Spartacus, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Não só Spartacus não conseguiu libertar-se de Roma, como não pôde se libertar da condição humana. Gerado pelo desejo de poder de Spartacus, e também de seu desejo declarado pela Gnose (“quero saber tudo“), seu filho supostamente livre poderia a qualquer momento se tornar um cidadão proprietário de escravos, ou um novo escravo ele próprio. Dependeria que sua mãe lhe testemunhasse as origens e certos valores, mas essa transmissão sempre poderia falhar, ou simplesmente ser rejeitada pela pressão muito mais imediata e inclemente das necessidades e circunstâncias da vida humana. Esses mesmos elementos que geraram a prática da escravidão em primeiro lugar. Essa é a falha dos rebeldes: não percebem que são como os romanos, apenas desde um outro ponto de vista. Qual é, enfim, a natureza real da escravidão, e da própria liberdade? Isso é apenas muito levemente tocado por esta história de luta contra a opressão romana.

§ 2. O próprio Spartacus assume as suas incertezas. Está consciente, pela liberdade conquistada, da indeterminação moral da sua recém adquirida condição de homem livre. Ser livre é ser responsável, mas quem sabe o que é o Bem? Nosso protagonista tem um conhecimento intuitivo do que é viver como escravo, e já antecipa a solução da morde nesta condição, ainda que não conheça a promessa da Ressurreição. Mas já tem metade do Caminho da Salvação. Diz: “um escravo, ao morrer, perde a sua dor“. Já sabe que a morte é uma espécie e libertação. Mais tarde, no seu grande discurso ao exército dos escravos libertos, ele afirma: “talvez não haja paz neste mundo, nem para nós nem para ninguém“. É um testemunho espiritual contra a grande ilusão do Paraíso terrestre, embora ainda esteja bastante inconsciente desse sentido mais profundo. E confessa finalmente para sua esposa, Varínia, que está grávida de seu filho, antes da última grande batalha em que será derrotado: “sinto que começamos uma coisa que não acabará nunca“. Exato. Ele já ouviu o galo cantar, mas ainda não sabe onde. Spartacus diz para a mulher que sente-se sozinho, mesmo ao lado dela, e que reza para um Deus desconhecido, o Deus dos escravos, e lhe pede apenas que lhe dê um filho que seja livre. Uma grande ironia cheia de simbolismo. Querendo produzir a liberdade, só reproduziu a escravidão. Ainda assim, sua confissão de ignorância dá-nos um toque suficientemente inspirador no sentido do dom da Humildade.

§ 3. Sem a renúncia voluntária e consciente ao Pacto Ouroboros não pode haver o fim da verdadeira escravidão, que é a do Pecado Original, da Pretensão e da Idolatria da vida sem Deus. Todas as revoluções políticas são apenas giros da roda da história em torno do eixo fixo do Pecado Original, movimentos internos da Dialética do Ouroboros. Solve et coagula, ordo ab chaos. A verdadeira liberdade não é uma conquista humana, mas uma concessão divina. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará“. A conquista humana é a do sacrifício do Orgulho, um sacrifício de comunhão que é agradável à Deus. E a verdade libertadora é a do Evangelho, dos dons de Presença e os demais, inclusive o da Vigilância através do qual o Espírito Santo nos denuncia as mentiras do espírito do mundo, especialmente a perversidade do Pacto Ouroboros.

§ 4. O que Spartacus encontra enquanto liberto no mundo? A Queda e a Maldição. Em outros termos, reencontra Roma na sua forma mais primária: fome, sede, frio, doença, guerra e morte, mas também os riscos das riquezas, da opulência, e de todas as fraquezas morais decorrentes do domínio da natureza. O que é Roma? É um sistema de vida no estado da Mistura. Se a escravidão é, certamente, um mal, igual certeza temos de que não é o único, e mais ainda, devemos saber que não é o primeiro dos males. Primeiro vem a soberba, o orgulho, a Pretensão. Depois vem a Idolatria. E o resto vêm a reboque. Ignorando isso, o que Spartacus e sua comunidade de libertos estão fadados a fazer é a refundação de Roma sob outra forma, Roma que por seu próprio turno foi uma refundação de Babel, a cidade da Idolatria e da usurpação, capital dos traidores do Amor divino. Toda a humanidade que põe suas esperanças em si mesma quer a falsa paz e segurança de uma Roma, de uma Babel.

§ 5. Se queremos ser revolucionários de fato, não podemos aceitar o fim da marcha da liberdade: depois dos escravos, as mulheres também precisam ser libertas, e finalmente os filhos. Esse seria o caminho da Melhor Geração, da Última Geração, uma humanidade totalmente reconciliada com Deus. Já vimos que as profecias contem uma outra história. E a vemos se desdobrando ao nosso redor todos os dias, na direção do Anticristo. Por outro lado, uma outra falsa liberdade, com o sabor do esoterismo gnóstico, prospera espalhando sua própria reserva de mentiras pelo mundo.

§ 6. Spartacus não possui, ainda, a verdadeira liberdade. Quando nosso protagonista diz rezar para o Deus dos escravos, já fala do Jesus Cristo que ele ainda não conhece. Mas ainda não entende que a escravidão não é de Roma, e sim do Pecado Original. Seu desejo e sua luta pela liberdade são admiráveis, mas a essência dessa Salvação só poderá ser conhecida através do Evangelho. Não é maravilhoso como tudo aponta para Jesus?

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,4

Glória feita de sangue, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Alguém me pediu para comentar o filme De olhos bem fechados, de Kubrick. Pensando em fazê-lo, me veio a idéia de assistir todos os filmes mais conhecidos desse famoso diretor, o que me fez listar dez títulos. Começando pelo mais antigo entre esses dez, reassisti essa jóia do cinema e que já não via faz tempo, que é o Glória feita de sangue (Paths to Glory), com Kirk Douglas, de 1957.

§ 2. A história conta do destino dos infelizes soldados do 701º Regimento do Exército da França durante a Primeira Guerra Mundial. O ano é 1916. A frente ocidental é um moedor de carne. Ninguém avança. Nenhum ataque faz sentido, e de fato apenas em 1918 os Aliados conseguiriam contra-atacar com sucesso e acabar com a guerra. Mas os oficiais franceses têm a sua própria batalha de ambições e vaidades a travar. Não bastasse viverem em condições extraordinariamente melhores do que os soldados sob o seu comando na frente de batalha, os membros do alto oficialato desejam promover-se às custas do sofrimento e da morte de seus soldados. É assim que começa o nosso filme. O General Broulard, do Estado-Maior francês, pede que o General Mireau ordene um ataque de suas tropas à uma posição fortificada inimiga chamada de “Formigueiro”. Mireau imediatamente afirma que a ordem é absurda e não pode ser executada. É uma missão muito arriscada, para não dizer impossível de ser cumprida. Broulard oferece então uma promoção em caso de sucesso, embora de forma disfarçada, com um certo decoro repulsivo. Para Mireau o custo pessoal é baixo em caso de derrota, mas os ganhos são vantajosos. Isso porque a vida e a segurança de seus soldados já não vale mais nada para ele, é claro.

§ 3. Acontece que Mireau vai precisar da colaboração do comandante do 701º Regimento, o Coronel Dax (Kirk Douglas), para que este conduza o ataque na linha de frente. Dax está cético e relutante: não é um jogador com a vida de seus homens, como Mireau e Broulard. Mas Mireau simplesmente ameaça removê-lo do comando por motivo de exaustão. Dax aceita a ordem e lidera o desastroso ataque. O resultado é medonho. Os alemães trucidam os franceses. Uma parte da tropa mal conseguiu sair de sua posição inicial na trincheira. Possuído de ódio, Mireau ordena que sua própria artilharia bombardeie aquela posição, para forçar os soldados a se moverem. Seu comando é rejeitado: deve dar a sua ordem por escrito, o que obviamente ele não faz.

§ 4. O ataque falhou, como era previsível. Mireau pede algumas cabeças da tropa para uma corte marcial exemplar. Três soldados são escolhidos para serem acusados de covardia, julgados e condenados. Dax tenta persuadir Broulard a interferir no processo, ameaçando revelar publicamente a ordem de Mireau para bombardear suas próprias tropas, mas o General carreirista interpreta essa iniciativa como uma chantagem de Dax para que fosse promovido à posição de Mireau. Os homens são fuzilados, e então Broulard oferece a promoção para Dax, que fica completamente enojado. Na melhor cena do filme, Dax diz para Broulard: “você é apenas um velho degenerado e sádico“.

§ 5. Logo depois, na última cena do filme, Dax tem uma experiência maravilhosa ao observar a sua tropa se divertindo num café no tempo de descanso antes de serem enviados novamente ao front. Uma alemã é levada a se apresentar para os soldados. Alvoroçados, se comportam como os animais desprezíveis compatíveis com o tratamento dispensado a eles pelos altos comandantes. Mas então a bela jovem começa a cantar e aos poucos os homens se apaziguam e se comovem, como se tivessem voltado para a casa materna como meninos novamente. E assim eles acompanham a cantora e Dax os vê como os seres dignos de misericórdia que ele sempre acreditou que eles fossem. É a sua vitória moral depois de tantas agonias.

§ 6. O filme é humanitário, antes de ser humanista. A diferença é importante, para não dizer decisiva. Porque ele desperta compaixão, e não orgulho. Não há nada de que se orgulhar. Mesmo Dax, no fim das contas, se comporta apenas dignamente no meio da insanidade da guerra, como um ser humano normal na posse plena de suas faculdades. Isso já nos livra daquele engano fatal da romantização da guerra, para não falar da romantização da condição humana como um todo. Espiritualmente, temos duas questões importantes trazidas por esta obra de Kubrick.

§ 7. A primeira é o testemunho favorável ao dom de Vigilância. O Coronel Dax é uma testemunha privilegiada de como opera o Sistema da Besta, e também o Pacto Sadomasoquista. Vê nas ambições e vaidades de Broulard e Mireau a monstruosidade demoníaca do desejo de poder. E fica horrorizado que Broulard tenha lhe tido como um dos seus, e não como um defensor das vidas de três soldados. Eventualmente isso sempre acontece com lideranças de segundo escalão: são convidadas a tomar assento na mesa dos grandes servidores voluntários do inferno. Broulard e Mireau são Cavalos no Xadrez do Diabo. Dax se recusa a tornar-se um deles.

§ 8. Mas a questão vai além. Um dos soldados escolhido para ser executado agride o Padre Dupree, questionando o sentido da salvação que lhe é oferecida nesse momento de aflição. O religioso só diz que é preciso aceitar os caminhos de Deus, que são misteriosos. Mas nenhuma fé pode ser adquirida assim, e nenhum esclarecimento. Dupree poderia ter denunciado todo o mal do mundo e levado a Boa Notícia de que em breve os três estariam livres de todos os demônios da Terra, a começar pelo Papa e pelo Presidente da França. Mas ele não pode fazer nada disso. Sua Ressurreição é fraca, quase vazia, um eco morto. Seu papel não é o de levar o Evangelho aos pobres, mas de garantir que os prisioneiros se comportem bem durante a execução, que é um evento público. Está à serviço do mesmo Sistema da Besta, no papel de Bispo, associado com o Cavalo. E, não surpreendentemente, mais tarde o asqueroso Mireau dirá a Dax: “parabéns, seus homens morreram muito bem“.

§ 9. O tema mais relevante do filme, porém, é o da inevitabilidade da morte. Para ser justo, o Padre Dupree fala disso, mas é apenas uma consolação formal e protocolar bem superficial, dentro do seu papel social. Não há fervor, não há um testemunho digno de Jesus Cristo. Um dos condenados à execução pergunta, muito sincero: “por que preciso morrer?” A necessidade dessa experiência, a mais universal e unificante das experiências humanas (além apenas do nascimento), mostra que a disputa moral entre corajosos e covardes é um tanto fútil. Quem escapará da morte, depois de ter nascido? E se um homem tem o defeito da covardia, quantos defeitos não tinham também os que morreram corajosamente? O que importa é dar uma resposta universal à essa pergunta universal: por que precisamos morrer? E a resposta cristã é: não precisamos, e não morreremos. Nossos corpos, frutos das Obras da Carne, esses sim precisam morrer, e isso justamente para que nós possamos viver para sempre de fato. Se o grão que cair na Terra não morrer, não gerará o fruto para a Eternidade. Isto nos leva ao mais importante dos papéis do Sistema da Besta. Seria o do Rei? Ou da Rainha? Nada disso. É o do Peão. Sem o Pecado Original não há fonte de poder para os Mireau, os Broulard, ou para qualquer vilão que seja neste mundo. Essa é a fonte de poder para o Ouroboros e todos os seus associados no mundo, e continuará sendo até o fim do mundo. Mas como poderiam gozar da paz provinda desse entendimento aqueles pobres soldados que não só não receberam o verdadeiro Evangelho, como possivelmente também nunca o procurariam mais tarde, mesmo que fossem poupados e que vivessem longas vidas?

§ 10. A chave está naquela última cena. Digo, talvez esteja. A arte nos permite projetar idéias e sentidos com essa facilidade. Mas me parece muito viável pensar assim, e acho que me entenderão. Aqueles soldados brutalizados não foram apenas iniciados nos males da guerra, mas na própria essência perversa da Queda, da rejeição do Amor divino. Por isso parecem inicialmente animalescos. O Ouroboros os quer como animais ao seu dispor. Enquanto o Deus verdadeiro quer filhos livres, o Usurpador quer animais escravizados. E será como animais que eles reagirão inicialmente à aparição daquela jovem alemã no café. Mas então ela canta. E eles voltam aos poucos à inocência do seu paraíso perdido, ao seio materno de onde vieram antes de serem iniciados no Pacto Ouroboros e em toda malícia do mundo. Não eram animais. Só tinham se esquecido de que eram humanos.

§ 11. Convém-nos até reconsiderar esta última cena como a melhor de todas do filme, e certamente uma das mais belas de toda a história do cinema. E as repercussões espirituais dela são tremendas. A menina que canta é a mulher que pisa na cabeça da Serpente defendendo seus filhos. Por isso é tão relevante reconsiderar, urgentemente, o simbolismo do Puer Aeternus à luz da doutrina esotérica do Pecado Original. Ser humano diante de Deus é voltar à inocência que é incompatível com a pactuação da iniciação na malícia deste mundo decaído e amaldiçoado. Não surpreende que nem três décadas depois dessa exibição de bravura da parte dos franceses, eles decidissem desconfiar da inescrupulosidade de seus chefes militares e políticos, e oferecessem então pouca resistência ao ataque alemão na Segunda Guerra Mundial. E não surpreende também todo o pacifismo que permeará o Século XX, para não falar das liberações sociais, do reconhecimento dos direitos das minorias, etc. Tudo isso sai de um movimento em reação ao cúmulo das mentiras da Velha Ordem. Mas não quer dizer que o diabo não esteja produzindo já essa Nova Ordem que também lhe servirá no fim das contas. Não há salvação no belicismo ou no pacifismo. Só há Salvação verdadeira em Jesus Cristo e na renúncia individual a todo o mal, que é o sentido da Cruz para cada um de nós. Neste sentido o filme é positivo, não parece querer nos iludir, justamente por ser mais humanitário do que humanista.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Fratura, filme por Brad ANDERSON

§ 1. Aquele que não acredita no Amor pode crer em qualquer coisa, inclusive em si mesmo e em suas mentiras. Nosso infeliz protagonista, Ray, foi traumatizado pelo acidente que causou a morte de sua esposa anterior, especialmente pelo agravante moral de que ele estava dirigindo embriagado na ocasião. Ray, ao invés de enfrentar o demônio da culpa e, principalmente, do Terror em face da sua perda, fugiu para um abrigo típico.

§ 2. O abrigo do dever de estado, na forma de uma renovada e ampliada responsabilidade como marido de sua nova esposa, Joanne, e como pai da pequena Peri. Isso nos leva aos eventos mais recentes, retratados no início do filme. Retornando de uma viagem de carro de uma frustrante visita aos sogros, Ray entra em discussão com Joanne, ao mesmo tempo em que se irrita bastante com Peri.

§ 3. Eles param num posto de gasolina onde a menina sofrerá um acidente fatal, uma queda. Apesar de não ser culpado, por estar presente e envolvido na situação Ray não tem condições emocionais e psicológicas de lidar com o ocorrido, e muito menos com o desespero de sua esposa diante da cena trágica. Empurrando Joanne para longe, acaba causando também a sua morte. A partir daí, não só motivado pelo trauma, mas também por uma concussão que ele mesmo sofreu também em uma queda, tudo muda para Ray.

§ 4. Ele produzirá toda uma ilusão na qual ambas Joanne e Peri estão ainda vivas, e em que ele tenta então levar a filha machucada para se tratada no hospital mais próximo. Lá chegando, algumas coisas estranhas acontecem que o faz começar a ficar paranóico, especificamente com a hipótese de que há uma operação de tráfico de órgãos no local. Ray, mesmo subconscientemente, está construindo a sua mentira, uma estória que lhe é conveniente.

§ 5. Sua filha é encaminhada para um procedimento acompanhada da mãe. Cheio de suspeitas, Ray adormece na recepção do hospital, enquanto aguarda a saída das duas. Quando desperta, já não está mais na ilusão anterior, mas ainda bloqueia a memória do que realmente aconteceu. Vai em busca de informação sobre a filha e a esposa, mas descobre que ninguém as viu em nenhum momento. Sua paranóia explode.

§ 6. Depois de muitas idas e vindas com os funcionários do hospital e até da polícia, forçado a confrontar suas mentiras, Ray tem um novo surto que termina com mortos e feridos, e nosso protagonista acaba fugindo do hospital com um paciente que ele quer crer que é a sua mulher. Toda essa insanidade resultou da fraqueza espiritual de Ray, que não soube agir corretamente desde aquele seu primeiro trauma, e vem carregando uma conta pesada, com juros, por toda a sua vida.

§ 7. Já lhe tinha faltado então a melhor solução: se reconciliar com Deus para se livrar das mentiras do Acusador com relação à culpa da morte da sua primeira esposa, e repousar então na esperança da ressurreição da falecida. Isso lhe poderia ter poupado de ter a Presunção de corrigir seus males antigos com novos males, isto é, com novas responsabilidades que apenas o aborrecerão. E isso poderia ter poupado tanto Joanne quanto Peri de seus males sofridos.

§ 8. Por nem sequer sugerir algo que pareça com uma solução espiritual, o filme peca por vários lados. Nos fazendo crer em fatos trágicos e inescapáveis, dá testemunho tanto da Idolatria quanto do Terror, o Pacto com o Inferno. Onde está Deus? Não há, nem como referência de algo ausente na vida de Ray. Por outro lado, não há remédio suficiente para o sofrimento, porque não há vida espiritual, só um protagonista imbecil que vive inconsciente do sentido de suas ações, quase como um animal. Como se não bastasse isso, ainda há essa insinuação de que é mais fácil uma pessoa ser doida, paranóica, do que médicos e hospitais praticarem o tráfico de órgãos, o que é um testemunho de Ingenuidade. É pior do que isso: há médicos e hospitais envolvidos com o tráfico de pessoas, inclusive com o propósito de fornecer os “insumos” para rituais satânicos. Tudo isso existe, mas o filme quer que todos nos sintamos como Ray ao cogitar essas hipóteses: como uma pessoa que perdeu a razão. Por fim, e em linha com esse direcionamento, Ray é visto ao fim como um paciente com um mal psíquico adequadamente diagnosticado pela Dra. Jacobs, e nunca como um agente moral que tomou decisões espiritualmente relevantes que foram a causa fundamental dos seus enganos, especialmente o desespero pelo trauma original da morte da primeira esposa, em que ele se deicou levar pela Idolatria e pelo Terror. Que ele tenha distúrbios psíquicos, isso não pode ser negado, mas como ele chegou nisso em primeiro lugar? Foi se afastando da Presença de Deus. Isso a Dra. Jacobs não poderia reconhecer, porque não convém: este filme quer dar o testemunho do Psiquismo, e não do Discernimento. Por tudo isso não podemos recomendar este filme. Sendo uma denúncia do mal da paranóia, ironicamente ele deve causar apenas mais paranóia ainda, porque não oferece nem uma sombra de uma solução real para a condição humana, supostamente trágica.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final3,1

Live do Solstício do Verão de 2025: Trump, o Terceiro Templo e a N.O.M.

O que é uma perspectiva escatológica: É um cálculo que mistura Geopolítica com Profecias, com vistas ao cumprimento de determinadas etapas previstas em uma certa visão espiritual da história. Por exemplo, enquanto na Geopolítica se ignora a importância da pouca expressividade do recém-eleito Papa Leão XIV no cenário político internacional, isso pode ter valor profético, já que esse personagem pode aguardar o devido momento (um acordo de paz global) para se revelar como o Falso Profeta. Os eventos atuais no mundo, e em especial no Oriente Médio, fazem parte de mais um giro na roda da História, ou de uma série final de ocorrências em direção ao Fim dos Tempos?

Ataque minucioso de 13/06/25: Lembrem-se da mentira de que essa mesma administração afirmou que 07/10/23 foi uma surpresa total.

Trump: Chantagem do Mossad (Operação Epstein)? Cenário análogo ao de Wilson antes da Primeira Guerra? Possibilidade de assassinato?

Israel: Destruição de al-Aqsa? Descoberta da Arca da Aliança? Construção do Templo, revelação do Anticristo, implantação das Leis de Noé (N.O.M.).

Irã: Se possui arma nuclear, deve testar o mais rápido possível para impedir a escalada (ex. Paquistão, Coréia do Norte, Israel, etc.); se não possui, se defende de Israel, mas precisa da Rússia-China para se defender dos EUA.

EUA-MAGA: Oposição de parte da base populista (Steve Bannon, Tucker Carlson, Alex Jones, etc.), vs. Dispensacionalismo evangélico, Neocons e lobbys de AIPAC/Complexo Industrial Militar.

EUA-Deep State: Ataques de falsa bandeira, destruição de um porta-aviões no Oriente Médio pelo “Irã”, ataque a algum alvo americano no Báltico pela “Rússia”, ou explosão de artefato nuclear em território americano; possível guerra civil nos EUA.

Europa: amarrada com a Rússia na Ucrânia, mas atrasada no rearmamento.

Rússia: amarrada com a Europa na Ucrânia, muito interesse em se desembaraçar disso com um acordo, para se defender nas frentes do Oriente Médio/Ásia; se Trump propusesse trocar Ucrânia pelo Irã, provavelmente vão rejeitar.

China: não quer a interrupção da logística do petróleo, pode agir para impedir qualquer disrupção à manutenção da sua reserva estratégica.

Gatilhos escatológicos: guerra terrestre em grande escala nas fronteiras ou no interior de Israel; a destruição de Damasco; a destruição da mesquita de al-Aqsa e o início da construção do Terceiro Templo; crise econômica mundial pela disrupção da logística do petróleo; terremotos e fenômenos vulcânicos simultâneos por todo o mundo; aparições de OVNIS e/ou proliferação de “aparições”, “prodígios” e “milagres” (sinais da ação da Besta).

Perspectiva mais ampla: Esse cenário, que é como um palco de teatro, foi preparado desde o começo do século passado e até de antes. A permissão espiritual foi recebida pela anuência través da continuidade do Pacto Ouroboros (Pecado Original). Todas as oposições radicais no Oriente Médio foram fabricadas por EUA/Israel para a mudança do status quo na direção da Nova Ordem Mundial. Politicamente com as guerras mundiais, e culturalmente com a influência das Religiões messiânicas (Cristianismo e Islamismo) sobre as massas, e da Maçonaria sobre as elites, preparando o mundo para o Terceiro Templo, para as Leis de Noé e para o Anticristo e a N.O.M.

Puer Aeternus, livro por Marie-Louise von FRANZ

§ 1. Humildade vs. Presunção: A autora sofre do mesmo mal típico das ideologias psicologistas de encarar o Ignorado como Inconsciente, ou seja, sob o ponto de vista de uma gnosiologia antropocentrista, humanista, sem a intermediação do governo de uma Providência que produza uma Harmonia Pré-estabelecida. Ela chega a defender valores abertamente anticristãos, no sentido explicitamente contrário à Humildade dos cordeiros. Incapaz de entender o valor da inocência do Puer como valor espiritual. O que chama de maturidade, que seria uma saúde psíquica, é a própria Presunção. Não percebe que o psicologismo se tornou uma pretensa arte soteriológica, uma farsa em substituição à verdadeira vida espiritual diante de Deus. O psicólogo se coloca no lugar de um Sacerdote, ou até de um deus. Nota 1.

§ 2. Presença vs. Idolatria: Humanista, psiquista, só possui bens contingentes e limitados à mesquinharia e pequenez deste mundo, não possui praticamente nenhuma abertura para uma transcendência verdadeira que supere a Psique. O idealismo do Puer é uma ficção, apenas uma fuga do mundo real, da contingência que é tudo o que existe para a autora. Compara Cristo à arquétipos mitológicos ligados à idéia do Puer, como Tamuz, Atis, Adônis, Dionísio ou Eros, como o Deus-Criança, o Deus da Juventude Eterna, o Deus da Vida e da Ressurreição, em suposta guerra contra a divindade do limite e da restrição, o Senex. Não compreende que o problema da liberdade cristã não é a violação do Limite, mas a aceitação da Mistura como se fosse constituição do Limite. O idealismo do Puer não aceita uma falsa restrição produzida pela pretensão do arbítrio humano, derivado por sua vez do espírito de Idolatria. Nota 2.

§ 3. Louvor vs. Sedução-Pacto com a Morte: Cria a angústia da necessidade de se aproveitar uma vida para realizar a tal individuação, senão algo de bom estará perdido para sempre. Exige que o Puer se defina com relação à objetivos e metas limitados pela contingência, ou perca definitivamente a possibilidade de se realizar nessa estreita experiência de vida. Nota 2.

§ 4. Paixão vs. Terror-Pacto com o Inferno: Dá o testemunho de uma visão fatalista e trágica do mundo. A todo momento fala de destinos trágicos. Coloca-se como serva do Inferno, prendendo, como faz a Astrologia, as vítimas de uma fatal consecução de fatos dentro de uma prisão sem saída. Não tem nenhuma noção do valor da Cruz, da confiança numa Redenção que venha desde o divino para resgatar o humano. Se o ser humano não se salvar, não terá salvação. Tem uma visão realmente abominável da realidade humana. Nota 0.

§ 5. Soberania vs. Gnosticismo: Testemunha pela estrita interpretação de experiências e sonhos desde o esquema arquetípico que aprendeu com seu mestre, aquele satanista enrustido chamado Jung. Não tem a menor noção da verdadeira liberdade cristã, e portanto não compreende a sua própria restrição voluntária aos esquemas de crenças do psicologismo. Por isso só pode condenar a liberdade interior do Puer como uma fraqueza. Nota 2.

§ 6. Vigilância vs. Ingenuidade: Interpreta o mundo e a vida humana desde um ponto de vista ingênuo, sem condições de identificar a estrutura elementar da experiência humana definida pelo próprio arbítrio. Para quem fala tanto de responsabilidade sobre a realidade, não enxerga a primeira das responsabilidades, que vem do Pecado Original. Condena a suposta imaturidade do Puer, mas ela própria não se enxerga escondendo-se o tempo todo por trás da narrativa de supostos destinos trágicos, etc., como se o ser humano não tivesse desde o início o poder de buscar para si e para o outro a liberdade. Nota 3.

§ 7. Discernimento vs. Psiquismo: Obviamente dá um testemunho dessa visão de mundo grosseira e rasteira que interpreta tudo desde um mecanicismo psíquico simplório, como se diante de um dado fato não existisse liberdade senão pelas alternativas identificadas nos esquemas mapeados pela sua visão de mundo humanista, fatalista, etc. Nota 2.

Nota espiritual: 1,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno0
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final1,7

Mentiras católicas? Lutero cabalista, Cátaros abortistas e Bogomilos sodomitas

Tive recentemente a oportunidade de ver uns descarados falarem montes de coisas contra montes de gentes desde aquele ponto de vista tão privilegiado que é o do farisaísmo católico. Falo de pessoas inteligentes e capazes que simplesmente se recusam a pensar na sua Mater et Magistra com o mesmo espírito crítico que dirigem aos adversários da Coisa (termo de Chesterton).

Perguntei ao nosso amigo Chat GPT sobre essas supostas verdades católicas, e ele nos informa que são mentiras católicas. É claro que o Chat GPT faz parte de uma grande conspiração anti-católica, etc., o que nem precisa deixar de ser verdade para que essas mentiras continuem sendo mentirosas. Vou mostrar os resultados das minhas pesquisas para vocês, mas não sem fazer antes uma observação importante a respeito do problema da Cabala.

O que é a Cabala? É a recepção da Tradição Oral pelos judeus, precisamente aquela Tradição condenada por Jesus. Interessante notar o quanto o catolicismo se tornou uma continuidade do messianismo talmúdico e cabalista, com a pretensão de um totalitarismo secular em nome de Deus, para fazer a restauração do mundo e instaurar o Reino de Deus no tempo presente, ou seja, dentro da História da Queda. Reparamos na repetição dos erros judaicos dentro do costume católico, isto é, aquelas grandes traições da Religião: 1) a imposição de uma Tradição Oral contra a liberdade individual de consciência e responsabilidade; 2) o culto da oferta de sangue como sacrifício aceito por Deus para a reconciliação espiritual; 3) o incentivo da continuidade do Pecado Original, o Pacto Ouroboros, em continuidade à prática iniciada por Adão e Eva; 4) a ameaça de uma penalidade terrível por toda a Eternidade em caso de questionamento dessas práticas religiosas. São esses judeus enrustidos que querem nos fazer crer que Lutero e outros são cabalistas, etc. São esses que se recusam a receber a liberdade trazida por Cristo contra toda a mentira diabólica desde o princípio, o próprio Gênesis, e que não querem que outros recebam a Boa Notícia dessa liberdade.

Vejamos os resultados das minhas consultas sobre os temas específicos.

Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre Martinho Lutero ter algum envolvimento com a Cabala judaica?

A ideia de que Martinho Lutero teria envolvimento com a cabala (ou que era “cabalista”) não é uma posição oficial ou comum do catolicismo, nem historicamente sustentada por evidências sólidas. No entanto, essa associação ocasional pode ter surgido em certos círculos polêmicos ou apologéticos, especialmente no contexto de reações católicas contra o protestantismo durante e após a Reforma.

Aqui estão alguns possíveis motivos pelos quais essa ideia surgiu em certos discursos:

1. Polêmicas religiosas e associação com heresias

Durante a Contra-Reforma, apologistas católicos (e também protestantes entre si) frequentemente acusavam uns aos outros de heresias, influências judaicas, gnósticas, ou cabalísticas, como forma de deslegitimar seus adversários. A cabala, sendo mística e associada a correntes esotéricas judaicas, era vista com desconfiança. Acusar alguém de simpatia pela cabala era uma forma de pintar essa pessoa como herética ou desviada da ortodoxia cristã.

2. Confusão com interesse por línguas e textos hebraicos

Lutero estudou hebraico para traduzir o Antigo Testamento e tinha contato com textos judaicos. Isso, para alguns, podia ser mal interpretado como uma simpatia pela cabala, já que muitos textos cabalísticos são escritos em hebraico. Na época, o simples fato de lidar com fontes judaicas já era motivo de suspeita para alguns setores conservadores.

3. Teorias conspiratórias posteriores

Especialmente em séculos posteriores (século XIX em diante), algumas teorias conspiratórias tentaram ligar Lutero ao judaísmo esotérico ou à maçonaria, muitas vezes como parte de narrativas antissemitas ou antiprotestantes. Essas teorias às vezes tentam criar uma cadeia de influência “herética” que incluiria o protestantismo, a cabala, os iluministas e a maçonaria.

4. Literatura marginal

Alguns autores católicos ultra-tradicionalistas ou esotéricos podem ter feito essa ligação, não com base em evidências históricas sérias, mas por conveniência teológica ou ideológica. Essas fontes, contudo, não representam a doutrina católica oficial.

Fato histórico:

Martinho Lutero era profundamente hostil ao judaísmo em seus escritos tardios, especialmente em textos como “Sobre os judeus e suas mentiras” (1543). Isso torna ainda mais improvável qualquer envolvimento sincero com a cabala judaica.

Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre os cátaros, ou albigenses, que estes iam de cidade em cidade obrigando as mulheres a abortar, de modo que foi a população do sul da França que pediu ao Papa que organizasse uma Cruzada para detê-los?

Não, essa narrativa propagada por alguns setores católicos modernos sobre os cátaros — de que eles iam de cidade em cidade obrigando mulheres a abortar e que a população do sul da França pediu ao Papa uma cruzada para detê-los — não é historicamente precisa e carece de evidências confiáveis. Vamos separar os fatos históricos das distorções posteriores:


O que sabemos com base em fontes históricas confiáveis:

  1. Os cátaros (ou albigenses) eram um movimento cristão dualista ativo na região do Languedoc (sul da França) entre os séculos XII e XIII. Tinham crenças influenciadas pelo maniqueísmo, com uma visão dualista do mundo (espírito bom / matéria má), o que os colocava em oposição à Igreja Católica.
  2. Os cátaros pregavam uma vida ascética e condenavam o mundo material, o que incluía críticas ao casamento, à procriação e à Igreja Católica institucional. Os mais devotos (os “perfeitos”) evitavam relações sexuais, consumo de carne e riqueza.
  3. A Cruzada Albigense (1209–1229) foi convocada pelo Papa Inocêncio III, oficialmente para combater a heresia cátara, mas também envolvia interesses políticos e territoriais. O sul da França era relativamente autônomo e culturalmente distinto, o que incomodava o reino da França e a Igreja.
  4. Não há registros confiáveis de que os cátaros “obrigassem” mulheres a abortar ou praticassem tal política sistemática. As acusações de práticas “perversas” (como aborto, incesto ou canibalismo) são típicas de campanhas de difamação contra grupos hereges na Idade Média — e devem ser vistas com ceticismo, pois muitas vezes eram propagandas da Igreja para justificar a repressão.

A narrativa de que a população pediu ajuda ao Papa:

  • A iniciativa da cruzada não partiu das populações locais, mas do Papa e de nobres do norte da França, interessados tanto em eliminar a heresia quanto em conquistar terras no sul.
  • Muitos senhores locais do Languedoc protegeram ou toleraram os cátaros, o que mostra que não havia uma rejeição popular generalizada ao movimento.

Fontes históricas relevantes:

  • “Montaillou: The Promised Land of Error” – Emmanuel Le Roy Ladurie (baseado em registros inquisitoriais)
  • “The Perfect Heresy” – Stephen O’Shea
  • “Heretics and Heroes” – Thomas Cahill
  • Registros da Inquisição, como os de Bernard Gui, também revelam tanto sobre as crenças cátaras quanto sobre as táticas da repressão.

Conclusão:

A ideia de que os cátaros impunham abortos e que a cruzada foi um pedido popular é uma releitura distorcida e anacrônica, provavelmente usada para justificar ou minimizar a brutalidade da Cruzada Albigense. A verdade é mais complexa: envolveu conflito teológico, interesses políticos e repressão violenta de uma dissidência religiosa significativa.

Pergunta: É verdade o que os católicos afirmam, de que os Bogomilos praticavam a sodomia?

Não há evidências históricas confiáveis de que os Bogomilos, um movimento cristão dualista surgido no século X na região dos Bálcãs, praticassem a sodomia como parte de sua doutrina ou ritos religiosos. Essa acusação foi feita por seus oponentes — principalmente autoridades católicas e ortodoxas — e deve ser entendida dentro do contexto das polêmicas religiosas e perseguições da época.

A Igreja frequentemente atribuía aos hereges práticas sexuais consideradas desviantes (como sodomia, orgias, incesto) como forma de demonização e difamação, independentemente da veracidade dessas alegações. Esse padrão se repetiu com outros grupos considerados heréticos, como os cátaros e os valdenses.

Os Bogomilos, na verdade, pareciam praticar uma forma de ascetismo rigoroso, rejeitando a carne, o casamento, e outras expressões materiais e carnais da vida, o que contradiz diretamente a ideia de que promoviam ou toleravam práticas sexuais libertinas.

Em resumo:
Não, não é verdade no sentido de ser um fato historicamente comprovado. Essa alegação provavelmente fazia parte de uma campanha de propaganda religiosa contra o grupo.

Filosofia medieval, livro por Frederick COPLESTON

§ 1. O padre jesuíta Copleston inicia sua obra com um prefácio no qual não quer admitir que a dificuldade inerente ao destaque dos méritos da filosofia medieval vem do problema da sua inegável mistura com a religião cristã. A filosofia medieval em geral é excelente. Mas sua mistura com essa porcaria chamada Religião sujou a sua reputação. Copleston não pode nos dizer isso, é claro. Ele diz que os estudiosos que “não acreditam no cristianismo” terão dificuldades em entender o período. Essa é uma expressão curiosa. Já nos mostra um problema: que diabos significa não acreditar no cristianismo? O que é o cristianismo? Não crer nessa coisa, que é uma religião, é o mesmo que não crer no Evangelho, ou o mesmo que não crer em Jesus Cristo? Um religioso pensa exatamente assim. Lhe convém deixar tudo isso misturado, de modo que quem quiser se considerar cristão, isso significando apenas ser um seguidor de Cristo, é melhor que se considere também um crente no tal do Cristianismo, ou seja, como participante num grupo criado e governado por seres humanos, legitimando com seu assentimento essa autoridade temporal sobre os homens, etc. É desse modo que os cristãos aprenderam a imitar os judeus. Quem quiser crer no Deus revelado por Moisés na Torá deverá crer nos seus legítimos intérpretes, os rabinos, como se esses tivessem o poder de sequestrar o testemunho e pegar emprestado para si o prestígio da autoridade divina. Já falei dessa perversidade que foi iniciada com o próprio Lúcifer, que quis ser o “revelador” ao homem, como um Prometeu, de uma Glória que nunca foi sua. Cristianismo, afinal, é um termo que designa uma criação cultural humana. Digamos que seja o conjunto das religiões que pretendem ser as legítimas anunciadoras da Revelação do Evangelho. Mas eu não posso crer em Jesus e no Evangelho sem crer nessa criação humana particular? É claro que posso. E se eu não pudesse, essas diferentes religiões cristãs também não poderiam diferenciar-se entre si. Talvez Copleston não possa jamais reconhecer isso, mas isso já é problema dele. Para a mentalidade de um católico, por exemplo, não possuir a garantia da veracidade de uma determinada interpretação da Revelação por uma Religião verdadeira é o fim do mundo, o caos na Terra, etc. Para mim a dúvida sobre a posse da verdade é apenas um reflexo da realidade da ignorância humana, da dependência da Graça, e do dom de Humildade (o verdadeiro sacrifício de comunhão que Deus nos pede).

§ 2. Na explicação da evolução da filosofia na época, ele nos mostra bem o drama da passagem do Império Romano para o período medieval. O conhecimento filosófico é preservado principalmente nos mosteiros, que têm essa função de cofres culturais, quase cápsulas do tempo. Quando a Europa já estiver um pouco mais reorganizada politicamente e vier um novo Império com Carlos Magno, aos poucos a cultura guardada pelos monges pode reaparecer no ensino por todo o território. Essa realidade nos mostra como a alta cultura depende de paz e estabilidade social para florescer. A barbárie só mantém a ignorância e a escravidão do homem à Maldição e ao Poder. O que não significa que a Civilização não produza suas tentações particulares, entenda-se bem.

§ 3. Copleston nos apresenta Agostinho e Boécio como figuras de transição entre o período da filosofia antiga e o da filosofia medieval. Identifica Anselmo da Cantuária como uma primeira figura medieval de destaque. O argumento ontológico de Anselmo no Proslogion é até hoje mencionado, mas de forma errada. Não existe o convencimento racional sobre a suposta “existência” de Deus. Para começar, cá entre nós, como já expliquei, Deus não existe, Ele É. Em segundo lugar, a vida na Presença de Deus, ou seja, a vida da Fé, é uma realidade gerada pela Graça divina, e não pela razão natural. É o Espírito Santo quem dá o testemunho do Ser divino. Anselmo, portanto, não pregava para descrentes. Ele filosofava para cristãos que já tinham a Fé. Daí afirma-se a máxima tão importante para a Filosofia Cristã, do crede ut intelligas, intellige ut credas. O maior vem antes do menor, isto é, a Fé como dom sobrenatural vem antes da razão natural. É para estes cristãos que já possuem a Fé que até hoje é poderosa a verificação de que o conceito de um ente perfeito requer a existência do mesmo, que é a essência do argumento ontológico.

§ 4. O famoso problema dos universais ganha relevância com a filosofia de Pedro Abelardo, e a partir dessa discussão conhecemos as possibilidades de respostas desde o ultra-realismo, o realismo moderado, e o nominalismo. Junto com a filosofia de Abelardo existe toda uma preparação para o rigor lógico que servirá de base para as construções das grandes sínteses no Século XIII e além. Seu famoso livro de Sentenças se torna uma literatura obrigatória para toda a filosofia futura. Todo mundo usa essa base para fazer comentários e criar algo em cima. Antecipando muitas discussões, o nominalismo vence. Se Deus salva a alma já havia a previsão de uma Criação de individualidades e para indivíduos e não de universalidades para uma coletividade, o que é monadologicamente adequado. Possivelmente a Igreja lutava teologicamente dentro de si contra a posição coletivista herdada do Israel bíblico, um vício que precisou ser depurado e finalmente extirpado com uma filosofia adequada á Revelação final, isto é, do Evangelho. O que não impediu algumas figuras poderosas de rejeitarem a Filosofia como um todo, inclusive já na época de Abelardo, como foi o caso de Bernardo de Claraval.

§ 5. Em seguida a grande luta da filosofia medieval ocorreu pela missão autoimposta por grandes intelectuais de absorver a filosofia aristotélica e fazê-la estar de acordo com a teologia. Aristóteles foi muito confiado como autoridade, frequentemente sendo chamado de “O Filósofo”, inclusive por Tomás de Aquino. No lado islâmico, Avicena tem mais facilidade em recusar teses do estagirita. Já Averróis sucumbe ao naturalismo aristotélico e empesteia a Europa com suas idéias. Do lado cristão, Aristóteles é inicialmente proibido em Paris etc., e depois é saudavelmente glosado pelos franciscanos que tinham um platonismo e neoplatonismo robustos, aprendidos com Agostinho, para bloquear os excessos naturalistas; porém, o aristotelismo termina perigosamente influente dentro da filosofia tomista, um projeto iniciado por Alberto Magno, mestre do aquinate.

§ 6. Com Boaventura, o Doutor Seráfico, Cristo mantém sua excelência filosoficamente intraduzível. Já com Alberto Magno e Tomás de Aquino, Aristóteles se torna quase que um profeta. A gratuidade de Deus depende da liberdade contra o naturalismo aristotélico. Os franciscanos são superiores do lado teleológico. Com Boaventura temos uma antecipação da TMSB, porque ele era intelectualmente agostiniano, portanto um tipo de agatista. Também são superiores os franciscanos medievais, epistemologicamente, com a iluminação divina que põe o intelecto humano no seu devido lugar, dependente da Graça até para suas operações mais elementares. Isso não muda o mérito do abstracionismo como descrição científica do processo cognitivo. Uma coisa é a causalidade intermediária e eficiente, outra é a causalidade primeira e finalística.

§ 7. Os germes das futuras ciências seculares foram desenvolvidos por alguns experimentalistas e especuladores medievais, como Grosseteste e Roger Bacon. A idéia da ciência iluminista, ou mesmo da filosofia moderna, em atitude de rompimento com o pensamento medieval é uma idéia caricatural que infelizmente impregnou a divulgação enciclopédica sobre o período, um vício derivado da propaganda gerada pela ideologia iluminista. Qualquer estudioso sério do período percebe muito rapidamente o quanto isso é falso.

§ 8. Das glórias de Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, podemos citar facilmente a criação por analogia, e o conhecimento de Deus também por analogia (uma certa agnosia), de modo que conhecer a Deus é ver o infinito no finito, ou o Uno no Múltiplo. Somente Deus é o Ato Puro. Tomás distingue o esse simpliciter do esse secundum quid, e abre a possibilidade das futuras ontologia e epistemologia monádicas (mas não sem intervenções importantes de personagens como Duns Scot ou Ockham). Por outro lado ele não teme rejeitar Aristóteles ou Averróis para defender a continuidade da alma depois da morte do corpo, o que também é meritório e esperado de um filósofo cristão. A fraqueza de Tomás é a epistemologia da abstração e a derivação hierárquica da lei divina pela lei natural desconsiderando a Queda, algo pelo que não se pode culpar Aristóteles que não recebeu a Revelação de Gen 3, mas pelo que se pode culpar um teólogo cristão, ou mesmo um filósofo cristão. É importante lembrar que o Doutor Angélico só se tornou o filósofo católico por excelência pela decisão papal de 1879 na Aeterni Patris de Leão XIII, ou seja, muitos séculos depois do contexto da obra tomista. Em sua própria época, Tomás de Aquino foi largamente contestado ou mesmo rejeitado.

§ 9. Há como reintegrar as teses mais incompatíveis do Filósofo e do seu Comentador, isto é, de Aristóteles e de Averróis, à visão cristã? Ora, a eternidade do mundo pode se referir à indeterminação da quantidade da Criação, algo alheio à Física aristotélica, mas viável de algum modo no contexto da visão daquilo que realmente é Eterno. Considerando-se o Logos como o Eterno, criador de mundos, não teríamos problema nenhum. Por outro lado, o monopsiquismo do intelecto agente pode refletir a mutualidade da representação dos intelectos passivos, isto é, das mônadas criadas, algo que é produzido pela Providência divina (a Harmonia Pré-estabelecida em Leibniz). Da mortalidade da alma se pode dizer que esta se refere ao estado imanente da mesma, a situção da mônada criada por si, desconsiderado o efeito da Graça. Já da eudaimonia nesta vida contra a bem-aventurança eterna se pode falar da ética ideal no caminho em direção à consumação da causa final, a boa corrida, o bom combate, etc. E finalmente, do princípio material de individuação, essa distinção não se torna irrelevante, antes que impropria, com a reflexividade holográfica? O que quero dizer com essas especulações é que para alguém bem intencionado tudo pode ter solução, em tese.

§ 10. Com Duns Scot, o Doutor Sutil, temos as minúcias medievais que mais tarde irritariam e sobrecarregariam os modernos. Com a Haecceitas temos o Principium Individuationis formal, uma “distinção formal objetiva” entre as individualidades. Copleston sofre para nos explicar a ideia, e isso no Século XX! Imaginem como sofreram os estudantes do Século XVI. Para mim a contribuição scotiana é fundamental: se toda manifestação material é o reflexo de uma objetividade formal, o único modo de manter a analogia sem cair num monismo panteísta é a Haecceitas. As almas humanas são mônadas criadas, singularidades, Unidades geradas por analogia com o Uno divino. É uma antecipação da metafísica monadológica. O gênio de Scot não para por aí. Ele sabe que a univocidade conceitual da analogia requer que algo do Ser divino seja compreensível a partir da característica do ser criado e vice-versa. Essa ponte é necessária para não se cair num agnosticismo, como o tomismo arriscava com uma analogia total que lembrava o tom islâmico do averroísmo. Imagem e semelhança, enfim, designam carácteres objetivos sobre o Ser divino em analogia com o humano. E de outro modo não se poderia, aliás, compreender a possibilidade da Encarnação de Cristo. Copleston acerta na defesa da reputação de Duns Scot, especialmente na importância da Soberania da Vontade contra o Gnosticismo das visões intelectualistas. E para sermos justos, este filósofo em particular nada inventou neste sentido, porque esse já era o entendimento de agostinianos e franciscanos na valorização do Amor sobre a Gnose. De todos os cavalos de batalha da filosofia medieval, este talvez fosse o mais importante, e Duns Scot estava do lado certo da história.

§ 11. Com Guilherme de Ockham, o Doutor Invencível, temos a valorização do conhecimento por intuição acima da abstração, o princípio da economia (a famosa “Navalha de Ockham”), e a simplificação do problema dos universais no que Copleston chama de “conceptualismo”, mais do que nominalismo. A questão, porém, já era antiga. Já Aristóteles se preocupava com a multiplicação dos seres no sistema platônico. Ockham identifica a universalidade com uma necessidade mais lógica, a partir do modus raciocinandi, do que ontológica, como distinção de realidades fora da mente. Em defesa do filósofo, Copleston explica que Ockham “tinha uma ideia rigorosa do que era uma demonstração”. O rigor lógico, dialético e silogístico de Ockham o obrigava a defender a pureza da teologia cristã contra as pretensões da metafísica pagã importada dos gregos. Se lembrarmos daquele princípio de que a tentação do conhecimento divino, isto é, a Gnose, foi o primeiro dos pecados (o original do original, de Lúcifer antes de Adão), podemos enxergar a superioridade dessa doutrina de Ockham como uma necessidade até para o lema da minha filosofia (Coram Uno Amor Tantum). Já na questão do voluntarismo de Ockham, de que Deus ordena o que é o bem porque quer e não porque é obrigado a isso, parece escapar a Copleston a razão desse procedimento: a abolição do paganismo na forma de uma dedução moral da Lei Natural. Especialmente se tivermos em vista a natureza decaída que já não representa a vontade originária, mas um ordenamento secundum quid, derivado do arbítrio humano especificamente desobediente, o voluntarismo de Ockham é inquestionável. Mas Copleston acerta ao valorizar a preocupação teológica do filósofo. “Nada no mundo é necessário”, como bem lembrou. Abolindo o necessitarismo causal de dentro da metafísica cristã, Ockham libertou o Evangelho do paganismo naturalista. Novamente vejo a semelhança com as premissas da minha Monadofilia, quando proponho as realidades de escassez, causalidade e irreversibilidade como contingências. Copleston na verdade não faz plena justiça à filosofia de Ockham. O filósofo testemunha diretamente que Deus pode produzir qualquer Percepção ao intelecto criado sem uso de causas intermediárias. Já é quase uma epistemologia monadológica e uma antecipação da holografia. Um tremendo testemunho da Presença e do Discernimento. Também afirma a possibilidade de um número indeterminado de universos ou realidades paralelas sustentadas pela Onipotência. Enfim, realmente Ockham libertou a Filosofia Cristã da estreiteza e pequenez da antiga filosofia pagã naturalista. Quando, por exemplo, afirma que qualquer proposição que pretenda ser verdadeira deve ser dubitabilis, “duvidável”, ele não só abre o caminho da investigação científica séria, mas também de uma Teologia séria e de uma Filosofia Cristã séria, desde que o primeiro dos predicados sobre a substância divina, aquele mais eminente de que Deus é Amor, deve ser duvidável, caso contrário não só a traição de Adão não seria possível, mas nem mesmo a de Lúcifer. As proposições se pretendem verdadeiras na sua própria dimensão, que é nominal, mas a sua realidade depende de um juízo que requer o assentimento de uma vontade livre, de modo que o que não pode ser negado também não pode ser afirmado, porque não pode sequer ser pensado. Neste sentido, Ockham também dá um testemunho formidável do dom de Soberania, alinhado com uma inclinação que já vinha tendo progressos com a filosofia dos franciscanos. Copleston não nos dá nada disso, talvez simplesmente porque isso não convém à sua Igreja? Há um medo, talvez, de que o ateísmo se torna intelectualmente viável com Ockham? Ora, quem fundou essa realidade da liberdade humana foi Deus, e se um homem não pode duvidar de Deus, igualmente outro homem não pode confiar em Deus realmente. O custo da liberdade, ou o seu risco, é alto porque a sua recompensa é igualmente valiosa, unicamente preciosa. Mas para sermos justos, esta obra não é uma análise em detalhe da obra de Ockham, e é um trabalho breve e introdutório apenas. Por fim, Copleston também não pode tomar partido no alinhamento de Ockham com Luís IV da Baviera, Imperador do Sacro Império, contra o Papa João XXII na discussão a respeito das propriedades da Igreja. Os franciscanos atacavam a concentração de riquezas pela Igreja romana, e enquanto os papistas defendiam que o uso dos bens implicavam no seu direito de propriedade, Ockham contribuiu com a distinção entre usus juris e usus fructis, etc. Excomungado e perseguido, teve que buscar refúgio no reino de Luís IV e morreu em Munique.

§ 12. O movimento ockhamista no Século XIV dá seguimento aos progressos escolásticos e antecipa as teses dos futuros modernos: nenhum juízo sintético é auto-evidente exceto a da existência do eu que pensa que nega a si mesmo (antecipando Descartes), ou então a proposição da existência de Deus não é analítica (antecipando Kant), etc. Estamos na encruzilhada do pensamento moderno, mas ainda em voz medieval.

§ 13. Nas margens do fim da Idade Média, Copleston identifica contribuições notáveis da mística de autores como Mestre Eckhart em antecipação ao idealismo alemão, e de Nicolau de Cusa como inspirador de Leibniz com sua coincidentia oppositorum, que é uma maneira de ver o desdobramento do Uno na manifestação do Múltiplo como relação, na sua linguagem, entre o Infinito e o finito.

§ 14. O autor termina fazendo uma breve referência às teorias políticas medievais, sem grandes consequências, exceto pelo seu constante ponto cego que o impede de ver a Igreja Católica como um poder humano em disputa com outros poderes seculares, o que simplificaria bastante o entendimento das disputas políticas entre Igreja e Estado. Copleston não conclui, mas podemos concluir nós mesmos, que a Filosofia Política de Tomás de Aquino pode ter sido o pivô da iniciativa papal do seu ensinamento como parte permanente do magistério da Igreja, muito mais do que outras partes da obra filosófica do aquinate.

Nota espiritual: 5,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,0

Nascido para matar, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Este filme –o nosso nono de Kubrick– conta a estória de um grupo de fuzileiros navais americanos desde o seu treinamento de seis semanas na Carolina do Sul até a sua entrada em ação no teatro de guerra do Vietnã. Testemunhamos o problema do treinamento de um exército profissional moderno: por não existir o apelo imediato da defesa da terra e da família que movia as mobilizações militares desde o tribalismo até o fim da Idade Média, é preciso fazer um extenso doutrinamento ideológico para transformar homens comuns em assassinos aptos a matarem desconhecidos do outro lado do mundo. Nosso grupo de soldados sofre nas mãos do rigoroso Sargento Hartman, interpretado pelo excelente Lee Ermey. Especialmente o soldado Leonard Lawrence (o “Gomer Pyle”) é vitimado pela rotina e pelo ambiente do treinamento. O protagonista, que é o soldado Davis (“Joker”), percebe a dificuldade de Lawrence, mas não consegue fazer nada para evitar a situação. Não quer se destacar do grupo em defesa de um. A psicologia da manada tem efeito até sobre sua personalidade supostamente mais diferenciada e esclarecida. Kubrick parece gostar de mostrar a corrupção dos melhores, dos que seriam mais confiáveis.

§ 2. Lawrence à certa altura começará a enlouquecer com a lavagem cerebral do treinamento, e no último dia dos soldados antes de seu envio para a guerra ele tem um surto no qual perde o controle. Davis diz que ele deve se recompor, ou eles estarão “num mundo de merda”. Lawrence, já praticamente possuído por um ódio homicida, responde: “ah, mas eu já estou num mundo de merda.” O Sargento Hartman aparece, Lawrence o mata e se suicida em seguida. É a colheita do incentivo ao tal “espírito assassino” que foi uma doutrina do treinamento. O objetivo do treinamento foi atingido parcialmente. Só falhou o direcionamento do ódio do instinto assassino de Lawrence. Hartman pagou por sua incompetência?

§ 3. Na guerra o soldado Davis vai trabalhar na sessão de jornalismo do USMC, ou seja, com a missão de fabricação de mentiras sobre a guerra. Ele acaba testemunhando a Ofensiva do Tet, quando os vietcongues surpreenderam os americanos no meio do cessar-fogo do feriado do Ano Novo lunar. Do ponto de vista militar podemos dizer que a estratégia global vietcongue foi vencedora porque eles foram mais fiéis à arte da guerra, que é a mentira e a manipulação. Guerra é política, já tinha ensinado não só Sun Tzu, mas também Clausewitz.

§ 4. Davis vai para a frente de batalha em Hué. Testemunha muitas atrocidades, dos dois lados da guerra. Um Coronel questiona Davis, que usa o broche da paz no peito enquanto em seu capacete está escrito “nascido para matar”. Não tem coerência alguma. Davis diz que isso vem da dualidade humana, algo junguiano, mas não se aprofunda. Ele percebe a Mistura, mas não sabe, ou não quer, discernir para além disso. Seu papel é de se aprofundar na aceitação desse status quo como uma realidade inescapável. O filme de Kubrick parece se encaminhar para um quadro fatalista.

§ 5. Ao fim do filme, depois de uma salada emocional com triunfos e frustrações no meio da guerra, Davis parte do Vietnã com sonhos eróticos em mente, imaginando o reencontro com sua namorada. Diz-nos, como narrador do filme: “sim, estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo.” Davis viu as vísceras da condição humana na guerra, mas não entendeu nada. Sua atitude de querer voltar para sua pátria para viver sua história com a namorada, possível futura esposa e mãe de seus filhos, como manda o costume, mostra que ele dá o assentimento para esse estado de coisas. É uma visão trágica e fatalista do mundo. Quando Lawrence tinha lhe dito que “já estava num mundo de merda”, não ocorreu a Davis investigar as razões para que isso fosse assim, bem como de toda a desgraça que ele vai presenciar no Vietnã. Ao fim ele reafirma, sim, estou num mundo de merda de fato, mas vamos em frente…

§ 6. Isso porque não existe transcendência neste filme. Jesus é um personagem religioso usado apenas para o doutrinamento militar dos fuzileiros contra os “pagãos comunistas”. Os símbolos religiosos e espirituais são apenas instrumentos de propaganda. Kubrick nos mostra um mundo brutal de onde não há escapatória, nem redenção, e nem esperança alguma senão a de tentar lucrar algo com a participação na Mistura. Que Hartman, ou qualquer outro soldado pensasse assim, seria esperado e muito verossímil. Mas porque Davis não pode cogitar uma alternativa? Porque ele não quer. Davis não é mais um nascido para matar pelo desígnio de uma vontade exterior, mas pela sua própria vontade, pelo seu próprio assentimento. Sendo inteligente e sensível, Davis é o ponto de identificação de um público inteligente e sensível. E Kubrick está usando Davis para dizer a esse público esclarecido: não há saída, é isso mesmo, vocês estão num mundo de merda e a única coisa que podem fazer é ir em frente e viver como seres nascidos para matar.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,9

O Iluminado, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Um filme obsessivamente analisado em seu simbolismo, O Iluminado, o nosso oitavo de Kubrick, de fato mostra o capricho do diretor em seu mise-en-scène. E é claro que há referências que servem como prato cheio para os teóricos da conspiração. As pessoas vêem foguetes aqui e ali, e de fato não pode nos escapar a blusa de Danny com a imagem representando a Apollo 11.

§ 2. A estória, baseada num livro de Stephen King, fala de Jack Torrance, um frustrado pretendente a escritor, que assume o serviço de cuidar do Hotel Overlook durante uma temporada de inverno. Leva sua esposa, Wendy, e seu filho, Danny. O Hotel, porém, já tem uma história sinistra, um crime horrível ocorrido nas mesmas circunstâncias em que Jack estará com a sua família. O zelador anterior assassinou suas duas filhas e se matou. Jack é avisado do risco da chamada “cabin fever” pelo gerente do Hotel. Jack não se preocupa.

§ 3. O pequeno Danny, por sua vez, tem um dom misterioso que o faz ter visões do futuro. Ele conversa com seu amigo imaginário, Tony, que lhe previne que o Hotel para onde eles irão é um local assombrado. Ele pede e recebe sua primeira visão do local, uma cena sangrenta. Quando chegam no Hotel, Danny conhece o Sr. Halloran, o cozinheiro. Halloran logo perece o dom de Danny, porque ele próprio possui uma capacidade semelhante. Diz que eles são “iluminados”. E previne para que ele tome cuidado naquele lugar. Diz que tudo que acontece num lugar deixa rastros, e que algumas coisas que aconteceram ali não foram boas.

§ 4. Jack não quer cuidar de suas ocupações no Hotel, que acabam sobrando para Wendy na maior parte. Mas também não consegue trabalhar como escritor. Fica distraído, sem inspiração, perdido. Sua esposa e o filho o irritam. Descobrimos que Jack já foi violento com Danny antes, e é possível que isso tenha inclusive despertado o dom misterioso da criança. Talvez assustado demais com a realidade o garoto tenha buscado refúgio no seu interior e descobriu algo ali?

§ 5. Em determinado ponto da estória algo se manifesta. Jack tem um pesadelo e Danny aparece machucado depois de entrar no quarto 237, onde Halloran havia dito que não deveria ir de jeito nenhum. Wendy acusa Jack de ter sido violento novamente contra o filho. Totalmente perdido, Jack vaga pelo Hotel e começa a ter suas próprias experiências sobrenaturais. Quando Wendy o procura, encontra o “trabalho literário” do mesmo: uma pilha de folhas onde Jack escreveu a sua famosa frase “all work and no play makes Jack a dull boy”. Ele pergunta: você gostou? Começa o terror.

§ 6. Jack quer agarrar e trucidar a mulher e o filho. Eles tentam escapar enquanto o Hotel manifesta ao máximo suas energias malignas. Agora até Wendy tem visões. Quando eles estão prestes a serem pegos, surge uma buzina na noite de nevasca lá fora. É o Sr. Halloran, que teve sua própria visão e decidiu ir até o Hotel para checar a situação. Jack desvia sua atenção da família, vai atrás de Halloran e o mata. Jack termina caçando o filho no labirinto em frente ao Hotel, mas o menino por astúcia consegue enganar o pai e fugir com a mãe. Jack morre congelado.

§ 7. Qual é a origem do mal no Hotel Overlook? Existem muitas explicações, a mais antiga vindo desde a época da construção do mesmo, já que tendo sido feita sobre um antigo cemitério indígena, envolveu alguma violência na defesa da construção contra ataques da tribo local. Jack mesmo parece reencarnar o antigo zelador do local. Estas especulações não chegam em lugar nenhum, porém. O que nos interessa é saber porque Jack foi possuído por essas forças demoníacas, sejam quais forem as origens das mesmas. Lá convivem funcionários e hóspedes a maior parte do ano, e mesmo na ocasião da crise da família Torrance, o mal foca em Jack especificamente como um veículo para a sua manifestação.

§ 8. Jack mesmo nos dá a pista disso em seu “trabalho literário”. Ele não quer carregar a sua Cruz, particularmente suas obrigações com a família. No caso do filho ele se vê claramente forçado a gostar do mesmo a contragosto. No momento de seu ataque de ódio, é disso que ele fala com Wendy: de suas responsabilidades. Vítima do Pecado Original como qualquer nascido de mulher, nunca ocorreu a Jack que ele caiu como vítima de um naufrágio neste mundo. Embalado pelas promessas de felicidade e de um possível Paraíso terrestre, como qualquer pessoa comum Jack mente para si mesmo a respeito da natureza do mundo em que vive, faz planos, e envolve pessoas nestes planos. Wendy acredita no mentiroso, como as mulheres geralmente fazem. E Danny nasce desse casamento entre a Pretensão do pai com a Ingenuidade da mãe. Quanto mais nos envolvemos com as mentiras da vida neste mundo e mais investimos nelas, mais arbitramos o excesso da experiência da Mistura e caminhamos na direção daquilo de que deveríamos fugir para o mais longe possível. Foi o que Jack fez.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo8
Nota final5,6

De olhos bem fechados, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Com o décimo filme de Kubrick em análise, podemos ver agora a sua obra como um todo desde um patamar mais privilegiado do que no início. Este filme foi feito, imaginemos, com a máxima qualidade técnica do cineasta, especialmente de sua apurada capacidade de trabalhar o controle do mise-en-scène. Nossa primeira obra analisada era de 1957 (Glória feita de sangue). Em seguida analisamos trabalhos de 1960 (Spartacus), 1962 (Lolita), 1964 (Dr. Fantástico), 1968 (2001: uma odisséia no espaço), 1971 (Laranja mecânica), 1975 (Nascido para matar), e finalmente chegamos em 1980, com O Iluminado. São nove obras pouco mais de vinte anos. Pois bem, dezoito anos depois, em 1999, Kubrick aparece com sua obra final, este De olhos bem fechados. Parece que quer dar-nos um recado? Dizer algo importante, antes de partir? Isso poderia parecer mais uma conspiração tola, se não fosse relevante o fato de que Kubrick morre exatamente seis dias depois de entregar a edição do filme finalizado para a Warner Bros. Para quem gosta de conspirações convém pensar que Kubrick possa ter desejado falar algo, dentro das regras do jogo, e portanto com a permissão de Hollywood sob as regras sagradas do Annuit Coeptis, não mais sobre atos farsescos, como o pouso do homem na Lua, mas sobre as pessoas que sustentam a farsa deste mundo e a origem do seu poder. Dirão que estou indo longe demais, mas esse talvez seja o meu trabalho mesmo, dizer o que os tímidos temem.

§ 2. O título do filme já precisa ser explicado, e o pode facilmente com a imagem usada para a sua publicidade: William Harford (Tom Cruise), ou simplesmente Bill, fecha os olhos ao beijar Alice, sua esposa (Nicole Kidman). Isso representa a fantasia dos casados ao se beijarem, de poder estar com outros parceiros. Mas ao mesmo tempo e principalmente no contexto deste filme representa o adultério num sentido mais profundo, aquilo que Bill não quer ver de jeito nenhum, as mentiras da vida e do mundo, e até a maior das mentiras, de que o mundo é governado por boas almas e não por servidores que fizeram pacto com o Inferno. Como veremos, Alice mantém os olhos abertos porque ela vê o que Bill se recusa a enxergar.

§ 3. Bill é o Dr. Harford, médico de pessoas ricas em Nova Iorque. O filme começa com Bill e Alice comparecendo à festa de Ziegler, um homem poderoso e rico. Lá já vemos os dois flertando com outros participantes da festa. Um senhor húngaro que dança com Alice pergunta: “um dos encantos do casamento não é que ele exige a farsa das duas partes?” Isto é, o casamento se mantém com base numa mentira na qual pactuam os dois cônjuges, a mentira de que só querem um ao outro. Alice está bem solta por conta da bebida, mas se contém quando é convidada à traição. William também flerta com duas moças que querem levá-lo ao “fim do arco-íris”, que é um símbolo do fim da consumação do Adultério no sentido espiritual, quando Deus não mais manterá a Aliança feita com Noé. De acordo com a regra que nos foi dada por Jesus, de fato ambos Bill e Alice já são adúlteros, porque isto é o que está em seus corações. Esta é a verdade do ser humano: ele é um mentiroso.

§ 4. No meio da festa Bill é chamado para cuidar de Mandy, uma amante (ou prostituta?) de Ziegler que passa mal depois de abusar de algumas drogas. Ziegler pede segredo sobre o caso. Harford participa dos segredos e mentiras do alto escalão da sociedade, até certo ponto, mas não avança para além. Sua curiosidade, porém, o fará passar dos limites, como veremos. Mais tarde, embalada pelo uso de droga (maconha), Alice confronta William e ambos discutem o problema da fidelidade. Bill quer manter a mentira, mas sua esposa quer a verdade. De sua parte conta seus sentimentos de infidelidade num episódio do passado. Ela não o traiu, mas definitivamente o quis fazer. Isso o atormentará durante o resto do filme. Alice não o quis poupar disso porque a mentira dele alcançou um cúmulo que ela não mais suportou.

§ 5. Bill tem que sair na noite para visitar a residência de um paciente que acabou de falecer. Fica com tudo que sua esposa disse em mente o tempo todo. Na casa do falecido encontra Marion, a filha do morto, que beija o médico e diz que o ama. Ele se desvincula dela, mas fica evidente que as mulheres estão colocando Bill na realidade: tudo acontece ao redor do poder e do sexo. Ele sai pelas ruas pensando sobre tudo isso. Bill acaba aceitando o convite de Domino, uma prostituta, para entrar no apartamento dela para um programa. Mas ele nem sabe o que pedir. Ela conduz a situação, mas Alice liga para o marido antes que eles possam avançar, e ele muda de ideia. Da o dinheiro para ela mesmo assim, 150 dólares. E segue na noite. Bill quer consumar o adultério, mas não consegue ser o adúltero consumado.

§ 6. Bill encontra seu amigo, o ex-colega de curso de medicina, Nick Nightingale, tocando como pianista num bar. Eles já tinham se reencontrado na festa de Ziegler, onde Nick também performou. Os dois conversam no bar. Bill fica sabendo do trabalho de Nick numa misteriosa festa com mulheres bonitas e fica curioso. Descobre a senha, “Fidelio”, e decide conhecer o mistério. Antes, porém, precisa de uma fantasia e de uma máscara. Ele consegue a roupa com Milich, numa loja chamada “Rainbow Fashions”. Uma referência bem óbvia àquele estímulo inicial das duas mulheres na festa de Ziegler. Na loja a filha de Milich, menor de idade, está com dois amantes. Tudo estimula Bill na direção de uma consumação erótica, porque tudo ao redor é sobre sexo. Mas principalmente o que o conduz é a confissão da esposa, que continua como um pensamento fixo em sua mente.

§ 7. Ele finalmente se dirige à Mansão Somerton, o local da misteriosa festa indicado por Nick. Todos estão mascarados. Lá ele encontra um ritual em andamento, onde aquele que cumpre o papel de um sacerdote, vestido com uma roupa vermelha, como que invoca alguma força e a distribui por algumas mulheres participantes do rito, mulheres estas que são enviadas então para encontrar parceiros no evento. Esse rito que Bill assiste é para mim um símbolo muito óbvio do Pecado Original: a Serpente encontra a mulher, lhe transmite o seu “dom”, a Gnose que é a mentira do amor e da felicidade sem Deus, e então a mulher procura o homem para propagar esse “dom” recebido. Bill é escolhido por uma das mulheres que logo lhe diz: não sei o que você pensa que está fazendo, mas você não pertence a este lugar e deve ir embora logo, está correndo um grande perigo. Ele continua vagando curioso pela festa até que é descoberto. Quando está prestes a ser punido, a mulher que o alertou pede que parem e se oferece para redimi-lo. Ele é convidado a se retirar com o alerta de que não deve falar de nada do que viu para ninguém, ou ele e sua família sofrerão as piores consequências.

§ 8. Ele finalmente volta para casa. Sua esposa acorda de um sonho e ele pede que a conte o que era. No sonho ela transava com muitos homens para zombar dele, enquanto ria descontrolada. Isso só vai fortalecer suas angústias interiores. No dia seguinte Bill maneja as consequências de tudo. Descobre que seu amigo Nick foi sequestrado pelos organizadores da festa, provavelmente por ter sido ligado à sua presença como não convidado. Descobre também, quando vai devolver a roupa alugada para a festa, que o Sr. Milich está prostituindo a filha. O mundo vai se mostrando nas suas realidades. Por fim, Bill decide visitar a Mansão Somerton. Ele recebe um bilhete: “desista de suas investigações”.

§ 9. Bill continua obcecado pela ideia de sua esposa com outros homens. Ele tenta refazer o percurso da noite anterior com outras mulheres, para tentar consumar uma traição vingativa ou catártica, não sabemos bem porque ele próprio não sabe bem o que quer, mas elas não estão disponíveis. O marido de Marion atende o telefone no lugar dela. Já Domino saiu e no seu apartamento Bill só encontra Sally, a amiga que vive com ela. Bill está disposto a ficar com Sally mesmo assim, tamanha a sua miséria espiritual, mas ela quebra o clima e diz que Domino descobriu que está com HIV. Mais mundo real.

§ 10. Bill volta a vagar pelas ruas à noite, e tem a certeza de que está sendo seguido. Ninguém o ataca, mas é um recado de que está sendo vigiado. Ele descobre pelos jornais que uma famosa modelo foi encontrada morta por overdose, Amanda Curran. Imediatamente imagina que Amanda é a “Mandy”, a garota de que cuidou na festa de Ziegler. Ele vai reconhecer o corpo e está convicto de que foi ela quem o salvou na festa. A realidade do mundo está escancarada, eis o que há no fim do arco-íris: sequestro, violência, prostituição, doença e morte.

§ 11. Ziegler o chama para uma conversa. Revela que estava na festa e reafirma que Bill correu um grande risco, embora depois tente convencê-lo de que tudo não teria passado de uma farsa. Sua intervenção é obviamente cheia de mentiras e manipulações. Quer apenas controlar uma situação, ao custo de contar o que o médico quiser ouvir para seguir com sua vida. Mas Bill fala que reconheceu a mulher morta. E pergunta: que tipo de farsa termina com uma morte? Aí vem a grande revelação de Ziegler. Diz que Bill não entendeu muitas coisas do que viu. “Ninguém matou ninguém. Alguém morreu. Acontece o tempo todo. Mas a vida continua. Sempre continua… até que acaba. Mas você sabe disso, não é?” Sim, isso é nada menos que uma repetição do dito bíblico: o salário do pecado é a morte. Ziegler está relembrando Bill, que não é nenhuma criança, de que o mundo é assim e sempre foi assim. A única resposta digna diante disso seria a condenação do pecado, mas Bill não conhece Deus, só conhece sua profissão prestigiosa, sua bela esposa troféu, e sua vida de pai de família respeitável. É a mentira da qual não pode escapar, porque não tem Deus. Ziegler o enquadrou num xeque-mate espiritual.

§ 12. De volta para casa, Bill vê que a esposa descobriu sua máscara da festa em Somerton e desaba, dizendo que vai contar tudo para a esposa. Na última cena, enquanto passeiam por uma loja com a filha Helen, Bill pergunta o que eles devem fazer. Alice diz que devem ser gratos por ter sobrevivido e por estarem bem, e torce para que isso dure bastante. Bill diz: “para sempre”, mas ela responde que isso a assusta. Ela sabe das coisas. Alice termina dizendo que há uma coisa muito importante que eles precisam fazer o mais rápido possível: foder. Ela já entendeu tudo muito mais rapidamente e profundamente do que ele jamais poderia, pobre coitado.

§ 13. Bill é como um menino assustado que precisa que alguém lhe diga o que deve fazer. Provavelmente só trocou sua mãe pela esposa nesse papel. Muitos, muitos homens são assim. Alice percebe a condição de Bill e resolve que apesar da situação como um todo ser falsa, isto é, o próprio casamento, Bill precisa disso para sobreviver na insanidade do mundo. Ela precisa dar o sexo para ele, como uma mãe precisa amamentar seu filho. Ele não aguentará a realidade.

§ 14. E como ele poderia? Através de Discernimento espiritual, e da vida na Presença de Deus. Isso poderia fazê-lo entender a realidade em que se encontra, um mundo governado pelo diabo que comprou a humanidade com o Pecado Original. Alice, como toda mulher, por ser usada pelo homem como veículo do domínio da mentira, tem uma intuição visceral da realidade do pecado. Como Bill se recusa a ser uma testemunha de Deus e de seu Amor, ele precisa ser protegido por Alice, inclusive com o sexo seguro e supostamente santificado através do matrimônio.

§ 15. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, que amor não é possessão. O verdadeiro ciúme é uma coisa sagrada, divina. O ciúme de Bill é doentio porque ele crê que precisa de qualquer coisa que não seja Deus para a sua felicidade, e isto se concretiza na sua vida na forma da sua mulher. Seu foco em Alice o ajuda a não se perder mais ainda no mundo de mentiras e ilusões. Mas ele não deixa de ser presa do pecado. Como Ziegler lhe disse, ninguém mata ninguém, mas todo mundo morre. E que tipo de farsa termina com uma morte? A farsa do Pecado Original travestido de Amor. Por isso Alice não quis afirmar que se amariam para sempre: ela não quer que a mentira dure para sempre. Eles precisam morrer.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade8
Discernimento/Psiquismo6
Nota final5,4

Como já terminamos de ver os dez principais filmes de Kubrick, podemos calcular a nota espiritual média para essa parte principal de sua obra: 4,9 (Moriquendi).