Deus não pode existir: toda proposição existencial é sintética

O conceito de Deus exige a sua necessidade, como objeto do entendimento da Razão (juízo analítico), de tal modo que a predicação de existência ao Ser divino sempre contraria a pureza daquela necessidade, já que essa qualidade só pode ser inferida ao contingente como intuição sensível (juízo sintético).

Curiosamente, no próprio Tetragrammaton (já analisado aqui antes) a expressão que temos traduzida ao nosso idioma é a de Ser em contraposição ao Existir, o primeiro termo cabível a uma substância transcendente, e o segundo somente aos imanentes.

Para deixarmos claro, o existir predica-se de tudo aquilo que pode vir ao ser e que também possa partir dele, ou seja, o contingente assinalado pela quantidade, ou o reflexo da Unidade na Multiplicidade manifestada enquanto fenômeno. Quando falamos de seres que possam ser compostos pela união de suas partes, e igualmente decompostos pela dissolução das mesmas, falamos de um ser que vem a existir num processo temporal, e que deixa de ser também por um devir. Isso vale para qualquer ente tido como composto, inclusive para os vivos: o processo natural de geração e corrupção nada mais é do que a produção da existência na forma de vida de um composto cujo princípio de união é o mesmo que determina a possibilidade da sua dissolução, ou morte, pela perda das suas propriedades unificantes.

Quando falamos de Deus, só podemos falar da Substância Simples, a Mônada que não tem partes e que portanto jamais poderia vir a existência por composição, ou deixar de existir por decomposição.

No caso da Mônada Incriada, seu Ser é Absoluto, portanto único na sua total transcendência (incomparável pela Razão).

No caso da Mônada Criada, seu Ser é contingente ao arbítrio do Criador, mas não ao processo de composição por partes, pois também é uma Substância Simples: seu ser é determinado pelo ato de criação, bem como a sua extinção é determinada por um ato de aniquilação.

Toda vez que se discute, portanto, o tema da “existência” de Deus, está-se tentando reduzir a Substância Simples a um grau de inferioridade que contradiz a pureza do conceito do Ser divino.

Deus não pode existir, Ele só pode Ser.

A transcendência da liberdade moral aos fundamentos naturais em Kant

Esse poder racional de acomodar as condições empíricas dentro de uma consideração que as transcendem é a base do fenômeno moral humano como ser que realiza a Metáxis, o homo pontifex: um representante de Deus no seio da natureza.

O ser humano que se vê como parte do cosmos, ainda que privilegiadamente no seu topo, não pode compreender a natureza da sua liberdade moral, pois toma como origem constitutiva da sua substância o que é apenas o cenário da realização do seu arbítrio. Todo condicionamento empírico, natural, causal, fenomênico, serve apenas como matéria-prima para a realização espiritual do ser humano, o qual só pode reconhecer a verdadeira origem da sua substância num Ser que transcende toda a série dos contingentes.

Assim, com Kant aprendemos como o jogo gnóstico dos prisioneiros da matéria não passa de um TEATRO. Isto é: ao invés de assumir a verdadeira natureza humana e, com ela, a responsabilidade da vida na Presença, o ser humano médio, decaído e amaldiçoado, prefere se ver como abandonado por Deus e finge apenas reagir a uma condição, como se ela não tivesse nenhuma relação com a sua forma de ser. Sua mentira pode chegar, finalmente, se for longe o bastante, ao cume quando ele passa, da idolatria da natureza à idolatria de si mesmo, do panteísmo naturalista ao humanismo antropocêntrico.

Quão pouco custava a liberdade, o mero preço de uma confissão, mas esse ser teimoso quer experimentar a sua própria desobediência até o fim. Um direito que não lhe pode ser tirado, mas que também, e com justiça, custará tudo o que tiver que custar.

Os limites da Razão Pura como condições de operação da liberdade plena, em Kant

O uso transcendental da Razão serve para a investigação da possibilidade e da forma do Ser enquanto Substância Simples, ou seja da Mônada em si e de suas propriedades.

A Unidade em si, como singularidade indeterminada, é inapreensível (individuum est ineffabile).

O conhecimento é produto, ou da intuição sensível de uma representação do Ser –o que diríamos que é a Percepção que a Mônada tem de um aspecto de sua essência, a atualização do Múltiplo como aspecto da Unidade,– ou do entendimento reflexivo de uma representação do Ser enquanto idéia, forma ou conceito, o que chamamos de Apercepção que a Mônada tem de sua própria Percepção.

Isto quer dizer que quando a Razão investiga a Mônada em si, ela busca o que transcende o próprio conhecimento, que só pode ser intuição ou entendimento de um aspecto da Substância Simples, ou um Múltiplo derivado da Unidade.

Mas como ela pode fazer isso, ou seja, investigar o que é incognoscível tanto como objeto de intuição, como de entendimento?

Aí é que entra o valor da Crítica: a Razão só pode investigar as condições gerais de possibilidade de ser da Substância que transcende todo tipo de conhecimento contando com a premissa de que, por ela ter dado a forma dos conhecimentos que derivam de sua essência, ela deve ter na sua própria forma as condições que sejam compatíveis com o que dela reconhecemos por derivação.

Isto só pode se dar através de algum tipo de Idealismo restrito pela Crítica.

A restrição é necessária, caso contrário a Razão produzirá qualquer imagem da verdade que lhe convenha considerando as suas necessidades práticas, não podendo discernir, nessa sua arbitrariedade irrestrita, entre o que é mais ou menos conveniente pela própria integridade da Razão. Em suma: se a Substância simples não pode ser conhecida como se conhecem as realidades das intuições ou dos objetos puros do entendimento, ela só pode ser idealizada, mas se for idealizada sem limites, não poderá produzir nenhuma distinção qualitativa entre um ideal e outro, o que leva à prática do repouso em dogmatismos, a disputa de força entre ideais concorrentes sem o uso de nenhuma faculdade do juízo.

A Substância Simples transcende todo objeto de conhecimento da intuição ou do entendimento, mas não perde a propriedade de ser reconhecida por analogia a todo conhecimento possível. Embora a Unidade não possa ser apreendida psiquicamente (com o que poderíamos compará-la, senão com ela mesma?), ela é analogicamente reconhecida por analogia como fundamento de toda Multiplicidade possível. O que quer dizer que sempre que conhecemos algo, por intuição ou entendimento, conhecemos por analogia a Substância Simples através de um reflexo que só pode derivar dela.

A analogia pura guia, assim, o Idealismo Transcendental para o reconhecimento das propriedades da Mônada, embora não lhe dê nenhum conteúdo particular que requereria justamente o conhecimento de alguma intuição ou entendimento. A forma da Substância Simples é compatível com qualquer espécie de conteúdo, indiferenciadamente.

Reconhecemos as potências de Percepção e de Apetição, que são as operações de qualquer Intelecto e Vontade, respectivamente, mas de modo indiferenciado, sem conteúdo determinado, já que a esseidade da Mônada é a singularidade indeterminada que não restringe a operação de suas potências de nenhum modo particular.

Mas a partir daí temos, por essa restrição da Crítica da Razão, os elementos básicos que nos permitem condicionar a própria operação da liberdade humana: seja qual for a resposta da investigação do Idealismo Transcendental, ela terá a forma indeterminada e continente das propriedades da Substância Simples, com o conteúdo indiferenciado arbitrado pela liberdade humana. Nossa liberdade é condicionada pela forma da Mônada: tudo o que interessa é a busca do ideal que corresponda melhor às potências do Intelecto e da Vontade.

Mas qual é o melhor objeto do arbítrio, o que melhor corresponde à universalidade não só da condição humana, mas de qualquer ser contingente que possua a sua característica intelectual e volitiva, senão o Sumo Bem que responde perfeitamente e absolutamente a qualquer interesse prático possível?

Daí é que se pode usar, se assim se quiser proceder, a Crítica da Razão como recurso determinante dos limites da própria Razão para que a liberdade de confiança no Sumo Bem como causa formal e final de todo ser possível, o que já chamei de Teleologia Metaracional, que é uma premissa da Monadofilia.

A maneira de operar essa liberdade é a de restringi-la a um idealismo transcendental que se ponha apenas a questão de qual é o maior bem possível dadas como propriedades da Substância Simples somente o Intelecto e a Vontade sem diferenciação de objetos particulares.

Em outros termos: a busca do idealismo transcendental é a do maior bem possível para a Mônada que Percebe e Apetece, no uso de uma liberdade singular e indeterminada, para a produção de seu conteúdo, sem o prejuízo de nenhuma liberdade que tenha a mesma dignidade.

Desta busca derivamos a perfeição máxima como Coruscância, na forma da infalibilidade da Comunhão plena com o Espírito Santo, a qual requer, para a integridade da perfeição, a necessidade de uma experiência menos do que perfeita para a realização da liberdade do contingente (Eleuteriodiceia na justiça da mistura, e a RSMM na operação da obra divina de separação, ou santificação).

Entende-se assim, filosoficamente, os elementos da soteriologia cristã, quais sejam: os da Cruz (RSMM), Morte (fim da Mistura), e Ressurreição (Coruscância).

Perceba-se que sem a Crítica da Razão, de fato a arbitrariedade humana fica totalmente solta para definir os objetos mais inconvenientes da nossa crença, como ocorre com os dogmatismos problemáticos dos teísmos e dos ateísmos, sem reconhecer os limites da sua especulação que informam a conveniência do Sumo Bem como melhor objeto da operação da nossa liberdade. Nenhuma especulação sem limites negará as propriedades da Mônada, nem a conveniência subentendida da suas operações, sob pena de cair em um irracionalismo, mas pela sua arbritrariedade sem freios pode perder-se em considerações que só distanciarão a consciência humana do seu verdadeiro objetivo, isso quando não postulam as ilusões e mentiras que fazem aumentar o peso da Cruz, ao invés de aliviar.

Esta crítica não precisa ser feita ao modo kantiano, porém. Qualquer boa filosofia deveria ser capaz de chegar a este resultado, possivelmente de modo mais direto e menos problemático do que o procedimento do filósofo prussiano.

Saber que não se sabe para a admissão do arbítrio das proposições dogmáticas, a partir de Kant

O empirista, enquanto cético, retoma a antiga labuta socrática de determinar limites à especulação da Razão natural, isto é, a este poder ilimitado que a psique tem de produzir a imagem da verdade.

Com isto a ciência, bem como a própria filosofia em geral, pode seguir seu custo sem ser incomodada com quaisquer obstruções do dogmatismo de qualquer parte, tanto da parte das credulidades quanto das incredulidades, para reconhecer o que é o seu domínio próprio de clareza.

Isto significa que uma boa Razão serve para assumir o arbítrio das proposições dogmáticas, e de criticar se essa espécie de proposição convém ou não à estrutura da possibilidade cognitiva do ser humano.

Como cristãos, somos obrigados a desconfiar da sabedoria dos homens (que é loucura para Deus), o que inicialmente nos poderia dar a idéia de rejeitar in limine todo tipo de especulação filosófica que não se baseasse em dados diretos da Revelação, inclusive a filosofia kantiana.

Mas um ser humano livre, consciente e responsável, não deveria antes indagar-se sobre se a investigação da Crítica da Razão não está justamente trabalhando a favor da denúncia da loucura da sabedoria dos homens, de modo a restringir o entendimento ao que é razoável? E não seria isto um estímulo ao dom de Humildade?

Pode ser que sim, mas também pode ser que não.

A resposta vai depender de como o limite da Crítica é usado pelo fiel que quer entender, com base na Graça divina, e com a finalidade de glorificar o Santo Nome, a condição da vida humana, principalmente a realidade de amar a Deus e ao próximo. Neste sentido a obra kantiana é indiferente: pode ser usada para este ou outro propósito, como uma ferramenta que pode ser usada para construir ou destruir, dependendo da intenção do seu usuário.

Kant contra o transhumanismo da alma humana como substância separada

Ou seja, o sujeito transcendental, como já explicado antes, não pode existir.

Ou existe o sujeito absoluto, Ato Puro, que é a Substância divina, ou existe o sujeito relativo, com as duas potências de Percepção e Apetição, movidas pela ação do Intelecto e da Vontade, que atualizam sempre um limite dentro do Ser divino que é o único objeto de qualquer intuição possível.

Isto quer dizer que as idéias de “união mística”, “visão beatífica”, etc. correspondem mais ao gnosticismo de uma falsa deificação que nega a forma substancial do ser humano enquanto ser limitado, do que ao ideal cristão de reencarnação e de vida paradisíaca conforme o que Deus revelou sem confusão já nos fatos da vida humana atual.

A felicidade do ser limitado está em reconhecer a Graça própria de realizar a sua Apetição dentro do seu limite, pois nada que transcendesse a razão de ser da sua limitação lhe faria jamais sentido.

Assim, ao invés de querer ser como Deus, uma idéia transhumanista que nega a forma criada pelo Altíssimo, o que sempre é uma mentira e, no fundo, um desejo de morte, a satisfação da nossa forma substancial está em querer viver com Deus, ou seja, não a idéia de uma união que significaria apenas dissolução, mas a idéia de comunhão que é a condição de realização, no ser limitado, da sua Apetição.

A imagem e semelhança divina na transcendência moral do homem, em Kant

A experiência natural da vida humana requer, desde que não se aceite limites artificiais que são impostos, não raramente, como uma reação amedrontada diante da própria liberdade, que se entenda todo princípio imediato de finalidade das disposições naturais como um limite transponível pela sugestão de transcendência contida na própria forma substancial do homem.

Ou seja, criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano possui no seu ser o sinal da transcendência possível que lhe obriga a enxergar todo o campo das disposições naturais como mero cenário da sua agência moral de ser livre e responsável, não diante da função imanente, mas diante de um Ser infinitamente transcendente.

Isto é o que nos permite renunciar a bens imediatos, e ao exercício de funções naturais imediatas, em face de bens sustentados por um ideal transcendente, de tal modo que as disposições naturais passam de ser o fundamento da normatividade (Lei Natural) para ser um cenário moralmente indiferente (mera função da liberdade), e até mesmo a chegar a ser uma fonte de oposição ao discernimento e proximidade com Deus (mundo decaído e amaldiçoado, natureza submetida à corrupção, etc.)

Aquele que no mínimo não problematiza a sua experiência moral num mundo, questionando a integridade das disposições naturais em face de um ideal mais simples e puro, não só não alcança a dignidade que se supõe como dever moral de um ser livre criado à imagem e semelhança de Deus, como possivelmente se restringe, por hábito, à idolatria naturalista da Multiplicidade contingente.

As três idéias finalísticas da Metafísica em Kant

Kant enxerga na finalidade da investigação da universalidade da condição humana a necessidade de reconhecer a Substância Simples, a Mônada, primeiro em Deus, e depois no homem, duplamente enquanto agente moral livre e responsável, e também enquanto usufrutuário de uma potencial imortalidade.

De fato, tudo que importa na Metafísica, que é a Filosofia em sentido mais estrito, é a indagação sobre esta realidade mais suprema e simples, que é a determinante de todo o resto. Ou seja, os entendimentos ontológicos, gnosiológicos, epistemológicos, etc., servem apenas para rastrear a integridade substancial do sujeito que experimenta essa realidade, e as categorias universais da sua experiência. Neste último particular, Kant foi bastante produtivo em seus esclarecimentos através da Crítica da Razão Pura.

Convém ressaltar que o filósofo prussiano assume o dever de transcender a natureza, o que não é pouco para uma mente preocupada em justificar todo conhecimento como baseado nos juízos sintéticos da intuição sensível, o que significa que há um objeto melhor para a investigação humana para além das ciências naturais. Esse reconhecimento não é pouca coisa.

Por fim, não devemos confundir a citada “Religião” como “o fim mais elevado da nossa existência” com a forma histórica, institucional e socialmente reconhecida de culto a Deus, até porque esta nunca poderia ser uma só, dada a variação que observamos até entre crenças e práticas dentro de uma mesma organização. Essa Religião só poderia ser totalmente universal e independente dessas restrições dogmáticas e históricas, portanto só poderia ser a Igreja Mística, o corpo dos crentes que se filiam espiritualmente, portanto é a Religião verdadeira, ou simplesmente a Vida Espiritual na Presença.

A teleologia metaracional do Sumo Bem como premissa da Monadofilia

Por que é tão improvável a aceitação, da parte de qualquer pessoa que pense com a forma mentis contemporânea, das idéias monadofílicas?

Isso ocorre porque o nosso mundo de hoje aprendeu a bitolar a sua inteligência em torno das causas material e eficiente, aquelas mais adequadas ao método de investigação e domínio da gnose moderna, de modo que a esseidade das coisas é proibida e relegada ao submundo dos esoterismos e das pseudociências. Quando falo de esseidade, refiro-me às grandes causas dos seres, a formal e final.

A questão sobre o de quê as coisas são feitas, ou sobre como elas são feitas, deriva de uma visão de mundo restrita à quantificação e mensuração, um vício derivado da ótica experimental, empirista e utilitária. Embora isso ajude a ampliar o domínio humano sobre a natureza, serve também para sequestrar o foco da alma humana nos aspectos mais periféricos do reino da Multiplicidade, perfazendo um caminho contrário ao da contemplação da Unidade, ou seja, fazendo o caminho contrário tanto ao do espírito de Moisés quanto ao da filosofia de Platão.

As questões proibidas perguntam sobre o que as coisas são, e sobre qual é a finalidade delas. Ambas as questões exigem o enquadro dos elementos do mundo num panorama maior, dentro de alguma perspectiva de transcendência, isto é, fora do costume do pleno domínio da razão humana. E isso parece insuportável demais às mentes que já se adaptaram aos seus jogos de poder.

Ou seja, tudo o que exigiria a virtude da Humildade parece defeituoso, uma projeção psíquica do defeito humano da Soberba. Porque é a obsessão pelo poder que torna intratáveis os objetos contemplativos da alma humana.

Vencido, porém, esse obstáculo, podemos alcançar grandes e preciosos entendimentos.

A causa formal aponta, na quididade das substâncias simples, ou Mônadas, as características de Percepção e Apetição. Esta última potência, por sua vez, aponta para a finalidade do ser. A causa final da substância simples é a satisfação da sua Apetição.

Desde que a Mônada possua Apetição, seu bem próprio é incontestável tanto quanto o próprio Sumo Bem como forma absoluta e originária de todos os seres. Você pode até questionar se Deus é real ou bom como uma figura de linguagem, isto é, como ato de mera lógica discursiva, mas não pode questionar se o Bem é bom, ou seja, se é desejável ou não, o que nos obriga a reconhecer que Deus é real e bom, porque Ele é esse Sumo Bem supremo que constitui a forma substancial de todos os seres, já que não há forma mais simples e transcendente do que a do Bem que é a essência da divindade e, ao mesmo tempo, a carência particular de todos os contingentes que os ligam à sua fonte criadora.

A amabilidade das substâncias é determinada pela forma do seu ser, independentemente da não atualização da sua potência, de modo que com justiça podemos questionar se a Apetição se satisfaz ou não dadas as várias restrições da nossa ignorância, mas jamais podemos questionar se é conveniente ou não a sua satisfação de forma absoluta.

Convém, finalmente, que a origem das substâncias possua a forma desse Sumo Bem que satisfaça eventualmente a causa final de todas elas.

Essa é a premissa da Monadofilia: uma teleologia metaracional que confessa um dever-ser ao mesmo tempo inquestionável na sua forma e contingente na sua concretude, pois é dependente de um Ser supremo cuja própria forma pode ser intuída e contemplada, mas nunca dominada pela razão ordinária. Ou seja: a Unidade e o seu Bem são objetos de amor e não de gnose. Nós não podemos dominar o bem divino e muito menos o nosso próprio, mas podemos confiar e confessar o desejo do bem, e isto é o que alinha mais perfeitamente a nossa liberdade à nossa forma de ser.

A concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência

Por que os que questionam a queda da natalidade de um ponto de vista naturalista ou agnóstico não concebem a hipótese de que a mudança no comportamento da espécie humana é uma decorrência natural do progresso moral concomitante à evolução natural da senciência?

Igualmente, por que não concebem que essa hipótese seria uma explicação satisfatória tanto para o Paradoxo de Fermi quanto também para qualquer cenário de desaparecimento de antigas civilizações terrestres que poderiam, supostamente, ter sido mais avançadas que a nossa no tempo presente?

Ocorre que se ignora a concomitância do progresso moral junto à evolução natural da senciência. Qual é, afinal, o efeito moral de um progresso material rápido e em massa numa civilização que alcançou a senciência?

Já concebemos, anteriormente, o atingimento de três níveis diferentes de civilizações sencientes:

1 – Fase de Sobrevivência

2 – Fase de Normalização

3 – Fase de Reflexão

Na Fase de Sobrevivência, uma espécie senciente possui a potência da consciência, mas ainda precisa usar toda a sua capacidade intelectual para garantir que atinja a sobrevivência como novo status quo, seja através de avanço da técnica, manejo de recursos, etc.

Na Fase de Normalização, uma espécie senciente já obteve o domínio dos meios de sobrevivência e possui finalmente uma consciência atual da sua condição, diante da qual passa a usar toda a sua capacidade intelectual para a normalização do status quo, seja através de ajustes no manejo dos recursos já dominados, seja na produção de uma cultura simbólica que justifique a sua condição (religião, filosofia, arte, etc.).

Na Fase de Reflexão, uma espécie senciente já alcançou o limite da normalização da sua condição e possui finalmente a reflexão da sua própria consciência, usando sua capacidade intelectual para o questionamento do status quo e a transcendência do mesmo, alcançando, por exemplo, a consciência da Mônada, do Idealismo Transcendental, da Metafilosofia, etc.

Quando uma espécie senciente atinge o nível civilizacional da Fase 3, ela naturalmente vai produzir gradativamente, entre seus indivíduos, de forma mais ou menos prática, a conveniência do Antinatalismo como consequência do questionamento da sua condição existencial.

Isto explica as atuais taxas de natalidade em decadência nas partes mais desenvolvidas do mundo, bem como explica as possibilidades tanto da extinção voluntária de civilizações terrestres antigas, bem como de eventuais civilizações extraterrestres.

A única maneira de ignorar ou mesmo de invalidar completamente esta hipótese seria através de uma resposta alternativa como resultado do progresso moral, o que esbarra necessariamente na vasta barreira da Antropodicéia: se o Paradoxo de Epicuro aboliu a validade da Teodicéia e Deus está injustificado, tanto mais ainda o ser humano também o estaria. O modo de superação desta barreira é a confiança numa fonte superior (transcendente) de moralidade, como algum tipo de panteísmo naturalista, mas isso teria então que ser defendido abertamente como crença teísta em contraste com as demais hipóteses de teísmo, justamente o que o pensamento ateísta e agnóstico evita fazer, porque então a sua crença poderia ser comparada como forma de teísmo com outras igualmente possíveis e talvez mais convenientes.

Metareflexividade: a pedra filosofal da Monadofilia?

Recentemente alguém observou, a partir de uma explicação que dei num vídeo publicado, que aquilo que se costuma atribuir ao mérito das virtudes humanas na verdade é dom de Deus. Eu falava particularmente de generosidade e magnanimidade, mas podia falar de qualquer outra qualidade.

A visão do conteúdo vida interior como dom puro da Graça divina nos permite entender o que é a vida na Presença sob um ponto de vista interessante. Porém, falar disso não é tão fácil, dependendo do quanto cada pessoa está envolvida com o espírito de idolatria, seja do objeto da sua percepção, ou seja da sua própria subjetividade. Somos inclinados à idolatria por uma natureza decaída e por uma criação de cativeiro. E entendemos a realidade sob a ótica da causalidade natural, um código embutido na realidade percebida exatamente para o exercício da nossa função de amar livremente, seja a criação ou o Criador.

Convém-nos entender esse tema com maior profundidade, usando o entendimento do que é a Mônada, e usando qualquer recurso que nos auxilie, como por exemplo o funcionamento do simbolismo do Sol e da Lua, entre outras idéias.

A Mônada possui essas potências já muito referidas, de Percepção e Apetição, às quais Leibniz mesmo acrescentou a potência da Apercepção (que é a Percepção da Percepção), e às quais eu acrescento agora a hipótese da Metareflexividade.

A Percepção é a visão que a Mônada tem do seu próprio reflexo, que também chamamos de Intelecto.

A Apetição é o desejo que a Mônada tem da próxima Percepção, que também chamamos de Vontade.

A Apercepção é a visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Consciência.

Já a Metareflexividade é a visão da visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Discernimento, ou consciência da Presença.

Iniciemos, como exemplo, uma analogia com a operação da nossa visão física.

A Percepção é como a visão que o olho tem do seu objeto.

A Apetição é como o desejo que o olho tem, por assim dizer, de ver o próximo objeto.

A Apercepção é como a visão que o olho tem de si mesmo, por exemplo vendo-se num espelho.

A Metareflexividade é como a visão que o olho tem de si mesmo e de seus objetos como aspectos da mesma substância, isto é, de que tanto a qualidade do objeto quanto a do olho são dados pelo mesmo ser, como um olho do olho, ou visão da visão.

Existe a qualidade daquilo que é visto, e a qualidade da visão em si mesma.

A qualidade do que é visto é a Nitidez da Percepção, ou na sua ausência, Ofuscação.

Já a qualidade do olho que vê é a Cristalinidade da Percepção, ou na sua ausência, Opacidade.

Com a Metareflexividade compreendemos que a qualidade das coisas percebidas são aspectos da luz divina refletidos pela nossa Percepção, tanto enquanto a qualidade do nosso perceber é dada pela luz divina que anima o nosso espírito (ou com o qual entramos em comunhão através do livre-arbítrio). Tanto Nitidez quanto Cristalinidade são dons divinos para o ato humano de Percepção: Deus dá o bem que percebemos, e dá o bem de perceber, ou ainda, Deus nos dá o que amamos e nos dá a capacidade de amar.

A consciência disto é um recurso tremendo, para o qual já usei o nome de Discernimento. Com essa noção entendemos que a nossa reação ao que percebemos, conduzida pelo costume da idolatria naturalista da causalidade, normalmente ignora a origem divina tanto da qualidade do percebido quanto do nosso ânimo de perceber. As coisas não são boas ou ruins independentemente da Providência como causa fundamental, e nem temos um bom ou mau ânimo por causa do nosso psiquismo, porque tudo é dom divino. Viver na Presença, com Discernimento, ou na Metareflexividade, é ter a consciência simples do Amor divino como causa do que é percebido e da própria Percepção.

No simbolismo do Sol e da Lua apreendemos esse esquema facilmente ao verificar que a virtude da Lua diante do Sol é a de uma total passividade, a capacidade de receber um dom externo, que é o poder solar. Por si mesma a Lua é Nova, pura potencialidade, e se nunca for iluminada pelo Sol, permanecerá na sua própria obscuridade indefinidamente. O que temos, por nós, é essa obscuridade da mônada que não atualiza nenhuma Percepção se não for a do reflexo da luz divina no seu próprio ser.

Vejamos na tabela abaixo alguns outros termos que podem ajudar a compreender a idéia da Metareflexividade:

PERCEPÇÃOAPERCEPÇÃOMETAREFLEXIVIDADE
Nitidez/Ofuscação Cristalinidade/OpacidadeDiscernimento
Qualidade do Objeto percebidoQualidade do Sujeito que vêQualidade da Origem da Relação Objeto-Sujeito
Clareza na visão do bem divino (objetos em Deus)Clareza na visão da visão do bem divino (sujeito em Deus)Clareza na visão da visão da visão do bem divino (tudo em Deus)
Consciência do ReflexoConsciência da consciênciaConsciência da consciência da consciência
Consciência em PotênciaConsciência em Ato PrimeiroConsciência em Ato Segundo
Satisfação primária da Apetição (qualidade do percebido)Satisfação secundária da Apetição (qualidade do percipiente)Satisfação plena da Apetição (qualidade da consciência de ser amado através da Percepção)
Ciência do SerCiência da PossibilidadeCiência da Presença
Consciência primária, “sensação inteligente” (Zubiri)FilosofiaMetafilosofia

Podemos traçar um exemplo através de uma cena ordinária: João vê seu gato dormindo e fica contente (Percepção, Potência, vida inteligente); João vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Apercepção, Ato Primeiro, vida psíquica); e João vê que vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Metareflexão, Ato Segundo, vida espiritual, ou vida na Presença).

Em termos do testemunho bíblico e evangélico a respeito da Metareflexividade, talvez não haja sinal mais evidente dessa realidade do arbítrio da consciência do que esta expressão de Jesus:

A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado; mas se teu olho estiver doente, todo teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!

Jesus está dizendo, entendendo nos nossos termos, que a verdade e a luz não são propriedades externas ao nosso ser, mas realidades da vida interior. O Reino de Deus está dentro de nós. Não adianta buscar isso fora. Não existe fora. O “fora” é uma ilusão da nossa idolatria. Só existe a Presença e a nossa Percepção dela. Qualquer realidade externa pode ser vista através de um olhar sadio ou doente. E cabe a nós cultivar ou não o dom da luz divina que nos permite ter um olhar luminoso. A Metareflexividade é a busca da consciência da vida na Presença, a busca de Deus no que é percebido e também no nosso ânimo de perceber, pois tudo é dom Dele.

O que é, afinal, a Metareflexividade? É a visão da visão, noesis noeseos, o encontro do Amor divino nas duas pontas da Percepção, naquilo que é visto e no espírito que vê o que é visto. Com isto entendemos finalmente que nós vivemos somente para amar e ser amados. A função da vida humana é a mais simples que se possa conceber, eficientemente e monadologicamente pela apreensão da natureza da substância simples, e finalisticamente e monadofilicamente pela apreensão do bem próprio da substância simples.

E esta pode ser a pedra filosofal da Monadofilia porque, se isto for atingido, o que mais pode ser necessário?

Não é esta reflexão a descoberta do Reino de Deus dentro de nós?

É exatamente isto.

Quem faz esta descoberta prescinde de qualquer outro recurso espiritual, pois tem a única coisa necessária, o verdadeiro Evangelho: a Boa Notícia de que Deus é Amor, e de que nisto consiste o Amor, em que não fomos nós que amamos, mas que foi Deus quem nos amou primeiro.