Propaganda terrorista para as massas: O Exorcista do Papa, por Julius Avery

Ao assistir o filme O Exorcista do Papa, de Julius Avery, podemos ficar um pouco confusos. Um cristão deveria pôr medo no demônio, e não o contrário.

Está dito: “não participareis do seu medo, nem vos aterrorizareis“, e “não se perturbe, nem se intimide o vosso coração“. Suponho que se eu que sou um zé ninguém conheço essa instrução e a tenho como verdadeira, muito mais o deveriam fazer os se dizentes especialistas do ramo, sacerdotes em geral do culto de Jesus Cristo, e entre eles especialmente os exorcistas que em tese atuam diretamente com a autoridade divina para o serviço de expulsar os espíritos impuros de suas vítimas.

Acontece que já faz algumas décadas que Hollywood decidiu incluir, entre suas muitas propagandas contra-iniciáticas, o terror do mal. Os papéis se invertem. Ao invés de os demônios temerem a autoridade cristã e sentirem eles mesmos o terror da sua Perdição atestada pela fé no Amor divino, os exorcistas é que saem atormentados e vitimados pelos seus confrontos.

Com este filme Hollywood mantém a sua tradição e continua propagandeando o terror do mal para as massas. O padre Gabriele Amorth (personagem que representa um verdadeiro exorcista com o mesmo nome, já falecido) começa sua jornada enfrentando inimigos dentro da própria Igreja, céticos descrentes do poder paranormal dos anjos caídos. Aí já começamos a entender a dinâmica do filme. A ingenuidade moderna, iluminista e cientificista, é contraposta ao suposto esclarecimento das realidades prodigiosas. Acontece que a solução, se não consegue ser pior que o problema, acaba não ajudando muito, pois valida aquele velho engano da supersticiosidade humana, que é o de tomar por imediatamente verdadeiro ou legítimo qualquer acontecimento paranormal, como se quaisquer prodígios não fossem antes permitidos pela autoridade divina por suficientes razões providenciais.

Em determinado ponto do filme o demônio que possui uma criança, mais tarde revelado como Asmodeus, Rei do Inferno, tenta o coração do padre questionando se Deus permitiria até mesmo suas mais ousadas violências, e daí temos é claro aquelas cenas mais horrorosas que o povo tanto gosta. Acontece que um cristão bem informado, e muito mais ainda um padre exorcista, deveria saber muito bem que a permissão para a ação do mal vem sempre pelo arbítrio humano, no caso imediatamente representado pela mãe da vítima, que participou do Pacto Ouroboros, fosse por omissão ou por comissão. Essa é a fonte do poder de Asmodeus, o annuit coeptis humano que força o Amor divino a aceitar os mais extremos abusos da liberdade. Amorth sente medo porque não é cristão o suficiente para enxergar que o mal é apenas um explorador da realidade de que Deus pune os filhos pelos pecados dos pais até a quarta geração, assim como abençoa os filhos dos que lhe obedecem até a milésima.

No fim, depois de muita pirotecnia, e até mesmo de o Papa se cagar nas calças (metaforicamente, ou talvez de fato, vai saber?), o Bem triunfa com a revelação de uma verdade bem mais suave e aceitável do que a realidade do Pacto Ouroboros: a Igreja tinha que se redimir do período de crimes da Santa Inquisição, já que uma aliança ancestral de autoridades da Igreja com Asmodeus era o que lhe empoderava. É uma solução típica de Hollywood, mantendo o prestígio e a autoridade da Igreja até certo ponto, enquanto se legitima o medo do mal no pior sentido possível, que é o medo não de praticá-lo, mas o de ser injustamente perseguido por ele.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD

Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba4
M. Maior – Obediência/Rebelião4
M. Menor – Perdão/Julgamento4
M. Menor – Libertação/Sadismo4
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo4
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD2

Valor Espiritual

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria 5
Louvor/Sedução5
Paixão/Terror (medo do triunfo do mal)1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade (ignorância do Pacto Ouroboros)2
Discernimento/Psiquismo5
Nota Espiritual4

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)3
Informação2
Diversão3
Nota Cultural2,6

Nota Final: 2,8 (IMDB 6,1)

Palavra de Deus

A SEXTA Alegação é a de que a Palavra de Deus não é um objeto para a inteligência de nenhuma criatura, incluindo a humana, sendo a própria essência divina e criativa de Deus, absoluta (separada) e infinita, viva e transcendente a qualquer forma de controle além da Vontade do próprio Criador.

Linguagem

A OITAVA Alegação é a de que a linguagem humana, como a de qualquer criatura, deve ser sempre considerada provisional e discricionária, como um reflexo da sua natureza limitada, em benefício da Humildade e contra a Pretensão, sendo o último e menos importante produto da cadeia de consciência, onde a linguagem é parte do pensamento, o pensamento é parte da percepção, a percepção é parte do ser, o ser é parte da realidade, e a realidade é parte da possibilidade, assim como todas as possibilidades são partes da Possibilidade Universal, de modo que qualquer proposta de limitação da realidade possível aos limites do escopo do pensamento e da linguagem humana é aqui denunciada como um erro.

Jesus, Alegria dos Homens

A SÉTIMA Alegação é a de que Jesus é a Alegria dos Homens pela sua revelação da verdadeira natureza amorosa de Deus e, consequentemente, da salvação humana através da confiança exclusiva na Graça, de modo que qualquer outra alegria é secundária diante desta realidade espiritual fundamental.

Infalibilidade

A QUINTA Alegação é a de que quanto mais infalível qualquer texto sagrado ou interpretação for considerado, menos pode ser usado como uma interface espiritual pela consciência individual em seu relacionamento com o Criador, de modo que a verdadeira autoridade é desprezada em face da proeza da virtude ou do intelecto humano, e assim o Entendimento como um presente gratuito é recusado ou diminuído.

A4: Bíblia

A QUARTA Alegação é a de que a Bíblia certamente contém: (a) partes adulteradas, (b) partes incluídas para além da intenção de seus autores originais, (c) partes traduzidas incorretamente, (d) afirmações equivocadas baseadas na falibilidade humana, assim como não inclui partes originalmente escritas e posteriormente removidas, todos estes fatos pela razão tanto de erro humano não intencional quanto por razão de intenção maliciosa, sem nenhum prejuízo ao poder do Espírito Santo para usá-la efetivamente e eficientemente para os seus propósitos.

A3: Autoridade

A TERCEIRA Alegação é a de que a única Autoridade irrecusável é a que nunca pode ser provada, portando qualquer alegação baseada em uma prova absoluta é vazia de substância, de modo que a Verdade nunca é uma propriedade de criaturas relativas e criadas sob formas limitadas por natureza, não obstante criaturas racionais possam ter acesso a abstrações ideais que podem ser submetidas a demonstrações não confundidas com alegações sobre realidades concretas.

A2: Textos Sagrados

A SEGUNDA Alegação é a de que todos os assim considerados Textos Sagrados estão sujeitos à aceitação e interpretação da instância final de julgamento da consciência individual como o único poder capaz de tomar qualquer afirmação como verdadeira, incluindo toda a interpretação tradicional a respeito da suposta garantia de validação de qualquer parte de um texto, incluindo todas as chaves de sentido das traduções escolásticas e dos conteúdos etimológicos.

Alegação #1: Bíblia, ou Sagradas Escrituras

A PRIMEIRA Alegação é a de que a Bíblia, também referida como Sagradas Escrituras, é uma obra humana, originalmente e eventualmente inspirada, mas não confundida, com a Palavra de Deus, e que não deve ser considerada como fonte de autoridade para além da consciência individual do crente que é espiritualmente informado pela verdadeira autoritativa e nunca provada fonte de toda a verdade, i.e. o próprio Espírito Santo de Deus.

Mais um “super-herói” que podia ser humilde, mas não foi: The Flash, por Andy Muschietti

Para alguém que é muito rápido, o Flash infelizmente ainda foi muito lerdo para entender o sentido do que viveu em seu último filme (The Flash, por Andy Muschietti).

O único super-herói que faz sentido é aquele que disse de si mesmo: “aprendei comigo que sou manso e humilde de coração“. Mas lá vamos nós assistir gente vestida de palhaço fingindo que são capazes de salvar alguma coisa.

Por que as pessoas ainda têm paciência para assistir filmes como este?

Esta é uma boa pergunta, mas não é o nosso assunto imediato. Deve ser mais fácil eu dizer qual foi o meu próprio motivo: matar aquele que me mata, o tempo. E seria uma felicidade descobrir que o meu semelhante assistiu o filme mais ou menos pela mesma razão, o que não deve estar muito longe da verdade.

The Flash é mediano, não inspira grandes coisas além do tradicional arroz-com-feijão do sentimentalismo em torno da família, já que o personagem, Barry Allen, tem toda a sua vida definida por uma tragédia familiar que o fez perder a vida ordenada e feliz que ele achava que tinha, e que o faz imaginar a perda também de uma suposta boa vida que ele teria em tese perdido para sempre.

Barry trabalha como um remediador, e o tema do filme é a valorização dessa busca com o respeito a uma limitação final que o personagem deve descobrir à duras penas. Já que viaja no tempo, poderíamos imaginar que o herói esbarraria em algum paradoxo típico desse tipo de narrativa, mas ele encontra algo mais sólido e simples, que é a limitação ordenada por um Destino de origem desconhecida. Há coisas que Barry não pode mudar, por mais que tente de novo e de novo no pleno uso de seus poderes. A tentativa de forçar um resultado pessoalmente favorável leva o sujeito a reconhecer a sua própria transformação num vilão ou monstro, o que poderia ser melhor explorado pela desmoralização do juízo arbitrário desde um ponto de vista tão limitado, mas o filme não poderia chegar lá, sendo uma historinha de superhéroi. No fim Barry aceita a limitação e trabalha ao redor dela para remediar os fatos que conseguir dentro da sua competência, mas não percebe que ainda age naquele mesmo espírito de arbítrio, e portanto ignora qualquer design superior que tenha imposto aquelas limitações. Neste sentido, o inalterável é espiritualmente semelhante a qualquer outro paradoxo de filme de ficção científica: uma lei sem um legislador.

Não podemos recusar o desejo de justiça da parte de Barry, mas também não podemos ultrapassar a nossa própria noção definitiva de ignorância.

O filme acertaria, do ponto de vista espiritual, reconhecendo por trás da fraca (mas presente) noção de Destino uma maior deliberação divina na forma da Providência. Mas isso diminuiria a importância dos super-heróis, o que seria obviamente contraditório, para não dizer impopular com a proliferação da apostasia, talvez principalmente da parte do tipo de público que este produto cultural atinge. O Flash poderia ser humilde, mas continuou no seu papelzinho mequetrefe de mero remediador. Com toda sua velocidade parece não ter sido rápido o suficiente para chegar nas conclusões que lhe trariam a verdadeira paz e alegria.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD

Hipótese: P&A 3,0 (Sugestão Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba3
M. Maior – Obediência/Rebelião2
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo5
Ataques Avari-Moriquendi2
Testemunho ES-Calaquendi5
Nota EMD3

Valor Espiritual

Humildade/Presunção (heroísmo)3
Presença/Idolatria (família/vida familiar)2
Louvor/Sedução5
Paixão/Terror (ameaça da injustiça terminal)3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade (expectativa de felicidade mundana)4
Discernimento/Psiquismo (crença na tragédia como causa)3
Nota Espiritual3,6

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)4
Informação5
Diversão4
Nota Cultural4,3

Nota Final: 3,6 (IMDB 6,8)