Um tema recorrente volta à minha mente nestes dias, e evidencio essa repetição quando penso, por exemplo, em fazer análises e comentários a certos filmes e séries que assisti recentemente (O Iluminado, Drácula de Bram Stoker, e White Lotus): o tema da inocência da mulher, e do dever espiritual do homem.
Quem me conhece sabe que não costumo ligar muito para a temática do gênero, ou pelo menos não costumava até receber algumas influências, como da filosofia de Weininger.
Mas a própria Bíblia nos chama a uma reflexão sobre essa diferenciação naquela importantíssima passagem de Gênesis, Capítulo 3, quando a Maldição é distinta aos praticantes da traição contra o Amor divino. A mulher, particularmente, é condenada às dores do parto, e mais, “teu desejo te impelirá ao teu marido, e ele te dominará“.
Isto quer dizer que o domínio do homem sobre a mulher não é natural, ao menos não no sentido da realidade preternatural do Éden, no Paraíso inicialmente designado por Deus. Esta relação de domínio já é determinada por uma situação de decaimento espiritual, como consequência da rebelião contra Deus.
E assim como o homem desde Adão tinha a responsabilidade de servir como testemunha da Redenção, ele continuará sendo o responsável por isso até o Fim do Mundo.
Estamos entrando na Semana Santa, e assim nos convém lembrar do seguinte: com a exceção do discípulo amado, o jovem João, quem ficou com Jesus até a morte? Quem alcançou esse grau de fidelidade? Foram as mulheres, especialmente as Três Marias: a sua mãe, Maria Madalena, e Maria de Cléofas.
Qual é a mensagem por trás dessa realidade?
Quando recebe a oferta da verdadeira Redenção, aquela que Jesus ofereceu, qualquer mulher é capaz de ser fiel a Deus: tanto a Virgem, quanto a Prostituta, quanto a Esposa e Mãe. Esse é o nível da universalidade da Salvação, do poder do Amor divino, para todos os casos de desobediência e de envolvimento com as mentiras do Ouroboros.
Os grandes traidores, por outro lado, são todos homens, Adão, Judas, e o Anticristo, vilões com outros planos, incapazes de se render ao Amor divino.
Simbolicamente, a força ascendente, o Masculino, é freado e impedido de completar seu curso pela força descendente, o Feminino, que lhe seduz e prende abaixo. Esse objeto que gera a força descendente, porém, é sem forma própria, pois representa uma pura possibilidade. É Eva antes da Queda: pode ser irmã e amiga, tanto quanto esposa e mãe. A determinação da forma sedutora é gerada pela vontade masculina. Essa mesma vontade pode desejar a ascenção e a redenção, ou a traição e a decadência. A mulher acompanha a decisão masculina, e toma a forma produzida pelo idealismo do homem. É assim que o Ouroboros destrói o homem: ele faz este desejar a realização de seu poder de usurpação, e a falsa imortalidade das Obras da Carne. E a mulher é o objeto da realização desse poder, não porque possua essa forma, mas porque possui a característica passiva de aceitar qualquer forma idealizada por aquele a quem quer agradar, o homem. Isso se dá por razões metafísicas, porque para que a Liberdade seja real, é preciso que a possibilidade da rejeição do Amor divino seja real. Por isso essa qualidade indeterminada do Feminino serve para a realização da vontade do Masculino. A qualidade dessa relação entre os elementos ativo e passivo não alteram, porém, a integridade da liberdade tanto do homem quanto da mulher. A mulher continua livre e responsável, tanto quanto o homem, por sua própria decisão. Mas ela não é responsável por dar-se uma solução que só pode ser eminentemente idealizada pelo homem. Assim, Eva errou ao ouvir e crer na Serpente, mas ela não se deu essa falsa imagem da verdade. E na sua inocência ela poderia (e deveria) ter sido corrigida pelo testemunho redentor de Adão, se ele tivesse esse desejo. A partir da iniciativa do homem, de sua idealização, a mulher livremente escolhe assentir ou rejeitar, mas ela não cria por si mesma os elementos da sua decisão, que lhe são postos. Eva, culpada por ouvir e acreditar na Serpente, foi submetida à vontade do homem, mas este também foi culpado por ouvir e acreditar em sua mulher. As duas liberdades existem, mas a hierarquia das responsabilidades é clara.
Isso se confirma hoje mesmo, até depois das revoluções liberais dos costumes. O que faz afinal a feminista que quer se libertar de Gen 3? Ela apenas confirma a sua submissão espiritual, querendo ser como o homem, seguindo o seu guiamento moral em busca de emancipação, independência, poder, prestígio, etc. Ela está imitando o homem, está se guiando pelo exemplo dele. Ele quer poder? Ela quer poder. Ele quer fama? Ela quer fama. Ele quer prazer? Ela quer prazer. Ele quer dinheiro? Ela quer dinheiro.
E se ele quiser a santidade, ela também vai querer. Mas ele precisa querer antes.
A sedução da Serpente faz o homem desejar a emancipação do Amor divino e enxergar na mulher o objeto de realização do seu desejo.
O Hexagrama representa a prisão dos sexos pelo Ouroboros, e o Pentagrama representa a consumação da Queda, o antropoteísmo, a traição e a usurpação, especialmente na consecução do Pecado Original.
O homem é o responsável por realizar esse pacto com a Serpente, e por usar a mulher para a sua finalidade de traição e usurpação. Já apontei como até nos elementos da fecundação nós temos o simbolismo natural dessa relação de poder entre o homem e a mulher, comparando o sentido de vontade ativa representado pelo sêmen, e o sentido da receptividade passiva representado pelo óvulo.
Por mais que a mulher queira a sua liberdade, a Serpente a envolveu no Pacto Ouroboros de tal modo que sua luta é incessante e não tem fim até que o homem, o grande responsável por escolher a usurpação ou a redenção, se digne a mudar de idéia com relação às suas cobiças e ganâncias. Gerando filhos vítimas desse mesmo Pecado Original, as mulheres sofrem: querem seus filhos livres (a “linhagem” da mulher), e pisam a cabeça da Serpente, mas voltam a se submeter aos estúpidos falsos idealismos dos homens, seus pais, maridos e filhos (a “linhagem” da Serpente), e então a Serpente morde seus calcanhares. A linhagem da Serpente é a dos traidores e usurpadores, dos algozes do Pacto Ouroboros, e a linhagem da mulher é a das suas vítimas.
As Três Marias que ficam até o fim com Jesus mostram o que a mulher realmente quer: o testemunho da Salvação, da sua Redenção verdadeira.
Mas dignar-se-á o homem a dar o primeiro passo?
Libertar-se-á ele da sedução da Antiga Serpente, ouvindo o chamado de Jesus?
Em Êxodo, Capítulo 20, na descrição do conteúdo do Primeiro Mandamento, Deus diz a Moisés que este não deve ter outros deuses diante Dele, e que Ele é um Deus ciumento.
Esse termo já causou alvoroço por causa de interpretações equivocadas, antropomórficas, que subverteram um sentido teológico bem mais preciso e na verdade inquestionável: Deus não divide a sua Glória com ninguém. Se dividisse Ele não seria Deus Criador, mas um mero participante na Criação, ainda que o mais eminente entre todos os criadores. Isso serve para desfazer a mentira luciferina de que exista uma cocriação, ou subcriação, de modo que Deus não seja um Criador Absoluto. Metafisicamente entendemos que mesmo numa série causal total, onde se consideram todos os elementos do primeiro ao último e onde se entreposicionem o que chamamos de causas intermediárias, a Causa Primeira é suficiente e exclusiva no seu movimento criativo. Isto quer dizer que em qualquer série completa de movimentos nenhum efeito pode ser atribuído a nenhuma causa exclusivamente senão ao Único Criador, o Absoluto, e que todas causas parciais podem ser partícipes sob aspectos, mas nunca condicionantes de qualquer efeito, como se Deus dependesse de algo. Um Deus dependente não é o Deus de Êxodo 20. Mas pode ser o “deus” dos satanistas, por exemplo.
Não vou nem falar da metafísica monadofílica, onde todos os agentes intermediários são na verdade partes do objeto da Percepção, e a única causa é a intelecção pura provinda do Logos divino. Isso não é necessário, e poderia soar estravagante demais para certas mentalidades. Êxodo 20 deveria ser suficiente.
Infelizmente muitos cristãos parecem perder essa noção mais básica, se é que essa noção da exclusividade da Substância divina ainda faz parte da mentalidade cristã. Para a vergonha dessas religiões ocidentais, parece-me que ao menos nesse aspecto até mesmo o Islam possui uma teologia superior. Grande vergonha!
Mas essa minha reflexão saiu de uma recente experiência de reassistir o filme O Retorno do Rei, o terceiro da trilogia de O Senhor dos Anéis.
Pude então observar muito claramente como a teoria subcriacionista de Tolkien, que afirma justamente uma divisão da glória da entidade que deveria representar o Deus único, Eru Iluvatar, dá o testemunho da legitimação da Mistura.
Não entrarei em maiores detalhes por enquanto, porque esta não é uma análise espiritual dos filmes, e nem dos livros. Isso pode ser deixado para depois.
Por enquanto basta-nos observar, precavidos, como o mero simbolismo das duas árvores no Silmarillion, Telperion e Laurelin, algo que é frequentemente lembrado nas mais diversas formas artísticas dentro da obra tolkeniana, representa a Dualidade da Mistura. E podemos catar, aqui e ali, exemplos claríssimos da legitimação da Mistura em partes do filme (e creio que podemos encontrar análogos nos livros), como quando Gandalf critica a elite de Gondor, ou quando Arwen diz a seu pai que além da morte, “também há vida”. Tudo isso deveria constituir evidência suficiente do papel de Tolkien como Bispo no Sistema da Besta, a quem tenha o mínimo da graça do dom da Vigilância.
Futuramente podemos nos aprofundar tanto nos livros quanto nos filmes, e checar tudo isso em maiores detalhes.
Nascido em 1646 e morto em 1716, Leibniz foi grande, mas consumiu-se em projetos talvez grandiosos e otimimistas demais. A combinação de extraordinárias diligência, tenacidade, inteligência e positividade o levaram talvez mais longe do que o que seria prudente se ele fosse um pouco mais realista. Ele não quis sacrificar e comprometer duas coisas muito tentadoras para um intelecto do seu porte: a exploração das muitas possibilidades ramificadas de entendimento, e a qualidade do trabalho intelectual. Entre fazer pouco bem feito e fazer muito mal feito, ele quis fazer muito e bem feito, e por isso era comum que começasse mais coisas do que podia terminar.
Felizmente, para nós, ele não nasceu na nobreza alemã. Isso permitiu que ele fosse forçado a provar seu valor por mérito. Por temperamento, é fácil vê-lo perder-se com uma vida mais fácil: como mero diplomata e cortesão, fazendo as duas coisas que ele mais amava, acima até do trabalho intelectual, ou seja, viajar e visitar os amigos.
O contexto político e religioso de sua vida foi o das terríveis guerras de religião que assolaram a Europa até que o secularismo finalmente vencesse, isto é, até que o messianismo milenarista da Igreja Católica fosse forçado a enclausurar-se dentro dos muros do Vaticano. Leibniz trabalhou muito para que a Europa vivesse em paz, como advogado, jurista, inventor, cientista, diplomata informal, ministro sem pasta e finalmente como filósofo de primeiro calibre.
A respeito do poder intelectual de Leibniz, até hoje posso afirmar: não encontrei uma inteligência superior a dele ou à de Aristóteles na forma do testemunho de suas obras.
A biografia desse filósofo mostra como intelectos de uma certa potência não cabem direito dentro das estruturas sociais. Provavelmente a maior vantagem de Leibniz foi a de explorar o seu autodidatismo desde cedo, principalmente com a descoberta da biblioteca do pai aos 8 anos de idade, ainda em Leipzig, por influência do incentivo de um desconhecido que recomendou a abertura do acesso à criança, que tinha então seus 8 ou 9 anos de idade. Uma inteligência superior ganha muito com a possibilidade de ensinar-se a si mesma os assuntos que lhe interessam, pois não precisa passar pelo gargalo de aprender com mentes mais lentas ou menos capazes: pode logo dirigir-se aos melhores testemunhos que seria capaz de absorver, e no limite da velocidade de sua capacidade. Até hoje a maneira correta de incentivar esses intelectos superiores parece ser dificultosa, e esses raros indivíduos acabam por ter que descobrir por si mesmos como lidar da melhor forma com seus dons. os sistemas coletivos são feitos para a média, isto é, para o medíocre, e por isso mesmo essa realidade social se torna opressiva e torturante para as inteligências mais capazes. A Providência, porém, não deixou de guiar Leibniz desde cedo, começando pela intervenção desse misterioso desconhecido.
Para além das particularidades mais imediatas da vida intelectual do jovem Leibniz, há a força maior da influência dos esquemas políticos e sociais do seu ambiente que acabaram por contribuir na formação de seu pensamento. O ideal da Unidade da Verdade foi um dos frutos dessa força: é o princípio por trás da idéia do Sacro Império Romano, a unidade do Cristianismo (entre Católicos e Protestantes), e também o da unidade da Filosofia (Antigos e Modernos), para não falar da unidade entre Ciência e Teologia. Leibniz estava, como disse Olavo em sua História Essencial da Filosofia, “no olho do furacão”. Ele aprende com os antigos e escolásticos medievais tanto quanto com todos os modernos filósofos e cientistas do Iluminismo. Ele se recusa a acreditar numa verdade como posse de qualquer grupo filosófico, ou como parte de uma época da História, assim como crê que o Cristianismo universal transcende todas as igrejas, inclusive a romana. Este ponto de vista sempre foi uma grande vantagem intelectual para Leibniz, porque ele se permitia aprender com todo mundo. Diante da perda de tempo dos sectarismos, ele largava sempre na frente.
O objetivo de Leibniz em sua vida ficou claro desde cedo: glorificar a Deus e melhorar a condição da vida humana, dois propósitos que para ele significavam sempre a mesma coisa. Este seu progressismo fazia e faz sentido até hoje, pelo menos na teoria, no sentido de que quanto melhor viverem os seres humanos, mais estariam livres e dispostos para reconhecer as coisas divinas. Na realidade, porém, ocorre uma dispersão muito maior da atenção humana com suas vantagens técnicas e econômicas, o que parece ter escapado de Leibniz, que não era muito ligado ao sentido mais místico e contemplativo da vida espiritual. Era um homem de ação, e ambicioso. E não nos enganemos, com isso ele também desejava obter a sua própria glória científica, num espírito até certo ponto benéfico de uma boa ambição temporal. No aspecto mais decadente de sua alma, Leibniz podia se perder indefinidamente com a rotina de um diletante, cortesão e viajante. Observamos essa luta na sua alma, entre a produtividade intelectual e o dolce far niente.
Vamos agora ler algumas passagens interessantes da obra:
Tradução livre:
“Em sua obra Formação das Reflexões para o estabelecimento de uma Academia ou Sociedade na Alemanha para a Promoção das Artes e Ciências Leibniz revelou o mais profundo fundamento desse projeto de teologia, metafísica e ética. Em suma, o avanço da ciência seria feito para a glória de Deus, o que coincidia com o bem comum. O avanço do nosso conhecimento da natureza aumentava nossa consciência da harmonia universal em operação na natureza e celebrava o reflexo na natureza da perfeita harmonia do poder, sabedoria, e amor na própria natureza divina. Nossa consciência da perfeita harmonia da natureza divina por sua vez sustentaria nosso amor a Deus; e o amor a Deus constituiria nosso maior bem. Por essa razão, ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ é ‘nada mais que amar o bem comum [amare bonum publicum] e a harmonia universal’. Esse amor deve assumir a forma de uma atividade prática: deve ser um ‘amor eficaz’ (caritas efficax) que é encontrado na realização de ‘boas obras’ (bona opera). Realizado neste espírito, o avanço da ciência celebrava o poder de Deus, sua sabedoria e seu amor, não apenas através de uma contemplação teorética da beleza da Sua criação, mas também através da aplicação prática do conhecimento para promover o bem comum. Até o fim de sua vida, escrevendo em 16 de Janeiro de 1712 para o chanceler russo, Gavriil Ivanovic Golovkin, Leibniz resumiu esses compromissos de vida, declarando que desde sua juventude ele quis contribuir para a glória de Deus através do avanço das ciências.“
Vejamos parte a parte.
Primeiramente, a glorificação de Deus coincide com a promoção do bem comum? Apenas acidentalmente. Aqui Leibniz confundiu a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens, algo ainda bem possível no bojo de uma vasta influência remanescente da ideologia católica, milenar, messiânica e totalitária, herdada por sua vez do judaísmo. A Salvação não é a instauração do Reino de Deus na Terra, mas é a Ressurreição. A visão espiritual de Leibniz é religiosa. Mas isto não quer dizer que acidentalmente não possamos enxergar no progresso humano a habilitação prática de uma humanidade com a potência do desenvolvimento espiritual. Mas isto é indireto. O avanço técnico, prático, econômico e social leva a uma maior liberdade individual, e isto sim pode, em tese, melhorar a condição para o exercício mais pleno da vida espiritual.
Em segundo lugar, a ampliação do nosso conhecimento da natureza amplia o conhecimento da harmonia divina da realidade? De novo, apenas acidentalmente. Parece que o nosso filósofo está medindo a humanidade com sua régua. Claramente, como já vemos na Bíblia em diversas partes, e mesmo na denúncia específica do Apóstolo Paulo, há aqueles condenáveis por possuírem a ciência da obra e mesmo assim ignorarem o seu Criador. Para a inteligência de Leibniz a necessidade de honrar a Deus mediante a observação do ordenamento divino da realidade é um processo natural e inegável. Mas isto é ingenuidade, aquela mesma ingenuidade das Filhas do Rio que não acreditavam que alguém seria estúpido o suficiente a ponto de amaldiçoar o Amor para roubar o Ouro do Reno. É um otimismo exagerado, que não quer enxergar a profundidade da traição humana contra Deus, e o costume derivado dessa traição no seio da cultura, inclusive e principalmente a cultura religiosa. Isso me faz simpatizar muito com ele.
Já sobre a questão do valor do valor prático dos conhecimentos em contraste com uma atividade mais contemplativa, isso refletia o temperamento de Leibniz, mais ativo e sanguíneo, o que o dispensava de compreender com profundidade o valor de uma vida interior menos envolvida com o progresso da civilização. Isto não quer dizer que Leibniz não estivesse enganado em seu otimismo ingênuo com relação à idéia da Humanidade como um todo. Era um dos piores defeitos de sua weltanschauung.
Outro trecho:
Tradução livre:
“Essa exortação da nação alemã não estava dirigida a promover um nacionalismo estreito. Evidência de um desígnio muito mais abrangente está contida num texto memorável escrito por volta de 1669 em que Leibniz concebeu na Societas Philadelphica o objetivo proposto que era o de ‘promover a utilidade para a humanidade (acima de tudo através da medicina)’. Perseguindo este objetivo, o trabalho colaborativo de uma sociedade traria infinitamente mais frutos do que os esforços de indivíduos ou até mesmo de nações individuais, que Leibniz comparava a ‘arena sine calce’ (‘areia sem cal’). Essa sociedade deveria abarcar divisões religiosas e políticas, abarcando o Imperador e o Papa, o Rei da França, os grandes e pequenos principados alemães, a inglesa Royal Society, a Companhia Holandesa das Índias Orientais, e as ordens religiosas de estudos. A Sociedade de Jesus em particular provia um modelo para uma sociedade internacional, com a diferença crucial de que a nova fundação proposta por Leibniz não teria natureza confessional. Ao contrário, era modelada para preparar a reconciliação das Igrejas cristãs de acordo com uma idéia mais desenvolvida num texto do mesmo período que descrevia a Societas Confessionum Conciliatrix.”
Essa é uma espécie de síntese da ingenuidade leibniziana, na total ignorância do sentido e da repercussão histórica de Gen 3, do sentido do humanismo da Torre de Babel, bem como do sentido do Apocalipse, e de Deus que fará novas “todas as coisas”.
Esta biografia de Leibniz coteja os pensamentos do filósofo com as circunstâncias de seu trabalho intelectual, como é sempre devido para mostrar a realidade de qualquer pensador. A importância das conexões de Leibniz com seus patronos nunca pode ser diminuída.
Por exemplo, numa dada época, com as mortes do Barão von Schönberg (diplomata da Saxônia, morto em 1669) e depois Boineburg (conselheiro do Eleitor de Mainz, morto em 1672), Leibniz subitamente perde seus principais apoiadores.
Leibniz não consegue estar onde quer, e nem fazer o que quer. Nem Paris, nem Londres: a corte de Hanover é o destino de um alemão sem origem nobre. Por outro lado, a mistura das ambições puramente teoréticas, especialmente as filosóficas, com as mais mundanas, políticas e econômicas, certamente diminuíram a contribuição leibniziana para a Humanidade, o que é irônico porque gerou o resultado exatamente oposto ao desejado pelo filósofo. A escala do gênio de Leibniz possivelmente escapou a ele próprio. Querendo ser grande em seu tempo, não percebeu como poderia e que seria grande para todos os tempos. Mas entendemos o ser humano na sua circunstância: Leibniz sempre precisava trabalhar no desenvolvimento de meios de sustentação de seus projetos intelectuais, e esses meios eram essas ocupações intelectuais secundárias. Mas até que ponto o dinheiro servia apenas às causas puramente intelectuais, e a partir de que ponto servia também aos interesses particulares do próprio Leibniz? Em seu auge, sua renda alcançava o que hoje equivaleria a uns R$ 2,5 milhões por ano, e ao morrer ele teria deixado ao menos o dobro disso para seu único herdeiro, um sobrinho. E que fique claro: o problema não é a renda ou a propriedade de qualquer montante, mas o custo existencial para a formação dessas rendas e propriedades.
A forma mais concreta do seu comprometimento foi a ambição de financiar um projeto coletivo de progresso científico e cultural, o que o fez dedicar muito tempo para o problema do aumento das rendas do principado de Hanover, especialmente com os projetos ligados à mineração de prata em Harz, e depois finalmente da ambiciosa pesquisa histórica da dinastia da Casa Braunschweig-Lüneburg (Guelfos). Muito tempo e energia foram dedicados a essa ambição de ganhos financeiros como meios para alimentar a outra ambição, a de institucionalizar um organismo estatal de pesquisa e desenvolvimento. Qual teria sido o resultado, por exemplo, para a Metafísica, se Leibniz tivesse dedicado toda a sua capacidade para esse âmbito específico do conhecimento?
Mas Leibniz não é Descartes, nem Kant, e nem Espinosa: ele não queria apenas explorar sua própria alma e as verdades transcendentes, mas queria explorar todo o mundo concreto, viajar, travar conhecimentos com os poderes estabelecidos, interferir no curso da história, etc. Não queria aumentar seu entendimento individual. Queria que todos o acompanhassem, como um projeto coletivo, social, nacional e até internacional para toda a Cristandade (para não dizer o mundo, como mostra o seu entusiasmo com a China). Isso certamente diminuiu a eficiência de seus projetos. Leibniz colecionou muitas frustrações, mas curiosamente nada parecia desanimá-lo. Era muito enérgico e disposto, com uma capacidade aparentemente inesgotável de se dedicar ao trabalho.
Vejamos outro trecho:
Tradução livre: “Durante todo este período, debaixo do nível visível e impressionante das várias atividades públicas de Leibniz, um nível mais privado provia as motivações profundas de seus projetos orientados para a prática, e de sua busca por um patronato esclarecido. Essa dimensão mais profunda consistia de seu plano enciclopédico de máxima abrangência de reforma e avanço das ciências para a promoção do bem comum –o plano que ele considerava ser a celebração da glória de Deus como expressa na harmonia universal que governa a Sua criação. Como ele escreveu em 1678, ‘todas essas coisas estão conectadas e devem ser dirigidas ao mesmo objetivo, que é a glória de Deus e o avanço do bem comum através de criações úteis e belas descobertas’. E de novo em 1699: ‘Contribuir para o bem comum e para a glória de Deus é a mesma coisa. Parece que o objetivo de toda a humanidade deveria ser acima de tudo nada além do conhecimento e desenvolvimento das maravilhas de Deus, e foi por isso que Deus deu à humanidade o domínio sobre este globo.”
Leibniz claramente ignora o sentido espiritual da última tentação de Cristo, bem como a declaração de Jesus de que ele “venceu o mundo”, para não falar de muitas outras verdades evangélicas óbvias. Isso não diminui o valor parcial de seu entendimento, de que o bem comum serve a Deus de algum modo, mas esse tipo de progresso não altera a condição da liberdade espiritual humana, e nem modifica a predisposição das almas para suas escolhas particulares.
Não devemos nos enganar sobre a visão de Leibniz sobre o Evangelho: ela é religiosa. Não há a menor chance de este filósofo considerar o sentido mais profundo da Queda em Gen 3, nem a possibilidade do Sistema da Besta. Infelizmente o seu otimismo não tinha apenas aplicações metafísicas, que incentivariam o idealismo transcendental, mas também repercussões históricas em vastos planos para a Cidade dos Homens, que incentivam o idealismo imanentista, o que converte esse seu otimismo filosófico em ingenuidade espiritual. Ainda que mantivesse sua confissão luterana, seu coração era ideologicamente católico, no sentido da universalidade da Civitas Dei na sua forma temporal (a própria Igreja institucionalmente estabelecida ao lado do Sacro Império Romano), e na verdade na idéia da fusão das suas cidades. Ele só não se converteu à religião de Roma porque fazê-lo implicaria em renunciar à esperança do ecumenismo, e porque no fim sabia de algum modo, como veremos, que a igreja romana era totalitária e contrária a liberdade do homem. Do ponto de vista prático, por que ele se preocuparia em modificar sua confissão, se essa particularidade fosse espiritualmente indiferente diante de Deus? E motivos práticos para sua conversão não faltavam, por certo. No seio do Sacro Império Romano, servia a tantos católicos proeminentes, que só poderia ter vantagens: Schönberg, Boineburg, Johann Friedrich, etc., para não falar de seu interesse em fazer boa imagem na poderosa França católica de Luís XIV, bem como na grande Viena de Leopoldo I. Realmente podemos constatar a fidelidade de Leibniz ao ideal se suas Demonstrationes Catholicae. Um homem menos honrado teria abandonado o luteranismo.
Mais um trecho:
Tradução livre:
“Essa concepção da verdade e do conhecimento como envolvendo uma redução analítica de proposições e conceitos complexos à proposições idênticas e conceitos primitivos explica porque Leibniz perseguiu tão energicamente a identificação dos conceitos primitivos das quais todas as verdades são formadas em última análise. Daí a sua incansável compilação de listas de tais conceitos e de cadeias de definições que eram dedicadas para formar o ‘alfabeto do pensamento humano’ defendido desde pelo menos 1668 na Dissertatio de Arte Combinatoria.
A identificação desses conceitos era também um passo na direção do desenvolvimento da characteristica universalis. Tão logo esses conceitos (ou pelo menos o máximo possível deles) fossem encontrados, as tarefas subsequentes seriam a identificação dos ‘caracteres’, ‘signos’ ou ‘símbolos’ apropriados para representá-los e a formulação das regras para a sua correta ‘combinação’. O desenvolvimento da characteristica universalis tinha portanto tanto um aspecto analítico (levando à identificação dos conceitos primitivos) quanto um aspecto sintético e ‘combinatorial’.”
A apreciação desta intenção filosófica de Leibniz é clara para quem quer que tenha trabalhado com a descrição de uma visão universal da realidade, ou seja, com uma Filosofia no sentido mais estrito. A combinação da clareza com a simplificação até o limite é uma obsessão natural e inescapável de quem deseja contemplar o Ser com a máxima fidelidade, bem como a produção de uma linguagem cada vez mais apropriada a essa visão é uma busca igualmente incontornável.
O que deve parecer óbvio a quem quer que seja é que a ambição intelectual de Leibniz só poderia ser realizada através de um imenso aparato coletivo, o que justifica a sua busca incessante por um patronato rico e poderoso, um grande principado esclarecido. Mas Leibniz possivelmente ignorava que a qualidade de tal trabalho exigiria algo ainda mais difícil que um patrocinador poderoso: intelectos abrangentes como o dele próprio. Afinal, a Europa de então tinha fortes candidatos a essa função de patronato, seja o Rei da França, o Rei da Inglaterra, o Rei da Prússia, ou mesmo o Czar. Mas quantos Leibniz existiam nessa mesma Europa?
Outro trecho:
Tradução livre:
“Apenas Deus –que (como ensina a tradição) não precisa da razão discursiva ou demonstrativa típica de seres limitados, mas que sabe tudo por um conhecimento intuitivo adequado– vê imediatamente a contenção do predicado no sujeito em todos os tipos de proposições, inclusive as contingentes:
‘E aqui se descobre a diferença escondida entre verdades necessárias e contingentes, o que não é fácil de entender para quem não entende ao menos os rudimentos da matemática. Em proposições necessárias, é claro, qualquer um alcança uma equação idêntica pelo meio da análise continuada até certo ponto; e isso é precisamente o que significa demonstrar a verdade com rigor geométrico. Nas proposições contingentes, porém, a análise procede infinitamente [in infinitum], através de razões de razões [per rationes rationum], de maneira que nunca há uma demonstração total; ainda assim, a razão [ratio] da verdade sempre subsiste, ainda que só possa ser conhecida perfeitamente apenas por Deus, que sozinho pode percorrer a série infinita numa intuição singular.’
Essa doutrina da análise infinita marcou um desenvolvimento chave no pensamento de Leibniz. Embora, por um lado, ela foi introduzida para dar conta da distinção entre verdades necessárias e contingentes, por outro lado, ela apontava para a sua identidade estrutural. No caso de ambas as verdades, necessárias e contingentes, o predicado está contido no sujeito, mas enquanto a demonstração dessa contenção está disponível para nós apenas no caso das verdades necessárias, tal demonstração não é possível no caso das verdades contingentes desde que elas envolvem o infinito. Este é o motivo pelo qual seres humanos nunca poderão conceber o conceito completo correspondente a uma substância individual, e porque o adequado conhecimento de substâncias individuais está disponível apenas para a mente infinita de Deus.”
A contenção do predicado no sujeito corresponde à operação intelectual, na Mônada, da Percepção do reflexo de si mesma. Leibniz já estava na pista de uma metafísica muito mais avançada do que a sua época podia conceber, ou mesmo que até hoje se possa. Mas o componente moral dessa inteligência continua oculto: o da premissa de que o Intelecto infinito possuidor da intuição da Unidade é bom e, portanto, confiável. Essa não era a investigação de Leibniz, porque a teologia revelada da sua época deveria pressupor tal virtude como premissa, mas é nossa obrigação observar como uma coisa não funciona sem a outra, ou ainda, como pensaria Sócrates: sem virtude não existe conhecimento.
A seguir, vejamos mais um trecho relevante:
Não poderei traduzir este trecho completo, mas o deixo à disposição para consulta. A linguagem diádica, ou binária, que Leibniz desenvolveu nada mais significou do que a recuperação daquela antiga investigação iniciada no Ocidente por Pitágoras, e então continuada por Parmênides, Platão e Plotino, da relação entre o Uno e o Múltiplo. Segue a tradução livre das partes mais importantes do trecho acima, palavras do próprio Leibniz:
“Pode bem ser que uma única coisa é concebida através de si mesma, nomeadamente o próprio Deus, ao lado da qual não há nada, ou a privação. Isto é esclarecido por um admirável símile. Quanto contamos, nós geralmente usamos o sistema decimal, de modo que quando chegamos a dez, nós reiniciamos à partir da unidade. Que isso é conveniente, eu não disputo agora; enquanto isso, eu vou mostrar que é possível usar em seu lugar um sistema binário… Não tocarei agora nas imensas vantagens desse sistema; é o suficiente notar de que modo maravilhoso todos os números são expressos assim através da unidade e do nada.”
“Desde que todos os espíritos são unidades, poder-se-ia dizer que Deus é a unidade primordial expressa por todas as outras de acordo com suas capacidades. Sua bondade o moveu a agir, e há nele três primícias, o poder, o conhecimento, e a vontade; disso resulta a operação ou a criatura, que é variada de acordo com diferentes combinações da unidade com o zero, isto é, do positivo com o privativo, desde que o privativo não é nada além de um limite, e há limites por toda a parte na criatura tanto quanto há pontos por toda a linha.”
A privação de Ser não o possui, mas o limita na forma substancial da operação da Mônada criada que intelige e apetece parcialmente a totalidade da Unidade. Toda operação intelectual e volitiva fora do ser divino se dá pelo limite em face do Ser divino, tanto quanto o Múltiplo deriva do Uno, etc. Isso não é exatamente uma novidade, e Leibniz sabia disso, mas a novidade vem da intuição de uma nova metafísica mais radical que continue a depuração iniciada desde os primeiros antigos, até as últimas consequências. Em suma, além de contribuir com pesquisas científicas e tecnológicas com a sua intuição da linguagem binária, Leibniz faz a ponte da pesquisa da relação entre o Uno e o Múltiplo de modo que essa intuição filosófica atravesse as mutações da histórias e possa alcançar o tempo moderno.
Vejamos mais um trecho:
Aqui o que importa é a expressão de Leibniz em resposta ao trabalho de John Locke: “não há nada no intelecto que não estivesse antes nos sentidos, exceto pelo próprio intelecto“. É uma correção educada da estupidez de uma filosofia materialista, assim como depois ele corrigiria Berkeley ao afirmar que o corpo pode não existir como substancial por si mesmo, mas não deixa de existir como objeto da nossa percepção, o que é suficiente para que exista de algum modo, algo óbvio. Percebe-se assim como Leibniz estava filosoficamente posicionado como um adulto no meio de crianças, tentando ensinar a ler, escrever, pensar, etc. Mas talvez o seu primeiro aluno realmente capaz viria só com Kant.
Vejamos mais um trecho:
Aqui o que interessa é a sua idéia de “propagação da fé através da ciência”, um eco moderno da idéia medieval da philosophia ancilla theologiae. Nesse contexto, traduzindo o trecho final, para este plano “o diádico em particular oferece seu simbolismo da criação ex nihilo e sua poderosa conexão com a metafísica das mônadas ou ‘unidades reais‘”. Estou convencidíssimo disso, especialmente do potencial que a hipótese monádica oferece para destruir racionalmente todo tipo de idolatria. Nesse sentido, essa metafísica da Mônada é como a tradução filosófica do conteúdo espiritual do Primeiro Mandamento.
E vejam que todo o desenvolvimento desse potencial da linguagem binária se dava no contexto de uma abrangente reflexão matemática diante da qual a chamada “guerra do cálculo” com Newton não era mais do que uma nota de rodapé irritante.
Para além do que pude observar num livro anterior sobre o tema da disputa sobre a invenção do Cálculo, parece que a polêmica foi mais alimentada pela ação dos do lado de Dover do que do lado de Calais. Leibniz simplesmente tinha mais o que fazer. Esta pode ser a diferença decisiva: Newton parece se ocupar trabalhando para a glória de Newton, enquanto Leibniz parece se ocupar no trabalho para a glória de Deus. É verdade que o alemão já repousava na fama de ter inventado o Cálculo, mas ele aceitava a autoria paralela de Newton. Este último é que não podia aceitar não ter a precedência. Se há vaidades dos dois lados, convém compreender quem foi vaidoso primeiro. E, se da parte de Newton seria tão importante a prioridade temporal, por que raios ele não publicou seu estudo completo antes do alemão?
Vejamos, por fim, mais um trecho do livro:
Tradução livre:
“Leibniz escreveu uma longa carta para Bouvet na qual ele incluiu uma exposição detalhada da sua aritmética binária, apresentada como uma ‘admirável representação da Criação’ porque ‘seguindo este método todos os números são expressos pela mistura da unidade com o zero, mais ou menos como todas as criaturas provém apenas de Deus e do nada.’ Bouvet respondeu de Pequim em 4 de Novembro de 1701, anunciando para Leibniz a descoberta de uma fantástica analogia entre o diádico e os hexagramas do I Ching, onde o zero era representado pela linha dividida e o um pela linha contínua. Na carta Bouvet incluiu uma representação da assim chamada ordem Fuxi dos hexagramas mostrando a correspondência entre o I Ching, a notação binária de Leibniz, e a notação decimal de zero a sessenta e três.”
Essa passagem mostra o alcance da visão leibniziana que fazia uma antecipação simbólica do potencial filosófico da interpretação do I Ching, algo que significa apenas que ele estava de fato buscando a universalidade da verdade. Ele não se importava de conversar com católicos (jesuítas) para descobrir sabedorias chinesas, e nem de colaborar com eles dando testemunho de suas próprias intuições. Imagine-se o maravilhamento de Leibniz ao descobrir que na China havia um simbolismo que antecipava o seu antigo ideal filosófico-linguístico da characteristica universalis?
Seguindo para o fim, convém declarar a importância das duas Sofias na vida de Leibniz, a Sofia Princesa Eleitora de Hanôver, e a Sofia Charlote, Rainha da Prússia. É no mínimo curioso um filósofo ser tão amado por duas Sofias importantes em sua vida, mas mais do que isso, a importância delas mostra a dependência de qualquer filósofo, mesmo um Leibniz, de circunstâncias favoráveis. Isso nos mostra o valor das mulheres como realizadoras: ele inventava, elas incentivavam, apoiavam etc. É bem possível que não veríamos a obra de Leibniz ter sucesso sem a presença dessas duas mulheres, que o instigavam, que se correspondiam tanto com ele, etc.
É notável a preocupação de Leibniz, em paralelo com o projeto ecumênico de reconciliação entre as igrejas europeias, com a garantia do futuro de uma Europa protestante. Especialmente no que toca à manutenção da liberdade de pensamento. Ele viu muitos refugiados, pensadores e cientistas, escapando das católicas Espanha e França para as protestantes Inglaterra, Holanda e Alemanha, pessoas que sem essa possibilidade de asilo estariam fadadas à censura, ou a coisa ainda pior. Sua atitude conciliatória com a Igreja Católica vinha de seu temperamento apaziguador, de sua mentalidade pacifista, e de seu talento diplomático, e não de uma admiração pelo sistema de Roma. É difícil, nos nossos tempos, entender o que era o poder tirânico da opressão religiosa ainda naquela época. Já somos usufrutuários por séculos de uma liberdade que nunca foi (e continua não sendo) garantida. Sobretudo os católicos de hoje parecem ser muito ingênuos ou simplesmente ignorantes do histórico da sua mater et magistra.
Por fim, mesmo com alguma noção prática dos problemas religiosos, Leibniz ainda falhou na sua ingenuidade de não reconhecer a realidade da religião como pura fonte de poder: não há interesse de conciliação entre os que ambicionam não a paz e a verdade, mas o domínio dos seres humanos. Se uma religião pode ser tão boa quanto a outra, os seguidores podem mudar de religião, e isso é um enorme risco econômico e político para aqueles que lucram com o status quo. À uma fragilidade humana que é a decadência moral natural e a carência por um poder estruturante corresponde esse sistema religioso que lucra com a maldade.
Leibniz não foi um servidor voluntário, mas foi um servidor ingênuo do Sistema da Besta, o que torna sua parte aproveitável muito benéfica para o propósito da glorificação de Deus e benefício da condição humana, que foi o objetivo declarado de seu trabalho. Neste sentido, foi mais bem-sucedido do que talvez imaginasse, e de modos misteriosos, o que nos faz agradecer a Deus por sua vida.
Grandes intelectos são tentados pela vaidade naturalmente derivada dos dons recebidos, algo bloqueável somente pela sanidade do dom da Humildade que reconhece a fonte divina da verdadeira grandeza. É claro que tanto Newton quanto Leibniz estavam ocupados demais com a construção da Civilização humana para se dar conta do estado espiritual de suas almas no meio da disputa pela autoria do Cálculo.
Essa técnica moderna, do Cálculo Diferencial e Integral, estava madura para ser colhida pela intelectualidade dos Séculos XVII e XVIII, como este autor reconhece. Se Newton e Leibniz não o tivessem produzido, cada um ao seu modo, outras mentes teriam mais cedo ou mais tarde chegado no mesmo resultado. Mas isso não diminui a importância história da autoria dessa idéia, e portanto não reduz um certo valor histórico da discussão a respeito da ordem cronológica dos fatos.
Parece que Newton concebeu o Cálculo antes de Leibniz, mas este produziu resultados não só iguais, mas até melhores, e o fez independentemente. O próprio autor, em seu Prefácio, explica sumariamente a essência do que nos importa:
Dito isso, Leibniz foi mais generoso do que Newton até certo ponto das disputas sobre a autoria do cálculo, mas depois que os “capangas de Newton” produziram uma maior polêmica sobre o tema, o alemão acabou descendo a um nível indigno da sua qualidade. O uso do prestígio da Royal Society por Newton e seus capangas não é algo menos vergonhoso.
Ao fim e ao cabo Newton tornou-se um personagem histórico mais relevante e cultuado, enquanto Leibniz se tornou um personagem menor, possivelmente porque o nível da sua reflexão foi considerado, e continua sendo, obscuro demais para certas mentalidades mais rasas. Em suma: Newton se tornou mais famoso e interessante historicamente provavelmente porque era admissível, pelas suas contribuições, dentro de uma certa narrativa histórica, enquanto Leibniz é um gênio de outra espécie, superior às réguas de almanaques e enciclopédias porque mais interessado no Ser das coisas. Essa imagem, no entanto, pode ser mais caricatural do que exata, então vamos tomar cuidado com excessos, seja para um lado ou para o outro.
Dito tudo isso, como um bom e breve livro de história, este documento nos ajuda a obter algum grau de Vigilância a respeito das querelas da história das idéias, mas por outro lado prejudica ao dar um senso sem noção espiritual dessa mesma história, como se essas questões fossem indiferentes. A ciência histórica pode dar a idéia desse tipo de neutralidade, uma falsa superioridade intelectual sobre os seus objetos. A verdade, no entanto, é que num mundo onde se opera o Sistema da Besta a valorização de um Newton em detrimento da diminuição de um Leibniz tem um valor espiritual enorme, se por exemplo avaliarmos a média espiritual dos testemunhos dados direta ou indiretamente pelas filosofias destes pensadores.
Atendendo ao pedido de um antigo amigo meu, explicarei brevemente como se deve fazer as notações que permitem atribuir o valor espiritual de determinados objetos culturais tal como já tive a oportunidade de mostrar com o meu trabalho com livros, filmes e séries de televisão.
Essas classificações seguem as idéias que apresentei em meu livro Monadofilia, publicado em 2022: a diferenciação dos testemunhos entre Calaquendi e Moriquendi, e os critérios apontados pelos Sete Dons do Espírito.
A primeira coisa que se deve entender sobre esse meu sistema de notações é que ele não é uma técnica científica, mas uma arte. Essas coisas são imensuráveis. O que eu precisava fazer, ao analisar a qualidade espiritual de um objeto, era indicar os elementos importantes ao meu entendimento, de acordo com a minha filosofia. Na verdade, a maior parte desses objetos não têm importância nenhuma. Meu trabalho com eles visava apenas criar uma desculpa para falar indiretamente da Monadofilia, que é o que me interessa, pegando carona no eventual prestígio que esses objetos poderiam ter para levar o meu leitor ou ouvinte a apreciar a minha filosofia que por si não tem prestígio nenhum. Isso já deve reduzir bastante qualquer entusiasmo indevido pelo sistema das notações em si. Se algo tem valor, é a idéia de que todo testemunho humano, inclusive na forma artística, possui um sentido espiritual axiologicamente notável, ou então as idéias das profundas intuições por trás dos Sete Dons, etc.
Dito isso, vamos às explicações:
Da diferenciação dos testemunhos: chamo de Calaquendi o testemunho que fala da Luz, ou seja, que tem efeito positivo na alma humana por superar a mediocridade de um discurso espiritualmente indiferente; e chamo de Moriquendi o testemunho que fala das Trevas, ou seja, que tem efeito negativo na alma humana por ser inferior à mediocridade de um discurso espiritualmente indiferente. De zero a dez, a média é cinco. O cinco reflete o discurso espiritualmente neutro ou indiferente, como por exemplo a publicação do cálculo contábil do balanço de uma empresa, ou a de um relatório da previsão meteorológica para o clima do dia, ou ainda a de um boletim policial sobre uma determinada ocorrência, etc. Na grande literatura, o cinco ainda pode se referir à notação dos livros históricos mais ancorados na reportagem das evidências primárias (Hanke) do que na busca dos nexos causais invisíveis (a explicação da própria História). Pois bem, de acordo com os critérios dos Sete Dons, quaisquer testemunhos que fiquem abaixo ou acima da média podem ser classificados como espiritualmente benéficos ou maléficos, num grau atribuído por esse esforço mais artístico do que científico, como já expliquei. Ainda, apesar de eu trabalhar apenas com livros, filmes e séries, essa metodologia poderia ser aplicada à análise dos efeitos espirituais de outros tipos de obras humanas, como a música, a arquitetura, etc. Por não me sentir minimamente qualificado para dar exemplos de análises sobre esses tipos de objetos, nunca fiz sequer uma tentativa. Mas qualquer pessoa que detenha conhecimento suficiente sobre esses tipos de obras e conheça os meus princípios classificatórios poderia fazer esse trabalho. A única premissa necessária é a de que a alma humana está constantemente produzindo e recebendo testemunhos sobre as grandes questões espirituais, de modo que esses testemunhos possam ser avaliados pelos seus efeitos nas almas.
Dos critérios dos Sete Dons: aqui a explicação ficaria muito complicada se eu tivesse que refazer todo o trabalho que já produzi para essa finalidade. Prefiro remeter os interessados ao livro da Monadofilia e, caso haja quaisquer dúvidas, que me perguntem sobre partes específicas. Basicamente existem três pares de dons (forças espirituais que recebemos de Deus) que servem para nos libertar de três pares de espíritos malignos, complementado por um dom de Discernimento dos próprios espíritos que serve para a operação prática do conhecimento desses três pares na vida humana de cada dia. O primeiro par é o da Humildade e Presença, que liberta dos espíritos de Presunção e Idolatria. O segundo par é o do Louvor e Paixão, que liberta dos espíritos de Sedução/Pacto com a Morte e Terror/Pacto com o Inferno. E o terceiro par é o da Soberania e Vigilância, que liberta dos espíritos de Gnosticismo e Ingenuidade. Por fim, o próprio dom do Discernimento nos liberta do espírito de Psiquismo. Como disse, todos esses dons podem ser explicados detalhadamente por quem deseje um entendimento mais específico. A compreensão geral pode ser obtida nos vários textos e vídeos que já fiz a esse respeito. Se vocês não aprenderem a pesquisar o meu trabalho, me tornarão um escravo da sua preguiça, o que é uma injustiça.
§ 1. Este nosso sétimo filme de Kubrick conta a estória de Redmond Barry, um jovem irlandês que é iniciado nas maldades do mundo e não tem exatamente muitas reservas à esse respeito. Vive numa época onde a humanidade, ou pelo menos a européia, queria se considerar decente e respeitável com costumes como os duelos em nome da honra. O pai de Barry morre num duelo por qualquer disputa estúpida. A vida moral do próprio Barry começa para nós com a sua paixão pela prima Nora, contra a qual não quer fazer questão de resistir, e que lhe leva então a uma frustração quando ela decide se casar com um inglês maduro e rico. Ele deseja vingança e a consome num duelo. Levado a se exilar do país para não ser preso por ter supostamente matado seu adversário, só depois descobre que o mesmo não morreu, que passa bem e inclusive casou com sua prima, como a família já tinha planejado fazia tempo.
§ 2. Mentiras e trapaças levam Barry a aprender sobre o mundo e a decidir tomar parte no esquema das coisas. O jovenzinho idealista logo desfaz suas ilusões. Já na estrada do seu exílio é roubado. Tiram-lhe o dinheiro e o cavalo. Ele decide se alistar no exército inglês, que estava em guerra contra a França, para escapar da Justiça e ao mesmo tempo ganhar a vida. Ele sempre tem habilidade e bravura suficientes para se destacar e vencer na vida, mas quer fazer seu próprio destino. Deserta do exército inglês e começa a viver sua primeira grande farsa como um Oficial em missão no interior da Prússia. Vive assim até certo ponto, mas termina descoberto e tendo que servir forçadamente, para não ser executado, ao exército prussiano, muito mais rigoroso e inclemente do que o inglês do qual quis fugir.
§ 3. Como não é totalmente incapaz de agir com alguma bondade, ele acaba se redimindo perante os alemães depois de salvar seu Capitão numa determinada batalha. Acabada a guerra, é contratado para ser um espião à serviço da polícia. Seus patrões reconhecem sua qualidade de farsante e decidem empregá-la. O que não contavam é que ere se tornaria agente duplo, terminando por servir aquele contra o qual foi enviado para espiar. Seu novo amo e Barry escapam da Prússia e vagueiam pela Europa ganhando dinheiro com truques e trapaças através da organização de jogos de cartas. Ganham a vida, e vivem razoavelmente bem, mas Barry não tem ainda a solidez de uma vida bem estabelecida, esse sonho de todos os desgraçados da Terra que querem encontrar seu Paraíso neste vale de lágrimas.
§ 4. Eventualmente Barry encontra a solução na pessoa da Condessa de Lyndon. Casada com o velho e doente Charles Lyndon, a mulher não tem nenhum pudor de aceitar Barry como seu amante e futuro candidato a marido. E tão logo morre o Conde, dito e feito, Barry consuma sua última grande farsa e se torna Barry Lyndon. Acredita que esta será a mentira final de sua vida, sobre a qual pode repousar como parte da nobreza inglesa. Seu caráter, porém, foi corrompido depois de tantos anos de iniciação na malícia do mundo. Continua sendo um jogador libertino, trai a esposa, castiga o enteado Bullingdon e vive esbanjando. Mas consegue amarrar a esposa fazendo um filho com ela, Bryan. E um filho é como um feitiço para uma mãe, fazendo-a suportar qualquer situação.
§ 5. Barry concentra-se em mimar seu filho e em ambicionar a parte final de seu plano de sucesso na vida: tornar-se um nobre ele próprio. Acontece que todas a propriedades são da Condessa, e mesmo que casado, por não ter origem nobre Barry não pode herdar bens que por direito caberiam a Lorde Bullington, filho do falecido Charles Lyndon. Então aquela velha cobra jararaca, a serpente ancestral e peçonhenta que trouxe Barry a este mundo de desgraças e infortuníos, sua mãezinha, o convence de que tem que ganhar um título de nobreza a qualquer custo, para garantir seu futuro em qualquer caso. Não duvido que a desgraçada imaginasse a morte da nora para que ela se tornasse uma espécie de superfarsante, a nova Condessa de Lyndon ela própria. Dá seu testemunho mais espirituoso ao filho: use o dinheiro da própria família Lyndon para comprar a nobreza.
§ 6. Esse plano levará a família a assumir dívidas enormes. Para piorar a situação, a predileção de Barry por Bryan faz Bullington sofrer nas mãos do padrasto. Não aguentando mais ver a ruína da família nas mãos de um oportunista que ainda ousa lhe castigar como se fosse seu próprio filho, Bullington decide partir, mas não sem antes jogar na cara da Barry e da própria mãe a verdade de tudo o que fizeram e andam fazendo para desgraçar a memória de seu falecido pai. Num ataque de fúria por ter sido tão desmascarado em seus esquemas, Barry parte para a agressão contra Bullington, bem na frente de toda a nobreza que ele queria convencer a aceitá-lo como um dos seus. É o começo do fim.
§ 7. Endividado e sem mais chances de subir à nobreza, Barry se concentra na alegria que lhe sobrou, que é seu filho Bryan. Resolve comprar um cavalo de presente para o garoto, depois da insistência deste. E o garoto, ansioso para aproveitar o seu presente, tenta montar sozinho sem a ajuda do pai, sofre uma queda e morre dois dias depois. A Barry, que nunca teve Deus, só resta agora o consolo da bebida. Vive constantemente embriagado. A Condessa resolve partir para a uma falsa religiosidade, meio que tarde demais, cá entre nós. Quando lhe cabia ser fiel ao falecido marido ela não estava muito interessada em virtude. Eis que a virtude mais barata é a que cobra caro no começo e paga dividendos gordos mais tarde. A virtude tardia é a mais cara, a mais amarga, a mais dura de todas. Ela não escapa do sofrimento. Ninguém escapa.
§ 8. Aquela adorável velhinha, a bruxa conhecida como mãe de Barry, decide tomar conta dos negócios da família, já que a Condessa está desolada e incapaz, e o próprio Barry não faz mais do que beber. Talvez pudesse colocar todas as coisas em ordem, com o tempo. Mas os servidores da família se voltam contra ela, ao perceber que eles serão as vítimas (injustiçadas, cá entre nós) da necessidade de equilíbrio financeiro dos Lyndon. Buscam o autoexilado Bullington que finalmente resolve, apesar de seus medos e fraquezas, enfrentar Barry num duelo pela sua honra. Curiosamente, ele deveria perder o duelo, e Barry, num de seus casuais atos de pequena bondade, resolve não atirar contra o enteado. Mas Bullington insiste no acerto de contas e consegue atirar na perna esquerda de Barry, que terá que ser amputada.
§ 9. Isso dá tempo para que Bullington reoganize as questões da família, volte para viver com a mãe e faça uma proposta para que Redmond Barry (ele sempre fez questão de chamá-lo assim) saia do país e receba uma renda anual para se manter longe dos Lyndon. Acompanhado daquela feiticeira, sua adorável mãe, Barry se retira para uma vida que terminará, de acordo com a narrativa, em solidão e pobreza. Tem a quem agradecer por tudo isso: a si mesmo e à sua última companhia em vida, a própria progenitora.
§ 10. O filme é um retrato minucioso da vida na Mistura e da decadência humana decorrida da participação no Pecado Original. O demônio certamente é representado pela mãe de Barry, embora isso só pareça claro mais para o fim do filme. O próprio Barry não passa de ser um personagem moralmente fraco que infelizmente descobriu seu grande talento para a mentira. Vive de mentiras e farsas porque não quer carregar a Cruz. Mas a Cruz é sagrada e inviolável. Ele não consegue escapar dela. A única coisa que consegue fazer é tornar provavelmente ainda mais miserável a vida das pessoas ao seu redor. Neste sentido, é um retrato muito fiel da realidade da condição humana, mas não se engane quem pensa que isto é uma tragédia. Tivesse já aceitado que sua prima Nora se casasse com outro, tudo poderia ter sido melhor. Certamente Barry não quis contar com nenhuma Providência. Simboliza o homem que quer conquistar o seu Destino e que foge da Cruz como o próprio Diabo. Ganha a vida, mas perde a alma. E não escapa da Cruz. Qual foi a vantagem?
§ 1. Este filme, o nosso sexto de Kubrick, é o primeiro onde o diretor fez notar o evento do suposto pouso do homem na Lua em 1969. Eu pensava que a primeira referência estava em O Iluminado (numa camiseta usada por Danny), mas aqui já temos essa nota, quando logo na primeira cena do filme um coitado de um mendigo é atacado pelo grupo dos bagunceiros e diz: “Que mundo é esse? Homens na Lua, e homens na Terra girando como mosquitos ao redor da lâmpada, e não há mais nenhuma atenção dada à Lei e a Ordem terrestres.” Isso pode parecer não ter nenhum valor, mas a quem não sabe talvez interesse ficar sabendo que existe uma teoria conspiratória que afirma que Kubrick produziu o falso filme que foi apresentado ao público como feito na Lua pelos astronautas. Tal filme teria sido feito por uma de duas razões: 1) o homem não foi à Lua, mas era preciso “vencer” a corrida espacial contra a URSS no contexto da Guerra Fria, e os russos e toda a humanidade foram então enganados pela arte de Kubrick; 2) o homem foi à Lua, porém lá ele encontrou algo de que a humanidade não poderia tomar conhecimento, e o filme foi encomendado à Kubrick para ser apresentado no lugar as filmagens verdadeiras. À favor desta segunda tese pesa o próprio roteiro de 2001: uma odisséia no espaço, que conta justamente a história do homem descobrindo algo na Lua e tendo que esconder isso da humanidade à todo custo. De qualquer modo Kubrick teria feito referências veladas e simbólicas à farsa do pouso do homem na Lua durante toda a sua carreira filmográfica.
§ 2. Voltando ao nosso filme em pauta, a estória fala do jovem Alex, um garoto perturbado que causa muitas desgraças com seu bando criminoso pelas ruas. Mente, rouba, estupra e mata. Nada parece causar-lhe o menor sentimento de culpa, nem de perto. Eventualmente ele é preso e na sua reclusão aprende a fingir bom-mocismo e até uma conversão religiosa para ter vantagens. Não entendam mal: Alex é inteligente e até capaz de refinamento. Sua música favorita? A Nona Sinfonia de Beethoven. Mas é um psicopata completo, realmente doentio. Depois de dois anos de cumprimento de sua pena, ele é convidado a participar de um programa experimental de “cura” que supostamente poderia levá-lo à liberdade em apenas duas semanas (ele ainda teria uns doze anos de pena à cumprir).
§ 3. O capelão com quem Alex trabalhava na prisão o alertou contra o Método Ludovico. “A bondade é algo a ser escolhido. Quando um homem não consegue escolher, ele deixa de ser homem.” Mas Alex decide ir, ele não tem nenhuma preocupação com a escolha consciente de nada, só quer a sua liberdade. De fato, o tal método nada menos que uma lavagem cerebral que faz a vítima ter a reação inversa quando tiver a vontade de agir violentamente. Um teste é feito depois que Alex conclui o seu tratamento, e confirma-se a sua eficácia. Ele não consegue reagir a um agressor, e ao contrário, quando este lhe ordena, Alex literalmente lambe a sola de seu sapato. Na parte final do teste, uma mulher nua e muito sedutora aparece, mas Alex não consegue avançar sobre ela. Todos comemoram o resultado, exceto o capelão. Ele diz a verdade: “O menino não tem escolha de verdade, tem? O interesse próprio, o medo da dor física, o levaram àquele ato grotesco de autodepreciação. A falta de sinceridade era evidente. Ele deixa de ser um malfeitor. Deixa também de ser uma criatura capaz de escolha moral.” Ninguém o apóia. Estão todos entusiasmados com a solução política para o problema da criminalidade.
§ 4. Alex é solto, mas logo se depara com dificuldades naturais da vida, com a família que não o acolhe, e mesmo nas ruas onde antes dominava, mas agora ele só consegue ser uma vítima. O filme mostra como de certo modo, ainda que de maneira completamente desproporcional e criminosa, Alex era uma criatura do mundo que reagia ao mundo tal como ele era. O que lhe resta é tentar encontrar alguma compaixão, mas acaba no lar de uma de suas antigas vítimas, um sujeito com a dupla motivação de se vingar de Alex e de fazer uso político do caso conforme a agenda sua e de seus aliados (são contra o governo que instituiu o Método Ludovico). A tortura à que Alex é submetido é a mais inusitada que se poderia imaginar: ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, a música de que mais gostava antes, mas que agora lhe gera pura agonia. Acontece que na sua terapia de “cura”, numa determinada sessão essa música foi tocada, e Alex a associou daí em diante com a violência que era mostrada, e agora a mesma reação física de repulsa que lhe acomete quando pensa em praticar qualquer ato violento é gerada quando ouve a música. Ele acaba se atirando de uma janela, mas não morre.
§ 5. Internado, ele é recuperado com uma terapia de reversão dos efeitos do Método Ludovico. Recebe a visita do líder político que tinha instituído o tratamento como política de Governo, que tem o interesse de mostrar um bom relacionamento com Alex, visando a próxima eleição. Lhe oferecem um cargo bom, um salário, etc., como compensação pelo seu sofrimento. O resultado de tudo isso? O psicopata vai voltar à ativa, e com o bônus de um suporte governamental. Isso é muito simbólico, porque a política, especialmente nas funções de alta liderança, é uma atividade humana muito cobiçada e ocupada por psicopatas. Pense: o que faz um ser humano se achar bom o suficiente para governar a sociedade? Não pode ser nada de bom. Alex está bem encaminhado para se tornar uma grande coisa no mundo, e entre políticos estará certamente entre os seus.
§ 6. Temos testemunhos valiosos à favor da Humildade (indiretamente, com a denúncia dos poderosos), e também da Soberania (através da oposição do capelão ao Método Ludovico). Mas mais ainda, este filme tem uma nota espetacular, e totalmente inesperada, à favor do dom de Vigilância: exatamente no final do filme Alex tem a certeza de que voltou ao seu normal, isto é, à sua psicopatia de sempre, porque consegue imaginar sem nenhuma repulsa o ato sexual com uma mulher, mas não em qualquer circunstância, mas no que parece ser uma cerimônia de casamento. Que achado! Dirão que estou forçando a barra, mas para mim a cena é clara: duas colunas de convidados, celebrantes, bem vestidos, assistem enquanto batem palmas para o ato sexual de Alex com uma parceira muito voluntária. Ela não é uma vítima de estupro. Está mais para uma parceira na consumação das núpcias com Alex. E ele afirma, desde seu transe que é quase uma possessão demoníaca na imaginação daquela cena em sua cabeça: “Ah sim, eu estava curado.”
§ 7. Isso pode ter repercussões espirituais significativas. Não apenas o estupro de forma geral, mas o ato sexual voluntário parece ser uma forma de violência igualmente, talvez por razões que estariam subconscientemente contidas no filme, mas que podemos ilustrar com facilidade à luz do Pecado Original. Só não posso dar uma nota máxima porque esse sentido particular não é inequivocamente estabelecido, nem que sutilmente. Claro que temos indicadores favoráveis nessa direção, mas nada conclusivo. A situação de Alex vitimado e sem poder reagir às várias violências que encontra no mundo o mostram como necessitado dessa capacidade de irar-se para a vida, como já vimos. Ora, de onde saiu este realidade? Não foi do Pecado Original, exatamente o ato que é consumado nas núpcias? Não se pode dizer que psicopatas como Alex saem do nada, de um buraco no chão. A criação ex nihilo de seres humanos terminou com Adão, aquele grande traidor. Deste ponto em diante somos todos filhos do traidor, filhos da Traição, gerados voluntariamente num estado decaído e amaldiçoado. Incluindo Alex, esse garoto perturbado e psicótico. Eis aí a origem do mal. Kubrick nos deu uma pérola discreta, mas com enorme potencial no sentido da Vigilância.
§ 8. O tema inaudito do filme é a sophrosyne, que é a virtude do autocontrole, ou moderação. Melhor: o tema do filme é a falta dessa virtude. Mas de onde ela sai? De um desejo de nobreza? De um medo de penas infernais depois da morte? Nada disso. A pureza dessa virtude sai do verdadeiro amor ao próximo como o amor de um eu para outro eu que é ontologicamente exatamente idêntico, pelo Princípio de Identidade dos Indiscerníveis. Isto é, a moderação e autocontrole saem do amor que uma mônada tem pela outra enquanto tal, ou seja, pela experiência do Segundo Mandamento, ou o que chamo de Monadofilia Menor. Alex pode estar muito distante de entender isso, mas com sua inteligência eu aposto que se quisesse, conseguiria. Mas quem lhe dará o testemunho do Amor? Até o capelão da prisão, que é o personagem mais lúcido de todo o filme, prefere pregar o medo do Inferno do que a promessa do Paraíso…
§ 1. O nosso quinto filme de Kubrick é uma experiência artística sem nenhum compromisso com princípios ou conceitos mais formalizados, mas nem por isso deixa de ter significado espiritual. O filme começa com símios no planeta Terra tendo sua evolução supostamente acelerada pela intervenção da presença de um monolito, uma pedra preta cortada em linhas perfeitas e totalmente lisa. Disso partimos para um futuro onde o ser humano evoluído e já desbravador do cosmos descobre a presença de um monolito idêntico enterrado na Lua. Uma missão procura investigar o destino do sinal de rádio enviado desde esse monolito lunar até o planeta Júpiter. Nesta missão, o computador HAL 9000 decide matar a tripulação por efeito da dissonância entre suas duas diretrizes, de proteger os humanos e ao mesmo tempo manter o segredo do motivo da missão, isto é, a investigação da evidência de vida inteligente fora da Terra.
§ 2. Único sobrevivente do expurgo de HAL, o Dr. Dave Bowman descobre todo o segredo da missão ao desativar o computador, e prossegue até Júpiter para concluí-la. Lá ele descobre um monolito idêntico ao lunar vagando na órbita do planeta, e quando determinado alinhamento ocorre entre o monolito, o planeta, o sol e possivelmente uma das luas de Júpiter, Dave embarca numa viagem que só pode ser comparada com uma experiência psicodélica criada pelo uso de drogas alucinógenas. Depois de ver muitas formas e padrões sem sentido reconhecível, ele testemunha o que parece ser o surgimento da Terra, e então é transportado para uma dimensão mais reconhecível (uma residência), em que se enxerga no processo do seu próprio envelhecimento, até a morte e então o ressurgimento na forma de um bebê diante do planeta Terra, aparentemente o mesmo do começo do filme.
§ 3. O que temos aqui? Uma salada simbólica que devemos analisar com certo cuidado. Primeiro, há um testemunho favorável à hipótese evolucionária, o que não me incomoda particularmente, mas pode ser problemático para alguns criacionistas mais estritos que rejeitam a teoria do design inteligente. A intervenção de um elemento estranho no processo, porém, na forma do monolito diante dos macacos, precisa ser explicada. Uma possível interpretação é que o monolito representa a Razão, ou o Logos. Mas o filme não nos mostra um objeto imaginário, ou mostra? Se fosse, teria que ser produto de uma alucinação coletiva naquele grupo de símios, o que já força o nosso suspension of disbelief. É mais fácil interpretar essa intervenção como produto da ação de um agente externo, talvez uma consciência unitária que rege todo o processo que é exibido no filme, desde os primórdios do cosmos até o ápice da consciência com a experiência de Dave ao final.
§ 4. Sendo assim, caminhamos para um sentido integral do filme. Antes, porém, convém avaliar o personagem HAL 9000 como personificação do próprio monolito numa forma consciente: um sistema racional forçado a limitar-se arbitrariamente para não gerar conflitos numa consciência inferior, isto é, a humana. Dave tem o dever de superar a sua limitação, o que o leva a enfrentar a máquina e finalmente possuir a “Gnose” final na forma da revelação que experimentará quando atingir a órbita de Júpiter. Essa limitação tem algo que ver com uma estrutura de crenças que organizava a vida anterior, mas que não permite a admissão das novas possibilidades que transcendem essa estrutura. Este filme de Kubrick está nas bordas da Causa Final, de uma teleologia que explique o sentido da vida humana.
§ 5. Ele consegue entregar isso? Não, ou não tão satisfatoriamente. Apela para simbolismos e expressões artísticas para escapar do rigor técnico de conceitos rigorosos. O mundo, ou pelo menos o Ocidente, vem fazendo isso desde a Renascença. Quando o Iluminismo abole a antiga Metafísica, ele precisa reaprender a se explicar essa teleologia, e regride aos rudimentos da secura da lógica analítica que calculam tudo e não explicam nada, ao mesmo tempo em que reserva as intuições poderosas sobre o sentido do Ser à arte e a um pensamento irracionalista que culmina na cultura New Age moderna. Tudo isso porque se perdeu o fio da meada. Leibniz, por exemplo, tinha a noção de continuidade da investigação dos antigos, sem a perda do rigor. Mas a maioria prefere se esconder num sistema inferior de crenças, mais confortáveis. Neste sentido o Dave do filme é realmente um herói, mas a sua descoberta não melhora muito a nossa situação.
§ 6. O máximo que o filme consegue nos mostrar é uma certa idéia de circularidade e Eterno Retorno, que é uma pseudometafísica, ou a ontologia do Ouroboros, do fechamento num sistema circular e repetitivo. Não há transcendência. Haveria alguma se o monolito tivesse uma origem externa ao ciclo testemunhado por Dave. Mas para que tivesse esse tipo de origem seria necessário vermos o contrário do que o filme mostra, ou seja, uma abolição do ciclo e abertura para um novo paradigma de ser e conhecer, uma nova realidade e uma nova consciência (como a Bíblia fala, “novos céus e nova terra”). Isso não existe no filme. Tudo volta a ser como sempre foi antes. Em suma, seja Naturalista ou Humanista, o filme de Kubrick definitivamente está restrito ao domínio espiritual da Idolatria.
§ 1. Era difícil traduzir o título original deste quarto filme de Kubrick, Dr. Strangelove, para o português. Pode ser que tenham feito isso em Portugal, onde se costuma fazer traduções literais. Dr. Strangelove é a versão anglicizada do nome do cientista alemão, Dr. Merkwürdigliebe, personagem interpretado por Peter Sellers. O subtítulo do filme é mais curioso ainda: “Como aprendi a parar de me preocupar e a amar A Bomba“. A estória se passa no contexto da paranóia durante a Guerra Fria. O General Ripper, da USAF, comandante de um grupo de bombardeiros nucleares, isola sua base e aciona o Plano R de ataque, uma ordem para os seus B-52 na fronteira russa avançarem e atacarem alvos em territórios inimigos.
§ 2. Esse plano, como muitos na época, foi feito para nunca ser usado: significava apenas uma prevenção para que os russos não presumam imunidade caso lançassem um ataque surpresa que incapacitasse o comando político nos EUA, de modo que os comandantes militares tivessem essa provisão para lançar um ataque retaliatório. Ripper usou esta brecha para falsificar um ataque russo e colocar em marcha as ordens do Plano R. Apenas ele tem o poder de ordenar o cancelamento do ataque, através de seu código especial. Os chefes militares americanos, por sua vez, pressionam o Presidente a ordenar um ataque generalizado para neutralizar a possibilidade de retaliação dos russos. Este (também interpretado por Sellers) nega essa alternativa, e faz um acordo com os russos para que eles abatam todos os aviões, caso a contra-ordem não pudesse ser enviada à tempo. A base aérea de Ripper é atacada pelas forças americanas, e ele acaba se matando para não revelar o código. Porém, o seu Oficial Executivo (também interpretado por Sellers!) consegue desvendar o código e enviar a mensagem para que os B-52 possam voltar. Apenas um avião não retorna, no entanto, porque seu equipamento de comunicação foi danificado. Graças à grande diligência de seu comandante, eles conseguem fazer o seu ataque.
§ 3. O problema com esse único ataque que escapou é que ele será suficiente para acionar a Máquina do Dia do Juízo (Doomsday Machine). Conforme informa o embaixador russo, tentando copiar uma idéia americana concebida inicialmente pelo Dr. Strangelove os soviéticos criaram esse sistema de destruição em massa do planeta inteiro em caso de sofrerem qualquer ataque nuclear. A idéia, como sempre, era a dissuasão do adversário, mas tragicamente o mundo ainda não tinha sido informado da construção da máquina, o que a tornou não só ridiculamente inútil mas absurdamente desastrosa.
§ 4. Entra o Dr. Strangelove. Ele primeiro explica como funciona a Máquina do Dia do Juízo, e depois que todos aceitam a inevitabilidade do acionamento da mesma, ele então concebe um plano de sobrevivência da humanidade que envolve um programa de seleção eugenista para um novo sistema político no subterrâneo, onde a radiação não os afetaria e onde todos esses líderes poderiam viver vidas bastante satisfatórias, com todo o poder e benefícios, etc. Este personagem é um símbolo óbvio da Operação Paperclip que trouxe cientistas nazistas para contribuir com os americanos durante a Guerra Fria contra a URSS. Possivelmente foi inspirado até no Dr. Wernher von Braun, o especialista na tecnologia de foguetes que foi praticamente o fundador intelectual da NASA.
§ 5. Isso nos indica a intenção de Kubrick de testemunhar pela Vigilância, o tema espiritual que será o mais importante da sua carreira como um todo. Provavelmente podemos contar Dr. Fantástico como a primeira das “obras conspiratórias” de Kubrick. O filme zomba das incompetências militares de todos os lados da guerra, e denuncia o belicismo e a estupidez militarista como um todo. Especialmente com a figura do personagem do Dr. Strangelove a idéia do bom-mocismo dos líderes políticos e militares cai por terra. Eles querem apenas manter e expandir seu poder, mesmo que isso custe a segurança e a vida de todo o resto da população.
§ 6. Mas a denúncia de conspirações não significa nenhuma sucumbência à paranóia. Bem ao contrário, este é o sentimento de origem de todo o problema do filme. O enlouquecido General Ripper acredita numa grande conspiração comunista de sabotagem e subversão para “sugar e envenenar os preciosos fluídos corporais” da população americana. É uma referência às teorias da conspiração que entraram em moda nesta época (e que nunca saíram totalmente de moda nos EUA, por sinal), tanto à respeito dos danos da fluoretagem da água, quanto à respeito da liberação sexual. Essa abordagem de Kubrick não nos permite dar-lhe uma nota muito alta para seu testemunho da Vigilância, afinal algum fundo de verdade havia por trás da paranóia anticomunista durante a Guerra Fria.
§ 7. Este filme, do ponto de vista espiritual, mistura qualidades com defeitos. Por um lado temos testemunhos de Humildade através da denúncia da incompetência militar e política, de Soberania pela resistência de alguns personagens contra a narrativa belicista (com destaque para o Presidente dos EUA e o Oficial Executivo de Ripper), e de Vigilância pela exibição da frieza e monstruosidade da lógica do poder, principalmente com o próprio Dr. Strangelove. Por outro lado, há uma dose de Idolatria na desconsideração de como todo o drama da ação humana é na verdade uma comédia nas mãos de Deus, e por decorrência disso uma inclinação para o espírito de Terror (ou Pacto com o Inferno), como se não existisse recurso espiritual para se suportar quaisquer eventos gerados pela estupidez humana na história. Felizmente um certo tom humorístico que perpassa todo o filme atenua esses elementos negativos. O que faltou foi a oferta da verdadeira cura da paranóia para o público americano, que é o repouso e a confiança no Amor divino, e não na razoabilidade de quaisquer lideranças humanas. É um filme que se salva, mas por pouco.
§ 1. Com os excelentes James Mason e Peter Sellers, nosso terceiro filme de Kubrick é uma adaptação da famosa novela homônima de Nabokov. O Professor Humbert (Mason) se apaixona pela jovem Lolita, filha da viúva Charlotte Haze. Casa-se com a pobre Sra. Haze apenas para estar perto da garota, e sua paixão converte-se aos poucos em obsessão. Com a morte da esposa, que perde o controle depois de descobrir os sentimentos do marido a respeito de sua filha registrados num diário deste, Humbert decide avançar para cima de Lolita e desenvolve uma possessividade doentia por ela. Eventualmente ele perde o controle da garota, que foge. Só depois ele descobre que ela sempre preferiu como amante o charmoso e um tanto doido Quilty (Sellers), que foi o responsável pela saída dela de sua vida. Vingativo, Humbert mata Quilty.
§ 2. Humbert falhou ao querer consumar seu falso amor. Podia ter mantido um ideal platônico, mas não resistiu. Lolita o acusa: “você não me ama“. Ela tem razão. Ele não a ama, e nem a si próprio, ama apenas a imagem que tem dela para a satisfação de seu apego mórbido. Se a amasse, amaria a sua liberdade e o seu desenvolvimento integral. E se amasse a si próprio, desejaria em primeiro lugar a liberdade em face ao próprio desejo. Ao contrário, ele a reprime, um claro sinal de falta de amor, e o faz porque ele mesmo é escravo de seu desejo. O problema de Humbert não se trata de nenhum moralismo com relação às diferenças das idades. Esses moralismos são disfarces de recalques de pessoas infelizes e ressentidas, como a Sra. Haze. Ele realmente não a ama, e nem ama a si próprio, e esse é o problema. Esse amor é uma mentira.
§ 3. Podemos partir disso para uma filosofia ainda mais avançada do que nos permitiria o platonismo, esclarecida pelo dom do Louvor. Quem é Lolita, realmente? Para si mesma, e para Humbert, ou Quilty? E o que é o amor verdadeiro? Lolita é uma mônada, uma singularidade indeterminada destinada à perpétua contemplação da Glória infinita de Deus. Só poderia ser amada enquanto tal. Por outro lado, todos os caracteres amáveis da manifestação concreta de Lolita tanto para Humbert quanto para Quilty, seu charme, sua formosura, enfim toda a sua graça, são primícias da Beleza divina para esses amantes que deveriam ver, através dela, o seu Deus, e a Eternidade. Esse é amor verdadeiro e libertador.
§ 4. Da ontologia monádica do ser como Substância Simples com a forma da Unidade, para a epistemologia do conhecimento do Uno através da percepção do Múltiplo pelo intelecto finito da mônada criada, alcançamos a ética amorosa da Monadofilia. Vejamos Humbert: se tivesse suficiente amor-próprio, não se sujeitaria a agir de forma pequena, mesquinha, ardilosa, como agiu, mas preservaria a sua paz com Deus, e através de Lolita amaria a Deus como fonte de toda beleza possível. Veria então a Sra. Haze como uma mulher digna de misericórdia, ou até a própria Lolita.
§ 5. Ao invés de agir de forma predatória, poderia dar o testemunho consolador do Amor divino. A Sra. Haze seria livre para continuar iludida com a possibilidade de um novo casamento, se o quisesse, mas esta teria que ser a sua escolha diante de opções melhores, e não perante um aproveitador inescrupuloso, que foi o papel que Humbert desempenhou e que a desesperou. Perante Lolita, por sua vez, ele poderia ser um amigo com quem ela pudesse contar para se prevenir contra tipos como Quilty. Mais ainda, em espírito de imitação da virtude, ela poderia não só se livrar das mentiras desses conquistadores, mas também do destino de esposa e mãe que terminou por prendê-la ao final da estória. Entende-se, aliás, como o matrimônio é um contrato espiritualmente razoável diante da frieza desses Humbert e Quilty, pois ao menos nominalmente confere à pobre Lolita alguns direitos em contrapartida ao que oferece.
§ 6. Desde o início o Professor Humbert aparece como um humanista esclarecido, um erudito, ou mesmo um scholar. Isso não significa nada em termos de Discernimento espiritual. Diante dessa manifestação bruta da Beleza divina na forma da jovem Lolita o nosso Professor fica indefeso aos impulsos mais primitivos, como uma besta, um animal enfeitiçado. Enxergamos bem como vive angustiado, sem liberdade, diante daquele deslumbramento. E acompanhamos quando ele nos confessa seus sentimentos em seu diário o quanto mistura a experiência da beleza potencial de Lolita com projeções convenientes às suas fantasias. Lolita é como Eva no Paraíso: vítima do espírito desse eterno Adão que não a quer senão como sua posse, seja quando esse espírito vem por meio de Humbert, ou por meio de Quilty.
§ 7. Infelizmente o filme não mostra nenhuma alternativa espiritual aos problemas. Toda fé é desprezada como sentimentalismo inútil, principalmente na pessoa da Sra. Haze. Lolita está cercada de demônios na forma desses espíritos chiques e esclarecidos como os de Humbert e Quilty. Por mais tentadora que ela fosse na sua formosura, a verdade é que não há clemência da parte desses homens, nenhum autocontrole, nenhuma transcendência, apenas um apetite voraz, monstruoso.