas mais uma mentira, entre tantas.

O que faz parte da intimidade humana é a Liberdade de escolha, especialmente a de confiar ou desconfiar do Amor divino.

Quanto ao suposto problema de “como fazer morrer o desejo”, isto não faz sentido nenhum. Deus não quer matar nenhum desejo humano, mas quer que aprendamos a dirigir todos os nossos desejos a Ele, que é o único que pode desfazer a confusão e nos purificar dos enganos a que fomos submetidos pelo nascimento nesta condição decaída e amaldiçoada. Deus é o guardião dos nossos desejos: repousamos Nele e dirigimos a Ele todas as nossas esperanças. Não é preciso manter o desejo “aprisionado”. Ao contrário: tentando ser felizes por nós mesmos, somos prisioneiros e escravos do pecado, isto é, do engano de procurar a felicidade sem Deus. Já ao dirigir todos os nossos desejos à Deus, estamos livre da desgraçada ilusão de crer que produziremos a nossa própria felicidade.

O testemunho da rebelião apenas reproduz, para maior vergonha daqueles que se submetem a esse espírito, a grande confusão, ignorância e estupidez que resulta desse estado.

“Deus impôs regras demais. Impediu o desabrochar da Sua Criação.”

Vejamos mais uma passagem do livro O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

Isto não passa de mais uma mentira, e bem esdrúxula, por sinal.

Como que Deus poderia ter colocado alguma regra que impedisse o homem de fazer o que quisesse, se a premissa mesma do satanismo é a de que não só se pode, mas que se deve desobedecer a Deus?

Evidentemente, sendo Deus quem Ele É, Absoluto, se quisesse determinar qualquer regra inviolável (como de fato determinou várias), esta não poderia ser desobedecida.

Assim, a possibilidade da desobediência, que é a escolha dos bodes, requer que uma dessas duas premissas seja válida: ou o Deus Criador de todas as coisas não é verdadeiro (o Único), e portanto não é capaz de determinar uma regra inviolável, ou o que se chama de “regra” nada mais é do que uma opção boa em face de outras piores, a qual é oferecida para o exercício da liberdade humana.

A limitação da condição humana só pode ser bem compreendida espiritualmente se aceitarmos, em primeiro lugar, que metafisicamente é impossível que exista qualquer ser criado que não seja definido pelos limites da sua forma substancial de criatura, e em segundo lugar, que a contingência de uma limitação não necessária metafisicamente (que é a condição de Cruz, ou de realização da Razão Singular de Mistura Mínima) é conveniente para o exercício da liberdade de aceitar o Amor divino antes da Coruscância (vida eterna paradisíaca).

A não aceitação da limitação é, portanto, sempre uma atitude de rebelião: ou uma rebelião contra a estrutura da realidade, ou a rebelião contra a Providência divina que determina o melhor quadro circunstancial para a realização da liberdade humana com vistas à bem-aventurança.

Deus não só não limita a nossa felicidade, como faz exatamente o contrário: produz toda a realidade necessária para que ela ocorra.

“Ele faz, mas depois Ele mesmo destrói.”

Mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, volume 2 da série Filho do Fogo de Daniel Mastral:

Como esses falsários podem se colocar como sábios, se ignoram que o conteúdo das suas proposições já está integralmente contido como possibilidade espiritual dentro da Revelação divina? Somente, é claro, contando com a ingenuidade humana, e com a ignorância generalizada das coisas de Deus.

Diversos livros bíblicos declaram que o erro na criação humana provém do desvio da liberdade que podia aceitar ou rejeitar o Amor divino.

Quando Deus se vê “equivocado” ou “arrependido”, isto é sempre declarado apenas como um caráter relacional do Criador com a sua criatura, mostrando uma reação de frustração ou decepção para que o ser humano saiba que o seu Deus não é indiferente à sua indecisão, ainda que sempre tenha sabido qual ela seria. A liberdade humana, ainda que totalmente prevista pelo conhecimento divino dos futuros contingentes, não deixa de ser real na própria dimensão da sua manifestação.

Esse testemunho satanista quer excluir da equação justamente o fator mais determinante da situação de fracasso espiritual: a Vontade livre para aceitar ou rejeitar o Amor divino.

Por outro lado, e muito convenientemente, em associação a esta dispensa da responsabilidade moral derivada da Vontade livre, é criada uma mitologia fatalista na qual Deus já teria abandonado o homem como uma criação defeituosa, de modo que nada restasse ao ser humano senão tirar as consequências desse destino já determinado e inalterável.

Isso é uma grande mentira.

Essa mentira é alimentada pelo espírito demoníaco, já apartado da Graça divina, que inveja e odeia a nossa liberdade de escolher o Amor do Pai, porque estes espíritos já decidiram para sempre rejeitar o mesmo. O fatalismo do qual querem nos convencer é derivado da fatalidade de que eles já se fecharam eternamente na sua rebelião, e a tentativa de associar a liberdade humana a essa rebeldia demoníaca é apenas um gesto desesperado de quem só tem como consolação, na sua miséria espiritual, a esperança de fazer outras liberdades lhes acompanharem no mesmo erro.

Sim, Ele faz, mas depois Ele mesmo destrói aquilo que fez, quando sua criatura rejeita a Graça de seu Amor e requer, assim, a correção da sua miséria pela misericórdia da sua extinção.