A eminente natureza econômica e psicológica da descendência

Quando as famílias migram do meio rural para o urbano e decidem ter menos filhos, isso evidencia que a anterior elevada taxa de natalidade não se justificava por razões altruístas e espirituais, mas meramente por um cálculo de conveniência econômica: os filhos que antes eram contabilizados como ativos (mão-de-obra) que garantiriam um envelhecimento com maior conforto e segurança, agora se tornaram passivos geradores de despesas.

Do mesmo modo, se há algum resíduo na natalidade urbana, esta se deve ainda em parte a uma preocupação com a velhice desamparada da parte dos progenitores, e em parte ao novo problema urbano do vazio existencial pela falta de objetos externos de devoção e sacrifício imanentes, ou seja, por uma conveniência psicológica.

Nunca foi Deus. Sempre foi o homem.

Sem a Esperança no Amor do Pai, este ser decaído e amaldiçoado tenta realizar a promessa da Serpente no Éden. E assim pula da frigideira para o fogo: do medo da miséria ao medo da falta de sentido numa vida espiritualmente vazia.

Todo o sentimentalismo que já conhecemos muito bem sempre foi e continua sendo uma superestrutura que cobria com um véu de autoengano a realidade da infraestrutura econômica e psicológica.

Em suma, a especialidade humana é a criação de um disfarce mentiroso que sirva para cobrir a sua nudez espiritual.

Essa nudez espiritual não só foi herdada dos costumes da cultura de cativeiro, mas continua sendo confirmada pela recusa a uma vida entregue à Graça divina.

Transhumanismo: a troca da herança divina por um prato de lentilhas

Um dos pensamentos que me ocorreu enquanto eu trabalhava na avaliação do livro O fim da infância para o Livro das Tendências foi o de que Stormgren, o Secretário-Geral da ONU, encarnou perfeitamente o espírito de Esaú quando defendeu a política de Karellen pelo motivo de que agora a humanidade tinha o seu pão garantido.

Não é disso que se trata toda a tradição ancestral contra Deus? Em buscar garantias contra a necessidade da dependência do Amor do Criador?

Esaú é, assim, o sucessor espiritual de Adão, assim como Stormgren. Por outro lado, Jacó foi o antecessor espiritual do segundo Adão, Jesus Cristo, por confiar na herança do verdadeiro Pai.

Esaú confiou na virtude de Isaac, mas o valor deste sempre esteve na bênção divina. O primogênito falhou ao confiar na força da carne e do sangue, crendo-se superior ao caçula por ser popular com seu povo, um grande guerreiro, um caçador, enquanto o caçula Jacó secretamente era um adorador mais perfeito da verdadeira fonte de toda a força, o Amor de Deus. Quando Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, creu que lhe valia muito mais o seu poder pessoal do que a justiça da eleição divina. Justificou-se, assim, a sucumbência do mais velho diante do mais novo.

Voltando ao livro e indo mais além, a promessa do progresso transhumanista é justamente a realização daquela emancipação desejada por Adão e Esaú, para conquistar uma suposta vida independente e emancipada do Amor de Deus. É o ser humano disposto a vender a sua herança como criatura feita à imagem e semelhança de Deus para obter a ilusão de uma libertação através de garantias e seguranças falsas.

Por esta razão é que devemos fazer um elogio do maravilhoso dom da Paixão (v. Capítulo 12 de Monadofilia). Com a Vigilância que nos permite entender o fundamento espiritual do Sistema da Besta, e com o Discernimento que nos deixa distinguir entre as opções espirituais, podemos aceitar os pesados decretos decorrentes da Maldição de Gen 3 de tal modo que quando um Karellen vier nos oferecer algo como a transcendência da condição humana amaldiçoada, nós saberemos honrar o Eterno recusando essa suposta “salvação”.

A informação da vontade na fecundação como analogia da criatividade monádica

Ocorreu-me recentemente lembrar de um episódio no qual contribuí na discussão da negação de Galileu Galilei a respeito da transubstanciação das espécies eucarísticas, por ocasião de uma leitura que venho fazendo para o meu Livro das Tendências, do livro Discurso sobre el nombre de Dios, por Arnau de Vilanova.

Este filósofo do século XIII apontou para a diferença que há, no processo de fecundação, entre o papel da semente masculina e da semente feminina, de modo que ficasse explicada a razão pela qual nas pessoas divinas há uma relação entre Pai e Filho, e não entre Mãe e Filho.

Seu argumento me fez lembrar-me do meu próprio de anos atrás, na época daquela discussão na internet, quando tentei ajudar certos católicos a resolver o problema da negação da transubstanciação por Galileu. Aquele pensador negava a realidade da presença real na eucaristia em virtude da ausência de diferença de peso entre as espécies antes e depois da consagração. Em minha visão isso se devia ao fato de que a transubstanciação era análoga à realidade da Encarnação, onde justamente toda a substância extensa foi fornecida pelo corpo da Virgem, enquanto a substância anímica foi encarnada pela ação do Espírito Santo em substituição à ação da semente masculina que tem como função apenas a introdução de informação genética no processo de concepção. Deste modo não seria adequado esperar por qualquer alteridade na medição dos pesos das espécies eucarísticas, já que a transubstanciação, tal como a Encarnação, não modificou a substância extensa em nada, mas apenas informou-a, como a semente masculina informa a feminina que concede, de sua parte, a base material da formação do corpo.

Minha contribuição, se me lembro bem, foi ignorada. Possivelmente porque eu não fazia parte da panela que discutia o tema, e dou graças a Deus por isso. Não me é tão incomum assim sentir-me mais próximo de um autor de oito séculos atrás (alguém que aliás não temia acusações de heresia na sua pesquisa) do que com qualquer grupinho de militantes católicos, geralmente uns bons pentelhos.

Voltando ao nosso tema, é interessante notar como a composição de corpos pela união das causas formal e material se realiza diversamente em dependência da vontade primária de Deus ou, secundariamente, das criaturas decaídas que tomam o lugar de Deus na formação dos compostos.

Idealmente, a forma sempre determina a substância da matéria, como elemento ativo que domina o passivo. A matéria sem forma sempre equivale ao nada, ou possibilidade (a materia-prima anterior a matéria secundum quid), e a forma sem a matéria sempre equivale a uma força de realização, ou atualização. A substância, ou ser concreto, só pode existir pela combinação da forma e da matéria, a primeira “informando” a segunda, para usar uma linguagem computacional, e isto significa que a forma é o elemento ordenador que estrutura a matéria de acordo com a sua razão interna, seu logos.

Nos processos de reprodução natural alguma analogia se realiza com este princípio da criação das coisas, porque é um processo subsidiário ao princípio que determina a concreção de qualquer substância. O mesmo se dá até em produtos artificiais, onde por exemplo um escultor informa a matéria da sua obra a respeito da forma ideal que pretende realizar.

Dito isso, reconhecemos que não há causa formal mais excelente do que a própria vontade divina, em todos os casos possíveis.

É assim que entendemos a superioridade absoluta que há entre a criação de Adão ou a Encarnação do Filho de Deus, e a concepção de Caim e Abel, por exemplo.

Na primeira comparação, uma matéria até mais rudimentar e caótica, como o barro, pôde ser informada pela ação divina para a produção de um Corpo de Graça, aquele de Adão antes da Queda, superior em tudo aos Corpos de Queda gerados por Adão e Eva através do Pecado Original, apesar de estes serem feitos a partir de um material muito mais nobre e ordenado do que aquele barro primordial.

Na segunda comparação, a santidade de Deus realizou a encarnação do Filho de Deus tornando a matéria da semente de Maria um veículo para a Revelação do Amor do Pai ao mundo, enquanto a soberba de Adão realizou a proliferação do pecado de desobediência na geração de Caim e Abel, tornando a matéria da semente de Eva um veículo para a encarnação do mal no mundo.

O que mais nos interessa aqui é entender como o elemento ativo, ou formal, determina o ser da substância gerada, e é por isso que qualquer produto originado do Pecado Original refletirá apenas aquela rebelião ancestral de Adão, ao tomar novamente o lugar de Deus como o único e legítimo Criador de todas as coisas.

E isto é o que eu chamo de informação da vontade na fecundação, quando o agente ativo formal realiza a sua própria vontade livre e deste modo se torna sujeito moral de uma ação de sentido espiritual.

Ora, somente Deus tem uma vontade perfeita, pura e santa.

Daí que quando o homem quer tomar o lugar de Deus e pretende conhecer o bem e o mal por si mesmo, torna-se um rebelde, traidor e usurpador da autoridade divina, e desde a sua vontade autodestrutiva só pode gerar substâncias fadadas ao mal que lhe é peculiar, razão esta pela qual o Criador fez por bem amaldiçoar a sua própria Criação, de modo a limitar os efeitos da desobediência da sua criatura.

Desde toda essa raça de filhos da traição contra o Amor de Deus só pôde nascer a decadência e a corrupção, até que pela obediência de Maria, que rejeitou o acordo com a Serpente, contrariando o costume de Eva, Jesus Cristo encarnasse como Filho de Deus e se tornasse, como Filho do Homem, o que Adão nunca pôde ser, isto é, perfeitamente fiel ao Pai.

A Encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, demonstra tanto que a matéria é dócil à forma (isto é, mostrou que o mal é sempre espiritual, formal), redimindo uma realidade decaída ao tomar posse da matéria de Maria, como que somente a vontade de Deus é boa o suficiente para a formação de qualquer substância.

O que Adão quis fazer, no entanto, assim como qualquer pessoa que queira casar, ter filhos, enriquecer, crescer em fama e prestígio, etc., foi explorar a promessa divina da Vida Eterna, embora tenha errado ao querer fazer isso por si mesmo, desejando obter a felicidade emancipado do Amor divino.

Assim podemos compreender como o processo de informação da vontade na fecundação, quando ocorre por iniciativa humana, é análogo à manifestação da criatividade monádica, isto é, é um sucedâneo ou substituto do verdadeiro poder que só poderá ser liberado com a total comunhão com o Espírito Santo na Vida Eterna (o que chamei de “Coruscância”).

Há uma imensa promessa de felicidade no coração de todos os seres humanos, correspondente à expectativa justa da concessão da Graça divina, porém é preciso que cada ser humano responda pessoalmente pelo seu desejo do bem: se quer ser amado ou quer ter poder por si próprio.

Só se pode realizar perfeitamente o desígnio divino em total alinhamento com a vontade do Criador, que é a única vontade santa, pura e perfeita. É em comunhão com Espírito Santo que o ser humano poderá realizar a sua criatividade monádica, em analogia limitada ao ser divino, consubstanciando todos os seres que desejar produzir desde a sua forma tornada perfeita pelo seu estado glorificado.

Qualquer fecundação reprodutiva na carne funciona apenas como uma sombra, como uma imitação ou farsa, mentira e ilusão, em analogia com aquela verdadeira perfeição da criatividade monádica.

A chave da felicidade reside no casamento do Poder com o Amor, de toda matéria ilimitada com uma forma santa, realidade que só se realiza no ser humano quando ele ajusta a sua vontade à obediência e esperança em Deus, de modo que a comunhão com o Espírito Santo seja voluntária e perfeita.

Podemos nos perguntar sobre qual foi o olhar com que, no mito do Éden, Adão viu Eva, que lhe fez vê-la como carne da sua carne, como propriedade sua e como objeto do seu poder. Adão viu Eva com vontade de poder, e por isso ela se tornou sua esposa e mãe de seus filhos. Se a visse com vontade de amor, renunciaria a qualquer ambição de poder e ela restaria livre, como sua irmã, para desejar o Amor de Deus tanto quanto ele.

A informação da vontade de poder de Adão na fecundação de Eva operou, em analogia com a criatividade monádica que só era possível pela virtude divina, a realização da Queda, produzindo corrupção e decadência.

Já a informação da vontade de Amor do Espírito Santo na fecundação de Maria operou a realização da Redenção, produzindo o testemunho do Amor do Pai na Revelação perfeita do Filho.

Da conveniência espiritual do sistema reprodutor

Tudo é feito para o bem daqueles que amam a Deus, desde que o bem próprio do Eterno é a realização do benefício da sua Criação, sendo Ele mesmo livre de qualquer carência e tendo restante toda a sua potência voltada para a perfeição das suas criaturas.

Igualmente, é preciso dizer que nada é feito senão pela atividade divina que é a única capaz de trazer ao ser quaisquer possibilidades que o próprio Altíssimo percebe em si como convenientes para a atualização do maior grau de felicidade possível.

Dadas essas duas premissas, já é tempo de resolvermos uma questão que eventualmente vive ressurgindo, a saber, a da razão de ser de um sistema reprodutor nos seres humanos que, sendo tido como instrumento fundamental da traição contra Deus através do Pacto Ouroboros, precisa ser explicado na sua origem e na sua finalidade a tal ponto que não nos reste dúvida da sua justificação.

Ajudando-nos o próprio Criador como sempre foi o caso, parece que a solução não difere muito daquela que encontramos ao lidar com a questão do Antinatalismo (v. “Contra o Antinatalismo” em A Coruscância), tendo aliás os dois temas uma conexão muito óbvia e até mesmo essencial.

Tendo o Todo-Poderoso antevisto a necessidade que certas almas tinham de determinada experiência do mal para que a sua escolha pelo bem fosse a mais plena e perfeita possível (uma realidade por sua vez justificada no nosso estudo da Eleuteriodiceia), foi apropriado permitir que estas almas explorassem aquilo que não lhes era benéfico a priori, mas que constituiria um bem secundário em virtude da fraqueza do seu caráter, um elemento fundado na razão suficiente de que é melhor para estas almas sofrerem e causarem algum sofrimento e, não obstante, obterem com isso a grande felicidade da Vida Eterna, do que dispensar essa experiência limitada do mal e com isso desperdiçar um bem muito superior, tão superior que a proporção da sua vantagem é incalculável e imediatamente recomendável.

Vejam bem: não foi Deus quem instituiu a necessidade do mal e de qualquer espécie de sofrimento para a salvação de qualquer criatura, mas foi a própria criatura, perdida e obstinada, soberba e pretensiosa, que se propôs um caminho mais difícil para que a sua escolha pelo Amor de Deus fosse suficientemente qualificada.

Ora, tudo isso de algum modo já compunha o entendimento anterior daquele juízo contrário ao Antinatalismo. Mas poderia se realizar a decisão humana de procriar e, com isso, de experimentar certa medida do mal como reflexo de suas trevas interiores, sem que tivesse ao seu dispor os recursos necessários ao desempenho da sua vontade? É claro que não. E é por isso que enxergamos com clareza a conveniência espiritual do sistema reprodutor do ser humano como mera concessão de Deus para a realização do propósito maior da sua Obra.

Não foi de bom grado, ou por desígnio originário, que Deus concedeu ao ser humano um sistema mais complexo do que aquele que poderia refletir mais fielmente a simplicidade do seu Ser, mas para que esta criatura levasse a termo os seus propósitos e experimentasse a sua carência do Amor, de modo que pudesse voltar-se do seu pecado para a reconciliação com o Pai.

Este é o sentido da parábola do Filho Pródigo, que tem que viver a sua rebeldia para conhecer sua própria fidelidade no fim. O coração do Pai se contorce com a dor de ver essa decisão de rompimento com o seu Amor, mas aceita e deixa estar, e até contribui com a distribuição de parte da sua herança, porque sabe que isto tudo será necessário para o melhor resultado ao fim.

Há uma teologia rasteira que entende o ser humano como co-criador eleito como veículo de uma absurda dependência divina, como a que diz que a função da história é a salvação dos eleitos e inclui nisso, obviamente, a reprodução de novas safras de escravos, como se Deus precisasse do mal para fazer o bem. Este é o ser humano que aprendeu a mentir com o seu tutor, o próprio diabo, e finge que está executando um mandamento divino quando na verdade está apenas fazendo a sua própria vontade.

Deus nunca desejou a degeneração da sua Criação no aumento da complexidade dos entes manifestados, mas o ser humano quis experimentar as trevas, e isso lhe foi permitido para a realização de uma escolha perfeita pela verdade da luz divina.

Sendo assim, dizemos que o sistema reprodutor do ser humano foi feito por Deus, como não poderia deixar de ser, e com o propósito benéfico da salvação daqueles que, realizando a sua rebelião, poderiam assim escolher o Amor como seu destino final. Convém entender que este sistema foi criado em latência, dependendo de uma ativação pela vontade humana que resolve atualizar essa possibilidade, de modo que os Corpos de Queda são particularmente definidos como produtos dessa atualização da liberdade do homem. Assim, os Vanyar, por exemplo, teriam um sistema análogo preservado em latência e jamais ativado, mais ou menos como uma pessoa nascida Sindar pode viver uma vida inteira sem sofrer de pericoronarite (a inflamação e infecção decorrente da erupção de dente do siso) ou de apendicite.

Resta-nos apontar brevemente que o mesmo se dá por analogia em todos os seres vivos que se reproduzem de acordo com processos submetidos ao Princípio de Geração e Corrupção, a partir do momento em que estes seres existem num modo de reflexão da experiência da liberdade humana e vivem igualmente uma queda da simplicidade originária da criatividade divina, e aguardam igualmente pela sua redenção para se verem livres de seus próprios processos complexos de reprodução (assim como os de nutrição). Um mundo Vanyar, portanto, é povoado por todo tipo de ser vivo que experimenta a multiplicação de suas espécies e a sustentação nutritiva de seus membros sem que em nada isso constitua complexidade e corrupção, e portanto sem nenhuma experiência de dor ou sofrimento (como se promete sobre a realidade redimida em Is 11:6-9).

Por fim, a conexão essencial entre a justificação da rejeição do Antinatalismo com a da realidade do sistema reprodutor se dá obviamente pelo entendimento de que este sistema foi criado para realizar, como causa eficiente, o desígnio que permitiu a procriação como causa final de salvação.

Tudo isso deve servir para o desarmamento das idolatrias naturalista e antropocentrista que disputavam autoridade com Deus, já que a verdade não está em nenhuma razão subsidiária à simplicidade do Amor divino. As resoluções morais dos seres humanos que não se submetem à supremacia do Amor divino são decadentes e pervertidas, e em consequência os processos naturais que introduziram maior complexidade na Criação não resultam de um reflexo da Sabedoria divina, mas da medida de concessão da bondade de Deus com vistas ao melhor resultado possível.

Monadologia, livro por Gottfried Wilhelm LEIBNIZ

Depois de várias horas de trabalho numa tentativa de fazer uma leitura comentada do livro Monadologia, de Leibniz, em vídeos para o meu Canal do Youtube, resolvi desistir dessa idéia e fazer uma apresentação mais simples neste texto.

A influência de Leibniz sobre o meu pensamento é enorme, e pude verificar recentemente que é até maior do que eu mesmo já estimava. Ocorreu então, naturalmente, que na tentativa de expôr as idéias leibnizianas no que elas podem contribuir ao meu próprio sistema eu acabei por abrir uma rede de significados complexíssima que daria tanto trabalho quanto tentar refazer toda a minha própria obra em alguns poucos vídeos. Era impraticável. Dado, como sou, a digressões muito vastas e múltiplas, a coisa toda logo se tornou impossível para o propósito em foco, que era apenas o de fazer uma leitura para incluir o filósofo alemão no rol do meu Livro das Tendências.

Tendo finalmente desistido daquele empreendimento hercúleo, resolvi portanto fazer uma exposição a mais simples possível, e que ainda fizesse justiça ao verdadeiro monumento intelectual que é a Monadologia.

Comecemos por considerar que Leibniz não é infalível e nem perfeito. Não tem a teologia sagrada de um Apóstolo Paulo, e nem mesmo em sua filosofia pode ser completo o suficiente para nos fazer dispensar o estudo do platonismo, do aristotelismo, ou das luzes de Agostinho, Plotino, Tomás de Aquino ou Duns Scot, para citar apenas alguns.

No que tem de mais fraco, sucumbe ao Racionalismo mecanicista que era o vício da sua época, não se permitindo pensar a sua própria Metafísica com a liberdade total que lhe seria mais conveniente. Mas possui o vigor e a firmeza de manter alta a visão transcendente, não deixando que a avaliação das coisas sob o ponto de vista moderno atrapalhasse as considerações superiores, lembrando assim a prudência do conceito de Analogia tão caro aos Escolásticos, ao qual certamente pôde honrar muito mais do que a média dos seus contemporâneos.

No seu otimismo, o autor também não dá conta do grau de comprometimento de algumas almas com a traição e usurpação do Amor de Deus, e do quanto isso repercutiu na experiência humana deste mundo em particular, e assim parece enxergar o ambiente humano com alguma ingenuidade, embora em nenhum ponto isso chegue a comprometer a consistência da sua visão de mundo.

Já do ponto de vista do gnosticismo tipicamente filosófico, Leibniz também não escapa de alguns problemas comuns: a consideração da necessidade de alguma alteridade num sentido negativo para a evidência do positivo (embora de maneira tênue, como veremos), a hipótese da imortalidade da alma, e de que a natureza bondosa em Deus é secundária ao conhecimento do bem próprio à Criação. Mas em nenhum caso essas eventuais falhas representaram um elemento constitutivo da sua filosofia, ao menos nesta obra.

A maior vantagem da visão monadológica como ensinada por Leibniz consiste na recuperação da substância metafísica como o sujeito real de toda experiência possível, resgatando a necessária Unidade por trás da experiência manifestada da Multiplicidade. Por outro lado, com a consideração da realidade moral das mônadas livres e racionais, Leibniz também retorna ao tema da individuação diante de Deus como finalidade da alma humana. Juntas, essas soluções já sugerem o que eu concebi como a forma da vida paradisíaca pela noção da criatividade monádica.

Ainda, a visão monadológica da realidade parece diminuir consideravelmente a importância da ciência da Física moderna, no que esta se incumbiu de explicar a realidade como totalidade, tornando mais fácil a admissão das hipóteses de simulação e holograma pela função analógica da manifestação da Multiplicidade na forma das percepções das mônadas.

Leibniz foi, afinal, um filósofo no sentido pleno da palavra, um metafísico generalista capaz de enxergar a experiência humana na sua unidade, e buscando do mesmo modo entender a coerência da unidade do próprio mundo. Quando especializava o seu pensamento, isso era feito com a intenção do enriquecimento da visão mais generosa e ampla possível.

Vejamos algumas passagens desta obra, que aliás é uma coleção de textos, começando por “A Monadologia, ou princípios da filosofia“:

Aqui temos o postulado da necessidade do simples como anterior para a manifestação posterior do complexo, bem como a referência clara à ação divina de produção ex nihil e de extinção total, por criação e aniquilação, em contraste com a complexidade das formações e corrupções dos compostos. É desta observação que derivamos, por exemplo, a distância total que existe entre o corpo humano preternatural ou paradisíaco produzido simpliciter (Corpos de Graça e de Glória, respectivamente) mantido na plenitude pela ação exclusiva da Graça, com relação ao corpo humano natural produzido secundum quid (Corpos de Queda) submetido ao Princípio de Geração e Corrupção.

Nesta sequência temos que se as mônadas não podem sofrer alternação por força de elementos exteriores, como elas experimentam tanto a multiplicidade quanto o movimento, devem haver princípios internos que dão origem a essa relação do simples com o que se lhe contrasta, e estes são os que Leibniz chama de Percepção e Apetição. Isto quer dizer que as mônadas experimentam qualquer universo como uma variação da Percepção do reflexo do seu próprio ser, movida sempre pela Apetição.

O sentido disto para a vida espiritual é o de que tudo o que é exterior à nossa alma pode ser considerado simulação ou holograma no sentido de que é uma manifestação da potência anímica concedida por Deus, de modo que cada singularidade criada à imagem e semelhança de Deus tem como destino reconhecer que a substância de todos os seres experimentados como reais é tão somente a manifestação da Glória divina ao nosso poder de testemunhá-la (a “apercepção”, na linguagem leibniziana). Seguindo nesta linha entendemos facilmente como a Vida Eterna é simples, sendo tão somente o resultado da liberação da potência das almas conforme a sua adesão voluntária à comunhão com o Espírito Santo. Tudo o que era bom sempre foi a experiência direta de Deus, e para sempre todo bem será uma experiência da qualidade de Deus.

Na diferença entre o limitado e o ilimitado, ou entre o finito e o infinito, já temos dada de imediato a finalidade amorosa de toda criação possível, sendo a Graça divina a fonte eminente dos seres e dos contingentes necessários à sua perfeição ou completude, restando a cada um o ser que é por si imperfeito por carência constitutiva da sua forma, como uma concavidade que atrai por sua natureza uma convexidade que lhe corresponde essencialmente. Todas as coisas foram feitas pelo e para o Amor de Deus, que constitui a sua origem e o seu destino, seu fundamento e a sua finalidade, e por isso o Criador diz de si mesmo: Eu Sou o Alfa e o Ômega.

Observamos em Leibniz um grande cuidado com a concepção de uma Harmonia Universal, reconhecendo a obra divina como o ordenamento de todos os seres para o melhor resultado estimado pela Sabedoria do Criador, o que o leva a exigir o reconhecimento de que de todos este seja o melhor universo possível.

É preciso esclarecer que as minhas hipóteses de Multiversos e do Omniverso não ficam excluídas, de vez que o que Leibniz exige é que um dado Universo de compossíveis seja constituído de tal forma que o seu conjunto seja o melhor possível dadas as combinações consideradas pelo entendimento divino deste particular. Cada Universo considerado em si mesmo deve possuir esse grau de perfeição interna. Quando, na minha avaliação das variações possíveis no conjunto das escolhas humanas de aceitação ou rejeição do Amor divino, que é a causa final de todas as realidades antes do Paraíso, elenquei para as almas humanas as variáveis dos Vanyar, Sindar, e Teleri, de modo que diferentes universos devessem comportar essas formas de escolha do Amor divino, considerei que cada um deles necessitasse do grau interno de perfeição exigido por Leibniz, razão mesma pela qual estas espécies de deliberações não poderiam coexistir coerentemente em uma mesma experiência espiritual (são incompossíveis). A existência do melhor é uma necessidade que não exclui a variância dos mundos paralelos que é determinada não pelo desejo divino, que de por si criaria apenas um único Universo Vanyar plenamente cheio de adesão ao seu Amor, mas pela imperfeição das mônadas livres que escolhem de forma precária, fazendo gerar uma mais conveniente pluralidade de mundos que comporte a realização da sua liberdade.

Que visão espetacular da Criação divina!

Pense-se no que isso representa à noção física de entanglement (“entrelaçamento”), para não falar de uma possível solução à teoria unificada que possa unir a gravitação universal da relatividade geral com o comportamento localizado das partículas na física quântica. Tudo sendo feito de mônadas que estão absolutamente conectadas por uma reflexividade ideal, não existe um caminho mais acessível –em uma palavra: mais fácil–, para a explicação da realidade?

Não sei dessas coisas que concernem à Física, mas na Filosofia Primeira, ou Teologia, observo a implicação imediata da particularidade da experiência de cada mônada cuja possibilidade tende ao infinito, mas que se concretiza na proximidade das Percepções mais distintas ou nítidas, estas movidas pelo princípio de Apetição que é o bonum próprio de cada ser, isto é, a realização do propósito amoroso determinado pela forma singular de cada mônada.

A nossa limitação não é uma carência de ser, mas é a própria forma da nossa felicidade, de modo que é bom para a criatura não ser Deus, porque assim se têm o Amor de Deus como causa da felicidade que se ajusta à nossa limitação. Bem-aventurança é, assim, a conformidade com o desígnio que já deu aos seres criados a medida total da sua realização na forma do seu limite constitutivo.

Temos aqui outro elemento condenável na visão de Leibniz, já que ele confunde o Criador de todas as coisas, sempre suficiente em si mesmo, e inclusive na sua natureza amorosa (como já pudemos demonstrar ao afirmar a necessidade da relação entre Pai e Filho no Ser de Deus), com um criador menor, deficiente e necessitado de um ser contingente que lhe conheça e admire para que se complete a sua dignidade divina. Deus tem sua Glória em si mesmo e de forma atual desde a Eternidade.

Em seguida temos outro texto, “Princípios da Natureza e da Graça“:

Metafísico por excelência, Leibniz verifica que não se pode jamais encontrar na série das causas materiais e eficientes a razão de qualquer ser no lugar do não-ser, sendo necessária uma causa externa a estas séries contingentes que torne atuais algumas possibilidades.

Do mesmo modo como Leibniz requer uma causa fundamental que tenha causado o primeiro dos movimentos, uma causa não causada alinhada com a visão aristotélica do Primeiro Motor Imóvel, ele também reconhece que nenhum movimento seria possível sem que tivesse uma finalidade que determinasse uma determinada escolha em função de outras alternativas, sendo essa razão o melhor em face do Bem, formalmente e finalísticamente alinhada com o Sumo Bem platônico. Como filósofo pleno, o alemão integra sua visão moderna com o ápice da metafísica antiga, sem deixar perder nenhum patamar anteriormente conquistado. Seu esforço de integração é notável e contrasta bastante com a ânsia de novidades e com o costume de ruptura da sua geração.

Reafirmando os entendimentos anteriores, Leibniz erra na afirmação da qualidade de “existência” atribuída a Deus, enquanto o existir só pode ser um predicado para os contingentes, mas de qualquer modo acerta na sua intenção geral de evidenciar a necessidade do Criador na justificativa da Criação, como aliás bem colocou o Apóstolo como um dever para qualquer cientista sério que avaliasse a natureza das coisas criadas e visse nesta a indicação da origem volitiva dos seres.

O autor nos introduz aos importantes conceitos de Nitidez e Confusão, embora como sempre não faça muita questão de determinar o detalhe dessas noções de maneira sistemática.

Por necessidade temos que cada mônada possui em potência o reflexo de todas as coisas, realizando porém esses reflexos em si mesma de modo particular, de acordo com a sua forma limitada de ser, movendo-se por Apetição de Percepção em Percepção para encontrar com maior nitidez os seres que correspondem ao seu maior bem, enquanto os demais mantém-se em algum grau inferior de confusão, embora a qualquer momento reconhecíveis por um interesse que justifique sua clareza, isto é, a partir de um movimento interior desde sua Apetição.

Em seguida temos outro texto chamado “Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias“:

Este é um testemunho que reflete, de certo modo, o drama da razão humana, e que prova inequivocamente o quanto é tola a presunção de que exista uma continuidade na forma de progresso do conhecimento. Leibniz está explicitamente indicando a trajetória que teve que percorrer, arriscando-se a violar os preceitos da ciência do seu tempo, para recuperar noções elementares já possuídas pelo pitagorismo, pelo platonismo, pelo aristotelismo, pelo neoplatonismo, pelo escolasticismo, etc.

Uma mente tão privilegiada quando a dele teve que passar por um percurso algo desafiador apenas para retomar pontos de vista que já eram possuídos anteriormente, não podendo se dar ao direito de receber uma herança pronta que lhe permitisse se dedicar exclusivamente ao avanço da pesquisa desde o ponto de evolução anteriormente alcançado. Se há uma força em ação no mundo do intelecto, é o da confusão e do esquecimento, contra o esclarecimento e a memória. Espiritualmente podemos atribuir isso a uma ação infernal designada para manutenção da situação humana de cativeiro. Algo que Leibniz não reconhece diretamente, mas que está implícito no enquadramento do seu pensamento na História da Filosofia, e mais ainda pelo desprezo moderno à sua própria contribuição.

Precisamos fazer algumas ressalvas importantes neste ponto.

A linguagem teológica de Leibniz não é muito apurada.

Para começar, nenhuma mônada, não importando a sua dignidade, possui um “raio de luz divina” dentro de si. Essa noção romperia com a ordem da Analogia. Também podemos dispensar a “punição dos maus” como uma confusão com a consequência do afastamento do Amor de Deus, uma necessidade para o arrependimento e para a conversão, e portanto uma dispensação graciosa para a felicidade até dos maus, o que culmina inclusive com a aniquilação daquelas mônadas que se obstinarem na rejeição do Amor, um ato também cheio de misericórdia até o fim. Deus não muda jamais, e sendo amoroso, seu Amor também não tem termo.

Por outro lado, ao afirmar que “tudo mais é feito para eles”, Leibniz acerta em cheio na causa final dos contingentes não livres quando estes são criados em qualquer mundo que seja habitado por mônadas livres (o que exclui os criados no Omniverso interior, ou anterior).

O que ele não afirma, mas podemos nós dizer partindo do seu raciocínio, é que toda a natureza criada para o exercício da liberdade das mônadas racionais e livres aguarda a sua redenção quando da completude da obra divina de santificação, ou separação. Significando isso que o termo da felicidade desses seres é constituído pelo resultado da liberdade das mônadas racionais. É claro que Leibniz não trabalha com a premissa de mundos ou realidades consecutivas, de modo que a exigência de que ele entendesse a progressão histórica em direção ao ideal divino seria excessiva da nossa parte.

Deste modo Leibniz expandiu a sua definição de mônada numa direção que eu entendo ser a mais conveniente, tendo eu mesmo proposto a minha definição como a de uma unidade metafísica, de ser capaz de ser sujeito e objeto da experiência do amor. Isso integra mais perfeitamente todos os seres com a sua origem na criatividade divina.

Mas observamos como o filósofo lutou contra outros tipos de problemas que lhe eram peculiares pela sua linha de pesquisa, isto é, a solução do problema da Dualidade cartesiana entre coisas extensas e coisas pensantes. Coerentemente, ele verificou que a solução do Materialismo não resolveria nada jamais, porque a definição da fisicalidade de qualquer corpo requer a sua potencial divisibilidade ao infinito. Tampouco, porém, o Racionalismo cartesiano propunha uma solução razoável, desde que o cogito nunca conseguiria alcançar o status de substância, possuindo apenas a reflexão (ou apercepção) posterior ao ser. Era preciso vencer essa aporia com o Idealismo que aceitava, com a recuperação da Metafísica, o conceito de substância simples, uma singularidade capaz de refletir o diverso, ou Unidade capaz de manifestar o Múltiplo. Leibniz reorganizou toda a bagunça.

À primeira vista este raciocínio pode parecer inconveniente por uma ilusão de complexidade, mas bem entendido o princípio criativo de Deus, a razão leva ao contrário, isto é, à observação da conveniência do esquema proposto como o mais simples possível, pensando-se na preservação da integridade das substâncias, o que é uma preocupação constante para Leibniz. Igualmente, seu pensamento está em perfeito acordo com a noção de criação analógica, e sua concordância com a idéia do ordenamento divino chega ao ponto de que o autor não teme o reconhecimento da concordância com um nome como o de Teresa de Ávila. Este é um espírito realmente livre de preconceitos, buscando a verdade onde a puder encontrar.

Convém ainda reconhecer o quanto Leibniz facilita o caminho, no seu pensamento monadológico, para as modernas teorias de simulação e holografia. De minha parte tenho uma alegação pronta para trabalhar, que trata da idéia da Mutualidade da Simulação, onde levaremos a hipótese ao ponto de reconhecer, junto com Leibniz e Teresa de Ávila, que só existe a Alma e Deus, e a realização ou a frustração do Amor conforme o desenvolvimento da liberdade da mônada racional. Quando tratei da idéia dos Periannath na vida paradisíaca, ou ainda antes, quando relatei que João ao amar Maria na verdade ama João na forma de Maria, foi a isso que quis me referir. Meu objetivo será mostrar, com a ajuda de Deus, que embora isso possa parecer levar à complexidade, realmente revela apenas a simplicidade das coisas divinas. Algo que já é confusamente intuído em algumas experiências místicas relatadas aqui ou ali, mas que podemos e devemos avançar com a busca do Discernimento, com a permissão de Deus.

Por fim convém notar a observação de que os corpos são feitos para os espíritos capazes de se associar a Deus e de o glorificar, o que evidencia a absurdidade da condenação ao inferno e invoca a razão divina de extinguir misericordiosamente os seres desinteressados do seu Amor por aniquilação, que é a “perdição” ou “segunda morte”.

Da imortalidade da alma já pude falar o suficiente, e é fácil entender como Leibniz cairia nessa forma de entendimento, embora não seja tão simples determinar as razões externas à sua lógica, como as psicológicas, para que ele tenha preferido fazer isso. O certo é que se quisesse ele poderia igualmente reconhecer a autoridade maior daquele poder primário que antes de tudo trouxe as mônadas à vida, e assim propor não que as almas sejam imortais em si mesmas, mas que o sejam por um desejo divino que a qualquer momento pode decidir diferentemente, quando o contrário for mais conveniente ao Amor divino.

É muito poderosa a invocação da separação total dos espíritos, com independência e autosuficiência, realizando aqui o filósofo a admissão metafísica da profecia divina de santificação ou separação, num sentido que animicamente implica na realização da individuação das singularidades. Esta é a Vida Eterna, e foi a isto que Jesus Cristo se referiu quando disse que o Reino de Deus está dentro de nós. Somente por esta razão, se não tivesse mesmo dito mais nada, Leibniz já deveria ser reconhecido como um príncipe entre os filósofos cristãos.

O que é incrível, e que evidencia certamente a Presença de Deus (muito mais apropriadamente do que a sua “existência”), é esse alinhamento nas manifestações das unidades em concurso com o Amor do Criador, como Leibniz mostrou. Essa é a Arte Suprema, a Arte Divina, e nada mais belo e mais sábio jamais será encontrado do que este ordenamento harmônico que o Criador providencia para levar todas as coisas à perfeição, justamente por computar na Providência todas as modificações por liberalidade das almas racionais, e todos os efeitos destas.

Em seguida temos outro texto, intitulado “Sobre a origem fundamental das coisas“:

Aqui Leibniz expõe com muita clareza e elegância o Princípio da Razão Suficiente que requer o reconhecimento da substância divina, ou do Criador, para justificar o ser de todos os contingentes. Parece que todo filósofo de fato, ou amante da sabedoria de fato, vai sempre circular em torno da necessidade de Deus e de seu Amor, como aqueles serafins que cantam ao redor do Trono e proclamam a respeito de Deus que é “Santo, Santo, Santo“.

Quem entenda isso como uma “repetição” ainda não entendeu a razão nem sequer da sua própria existência particular, quanto menos de todas as coisas criadas. Todas as alegrias particulares serão formas concretas de louvor e glorificação alinhadas com essa realidade espiritual elementar e subsidiária à toda a Criação.

Este é um excelente elogio da Humildade, o que é raro da parte de um filósofo e torna mais brilhante a sua contribuição ao legado moral da busca da verdade. É verdade que Leibniz já havia previsto essa realidade ao propor a intuição confusa de algumas das Percepções, mas aqui ele deixou marcada a limitação humana como constituição da nossa condição neste mundo. Evoca os ecos da sabedoria de Sócrates, e mesmo do platonismo do Mito da Caverna. Ao fim, a justificação de Deus, ou Teodicéia, sustenta-se suficientemente sobre este ponto, como apontou Agostinho contra o Paradoxo de Epicuro. Como pode uma criatura finita julgar seu Criador infinito? Não seria nem mesmo um milagre, pois é simplesmente impossível.

Aqui temos uma referência tênue à experiência do negativo para o proveito do positivo, embora isso não seja inequívoco. Penso que tratando-se de um filósofo ocupado com o rigor expressivo, a alternação não se refere a uma analogia entre bem e mal ou luz e trevas, mas entre diferenças num mesmo plano, ou entre espécies do mesmo gênero. Cabe-nos, generosamente, interpretar desta forma, embora ainda assim Leibniz seja limitado na sua visão teológica, como podemos constatar pelo que já pude expôr a respeito da garantia dos ânimos interiores por uma força espiritual concedida por Deus para a correção das subjetividades, de modo que o ser desgostoso e fadado a idiotice é este que ainda não tem aquela comunhão com o Espírito Santo que tornará toda e cada experiência única e perfeita na milésima vez, mesmo que em sequência direta, preservando a mesma qualidade como da primeira. E esta sim é a lei da alegria completa: o encontro da subjetividade plena com a objetividade perfeita, não restando hipótese que não seja ótima, e não sendo assim necessária a alternação dos estados e das circunstâncias, estando a alma mais livre do que nunca para escolher a sua próxima Percepção com total felicidade, e novamente a cada vez, para sempre.

Devo sustentar, contra a alegação de que Deus precisa do mal para fazer o que é bom, que a liberdade humana requer certa experiência do que está abaixo do ótimo e desejado pela Providência, para que possa então dirigir a sua escolha ao ideal desde a sua experiência, e isto é permitido em linha com o que Leibniz afirma, isto é, que há sempre um atalho garantido por Deus para a maior eficiência soteriológica do seu sistema, ou melhor, da sua obra de separação.

Temos em seguida a documentação da “Primeira carta a Nicolas Rémond“:

O que mais nos interessa aqui é o entendimento de que as realidades empíricas, inclusive o movimento dos corpos, são manifestações posteriores à substancialidade das mônadas, das quais toda multiplicidade experimentada subsiste apenas como manifestação para a realização da Percepção adequada a cada uma conforme o bem que corresponde ao objeto de sua Apetição.

Tudo o que entendemos como real e concreto, no sentido de material e físico, é secundário à substância verdadeira que não é composta, mas simples, e esse agregado manifestado atende apenas ao propósito do ser de cada singularidade, isto é, que Perceba o Múltiplo como reflexo da sua Unidade, e que se mova de uma Percepção a outra de acordo com o bem definido pela sua forma determinada de Apetição.

A relatividade das dimensões às quais atribuímos integridade, como Espaço e Tempo, é espantosa numa filosofia que antecedeu tanto aos avanços da Física futura. E mais espantosa ainda é a ignorância corrente dessa noção elementar, mesmo por várias mentes supostamente esclarecidas. Nem mesmo as observações mais óbvias da física quântica parecem ser suficientes para mostrar a eminência do Observador diante de uma realidade manifestada que é dócil ao seu ato cognitivo, exatamente como Leibniz postula que toda Multiplicidade é derivada e serviçal, por assim dizer, das Unidades.

Por isso é justo dizer que, embora no que concerne à infraestrutura da Criação tudo esteja de acordo para a alegada Confraternização das almas junto ao seu Criador, é mais fácil crer no fim deste mundo particular antes que a maior parte dos seres humanos possam reconhecer a simplicidade da obra divina que foi produzida para o seu próprio benefício.

Por fim, temos a “Segunda carta a Nicolas Rémond“:

Esta é a única passagem em toda a coleção de textos em que Leibniz dá a entender a sua plena ciência do estado circunstancialmente precário da situação humana, embora o faça de forma velada. Definitivamente, o dom de Vigilância não era o ponto mais forte do filósofo. Mas seus apontamentos são fortuitos: há uma necessidade especial de produzir discursos que evidenciem as realidades mais supremas, não porque estas sejam particularmente difíceis ou complexas, mas porque o entendimento humano está dissipado e distraído com os elementos do mundo. A “atenção” de que fala Leibniz não seria necessária se não fosse o estado decaído e amaldiçoado de um ser que herdou de seus pais a traição contra o Criador de todas as coisas. É claro que tal observação seria muito contraditória com o tom da obra do filósofo, mas não deixaria de concordar e explicar o fenômeno que ele observou. Justificando a necessidade de um esforço, Leibniz prova que a natureza humana não está mais inclinada ao reconhecimento da verdade, mas ao engano pelos erros que lhe fazem se perder.

Isso não deveria acontecer, se entendermos que com sua boa vontade Leibniz apenas precisa se defender daqueles que são incapazes de alcançar o nível das suas contemplações, como das de Platão ou Agostinho. Seria mais justo que o filósofo prestasse contas apenas àqueles que são realmente interessados na sua busca, isto é, que não tenham mais a necessidade de testar as imagens das coisas para verificar, finalmente, que há a garantia necessária do produtor delas. A discussão sobre a integridade geral das idéias considerando o mundo real que as manifesta particularmente é um objeto para almas limitadas, autocastradas na verdade, não dispostas ao reconhecimento da integridade formal da realidade. E isto se dá por uma razão moral, como bem o sabiam os filósofos que aprenderam com Sócrates, porque a transcendência das idéias em Deus só está disponível às almas que não tenham ainda a presunção da posse das mesmas na sua forma secundária e limitada de concepção, como produtos da racionalidade humana, por exemplo.

Qualquer teoria epistemológica de abstração opera no nível da causalidade eficiente do processo cognitivo, enquanto a tese da iluminação divina é requerida para dar assertividade a este processo por necessidade de acerto na intuição do que é tomado como autoevidente, a começar pelos princípios da própria Lógica. As luzes da razão natural são concedidas pela Graça divina sem a qual tudo o que o ser humano poderia fazer seria a quantificação dos dados da realidade, como um animal ou um computador, sem jamais aperceber-se da substância dos seres, e muito menos da necessidade das causas formal e final, para não falar da reflexão autoconsciente.

Leibniz, como um verdadeiro diplomata da filosofia, trouxe ao seu tratamento dos objetos intelectuais a arte da harmonia política da sua ocupação profissional, e em tudo buscou conciliar os antigos e os modernos, tentando realizar a sua visão de Comunidade de almas sob o governo divino da Cidade de Deus.

É um belo exemplo, mas entendo que teria sido mais eficaz se fosse mais assertivo no que diz respeito ao estado deste mundo em particular, o que talvez não estivesse tão disposto a fazer por ainda não poder trabalhar com níveis de profundidade secundários na sua Teodicéia.

Tal imperfeição é muito desculpável num filósofo que lidava com certa barbárie ao seu redor, seja da parte dos pensadores ou dos líderes religiosos. É muito compreensível que não quisesse entrar em confronto por estar um tanto isolado nos seus entendimentos sobre coisas sagradas que a humanidade que lhe cercava provavelmente não poderia aceitar. Na verdade, ainda hoje muitas dessas coisas são inaceitáveis, mas ao menos podemos contar com o benefício das luzes de um Leibniz para contribuir com o melhor entendimento da natureza da nossa realidade.

Nota Espiritual: 8,1

Humildade (representação ou intuição confusa das Percepções)9
Presença (todas as substâncias criadas existem diante da Substância primordial)10
Louvor (a felicidade das mônadas é a sua finalidade de reflexo da glória divina)10
Paixão (este deve ser o melhor mundo possível, ou outro mais necessário existiria)9
Soberania (racionalismo e mecanicismo, compensados por forte Metafísica)7
Vigilância6
Discernimento6
Nota Final8,1

Contágio, filme por Steven Soderbergh

É possível algum ser humano duvidar seriamente ao menos da hipótese da programação preditiva, em pleno ano de 2023, ao assistir o filme Contágio, de Steven Soderberg, lançado em Setembro de 2011?

O filme trata de uma pandemia originada na China (pela ação de um vírus cuja origem veio de morcegos através da contaminação de porcos) que leva o mundo inteiro ao caos das quarentenas enquanto os heróis da humanidade correm para pesquisar a solução de uma vacina para aplicação global.

Eventualmente alcança-se a salvação e a humanidade sobrevivente passa por um sorteio de loteria para definir quem vai receber a solução primeiro. Há um suspense para saber quem vai ser sortudo, com direito a reportagens de televisão, com grandes dramas, etc. Tudo isso torna positiva a idéia da solução, é claro. O filme não foi feito para isso?

Como obra de “arte”, este filme é uma perda de tempo.

Como obra de engenharia social, parece ser muito produtivo.

Senão vejamos:

Primeiro, a solução parece ser um milagre que veio dos Céus para salvar uma humanidade destinada a outra coisa além da morte. Grandes histerias por mais quinze minutos de sobrevivência, como de costume.

Segundo, as autoridades constituídas, principalmente as “científicas” são exaltadas ao suprassumo, são heróis, sacrificando-se por nós como personagens de uma nova mitologia. Possuem o conhecimento arcano, determinam a diferença entre o Bem e o Mal, e detém o poder de salvar a humanidade que se prostra diante da sua sabedoria. É o caso do Dr. Cheever (Lawrence Fishburne) e de seus associados.

Terceiro, o dissidente que contesta a autoridade é colocado como um mentiroso cheio de cobiça e irresponsabilidade, o arauto do caos e de toda a maldade, papel encarnado no personagem interpretado por Jude Law. É um jornalista inescrupuloso cuja função é indicar a falência moral de toda crítica que ouse questionar a infalibilidade olímpica das autoridades científicas. Ele só pensa em lucro, poder, fama, enquanto suas vítimas são praticamente versões modernas da antiga santidade cristã, com a inocência de cordeiros.

Quarto, normaliza-se a noção da vantagem da aplicação da solução desenvolvida. Os beneficiários dessa medida são vistos como ganhadores de loteria (literalmente), e também é normalizada a idéia da restrição dos controles dos acessos a determinados locais pela confirmação eletrônica de participação na solução.

Com tudo isso temos uma receita pronta para execução pela NOM, contra os interesses de uma população que não só já foi acostumada com a idéia da sua submissão a um sistema, mas que também dá anuência pela sua omissão de um discernimento que foi possível inclusive pela maneira como a cultura preditiva concedeu acesso ao recurso da crítica. Decisivamente, pelo Annuit Coeptis alcança-se o Novus Ordo Seclorum.

Este é um filme de terror distópico, no fim das contas, mas travestido de draminha.

Pelo menos que o filme não fosse tão chato!

Mas é, e bastante.

Ao fim a humanidade se salva, é claro, mas quem a salvará de si mesma?

O ser humano está preso na sua própria fantasia macabra de viver sem Deus, literalmente perdido no espaço, já espiritualmente morto por dentro e apenas aguardando a destruição da sua carcaça exterior.

Nota espiritual: 2,7

Humildade4
Presença3
Louvor5
Paixão (histeria com o terrorismo da morte)2
Soberania (cientificismo)2
Vigilância (creditação das autoridades constituídas, CDC, WHO, etc.)1
Discernimento2
Nota final2,7

Mar em Fúria, por Wolfgang Petersen

O excelente diretor do ótimo filme O Barco (“Das Boot“) criou aqui uma história fraca, mas justa, que mostra o destino líquido e certo desse caçador violento e desalmado que é o ser humano: o fundo do Abismo.

Billy Tyne (George Clooney) é o capitão de um barco de pesca que anda frustrado com sua baixa performance. Assim como os membros de sua tripulação, Billy deseja um grande sucesso e, dito e feito, eles conseguem um que custa precisamente o preço mais alto possível, que é o das suas próprias vidas.

Há dois temas neste filme: a inclemência da natureza que faz os homens se lançarem aos maiores riscos e sacrifícios, e a estupidez do próprio ser humano que acrescenta, ao já pesado encargo da sua vida natural, o peso de seus próprios sonhos de felicidade.

A forma da felicidade é a vida familiar lastreada no impulso luxurioso, que neste filme possui muito mais força do que quaisquer deliberações mais avançadas. O homem é simplesmente um ser que quer trepar e que, com isso, arruma um casamento e filhos para cuidar. Eventualmente o sonho vai falhar quase sempre: só não existe frustração onde ainda não se passou tempo suficiente para a conta moral chegar. Quando o tempo já teve a oportunidade de causar seus estragos, os casamentos já foram devidamente dissolvidos pelo estilo de vida de um pescador.

Embora seja fraco, e isso por não trazer nenhuma grande questão humana à tona, o filme não mente, bem ao contrário disso: revela a realidade humana da escravidão da Maldição ou do Poder.

Há uma tentativa de mostrar o heroísmo dos caçadores, é claro. Uma menção da sua suposta honra de enfrentar os perigos da vida natural. Mas o fazem em nome do quê? Apenas da subsistência na condição amaldiçoada, já que não há Redenção do estado decaído e amaldiçoado. E ainda com o agravante da omissão de responsabilidade por trazer mais almas inocentes à mesma condição claramente desgraçada em que se encontram.

Não gosto do sofrimento humano, mas devo confessar que pelo menos uma parte de mim torcia pelo mar e pelos peixes, e de certo modo saí vingado.

Nota Espiritual: 3,7

Humildade4
Presença4
Louvor (ninguém é capaz de renunciar a qualquer benefício por razões espirituais)2
Paixão5
Soberania5
Vigilância4
Discernimento (são apenas animais sofisticados)2
Nota Final3,7

O Cristianismo é o culto do Mashiach ben Yoseph

O Cristianismo é o culto do Mashiach ben Yoseph para preparar o mundo para a chegada do Anticristo e a implantação das Leis de Noé.

Ou pelo menos é assim que parece que as coisas são quando associamos a probabilidade da ambiguidade bíblica entre o culto do Amor e o do Poder com a forma com que os cristãos religiosos estão sendo enquadrados pelos proponentes do noeísmo.

Digo por mim mesmo, neste blog já recebi comunicações de quem tivesse conexão com essa agenda, justamente para indicar que o que o cristão chama de “Graça” tem uma função religiosa bem diferente dentro do cabalismo, significando, etimologicamente, “Sacrifício”. A observação dessa alegação me fez prestar atenção à importância do sacrifício de sangue dentro da soteriologia cristã.

Se você procurar, como eu fiz, pela pergunta “Jesus tinha que morrer?“, ou “Did Jesus have to die?“, você só vai encontrar as expressões confirmativas, mesmo na forma de questão, como “Por que Jesus tinha que morrer?“, ou “Why did Jesus have to die?“, subentendendo sempre que essa necessidade está acima de qualquer suspeita.

Seria de se supor que as explicações fossem todas muito convincentes a esse respeito, porém o que encontramos é o atendimento à antiga Lei, chamada mosaica (já veremos como isso é questionável), principalmente com as indicações no Livro de Hebreus. Se o sacrifício de sangue for retirado da equação, toda essa “salvação” cai por terra imediatamente.

Mas convém que todo e qualquer cristão seja capaz de apelar imediatamente para as razões da sua Fé, como diria o Apóstolo Pedro, sem precisar fundar a sua crença num dogma inquestionável. Mistérios existem, sem dúvida, e devem ser aceitos na sua inefabilidade. Mas será que a Salvação é tão misteriosa assim? Será que não existe uma deliberada confusão religiosa com a intenção de manter como prisioneiros da mentira as vítimas do Ouroboros?

Podemos seguir uma linha simples e clara de raciocínio para verificar a viabilidade do sacrifício de sangue como pagamento pelos pecados. Lembrando que não se trata aqui de questionar a intercessão e a petição de salvação, quando estas coisas são puras, ou seja, baseadas com exclusividade na Graça divina. Estamos tratando da crença de que para que haja remissão dos pecados seja preciso derramar sangue (Heb 9).

E que o sim seja sim, e o não seja não, sem meias palavras.

Questão 1: Jesus tinha que morrer?

Sim ou não?

Se não, então já escapamos do paradigma do sacrifício de sangue. Jesus não tinha que morrer: ele tinha que ser reconhecido como o Filho de Deus e Rei dos Reis. Foi assassinado injustamente, e na Cruz sacrificou a sua majestade e provou duplamente tanto o Amor do Pai quanto a mentira assassina do Acusador. A Salvação não se dá por magia de sangue, mas pela aceitação do Amor de Deus, especialmente na forma de Misericórdia através de um arrependimento sincero por toda participação na traição contra Deus das Obras da Carne.

Se sim, cabe então uma próxima pergunta.

Questão 2: Quem matou Jesus tinha a liberdade de não fazê-lo?

Se não, então não é uma ação de responsabilidade imputável, de modo que isso equivaleria a dizer que Jesus se matou, ou ainda que não teve nenhum sentido a petição dele na Cruz quando disse “perdoa-os, eles não sabem o que fazem“. Se eles não sabiam o que faziam, praticavam um mal, ainda que ignorantes da natureza de seu ato. Em suma, se não fossem livres para decidir da forma que decidiram, os assassinos de Jesus não seriam assassinos, e sim executores da Justiça divina. Se a Crucificação foi real e moralmente substantiva, ela não pode ser uma farsa. Essa hipótese deve ser descartada como absurdo.

Se sim, cabe-nos então uma última pergunta.

Questão 3: Quem matou Jesus praticou o Bem?

Se não, então Jesus não tinha que morrer: sua execução foi um assassinato. Saímos novamente do paradigma.

Se sim, então voltamos ao absurdo da negativa anterior, ou até pior que isso. Pois não só Jesus seria novamente, neste caso, uma espécie de suicida, como também seria absurdo o seu pedido de perdão a favor dos seus assassinos, que não seriam homicidas, mas executores do Bem.

O Cordeiro de Deus não se entregou em sacrifício para a morte certa, como forma de Justiça, pois essa só poderia ser exigida por Deus mesmo.

Ele se entregou para ser reconhecido na majestade do Amor sem defesas, de modo que a crença na Graça fosse pura da parte dos fiéis, como é de fato até hoje e será até o Fim dos Tempos.

Uma questão final talvez se imponha como a decisiva:

Quem pediu pelo sangue de Jesus?

Se o sacrifício de sangue é legítimo, isto quer dizer que a divindade, como na pessoa do Pai, pediria pelo sangue de uma vítima de sacrifício, como o do Filho. E se assim fosse, novamente nos caberia reconhecer que a morte de Jesus não seria uma injustiça, e seus assassinos não seriam imputáveis.

Por outro lado, se o sacrifício não era legítimo, quem pediu pelo sangue de Jesus foi o Acusador, o Pai da Mentira, que se coloca diante dos homens no lugar de Deus.

A verdade do sacrifício da Cruz foi a da entrega de Jesus à condição de Filho de Homem para que pela sua inocência ficasse provada a bondade de Deus e a maldade do Acusador.

Satisfazendo-se injustamente com o sangue do Cordeiro de Deus, a Serpente do Mundo, o Ouroboros, expôs a sua verdadeira natureza, não a de Promotor de Justiça, mas de Mentiroso e Assassino.

Assim, a Religião Cristã, ou Cristianismo, independente de sua forma mais ou menos tradicional, está ligada ao culto do assassinato como ritual de sangue iniciado pelo Ouroboros desde o princípio dos tempos.

E, cabalisticamente, isso se conecta com o mito messiânico judaico que reconhece, com Maimônides e muitos outros, que em Jesus realizou-se a profecia concernente ao Mashiach ben Yoseph, com a função de converter as nações à Torá e preparar o mundo para a chegada do seu Maschiach ben David, o Messias Triunfante, que implantará então as Leis de Noé num mundo previamente preparado pelo Messias Sofredor.

A verdade é que o verdadeiro Messias é um só, e que ele já veio como Cordeiro Sofredor para os seus, até que os tempos se completem e ele volte como Leão Triunfante para o Juízo Final. É preciso que o trigo cresça junto com o joio, para que no tempo da colheita o agricultor possa fazer a separação entre eles.

Jesus disse que não veio abolir a Lei, mas levá-la a perfeição.

Mas de que Lei ele está falando?

Da Lei de Moisés, na forma dos Dez Mandamentos determinados diretamente pela autoridade divina, ou da Lei de Aarão, na forma da Legislação Levítica e Sacerdotal, inventada pelos homens a partir do que aprenderam com seus pactos com o Ouroboros, desde a Tradição Primordial?

Sendo a verdadeira Lei mosaica aquela que os judeus desprezaram, já que se amassem a ela, reconheceriam o seu verdadeiro Messias, o aperfeiçoamento que Jesus trouxe foi a revelação do Pai e do seu Amor, com os definitivos Mandamentos de amor a Deus e ao próximo.

O Cristianismo é o culto do Maschiach ben Yoseph para a conversão das nações à autoridade da Besta, o falso deus que instaurou o culto mentiroso do derramamento do sangue do Cordeiro de Deus como administração da Justiça. Revelando a sua própria verdade, o Anticristo reiniciará no Terceiro Templo as ofertas de sangue, até que estas sejam cessadas na Grande Tribulação, antes do Fim dos Tempos.

Durante muitos séculos e para muitos povos o Ouroboros pôde sustentar a legitimidade da continuidade da traição contra o Amor de Deus com base na mentira, com a anuência dos fiéis que viveram seus tempos de usurpação e miséria sustentados pelo culto do sacrifício do Cordeiro. E Deus assim o permitiu, até a consumação dos tempos, para que a sua colheita fosse a mais completa.

Nenhuma religião se sustenta espiritualmente, de vez que a substância da vida espiritual é a vida na Presença de Deus, a realidade individual de cada alma totalmente independente das aparências.

Muito menos ainda se sustenta o Cristianismo, na perfídia da mentira travestida de uma verdade muito próxima, mas sempre omitida.

Tire de qualquer Religião, inclusive da Cristã, as funções de lavanderia moral, validação da superstição e cultura sentimentalista, e o que sobrará? A ignorância equivalente a de qualquer paganismo.

O ponto central do entendimento desta verdade, para os cristãos, é a observação da pureza da santidade da Graça divina em contraste com a graça que não é divina justamente por não ser gratuita, mas somente um produto de troca na espelunca espiritual do diabo, esse farsante.

O fardo levíssimo dos Eunucos

Penso que se algum tipo de preexistência fosse possível (no que aliás não acredito), eu escolheria a vida mais fácil possível em que, ao mesmo tempo, toda a dificuldade que eu tivesse que viver seria experimentada logo de uma vez no começo da vida, de modo que me bastasse aguentar a pior parte de início para daí viver um melhoramento contínuo até o momento de partir deste mundo.

Talvez essa seja a realidade dos Eunucos em geral, e aqui falo num sentido estritamente espiritual daqueles que não casam e não têm filhos por quaisquer razões imediatas e que relacionam providencialmente essa realidade ao desígnio do Amor divino.

Ou seja, Eunuco é aqui entendido como alguém que por qualquer razão não casou e não teve filhos e que decidiu relacionar esse fato com um desejo de Deus que tornou a sua vida diferenciada por esta razão especial, obedecendo àquela instrução divina que ensinou: em tudo e o tempo todo dai glória a Deus.

Ora, o cristão já é convidado por Jesus a viver sob um fardo leve, livre da taxação do diabo através da mentira das religiões que reproduzem o Culto do Ouroboros da Tradição Primordial.

O Eunuco, entre os cristãos, é assim convidado para um fardo mais leve ainda, imitando não só o próprio Filho de Deus quando este encarnou como Filho do Homem, mas também os mais excelentes entre os Profetas e Apóstolos, tornando assim a sua vida desembaraçada das várias formas de ônus carnal que obstruem a clareza de consciência e devoção da vida espiritual.

Um Eunuco, afinal, é alguém liberado da participação na perpetuação carnal do Pacto Ouroboros, que é o veículo da manutenção do poder da Antiga Serpente sobre este mundo.

Obviamente, não casar e não ter filhos não são fatos que constituem uma virtude por si mesmos, já que a participação no Pacto Ouroboros é sempre uma adesão espiritual a uma traição contra o Amor de Deus sob quaisquer formas. Já dei até, em outra oportunidade, o exemplo de um Padre ou Pastor que recomenda e celebra tanto o casamento quanto a reprodução e que assim, mesmo sendo solteiro, participa com grande profundidade no Pacto Ouroboros, atuando como o Bispo no Sistema da Besta.

Ser Eunuco não constitui virtude automática, mas facilita o caminho para quem busca o Amor de Deus, e por isso fiz alusão a um fardo mais leve ainda àqueles que decidirem viver na aceitação desse fato por motivos exclusivamente espirituais.

Temos evidências escriturais da preferência divina pela renúncia às Obras da Carne, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Vejamos uma referência do AT:

Aos Eunucos que viverem na minha Presença, que escolherem o que me é agradável e se afeiçoarem à minha Aliança, eu darei na minha casa e dentro de minhas muralhas um monumento e um nome de maior valor que filhos e filhas; eu lhes darei um nome que jamais perecerá.” (Isaías 56:4-5)

E uma do NT:

Seus discípulos disseram-lhe: ‘Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!’ Respondeu Jesus: ‘Nem todos são capazes de compreender o sentido dessa palavra, mas somente aqueles a quem foi dado compreender. Porque há Eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há Eunucos tornados tais pelas mãos dos homens, e há Eunucos que a si mesmos se fizeram assim por amor ao Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.’ Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: ‘Deixei vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham.'” (Mateus 19:10-14)

Se eu precisasse deixar as coisas ainda mais claras depois de tudo isso, acho que não conseguiria.

O que nos importa é a clareza com tranquilidade e serenidade que se baseia na experiência humana que nós já temos das coisas do mundo e das coisas de Deus. Não é preciso muito misticismo, ao contrário do que alguns possam pensar, para concluir, com pura lógica amparada na confiança plena no Amor de Deus, que o homem cria para si todos os seus problemas, e que a nossa salvação consiste na renúncia às nossas mentiras e à uma entrega total ao amparo do Pai.

Ser Eunuco não garante nada, mas facilita certamente, e quem se viu nesta condição pelo império de forças maiores pode ter mais confiança ainda de que isto se dá por um recurso extraordinário da Misericórdia divina.

A Sagrada Família que a religião adora louvar e odeia imitar

Já falamos antes da grande diferença que há entre as Obras da Carne, personificadas no mito por Adão e Eva, e as Obras do Espírito, personificadas por Jesus e Maria. E já falamos que pelos frutos se conhecerá a árvore: quem segue Adão e Eva os imita e produz o mesmo que eles produziram, e quem segue Jesus e Maria os imita e produz o mesmo que eles produziram.

Essa diferença dos dois tipos de destino humano já mostra tudo o que precisamos saber sobre a essência da vida espiritual: a escolha humana se dá entre a obediência e a rebelião, entre a dependência do Amor divino e a busca do Poder de emancipação. De um lado aceita-se a exclusividade da santidade divina de criar, e do outro presume-se poder criar vida por procuração, e não qualquer vida, mas o tipo mais sagrado que pode haver na corporeidade da carne e do sangue.

A decisão humana de tomar o lugar de Deus sempre me parecerá assombrosa, por todos os lados em que eu a possa considerar. Não só espiritualmente, aliás, mas também psicologicamente: cá entre nós, como pode uma personalidade livre de qualquer narcisismo se achar boa o suficiente para criar uma vida humana? Eu SEI que não sou competente nem para cuidar de um cachorro, e que vou fazer injustiça ao animal. Mas de algum modo presume-se que eu deveria ter grandes pretensões, do contrário a minha vida não serviria para nada, afinal, de que vale uma alma fraca que é apenas capaz de glorificar o santo Nome do Eterno e confiar na sua Providência? Isso parece pouco.

Mas voltemos ao tema central.

Um fato igualmente impressionante, e que novamente corrobora a opinião muito razoável de que a nossa raça é cheia de traição e mentira, é o quanto se dissocia a virtude da Sagrada Família dos fatos que a sustentam espiritualmente. Será que toda a religião cristã é uma forma de esquizofrenia?

Senão vejamos: a religião cristã parece adorar o valor simbólico e totêmico, ou fetichista, da Sagrada Família, e ao mesmo tempo detestar a imitação do seu exemplo.

Pensemos nesta época do ano. É difícil entrar em uma galeria comercial, ou um shopping center, neste período natalino, e não encontrar presépios montados para mostrar a reunião da Sagrada Família. Nas escolas e em várias comunidades encena-se a Natividade, com o mesmo cenário e os mesmos personagens de sempre. E, é claro, nas igrejas celebra-se de várias maneiras o Advento, seguindo o calendário das festas. Tudo muito tocante, e não fosse o fato de que provavelmente Jesus não nasceu nesta época do ano (talvez tenha sido em Setembro, e há quem diga Março), já que a data de 25 de Dezembro foi uma escolha romana para substituir as festas pagãs com a mitologia cristã, não teríamos muito o que observar a respeito.

Mas eis que tudo o que a cena do nascimento de Jesus aponta espiritualmente é diretamente desprezado pelas massas religiosas.

Aquela Sagrada Família é composta de pessoas obedientes a Deus de uma maneira bastante peculiar e não acidental.

Em primeiro lugar temos José e Maria, que renunciam à realidade de um casamento ao modo convencional (a Tradição de Adão e Eva ensinada pelo Ouroboros) para obedecer a um desígnio divino. A tão venerada (ou até adorada?) Virgem Maria é, afinal, e não casualmente, uma virgem, e isso por alguma razão especialíssima. Maria faz o que Eva jamais quis ou conseguiu fazer: renunciar à sedução do Pacto Ouroboros, ao poder das Obras da Carne. Maria aceitou viver somente pela Graça do Altíssimo. Eva quis poder sobre o seu marido e sobre os seus filhos. Não lhe bastava amar a Deus como Pai e a Adão como seu irmão. Não, ela precisava ser esposa e mãe, e tudo por “amor”, claro. E pelos frutos conhecereis a árvore: da obediência e virgindade de Maria nasceu Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus encarnado Filho do Homem; já de Eva nasceu a traição e o assassinato. E antes que digam que de Eva não nasceu apenas isso, atentem para a realidade de que a cada geração é o Espírito Santo quem converte as almas à adoração do Deus verdadeiro, e não o costume da carne, como Jesus mesmo declarou a Pedro quando este o reconheceu com o Filho de Deus, bendizendo-o porque somente o Espírito Santo do Pai o poderia ter revelado, e não a carne e o sangue.

Em segundo lugar, mas não por último, temos o próprio Jesus Cristo que viveu para realizar o crescimento e a multiplicação do Espírito, e não da Carne: ensinou, curou, perdoou, amou plenamente. E nos ensinou a amarmos uns aos outros como ele nos amou, como IRMÃOS que somos uns dos outros, e não como instrumentos de Poder. Jesus nunca casou e nunca teve filhos, mas cresceu e multiplicou no Espírito, e sendo o Caminho, abriu as portas da filiação espiritual ao Pai, a quem veio revelar. Ele dizia: a minha família são estes que acreditam em mim. E desprezou diretamente todos os méritos da carne e do sangue, humilhando os judeus ao afirmar que até de pedras Deus pode fazer filhos de Abraão. Jesus fez o que Adão jamais quis ou pôde fazer: renunciou a todo o poder sobre o mundo quando resistiu à última tentação da Serpente, poder o qual aliás ele tinha a autoridade real de reivindicar, bem ao contrário de Adão que fez pacto com a Serpente e traiu o Amor de Deus. A religião de Jesus era perfeita: não deixou viúva ou órfão, e amou até o fim quando deu à sua mãe o Apóstolo Amado como filho, e a este àquela como mãe.

Eis a Sagrada Família na sua virtude: Jesus, Maria e José, amantes verdadeiros e cheios do espírito de renúncia ao Poder ilegítimo.

Essa Sagrada Família é muito venerada na sua IMAGEM, já que como em qualquer religião, também na religião cristã o que se pratica é idolatria. Muitos “cristãos” louvam não o exemplo de virtude e santidade da Sagrada Família, mas a sua imagem de virtude e santidade, e para isso produzem todo tipo de arte humana que sustenta o poder da Tradição Primordial: esculpem, pintam, compõem músicas, cantam, atuam, etc.

Fazem tudo, tudo menos imitar a Sagrada Família.

O que importa é desprezado, isto é, a substância da vida espiritual, o viver na Presença de Deus com confiança na exclusividade do Amor divino.

Enquanto isso tudo o que tem a aparência e a imagem da santidade é adorado, venerado e louvado, como se por efeito mágico a conexão com esses ícones produzisse um efeito espiritual independentemente do sentido real da vida do crente, exatamente como ocorre com qualquer tipo de idolatria pagã, como com o totemismo, o fetichismo, etc., na total ignorância da realidade espiritual humana que diz respeito exclusivamente à crença livre no interior dos corações, independentemente das aparências das coisas.

Se aparecer uma pessoa pronta a viver de acordo com o exemplo real da Sagrada Família, enquanto desprezar o culto religioso de imagens, esta será considerada no mínimo estranha, senão mesmo como antagonista da vida cristã.

O que nos resta é amar a verdade e buscá-la incessantemente, desprezando as aparências e ligando-nos à realidade do sentido espiritual de tudo o que vivemos. Este é o meu conselho: saiamos dessa coletividade, desse grupo de mentirosos. Não temamos pela solidão.

Reparem bem: não estamos sozinhos quando confiamos no nosso Deus e nos movemos por amor à verdade. Os enganados são aqueles que se aglomeram, achando que sua imitação ao costume lhes empresta virtude por osmose. Estes estão muito mais sozinhos do que imaginam, e talvez suspeitem disso no fundo de suas almas, isto é, se não acreditam totalmente em sua própria mentira.