§ 1. Humildade vs. Presunção: A autora sofre do mesmo mal típico das ideologias psicologistas de encarar o Ignorado como Inconsciente, ou seja, sob o ponto de vista de uma gnosiologia antropocentrista, humanista, sem a intermediação do governo de uma Providência que produza uma Harmonia Pré-estabelecida. Ela chega a defender valores abertamente anticristãos, no sentido explicitamente contrário à Humildade dos cordeiros. Incapaz de entender o valor da inocência do Puer como valor espiritual. O que chama de maturidade, que seria uma saúde psíquica, é a própria Presunção. Não percebe que o psicologismo se tornou uma pretensa arte soteriológica, uma farsa em substituição à verdadeira vida espiritual diante de Deus. O psicólogo se coloca no lugar de um Sacerdote, ou até de um deus. Nota 1.
§ 2. Presença vs. Idolatria: Humanista, psiquista, só possui bens contingentes e limitados à mesquinharia e pequenez deste mundo, não possui praticamente nenhuma abertura para uma transcendência verdadeira que supere a Psique. O idealismo do Puer é uma ficção, apenas uma fuga do mundo real, da contingência que é tudo o que existe para a autora. Compara Cristo à arquétipos mitológicos ligados à idéia do Puer, como Tamuz, Atis, Adônis, Dionísio ou Eros, como o Deus-Criança, o Deus da Juventude Eterna, o Deus da Vida e da Ressurreição, em suposta guerra contra a divindade do limite e da restrição, o Senex. Não compreende que o problema da liberdade cristã não é a violação do Limite, mas a aceitação da Mistura como se fosse constituição do Limite. O idealismo do Puer não aceita uma falsa restrição produzida pela pretensão do arbítrio humano, derivado por sua vez do espírito de Idolatria. Nota 2.
§ 3. Louvor vs. Sedução-Pacto com a Morte: Cria a angústia da necessidade de se aproveitar uma vida para realizar a tal individuação, senão algo de bom estará perdido para sempre. Exige que o Puer se defina com relação à objetivos e metas limitados pela contingência, ou perca definitivamente a possibilidade de se realizar nessa estreita experiência de vida. Nota 2.
§ 4. Paixão vs. Terror-Pacto com o Inferno: Dá o testemunho de uma visão fatalista e trágica do mundo. A todo momento fala de destinos trágicos. Coloca-se como serva do Inferno, prendendo, como faz a Astrologia, as vítimas de uma fatal consecução de fatos dentro de uma prisão sem saída. Não tem nenhuma noção do valor da Cruz, da confiança numa Redenção que venha desde o divino para resgatar o humano. Se o ser humano não se salvar, não terá salvação. Tem uma visão realmente abominável da realidade humana. Nota 0.
§ 5. Soberania vs. Gnosticismo: Testemunha pela estrita interpretação de experiências e sonhos desde o esquema arquetípico que aprendeu com seu mestre, aquele satanista enrustido chamado Jung. Não tem a menor noção da verdadeira liberdade cristã, e portanto não compreende a sua própria restrição voluntária aos esquemas de crenças do psicologismo. Por isso só pode condenar a liberdade interior do Puer como uma fraqueza. Nota 2.
§ 6. Vigilância vs. Ingenuidade: Interpreta o mundo e a vida humana desde um ponto de vista ingênuo, sem condições de identificar a estrutura elementar da experiência humana definida pelo próprio arbítrio. Para quem fala tanto de responsabilidade sobre a realidade, não enxerga a primeira das responsabilidades, que vem do Pecado Original. Condena a suposta imaturidade do Puer, mas ela própria não se enxerga escondendo-se o tempo todo por trás da narrativa de supostos destinos trágicos, etc., como se o ser humano não tivesse desde o início o poder de buscar para si e para o outro a liberdade. Nota 3.
§ 7. Discernimento vs. Psiquismo: Obviamente dá um testemunho dessa visão de mundo grosseira e rasteira que interpreta tudo desde um mecanicismo psíquico simplório, como se diante de um dado fato não existisse liberdade senão pelas alternativas identificadas nos esquemas mapeados pela sua visão de mundo humanista, fatalista, etc. Nota 2.
Tive recentemente a oportunidade de ver uns descarados falarem montes de coisas contra montes de gentes desde aquele ponto de vista tão privilegiado que é o do farisaísmo católico. Falo de pessoas inteligentes e capazes que simplesmente se recusam a pensar na sua Mater et Magistra com o mesmo espírito crítico que dirigem aos adversários da Coisa (termo de Chesterton).
Perguntei ao nosso amigo Chat GPT sobre essas supostas verdades católicas, e ele nos informa que são mentiras católicas. É claro que o Chat GPT faz parte de uma grande conspiração anti-católica, etc., o que nem precisa deixar de ser verdade para que essas mentiras continuem sendo mentirosas. Vou mostrar os resultados das minhas pesquisas para vocês, mas não sem fazer antes uma observação importante a respeito do problema da Cabala.
O que é a Cabala? É a recepção da Tradição Oral pelos judeus, precisamente aquela Tradição condenada por Jesus. Interessante notar o quanto o catolicismo se tornou uma continuidade do messianismo talmúdico e cabalista, com a pretensão de um totalitarismo secular em nome de Deus, para fazer a restauração do mundo e instaurar o Reino de Deus no tempo presente, ou seja, dentro da História da Queda. Reparamos na repetição dos erros judaicos dentro do costume católico, isto é, aquelas grandes traições da Religião: 1) a imposição de uma Tradição Oral contra a liberdade individual de consciência e responsabilidade; 2) o culto da oferta de sangue como sacrifício aceito por Deus para a reconciliação espiritual; 3) o incentivo da continuidade do Pecado Original, o Pacto Ouroboros, em continuidade à prática iniciada por Adão e Eva; 4) a ameaça de uma penalidade terrível por toda a Eternidade em caso de questionamento dessas práticas religiosas. São esses judeus enrustidos que querem nos fazer crer que Lutero e outros são cabalistas, etc. São esses que se recusam a receber a liberdade trazida por Cristo contra toda a mentira diabólica desde o princípio, o próprio Gênesis, e que não querem que outros recebam a Boa Notícia dessa liberdade.
Vejamos os resultados das minhas consultas sobre os temas específicos.
Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre Martinho Lutero ter algum envolvimento com a Cabala judaica?
A ideia de que Martinho Lutero teria envolvimento com a cabala (ou que era “cabalista”) não é uma posição oficial ou comum do catolicismo, nem historicamente sustentada por evidências sólidas. No entanto, essa associação ocasional pode ter surgido em certos círculos polêmicos ou apologéticos, especialmente no contexto de reações católicas contra o protestantismo durante e após a Reforma.
Aqui estão alguns possíveis motivos pelos quais essa ideia surgiu em certos discursos:
1. Polêmicas religiosas e associação com heresias
Durante a Contra-Reforma, apologistas católicos (e também protestantes entre si) frequentemente acusavam uns aos outros de heresias, influências judaicas, gnósticas, ou cabalísticas, como forma de deslegitimar seus adversários. A cabala, sendo mística e associada a correntes esotéricas judaicas, era vista com desconfiança. Acusar alguém de simpatia pela cabala era uma forma de pintar essa pessoa como herética ou desviada da ortodoxia cristã.
2. Confusão com interesse por línguas e textos hebraicos
Lutero estudou hebraico para traduzir o Antigo Testamento e tinha contato com textos judaicos. Isso, para alguns, podia ser mal interpretado como uma simpatia pela cabala, já que muitos textos cabalísticos são escritos em hebraico. Na época, o simples fato de lidar com fontes judaicas já era motivo de suspeita para alguns setores conservadores.
3. Teorias conspiratórias posteriores
Especialmente em séculos posteriores (século XIX em diante), algumas teorias conspiratórias tentaram ligar Lutero ao judaísmo esotérico ou à maçonaria, muitas vezes como parte de narrativas antissemitas ou antiprotestantes. Essas teorias às vezes tentam criar uma cadeia de influência “herética” que incluiria o protestantismo, a cabala, os iluministas e a maçonaria.
4. Literatura marginal
Alguns autores católicos ultra-tradicionalistas ou esotéricos podem ter feito essa ligação, não com base em evidências históricas sérias, mas por conveniência teológica ou ideológica. Essas fontes, contudo, não representam a doutrina católica oficial.
Fato histórico:
Martinho Lutero era profundamente hostil ao judaísmo em seus escritos tardios, especialmente em textos como “Sobre os judeus e suas mentiras” (1543). Isso torna ainda mais improvável qualquer envolvimento sincero com a cabala judaica.
Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre os cátaros, ou albigenses, que estes iam de cidade em cidade obrigando as mulheres a abortar, de modo que foi a população do sul da França que pediu ao Papa que organizasse uma Cruzada para detê-los?
Não, essa narrativa propagada por alguns setores católicos modernos sobre os cátaros — de que eles iam de cidade em cidade obrigando mulheres a abortar e que a população do sul da França pediu ao Papa uma cruzada para detê-los — não é historicamente precisa e carece de evidências confiáveis. Vamos separar os fatos históricos das distorções posteriores:
O que sabemos com base em fontes históricas confiáveis:
Os cátaros (ou albigenses) eram um movimento cristão dualista ativo na região do Languedoc (sul da França) entre os séculos XII e XIII. Tinham crenças influenciadas pelo maniqueísmo, com uma visão dualista do mundo (espírito bom / matéria má), o que os colocava em oposição à Igreja Católica.
Os cátaros pregavam uma vida ascética e condenavam o mundo material, o que incluía críticas ao casamento, à procriação e à Igreja Católica institucional. Os mais devotos (os “perfeitos”) evitavam relações sexuais, consumo de carne e riqueza.
A Cruzada Albigense (1209–1229) foi convocada pelo Papa Inocêncio III, oficialmente para combater a heresia cátara, mas também envolvia interesses políticos e territoriais. O sul da França era relativamente autônomo e culturalmente distinto, o que incomodava o reino da França e a Igreja.
Não há registros confiáveis de que os cátaros “obrigassem” mulheres a abortar ou praticassem tal política sistemática. As acusações de práticas “perversas” (como aborto, incesto ou canibalismo) são típicas de campanhas de difamação contra grupos hereges na Idade Média — e devem ser vistas com ceticismo, pois muitas vezes eram propagandas da Igreja para justificar a repressão.
A narrativa de que a população pediu ajuda ao Papa:
A iniciativa da cruzada não partiu das populações locais, mas do Papa e de nobres do norte da França, interessados tanto em eliminar a heresia quanto em conquistar terras no sul.
Muitos senhores locais do Languedoc protegeram ou toleraram os cátaros, o que mostra que não havia uma rejeição popular generalizada ao movimento.
Fontes históricas relevantes:
“Montaillou: The Promised Land of Error” – Emmanuel Le Roy Ladurie (baseado em registros inquisitoriais)
“The Perfect Heresy” – Stephen O’Shea
“Heretics and Heroes” – Thomas Cahill
Registros da Inquisição, como os de Bernard Gui, também revelam tanto sobre as crenças cátaras quanto sobre as táticas da repressão.
Conclusão:
A ideia de que os cátaros impunham abortos e que a cruzada foi um pedido popular é uma releitura distorcida e anacrônica, provavelmente usada para justificar ou minimizar a brutalidade da Cruzada Albigense. A verdade é mais complexa: envolveu conflito teológico, interesses políticos e repressão violenta de uma dissidência religiosa significativa.
Pergunta: É verdade o que os católicos afirmam, de que os Bogomilos praticavam a sodomia?
Não há evidências históricas confiáveis de que os Bogomilos, um movimento cristão dualista surgido no século X na região dos Bálcãs, praticassem a sodomia como parte de sua doutrina ou ritos religiosos. Essa acusação foi feita por seus oponentes — principalmente autoridades católicas e ortodoxas — e deve ser entendida dentro do contexto das polêmicas religiosas e perseguições da época.
A Igreja frequentemente atribuía aos hereges práticas sexuais consideradas desviantes (como sodomia, orgias, incesto) como forma de demonização e difamação, independentemente da veracidade dessas alegações. Esse padrão se repetiu com outros grupos considerados heréticos, como os cátaros e os valdenses.
Os Bogomilos, na verdade, pareciam praticar uma forma de ascetismo rigoroso, rejeitando a carne, o casamento, e outras expressões materiais e carnais da vida, o que contradiz diretamente a ideia de que promoviam ou toleravam práticas sexuais libertinas.
Em resumo: Não, não é verdade no sentido de ser um fato historicamente comprovado. Essa alegação provavelmente fazia parte de uma campanha de propaganda religiosa contra o grupo.
§ 1. O padre jesuíta Copleston inicia sua obra com um prefácio no qual não quer admitir que a dificuldade inerente ao destaque dos méritos da filosofia medieval vem do problema da sua inegável mistura com a religião cristã. A filosofia medieval em geral é excelente. Mas sua mistura com essa porcaria chamada Religião sujou a sua reputação. Copleston não pode nos dizer isso, é claro. Ele diz que os estudiosos que “não acreditam no cristianismo” terão dificuldades em entender o período. Essa é uma expressão curiosa. Já nos mostra um problema: que diabos significa não acreditar no cristianismo? O que é o cristianismo? Não crer nessa coisa, que é uma religião, é o mesmo que não crer no Evangelho, ou o mesmo que não crer em Jesus Cristo? Um religioso pensa exatamente assim. Lhe convém deixar tudo isso misturado, de modo que quem quiser se considerar cristão, isso significando apenas ser um seguidor de Cristo, é melhor que se considere também um crente no tal do Cristianismo, ou seja, como participante num grupo criado e governado por seres humanos, legitimando com seu assentimento essa autoridade temporal sobre os homens, etc. É desse modo que os cristãos aprenderam a imitar os judeus. Quem quiser crer no Deus revelado por Moisés na Torá deverá crer nos seus legítimos intérpretes, os rabinos, como se esses tivessem o poder de sequestrar o testemunho e pegar emprestado para si o prestígio da autoridade divina. Já falei dessa perversidade que foi iniciada com o próprio Lúcifer, que quis ser o “revelador” ao homem, como um Prometeu, de uma Glória que nunca foi sua. Cristianismo, afinal, é um termo que designa uma criação cultural humana. Digamos que seja o conjunto das religiões que pretendem ser as legítimas anunciadoras da Revelação do Evangelho. Mas eu não posso crer em Jesus e no Evangelho sem crer nessa criação humana particular? É claro que posso. E se eu não pudesse, essas diferentes religiões cristãs também não poderiam diferenciar-se entre si. Talvez Copleston não possa jamais reconhecer isso, mas isso já é problema dele. Para a mentalidade de um católico, por exemplo, não possuir a garantia da veracidade de uma determinada interpretação da Revelação por uma Religião verdadeira é o fim do mundo, o caos na Terra, etc. Para mim a dúvida sobre a posse da verdade é apenas um reflexo da realidade da ignorância humana, da dependência da Graça, e do dom de Humildade (o verdadeiro sacrifício de comunhão que Deus nos pede).
§ 2. Na explicação da evolução da filosofia na época, ele nos mostra bem o drama da passagem do Império Romano para o período medieval. O conhecimento filosófico é preservado principalmente nos mosteiros, que têm essa função de cofres culturais, quase cápsulas do tempo. Quando a Europa já estiver um pouco mais reorganizada politicamente e vier um novo Império com Carlos Magno, aos poucos a cultura guardada pelos monges pode reaparecer no ensino por todo o território. Essa realidade nos mostra como a alta cultura depende de paz e estabilidade social para florescer. A barbárie só mantém a ignorância e a escravidão do homem à Maldição e ao Poder. O que não significa que a Civilização não produza suas tentações particulares, entenda-se bem.
§ 3. Copleston nos apresenta Agostinho e Boécio como figuras de transição entre o período da filosofia antiga e o da filosofia medieval. Identifica Anselmo da Cantuária como uma primeira figura medieval de destaque. O argumento ontológico de Anselmo no Proslogion é até hoje mencionado, mas de forma errada. Não existe o convencimento racional sobre a suposta “existência” de Deus. Para começar, cá entre nós, como já expliquei, Deus não existe, Ele É. Em segundo lugar, a vida na Presença de Deus, ou seja, a vida da Fé, é uma realidade gerada pela Graça divina, e não pela razão natural. É o Espírito Santo quem dá o testemunho do Ser divino. Anselmo, portanto, não pregava para descrentes. Ele filosofava para cristãos que já tinham a Fé. Daí afirma-se a máxima tão importante para a Filosofia Cristã, do crede ut intelligas, intellige ut credas. O maior vem antes do menor, isto é, a Fé como dom sobrenatural vem antes da razão natural. É para estes cristãos que já possuem a Fé que até hoje é poderosa a verificação de que o conceito de um ente perfeito requer a existência do mesmo, que é a essência do argumento ontológico.
§ 4. O famoso problema dos universais ganha relevância com a filosofia de Pedro Abelardo, e a partir dessa discussão conhecemos as possibilidades de respostas desde o ultra-realismo, o realismo moderado, e o nominalismo. Junto com a filosofia de Abelardo existe toda uma preparação para o rigor lógico que servirá de base para as construções das grandes sínteses no Século XIII e além. Seu famoso livro de Sentenças se torna uma literatura obrigatória para toda a filosofia futura. Todo mundo usa essa base para fazer comentários e criar algo em cima. Antecipando muitas discussões, o nominalismo vence. Se Deus salva a alma já havia a previsão de uma Criação de individualidades e para indivíduos e não de universalidades para uma coletividade, o que é monadologicamente adequado. Possivelmente a Igreja lutava teologicamente dentro de si contra a posição coletivista herdada do Israel bíblico, um vício que precisou ser depurado e finalmente extirpado com uma filosofia adequada á Revelação final, isto é, do Evangelho. O que não impediu algumas figuras poderosas de rejeitarem a Filosofia como um todo, inclusive já na época de Abelardo, como foi o caso de Bernardo de Claraval.
§ 5. Em seguida a grande luta da filosofia medieval ocorreu pela missão autoimposta por grandes intelectuais de absorver a filosofia aristotélica e fazê-la estar de acordo com a teologia. Aristóteles foi muito confiado como autoridade, frequentemente sendo chamado de “O Filósofo”, inclusive por Tomás de Aquino. No lado islâmico, Avicena tem mais facilidade em recusar teses do estagirita. Já Averróis sucumbe ao naturalismo aristotélico e empesteia a Europa com suas idéias. Do lado cristão, Aristóteles é inicialmente proibido em Paris etc., e depois é saudavelmente glosado pelos franciscanos que tinham um platonismo e neoplatonismo robustos, aprendidos com Agostinho, para bloquear os excessos naturalistas; porém, o aristotelismo termina perigosamente influente dentro da filosofia tomista, um projeto iniciado por Alberto Magno, mestre do aquinate.
§ 6. Com Boaventura, o Doutor Seráfico, Cristo mantém sua excelência filosoficamente intraduzível. Já com Alberto Magno e Tomás de Aquino, Aristóteles se torna quase que um profeta. A gratuidade de Deus depende da liberdade contra o naturalismo aristotélico. Os franciscanos são superiores do lado teleológico. Com Boaventura temos uma antecipação da TMSB, porque ele era intelectualmente agostiniano, portanto um tipo de agatista. Também são superiores os franciscanos medievais, epistemologicamente, com a iluminação divina que põe o intelecto humano no seu devido lugar, dependente da Graça até para suas operações mais elementares. Isso não muda o mérito do abstracionismo como descrição científica do processo cognitivo. Uma coisa é a causalidade intermediária e eficiente, outra é a causalidade primeira e finalística.
§ 7. Os germes das futuras ciências seculares foram desenvolvidos por alguns experimentalistas e especuladores medievais, como Grosseteste e Roger Bacon. A idéia da ciência iluminista, ou mesmo da filosofia moderna, em atitude de rompimento com o pensamento medieval é uma idéia caricatural que infelizmente impregnou a divulgação enciclopédica sobre o período, um vício derivado da propaganda gerada pela ideologia iluminista. Qualquer estudioso sério do período percebe muito rapidamente o quanto isso é falso.
§ 8. Das glórias de Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, podemos citar facilmente a criação por analogia, e o conhecimento de Deus também por analogia (uma certa agnosia), de modo que conhecer a Deus é ver o infinito no finito, ou o Uno no Múltiplo. Somente Deus é o Ato Puro. Tomás distingue o esse simpliciter do esse secundum quid, e abre a possibilidade das futuras ontologia e epistemologia monádicas (mas não sem intervenções importantes de personagens como Duns Scot ou Ockham). Por outro lado ele não teme rejeitar Aristóteles ou Averróis para defender a continuidade da alma depois da morte do corpo, o que também é meritório e esperado de um filósofo cristão. A fraqueza de Tomás é a epistemologia da abstração e a derivação hierárquica da lei divina pela lei natural desconsiderando a Queda, algo pelo que não se pode culpar Aristóteles que não recebeu a Revelação de Gen 3, mas pelo que se pode culpar um teólogo cristão, ou mesmo um filósofo cristão. É importante lembrar que o Doutor Angélico só se tornou o filósofo católico por excelência pela decisão papal de 1879 na Aeterni Patris de Leão XIII, ou seja, muitos séculos depois do contexto da obra tomista. Em sua própria época, Tomás de Aquino foi largamente contestado ou mesmo rejeitado.
§ 9. Há como reintegrar as teses mais incompatíveis do Filósofo e do seu Comentador, isto é, de Aristóteles e de Averróis, à visão cristã? Ora, a eternidade do mundo pode se referir à indeterminação da quantidade da Criação, algo alheio à Física aristotélica, mas viável de algum modo no contexto da visão daquilo que realmente é Eterno. Considerando-se o Logos como o Eterno, criador de mundos, não teríamos problema nenhum. Por outro lado, o monopsiquismo do intelecto agente pode refletir a mutualidade da representação dos intelectos passivos, isto é, das mônadas criadas, algo que é produzido pela Providência divina (a Harmonia Pré-estabelecida em Leibniz). Da mortalidade da alma se pode dizer que esta se refere ao estado imanente da mesma, a situção da mônada criada por si, desconsiderado o efeito da Graça. Já da eudaimonia nesta vida contra a bem-aventurança eterna se pode falar da ética ideal no caminho em direção à consumação da causa final, a boa corrida, o bom combate, etc. E finalmente, do princípio material de individuação, essa distinção não se torna irrelevante, antes que impropria, com a reflexividade holográfica? O que quero dizer com essas especulações é que para alguém bem intencionado tudo pode ter solução, em tese.
§ 10. Com Duns Scot, o Doutor Sutil, temos as minúcias medievais que mais tarde irritariam e sobrecarregariam os modernos. Com a Haecceitas temos o Principium Individuationis formal, uma “distinção formal objetiva” entre as individualidades. Copleston sofre para nos explicar a ideia, e isso no Século XX! Imaginem como sofreram os estudantes do Século XVI. Para mim a contribuição scotiana é fundamental: se toda manifestação material é o reflexo de uma objetividade formal, o único modo de manter a analogia sem cair num monismo panteísta é a Haecceitas. As almas humanas são mônadas criadas, singularidades, Unidades geradas por analogia com o Uno divino. É uma antecipação da metafísica monadológica. O gênio de Scot não para por aí. Ele sabe que a univocidade conceitual da analogia requer que algo do Ser divino seja compreensível a partir da característica do ser criado e vice-versa. Essa ponte é necessária para não se cair num agnosticismo, como o tomismo arriscava com uma analogia total que lembrava o tom islâmico do averroísmo. Imagem e semelhança, enfim, designam carácteres objetivos sobre o Ser divino em analogia com o humano. E de outro modo não se poderia, aliás, compreender a possibilidade da Encarnação de Cristo. Copleston acerta na defesa da reputação de Duns Scot, especialmente na importância da Soberania da Vontade contra o Gnosticismo das visões intelectualistas. E para sermos justos, este filósofo em particular nada inventou neste sentido, porque esse já era o entendimento de agostinianos e franciscanos na valorização do Amor sobre a Gnose. De todos os cavalos de batalha da filosofia medieval, este talvez fosse o mais importante, e Duns Scot estava do lado certo da história.
§ 11. Com Guilherme de Ockham, o Doutor Invencível, temos a valorização do conhecimento por intuição acima da abstração, o princípio da economia (a famosa “Navalha de Ockham”), e a simplificação do problema dos universais no que Copleston chama de “conceptualismo”, mais do que nominalismo. A questão, porém, já era antiga. Já Aristóteles se preocupava com a multiplicação dos seres no sistema platônico. Ockham identifica a universalidade com uma necessidade mais lógica, a partir do modus raciocinandi, do que ontológica, como distinção de realidades fora da mente. Em defesa do filósofo, Copleston explica que Ockham “tinha uma ideia rigorosa do que era uma demonstração”. O rigor lógico, dialético e silogístico de Ockham o obrigava a defender a pureza da teologia cristã contra as pretensões da metafísica pagã importada dos gregos. Se lembrarmos daquele princípio de que a tentação do conhecimento divino, isto é, a Gnose, foi o primeiro dos pecados (o original do original, de Lúcifer antes de Adão), podemos enxergar a superioridade dessa doutrina de Ockham como uma necessidade até para o lema da minha filosofia (Coram Uno Amor Tantum). Já na questão do voluntarismo de Ockham, de que Deus ordena o que é o bem porque quer e não porque é obrigado a isso, parece escapar a Copleston a razão desse procedimento: a abolição do paganismo na forma de uma dedução moral da Lei Natural. Especialmente se tivermos em vista a natureza decaída que já não representa a vontade originária, mas um ordenamento secundum quid, derivado do arbítrio humano especificamente desobediente, o voluntarismo de Ockham é inquestionável. Mas Copleston acerta ao valorizar a preocupação teológica do filósofo. “Nada no mundo é necessário”, como bem lembrou. Abolindo o necessitarismo causal de dentro da metafísica cristã, Ockham libertou o Evangelho do paganismo naturalista. Novamente vejo a semelhança com as premissas da minha Monadofilia, quando proponho as realidades de escassez, causalidade e irreversibilidade como contingências. Copleston na verdade não faz plena justiça à filosofia de Ockham. O filósofo testemunha diretamente que Deus pode produzir qualquer Percepção ao intelecto criado sem uso de causas intermediárias. Já é quase uma epistemologia monadológica e uma antecipação da holografia. Um tremendo testemunho da Presença e do Discernimento. Também afirma a possibilidade de um número indeterminado de universos ou realidades paralelas sustentadas pela Onipotência. Enfim, realmente Ockham libertou a Filosofia Cristã da estreiteza e pequenez da antiga filosofia pagã naturalista. Quando, por exemplo, afirma que qualquer proposição que pretenda ser verdadeira deve ser dubitabilis, “duvidável”, ele não só abre o caminho da investigação científica séria, mas também de uma Teologia séria e de uma Filosofia Cristã séria, desde que o primeiro dos predicados sobre a substância divina, aquele mais eminente de que Deus é Amor, deve ser duvidável, caso contrário não só a traição de Adão não seria possível, mas nem mesmo a de Lúcifer. As proposições se pretendem verdadeiras na sua própria dimensão, que é nominal, mas a sua realidade depende de um juízo que requer o assentimento de uma vontade livre, de modo que o que não pode ser negado também não pode ser afirmado, porque não pode sequer ser pensado. Neste sentido, Ockham também dá um testemunho formidável do dom de Soberania, alinhado com uma inclinação que já vinha tendo progressos com a filosofia dos franciscanos. Copleston não nos dá nada disso, talvez simplesmente porque isso não convém à sua Igreja? Há um medo, talvez, de que o ateísmo se torna intelectualmente viável com Ockham? Ora, quem fundou essa realidade da liberdade humana foi Deus, e se um homem não pode duvidar de Deus, igualmente outro homem não pode confiar em Deus realmente. O custo da liberdade, ou o seu risco, é alto porque a sua recompensa é igualmente valiosa, unicamente preciosa. Mas para sermos justos, esta obra não é uma análise em detalhe da obra de Ockham, e é um trabalho breve e introdutório apenas. Por fim, Copleston também não pode tomar partido no alinhamento de Ockham com Luís IV da Baviera, Imperador do Sacro Império, contra o Papa João XXII na discussão a respeito das propriedades da Igreja. Os franciscanos atacavam a concentração de riquezas pela Igreja romana, e enquanto os papistas defendiam que o uso dos bens implicavam no seu direito de propriedade, Ockham contribuiu com a distinção entre usus juris e usus fructis, etc. Excomungado e perseguido, teve que buscar refúgio no reino de Luís IV e morreu em Munique.
§ 12. O movimento ockhamista no Século XIV dá seguimento aos progressos escolásticos e antecipa as teses dos futuros modernos: nenhum juízo sintético é auto-evidente exceto a da existência do eu que pensa que nega a si mesmo (antecipando Descartes), ou então a proposição da existência de Deus não é analítica (antecipando Kant), etc. Estamos na encruzilhada do pensamento moderno, mas ainda em voz medieval.
§ 13. Nas margens do fim da Idade Média, Copleston identifica contribuições notáveis da mística de autores como Mestre Eckhart em antecipação ao idealismo alemão, e de Nicolau de Cusa como inspirador de Leibniz com sua coincidentia oppositorum, que é uma maneira de ver o desdobramento do Uno na manifestação do Múltiplo como relação, na sua linguagem, entre o Infinito e o finito.
§ 14. O autor termina fazendo uma breve referência às teorias políticas medievais, sem grandes consequências, exceto pelo seu constante ponto cego que o impede de ver a Igreja Católica como um poder humano em disputa com outros poderes seculares, o que simplificaria bastante o entendimento das disputas políticas entre Igreja e Estado. Copleston não conclui, mas podemos concluir nós mesmos, que a Filosofia Política de Tomás de Aquino pode ter sido o pivô da iniciativa papal do seu ensinamento como parte permanente do magistério da Igreja, muito mais do que outras partes da obra filosófica do aquinate.
§ 1. Este filme –o nosso nono de Kubrick– conta a estória de um grupo de fuzileiros navais americanos desde o seu treinamento de seis semanas na Carolina do Sul até a sua entrada em ação no teatro de guerra do Vietnã. Testemunhamos o problema do treinamento de um exército profissional moderno: por não existir o apelo imediato da defesa da terra e da família que movia as mobilizações militares desde o tribalismo até o fim da Idade Média, é preciso fazer um extenso doutrinamento ideológico para transformar homens comuns em assassinos aptos a matarem desconhecidos do outro lado do mundo. Nosso grupo de soldados sofre nas mãos do rigoroso Sargento Hartman, interpretado pelo excelente Lee Ermey. Especialmente o soldado Leonard Lawrence (o “Gomer Pyle”) é vitimado pela rotina e pelo ambiente do treinamento. O protagonista, que é o soldado Davis (“Joker”), percebe a dificuldade de Lawrence, mas não consegue fazer nada para evitar a situação. Não quer se destacar do grupo em defesa de um. A psicologia da manada tem efeito até sobre sua personalidade supostamente mais diferenciada e esclarecida. Kubrick parece gostar de mostrar a corrupção dos melhores, dos que seriam mais confiáveis.
§ 2. Lawrence à certa altura começará a enlouquecer com a lavagem cerebral do treinamento, e no último dia dos soldados antes de seu envio para a guerra ele tem um surto no qual perde o controle. Davis diz que ele deve se recompor, ou eles estarão “num mundo de merda”. Lawrence, já praticamente possuído por um ódio homicida, responde: “ah, mas eu já estou num mundo de merda.” O Sargento Hartman aparece, Lawrence o mata e se suicida em seguida. É a colheita do incentivo ao tal “espírito assassino” que foi uma doutrina do treinamento. O objetivo do treinamento foi atingido parcialmente. Só falhou o direcionamento do ódio do instinto assassino de Lawrence. Hartman pagou por sua incompetência?
§ 3. Na guerra o soldado Davis vai trabalhar na sessão de jornalismo do USMC, ou seja, com a missão de fabricação de mentiras sobre a guerra. Ele acaba testemunhando a Ofensiva do Tet, quando os vietcongues surpreenderam os americanos no meio do cessar-fogo do feriado do Ano Novo lunar. Do ponto de vista militar podemos dizer que a estratégia global vietcongue foi vencedora porque eles foram mais fiéis à arte da guerra, que é a mentira e a manipulação. Guerra é política, já tinha ensinado não só Sun Tzu, mas também Clausewitz.
§ 4. Davis vai para a frente de batalha em Hué. Testemunha muitas atrocidades, dos dois lados da guerra. Um Coronel questiona Davis, que usa o broche da paz no peito enquanto em seu capacete está escrito “nascido para matar”. Não tem coerência alguma. Davis diz que isso vem da dualidade humana, algo junguiano, mas não se aprofunda. Ele percebe a Mistura, mas não sabe, ou não quer, discernir para além disso. Seu papel é de se aprofundar na aceitação desse status quo como uma realidade inescapável. O filme de Kubrick parece se encaminhar para um quadro fatalista.
§ 5. Ao fim do filme, depois de uma salada emocional com triunfos e frustrações no meio da guerra, Davis parte do Vietnã com sonhos eróticos em mente, imaginando o reencontro com sua namorada. Diz-nos, como narrador do filme: “sim, estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo.” Davis viu as vísceras da condição humana na guerra, mas não entendeu nada. Sua atitude de querer voltar para sua pátria para viver sua história com a namorada, possível futura esposa e mãe de seus filhos, como manda o costume, mostra que ele dá o assentimento para esse estado de coisas. É uma visão trágica e fatalista do mundo. Quando Lawrence tinha lhe dito que “já estava num mundo de merda”, não ocorreu a Davis investigar as razões para que isso fosse assim, bem como de toda a desgraça que ele vai presenciar no Vietnã. Ao fim ele reafirma, sim, estou num mundo de merda de fato, mas vamos em frente…
§ 6. Isso porque não existe transcendência neste filme. Jesus é um personagem religioso usado apenas para o doutrinamento militar dos fuzileiros contra os “pagãos comunistas”. Os símbolos religiosos e espirituais são apenas instrumentos de propaganda. Kubrick nos mostra um mundo brutal de onde não há escapatória, nem redenção, e nem esperança alguma senão a de tentar lucrar algo com a participação na Mistura. Que Hartman, ou qualquer outro soldado pensasse assim, seria esperado e muito verossímil. Mas porque Davis não pode cogitar uma alternativa? Porque ele não quer. Davis não é mais um nascido para matar pelo desígnio de uma vontade exterior, mas pela sua própria vontade, pelo seu próprio assentimento. Sendo inteligente e sensível, Davis é o ponto de identificação de um público inteligente e sensível. E Kubrick está usando Davis para dizer a esse público esclarecido: não há saída, é isso mesmo, vocês estão num mundo de merda e a única coisa que podem fazer é ir em frente e viver como seres nascidos para matar.
§ 1. Um filme obsessivamente analisado em seu simbolismo, O Iluminado, o nosso oitavo de Kubrick, de fato mostra o capricho do diretor em seu mise-en-scène. E é claro que há referências que servem como prato cheio para os teóricos da conspiração. As pessoas vêem foguetes aqui e ali, e de fato não pode nos escapar a blusa de Danny com a imagem representando a Apollo 11.
§ 2. A estória, baseada num livro de Stephen King, fala de Jack Torrance, um frustrado pretendente a escritor, que assume o serviço de cuidar do Hotel Overlook durante uma temporada de inverno. Leva sua esposa, Wendy, e seu filho, Danny. O Hotel, porém, já tem uma história sinistra, um crime horrível ocorrido nas mesmas circunstâncias em que Jack estará com a sua família. O zelador anterior assassinou suas duas filhas e se matou. Jack é avisado do risco da chamada “cabin fever” pelo gerente do Hotel. Jack não se preocupa.
§ 3. O pequeno Danny, por sua vez, tem um dom misterioso que o faz ter visões do futuro. Ele conversa com seu amigo imaginário, Tony, que lhe previne que o Hotel para onde eles irão é um local assombrado. Ele pede e recebe sua primeira visão do local, uma cena sangrenta. Quando chegam no Hotel, Danny conhece o Sr. Halloran, o cozinheiro. Halloran logo perece o dom de Danny, porque ele próprio possui uma capacidade semelhante. Diz que eles são “iluminados”. E previne para que ele tome cuidado naquele lugar. Diz que tudo que acontece num lugar deixa rastros, e que algumas coisas que aconteceram ali não foram boas.
§ 4. Jack não quer cuidar de suas ocupações no Hotel, que acabam sobrando para Wendy na maior parte. Mas também não consegue trabalhar como escritor. Fica distraído, sem inspiração, perdido. Sua esposa e o filho o irritam. Descobrimos que Jack já foi violento com Danny antes, e é possível que isso tenha inclusive despertado o dom misterioso da criança. Talvez assustado demais com a realidade o garoto tenha buscado refúgio no seu interior e descobriu algo ali?
§ 5. Em determinado ponto da estória algo se manifesta. Jack tem um pesadelo e Danny aparece machucado depois de entrar no quarto 237, onde Halloran havia dito que não deveria ir de jeito nenhum. Wendy acusa Jack de ter sido violento novamente contra o filho. Totalmente perdido, Jack vaga pelo Hotel e começa a ter suas próprias experiências sobrenaturais. Quando Wendy o procura, encontra o “trabalho literário” do mesmo: uma pilha de folhas onde Jack escreveu a sua famosa frase “all work and no play makes Jack a dull boy”. Ele pergunta: você gostou? Começa o terror.
§ 6. Jack quer agarrar e trucidar a mulher e o filho. Eles tentam escapar enquanto o Hotel manifesta ao máximo suas energias malignas. Agora até Wendy tem visões. Quando eles estão prestes a serem pegos, surge uma buzina na noite de nevasca lá fora. É o Sr. Halloran, que teve sua própria visão e decidiu ir até o Hotel para checar a situação. Jack desvia sua atenção da família, vai atrás de Halloran e o mata. Jack termina caçando o filho no labirinto em frente ao Hotel, mas o menino por astúcia consegue enganar o pai e fugir com a mãe. Jack morre congelado.
§ 7. Qual é a origem do mal no Hotel Overlook? Existem muitas explicações, a mais antiga vindo desde a época da construção do mesmo, já que tendo sido feita sobre um antigo cemitério indígena, envolveu alguma violência na defesa da construção contra ataques da tribo local. Jack mesmo parece reencarnar o antigo zelador do local. Estas especulações não chegam em lugar nenhum, porém. O que nos interessa é saber porque Jack foi possuído por essas forças demoníacas, sejam quais forem as origens das mesmas. Lá convivem funcionários e hóspedes a maior parte do ano, e mesmo na ocasião da crise da família Torrance, o mal foca em Jack especificamente como um veículo para a sua manifestação.
§ 8. Jack mesmo nos dá a pista disso em seu “trabalho literário”. Ele não quer carregar a sua Cruz, particularmente suas obrigações com a família. No caso do filho ele se vê claramente forçado a gostar do mesmo a contragosto. No momento de seu ataque de ódio, é disso que ele fala com Wendy: de suas responsabilidades. Vítima do Pecado Original como qualquer nascido de mulher, nunca ocorreu a Jack que ele caiu como vítima de um naufrágio neste mundo. Embalado pelas promessas de felicidade e de um possível Paraíso terrestre, como qualquer pessoa comum Jack mente para si mesmo a respeito da natureza do mundo em que vive, faz planos, e envolve pessoas nestes planos. Wendy acredita no mentiroso, como as mulheres geralmente fazem. E Danny nasce desse casamento entre a Pretensão do pai com a Ingenuidade da mãe. Quanto mais nos envolvemos com as mentiras da vida neste mundo e mais investimos nelas, mais arbitramos o excesso da experiência da Mistura e caminhamos na direção daquilo de que deveríamos fugir para o mais longe possível. Foi o que Jack fez.
§ 1. Com o décimo filme de Kubrick em análise, podemos ver agora a sua obra como um todo desde um patamar mais privilegiado do que no início. Este filme foi feito, imaginemos, com a máxima qualidade técnica do cineasta, especialmente de sua apurada capacidade de trabalhar o controle do mise-en-scène. Nossa primeira obra analisada era de 1957 (Glória feita de sangue). Em seguida analisamos trabalhos de 1960 (Spartacus), 1962 (Lolita), 1964 (Dr. Fantástico), 1968 (2001: uma odisséia no espaço), 1971 (Laranja mecânica), 1975 (Nascido para matar), e finalmente chegamos em 1980, com O Iluminado. São nove obras pouco mais de vinte anos. Pois bem, dezoito anos depois, em 1999, Kubrick aparece com sua obra final, este De olhos bem fechados. Parece que quer dar-nos um recado? Dizer algo importante, antes de partir? Isso poderia parecer mais uma conspiração tola, se não fosse relevante o fato de que Kubrick morre exatamente seis dias depois de entregar a edição do filme finalizado para a Warner Bros. Para quem gosta de conspirações convém pensar que Kubrick possa ter desejado falar algo, dentro das regras do jogo, e portanto com a permissão de Hollywood sob as regras sagradas do Annuit Coeptis, não mais sobre atos farsescos, como o pouso do homem na Lua, mas sobre as pessoas que sustentam a farsa deste mundo e a origem do seu poder. Dirão que estou indo longe demais, mas esse talvez seja o meu trabalho mesmo, dizer o que os tímidos temem.
§ 2. O título do filme já precisa ser explicado, e o pode facilmente com a imagem usada para a sua publicidade: William Harford (Tom Cruise), ou simplesmente Bill, fecha os olhos ao beijar Alice, sua esposa (Nicole Kidman). Isso representa a fantasia dos casados ao se beijarem, de poder estar com outros parceiros. Mas ao mesmo tempo e principalmente no contexto deste filme representa o adultério num sentido mais profundo, aquilo que Bill não quer ver de jeito nenhum, as mentiras da vida e do mundo, e até a maior das mentiras, de que o mundo é governado por boas almas e não por servidores que fizeram pacto com o Inferno. Como veremos, Alice mantém os olhos abertos porque ela vê o que Bill se recusa a enxergar.
§ 3. Bill é o Dr. Harford, médico de pessoas ricas em Nova Iorque. O filme começa com Bill e Alice comparecendo à festa de Ziegler, um homem poderoso e rico. Lá já vemos os dois flertando com outros participantes da festa. Um senhor húngaro que dança com Alice pergunta: “um dos encantos do casamento não é que ele exige a farsa das duas partes?” Isto é, o casamento se mantém com base numa mentira na qual pactuam os dois cônjuges, a mentira de que só querem um ao outro. Alice está bem solta por conta da bebida, mas se contém quando é convidada à traição. William também flerta com duas moças que querem levá-lo ao “fim do arco-íris”, que é um símbolo do fim da consumação do Adultério no sentido espiritual, quando Deus não mais manterá a Aliança feita com Noé. De acordo com a regra que nos foi dada por Jesus, de fato ambos Bill e Alice já são adúlteros, porque isto é o que está em seus corações. Esta é a verdade do ser humano: ele é um mentiroso.
§ 4. No meio da festa Bill é chamado para cuidar de Mandy, uma amante (ou prostituta?) de Ziegler que passa mal depois de abusar de algumas drogas. Ziegler pede segredo sobre o caso. Harford participa dos segredos e mentiras do alto escalão da sociedade, até certo ponto, mas não avança para além. Sua curiosidade, porém, o fará passar dos limites, como veremos. Mais tarde, embalada pelo uso de droga (maconha), Alice confronta William e ambos discutem o problema da fidelidade. Bill quer manter a mentira, mas sua esposa quer a verdade. De sua parte conta seus sentimentos de infidelidade num episódio do passado. Ela não o traiu, mas definitivamente o quis fazer. Isso o atormentará durante o resto do filme. Alice não o quis poupar disso porque a mentira dele alcançou um cúmulo que ela não mais suportou.
§ 5. Bill tem que sair na noite para visitar a residência de um paciente que acabou de falecer. Fica com tudo que sua esposa disse em mente o tempo todo. Na casa do falecido encontra Marion, a filha do morto, que beija o médico e diz que o ama. Ele se desvincula dela, mas fica evidente que as mulheres estão colocando Bill na realidade: tudo acontece ao redor do poder e do sexo. Ele sai pelas ruas pensando sobre tudo isso. Bill acaba aceitando o convite de Domino, uma prostituta, para entrar no apartamento dela para um programa. Mas ele nem sabe o que pedir. Ela conduz a situação, mas Alice liga para o marido antes que eles possam avançar, e ele muda de ideia. Da o dinheiro para ela mesmo assim, 150 dólares. E segue na noite. Bill quer consumar o adultério, mas não consegue ser o adúltero consumado.
§ 6. Bill encontra seu amigo, o ex-colega de curso de medicina, Nick Nightingale, tocando como pianista num bar. Eles já tinham se reencontrado na festa de Ziegler, onde Nick também performou. Os dois conversam no bar. Bill fica sabendo do trabalho de Nick numa misteriosa festa com mulheres bonitas e fica curioso. Descobre a senha, “Fidelio”, e decide conhecer o mistério. Antes, porém, precisa de uma fantasia e de uma máscara. Ele consegue a roupa com Milich, numa loja chamada “Rainbow Fashions”. Uma referência bem óbvia àquele estímulo inicial das duas mulheres na festa de Ziegler. Na loja a filha de Milich, menor de idade, está com dois amantes. Tudo estimula Bill na direção de uma consumação erótica, porque tudo ao redor é sobre sexo. Mas principalmente o que o conduz é a confissão da esposa, que continua como um pensamento fixo em sua mente.
§ 7. Ele finalmente se dirige à Mansão Somerton, o local da misteriosa festa indicado por Nick. Todos estão mascarados. Lá ele encontra um ritual em andamento, onde aquele que cumpre o papel de um sacerdote, vestido com uma roupa vermelha, como que invoca alguma força e a distribui por algumas mulheres participantes do rito, mulheres estas que são enviadas então para encontrar parceiros no evento. Esse rito que Bill assiste é para mim um símbolo muito óbvio do Pecado Original: a Serpente encontra a mulher, lhe transmite o seu “dom”, a Gnose que é a mentira do amor e da felicidade sem Deus, e então a mulher procura o homem para propagar esse “dom” recebido. Bill é escolhido por uma das mulheres que logo lhe diz: não sei o que você pensa que está fazendo, mas você não pertence a este lugar e deve ir embora logo, está correndo um grande perigo. Ele continua vagando curioso pela festa até que é descoberto. Quando está prestes a ser punido, a mulher que o alertou pede que parem e se oferece para redimi-lo. Ele é convidado a se retirar com o alerta de que não deve falar de nada do que viu para ninguém, ou ele e sua família sofrerão as piores consequências.
§ 8. Ele finalmente volta para casa. Sua esposa acorda de um sonho e ele pede que a conte o que era. No sonho ela transava com muitos homens para zombar dele, enquanto ria descontrolada. Isso só vai fortalecer suas angústias interiores. No dia seguinte Bill maneja as consequências de tudo. Descobre que seu amigo Nick foi sequestrado pelos organizadores da festa, provavelmente por ter sido ligado à sua presença como não convidado. Descobre também, quando vai devolver a roupa alugada para a festa, que o Sr. Milich está prostituindo a filha. O mundo vai se mostrando nas suas realidades. Por fim, Bill decide visitar a Mansão Somerton. Ele recebe um bilhete: “desista de suas investigações”.
§ 9. Bill continua obcecado pela ideia de sua esposa com outros homens. Ele tenta refazer o percurso da noite anterior com outras mulheres, para tentar consumar uma traição vingativa ou catártica, não sabemos bem porque ele próprio não sabe bem o que quer, mas elas não estão disponíveis. O marido de Marion atende o telefone no lugar dela. Já Domino saiu e no seu apartamento Bill só encontra Sally, a amiga que vive com ela. Bill está disposto a ficar com Sally mesmo assim, tamanha a sua miséria espiritual, mas ela quebra o clima e diz que Domino descobriu que está com HIV. Mais mundo real.
§ 10. Bill volta a vagar pelas ruas à noite, e tem a certeza de que está sendo seguido. Ninguém o ataca, mas é um recado de que está sendo vigiado. Ele descobre pelos jornais que uma famosa modelo foi encontrada morta por overdose, Amanda Curran. Imediatamente imagina que Amanda é a “Mandy”, a garota de que cuidou na festa de Ziegler. Ele vai reconhecer o corpo e está convicto de que foi ela quem o salvou na festa. A realidade do mundo está escancarada, eis o que há no fim do arco-íris: sequestro, violência, prostituição, doença e morte.
§ 11. Ziegler o chama para uma conversa. Revela que estava na festa e reafirma que Bill correu um grande risco, embora depois tente convencê-lo de que tudo não teria passado de uma farsa. Sua intervenção é obviamente cheia de mentiras e manipulações. Quer apenas controlar uma situação, ao custo de contar o que o médico quiser ouvir para seguir com sua vida. Mas Bill fala que reconheceu a mulher morta. E pergunta: que tipo de farsa termina com uma morte? Aí vem a grande revelação de Ziegler. Diz que Bill não entendeu muitas coisas do que viu. “Ninguém matou ninguém. Alguém morreu. Acontece o tempo todo. Mas a vida continua. Sempre continua… até que acaba. Mas você sabe disso, não é?” Sim, isso é nada menos que uma repetição do dito bíblico: o salário do pecado é a morte. Ziegler está relembrando Bill, que não é nenhuma criança, de que o mundo é assim e sempre foi assim. A única resposta digna diante disso seria a condenação do pecado, mas Bill não conhece Deus, só conhece sua profissão prestigiosa, sua bela esposa troféu, e sua vida de pai de família respeitável. É a mentira da qual não pode escapar, porque não tem Deus. Ziegler o enquadrou num xeque-mate espiritual.
§ 12. De volta para casa, Bill vê que a esposa descobriu sua máscara da festa em Somerton e desaba, dizendo que vai contar tudo para a esposa. Na última cena, enquanto passeiam por uma loja com a filha Helen, Bill pergunta o que eles devem fazer. Alice diz que devem ser gratos por ter sobrevivido e por estarem bem, e torce para que isso dure bastante. Bill diz: “para sempre”, mas ela responde que isso a assusta. Ela sabe das coisas. Alice termina dizendo que há uma coisa muito importante que eles precisam fazer o mais rápido possível: foder. Ela já entendeu tudo muito mais rapidamente e profundamente do que ele jamais poderia, pobre coitado.
§ 13. Bill é como um menino assustado que precisa que alguém lhe diga o que deve fazer. Provavelmente só trocou sua mãe pela esposa nesse papel. Muitos, muitos homens são assim. Alice percebe a condição de Bill e resolve que apesar da situação como um todo ser falsa, isto é, o próprio casamento, Bill precisa disso para sobreviver na insanidade do mundo. Ela precisa dar o sexo para ele, como uma mãe precisa amamentar seu filho. Ele não aguentará a realidade.
§ 14. E como ele poderia? Através de Discernimento espiritual, e da vida na Presença de Deus. Isso poderia fazê-lo entender a realidade em que se encontra, um mundo governado pelo diabo que comprou a humanidade com o Pecado Original. Alice, como toda mulher, por ser usada pelo homem como veículo do domínio da mentira, tem uma intuição visceral da realidade do pecado. Como Bill se recusa a ser uma testemunha de Deus e de seu Amor, ele precisa ser protegido por Alice, inclusive com o sexo seguro e supostamente santificado através do matrimônio.
§ 15. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, que amor não é possessão. O verdadeiro ciúme é uma coisa sagrada, divina. O ciúme de Bill é doentio porque ele crê que precisa de qualquer coisa que não seja Deus para a sua felicidade, e isto se concretiza na sua vida na forma da sua mulher. Seu foco em Alice o ajuda a não se perder mais ainda no mundo de mentiras e ilusões. Mas ele não deixa de ser presa do pecado. Como Ziegler lhe disse, ninguém mata ninguém, mas todo mundo morre. E que tipo de farsa termina com uma morte? A farsa do Pecado Original travestido de Amor. Por isso Alice não quis afirmar que se amariam para sempre: ela não quer que a mentira dure para sempre. Eles precisam morrer.
Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)
Humildade/Presunção
5
Presença/Idolatria
5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte
4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno
4
Soberania/Gnosticismo
6
Vigilância/Ingenuidade
8
Discernimento/Psiquismo
6
Nota final
5,4
Como já terminamos de ver os dez principais filmes de Kubrick, podemos calcular a nota espiritual média para essa parte principal de sua obra: 4,9 (Moriquendi).
Assisti os quatro filmes da franquia John Wick: De volta ao jogo (2014), Um novo dia para matar (2017), Parabellum (2019) e Baba Yaga (2023).
Esses filmes não merecem uma análise detalhada, de um por um. Vou fazer apenas este comentário e já valerá para os quatro.
Parece que Keanu Reeves está sempre envolvido com filmes violentos especificamente voltados para a expansão dos limites do que é culturalmente tolerável. Hoje isso deve ter sido esquecido, mas na época do lançamento de filmes como Velocidade Máxima, ou Matrix, essa discussão existiu. Mas é claro que isso já foi esquecido. Nem sei se John Wick chegou sequer a causar alguma discussão, mas se não causou, deveria ter causado.
O protagonista desta série é um homem com um passado violento de envolvimento enquanto mercenário com serviços criminosos, particularmente como assassino.
Depois de muitos sacrifícios para conseguir sua aposentadoria, ele finalmente fica com sua esposa em paz, que era o seu objetivo, até que ela morre subitamente de uma doença (câncer?). O viúvo se consola com seu carro e com seu cachorro, este último um presente de sua falecida esposa.
Por um lance do destino, talvez um tipo de carma, Wick esbarra com mafiosos russos que terminam por lhe roubar o carro e matar o cachorro, e isso basta para que o personagem busque sua vingança que levará quatro filmes para acabar.
No percurso da história desse desgraçado que tinha tão pouco para dar valor em sua vida (literalmente só uma esposa, um carro e um cachorro), a sua vingança o levará a confrontar grandes chefões mafiosos.
Descobriremos as altas instâncias do crime organizado e toda a sua institucionalidade: a rede de hotéis Continental como santuários do crime, os rituais de pactos de sangue, e a Alta Cúpula (ou High Table), cujo líder é um misterioso Ancião que vive no meio de um deserto no norte da África.
Eventualmente Wick conseguirá enfrentar todos os desafios e sair vivo e vingado. Mas o que foi exaltado nestes filmes? O poder e prestígio dessas organizações secretas, a glamourização da violência como recurso legítimo, e a suposta justiça do desejo de vingança do protagonista. São valores abertamente anticristãos.
John Wick deveria ser desprezado como o verme moral que ele é, nem tanto por suas querelas com os criminosos, mas principalmente por sua opacidade espiritual. Hollywood continua educando a juventude para ser no mínimo espiritualmente insensível, quando não ensina mesmo a própria ambição por tudo que há de maligno.
A miséria espiritual de John Wick é revelada já no começo do primeiro filme e constitui todo o seu problema: ele não tem Deus. Se tivesse Deus, não poderia realmente perder a esposa, nem o cachorro, e nem o carro. Tudo o que é amável está eternamente em Deus. De fato, o que John amava de fato era Deus na forma de sua esposa, de seu cachorro, e de seu carro. Sua cruz lhe cobrou o acesso imediato a experiência dessas coisas amáveis, mas Deus é imperdível. E tantas graças quanto poderiam haver foram desprezadas porque John Wick achava que tinha perdido o que há de bom para sempre. Se carregasse seu fardo e confiasse em Deus, poderia ter vivido tantas coisas mais que o aproximariam do Pai, mas ele não quis. Preferiu experimentar essa vingança inútil e desnecessária. A morte já estava pronta para acolher todos os seus algozes, porque a verdadeira vingança é de Deus, e desta ninguém escapa. Mas Wick, querendo se colocar no lugar que não lhe cabia, perdeu o lugar de amor que lhe era destinado. Uma vida perdida em ambição, cegueira e tolice. Será que um próximo filme pode mudar essa sina?
Ao tratar daquilo que é o poético, o Estagirita aborda imediatamente a distinção entre objetos e meios, afirmando que o que é próprio daquilo que ele chama de poético é a arte imitativa, e não o veículo próprio de apresentação desta arte, de modo que um filósofo pode usar meios aparentemente poéticos para produzir sua filosofia, e nem por isso se tornaria poeta. O contrário disso, porém, não nos parece ser verdadeiro, de vez que conforme o discurso é mais organizado formalmente parece que ele perde a sua capacidade imitativa. Assim, podemos encontrar, por exemplo, nas literaturas russa ou norte-americana, uma produção filosófica legítima, mas será difícil encontrar poetas que se expressem filosoficamente, porque esta expressão já exige uma abstração que viola o princípio das artes imitativas, que é o de sugerir possibilidades, que são aparências de verdades, e não probabilidades ou certezas.
É evidente que as artes imitativas podem ser usadas para a produção de ídolos, isto é, de objetos de culto no lugar da divindade real. Isso se dá porque a imitação pode ser veraz ou mentirosa. Precisamos distinguir, porém, com Aristóteles, os usos desse tipo de arte para conferir o quanto essa possibilidade tende a se realizar, mais ou menos, conforme o emprego das artes imitativa.
O filósofo nota que a imitação da vida humana deve ser capaz de representar as qualidades humanas, e portanto as virtudes e os vícios, e os caráteres superiores, ou nobres, e os inferiores.
Feita essa primeira observação, reparamos que um tipo bem antigo e clássico de arte imitativa, a poesia épica, como a de Homero ou Hesíodo, tem como objeto tipos superiores de seres humanos no contexto de assuntos da maior seriedade, e o elogio da sua virtude, fazendo isto de modo narrativo, o que cria uma projeção ideal algo distante da realidade humana comum. É uma narrativa mitológica que se distancia da temporalidade convencional. Já a poesia trágica, por sua vez, como de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, traz essa virtude e nobreza para a realidade humana mais cotidiana, substituindo a narrativa pela representação direta da ação (drama) na dimensão temporal da nossa experiência pessoal. Deixemos o nosso filósofo, este primoroso definidor, nos ensinar:
Esse caráter purgativo, catártico, fazia da poesia trágica um elemento essencial da vida psíquica e religiosa dos gregos antigos, trazendo à sua consciência elementos cruciais do sentido da condição humana que sem essa expressão poderiam permanecer soterrados no subconsciente. Não foi à toa que essa civilização produziu uma grande filosofia. O discurso poético antecede o político, o científico, e finalmente o filosófico (v. Aristóteles em nova perspectiva, de Olavo de Carvalho). Antes que a realidade humana pudesse ser integralmente considerada de forma objetiva, ela precisava ganhar expressividade suficiente nos seus diversos sentidos subjetivos. Daí também notamos que uma poética pobre e limitada sempre tornará uma sociedade filosoficamente incapaz de abstrair, por não possuir elementos simbólicos suficientes para representar a totalidade da experiência humana.
O exemplo mais óbvio e imediato dessa dependência que a filosofia tem da poética se dá no caso brasileiro onde a representação da vida geralmente alcança apenas os caráteres inferiores, sendo normalmente incapaz de se referir ao que é superior senão de forma irônica, sarcástica, com zombaria, etc. Isso instala toda uma população no estado de Apeirokalia, a falta da experiência das coisas mais belas. As virtudes não podem ser racionalmente reconhecidas no âmbito das discussões sociais, políticas e filosóficas, se elas não forem primeiro reconhecidas no seu legítimo valor no âmbito do sentido simbólico da vida do dia-a-dia. Se a nobreza, a generosidade, a magnanimidade, etc., forem zombadas na arte imitativa, serão também zombadas na vida real, e a política e a filosofia não poderão se realizar usando essas virtudes, porque elas foram desqualificadas pela arte imitativa. Aquilo que não compõe a imaginação primeiro, não poderá compor a abstração mais tarde. Daí observamos facilmente a grande futilidade desses empreendimentos políticos no Brasil, querendo salvar uma pátria que está poética e moralmente apodrecida, como se fosse possível alcançar paz e prosperidade numa sociedade em que a cultura é de ódio, violência, baixaria e futilidades. Não faz sentido algum. Uma árvore ruim não dá bons frutos. Primeiro seria preciso plantar boas árvores, e disso se colheria então bons frutos.
Voltando à Poética, numa de suas passagens mais notórias o filósofo nos ensina que a poesia está mais próxima da universalidade filosófica do que a história:
A maior seriedade, ou veracidade, da poesia se refere à sua maior universalidade ou pureza, desde que do ponto de vista mais universal do sentido das coisas, a possibilidade não só antecede a fatualidade histórica como é independente desta. Por exemplo, uma grande virtude, como de sacrifício da própria vida pelo bem de outro, não precisa se realizar historicamente para ser possível, e mesmo quando se realiza na história, só o fez porque foi antes possível, e é nesse âmbito de possibilidade que essa virtude possui a sua qualidade universalmente distintiva, o que é apreciado de forma mais pura na poesia porque esta destaca o caráter essencial da ação, como o valor heróico daquele que se sacrificou, enquanto na história o que tem importância se mistura com acidentes que desqualificam o caráter da ação, como a afirmação de que o herói era de uma certa etnia, tinha certa idade, era mais alto ou mais baixo, ou que vestia certas roupas, etc.
A respeito do potencial idolátrico das artes poéticas, como a avaliação disto não é o objetivo de Aristóteles, só podemos nós mesmos refletir sobre isso por nossa própria conta. Uma passagem do livro talvez nos ajude:
Reparem que estamos falando de uma poesia épica que tinha uma função religiosa e cívica. Isso não é uma novidade. Já vimos Platão afirmar expressamente que a mentira é necessária para o governo da sociedade. Qualquer reserva, portanto, quanto à legitimidade das fontes públicas de autoridade, inclusive e principalmente do tipo religioso, é autorizada pela mais elementar noção de como é fabricada realmente a “salsicha”, desde testemunhos antigos como esses de Platão e Aristóteles. Os ídolos são fabricados como instrumentos de poder sobre as massas que não buscam a verdadeira autoridade, que é a divina.
De resto o filósofo aponta para o que convém mais à arte imitativa, fazendo inclusive notas valiosas do ponto de vista gramatical, sobre a identificação de erros, etc.
Aristóteles obviamente não nos disse tudo o que podia sobre esse tema. Aquilo que nos está perdido só pode ser imaginado ao gosto de cada um e de suas preferências.
O filósofo termina por afirmar que a tragédia é a arte poética superior, principalmente por razões técnicas ligadas à extensão desse tipo de obra em comparação com as epopéias, e também pelo potencial de atingir os seus objetivos psicossociais com maior chance de acerto (embora em grande dependência da qualidade dos atores).
Falta-nos, porém, o elogio da comédia como recurso contrário à idolatria humanista e à Ingenuidade. Mas não podemos culpar Aristóteles pelo que ele não disse.
Divertida e bem feita, a série The Sopranos conta a história dessa família americana, descendente de italianos, que é envolvida na atuação da Máfia no estado de New Jersey, especialmente através da pessoa de Tony Soprano que se torna o chefe de facto da organização naquele estado desde a Primeira Temporada.
Por melhor que seja o entretenimento, porém, esta não é uma comédia. Há muitos alívios cômicos e muita variedade de sentimentos e símbolos, mas a série não pode ser espiritualmente inócua como alguns pretenderiam que fosse o caso, inclusive o falecido James Gandolfini, que interpretou o próprio Tony Soprano.
Para a nossa finalidade aqui, consideremos que apesar de termos alguma vantagem nos territórios da Soberania e da Vigilância com esta série, no fim das contas o testemunho espiritual que ela produz é negativo. Mas o seu simbolismo, por tratar justamente da condição humana de um ponto de vista bastante universal, embora não contenha saídas legítimas (por exemplo, todas as figuras cristãs na série são religiosas e vazias), retrata ao menos a parte negativa da experiência humana de modo fiel, e neste sentido é que podemos aproveitar algo da série, espiritualmente falando.
Tony Soprano é como um Adão, e sua esposa Carmela é como uma Eva. E a série conta basicamente a história da sua Queda, por vários ângulos diferentes, e a sua insistência em viver uma vida mentirosa, ou seja, sem Deus. Os demais personagens ilustram variadas repostas a esse pacto central voltado para a idolatria da família, dos costumes, etc. Nada nos permite acreditar que os ancestrais dos Soprano fossem melhores que eles, mas persiste essa insistência na lenda do valor passado, de modo que a tendência da série é de niilismo, cacolatria, ou de idealismo imanentista do passado.
Tony é um ladrão, adúltero, mentiroso, assassino e outras coisas mais, que não quer acreditar na sua própria Liberdade de agir diferente. Pior do que isso, não só ele recusa o Bem voluntariamente, repetidamente, insistentemente, mas ele ainda detesta que outros queiram a mesma Liberdade de crer e escolher o Bem que ele nega para si próprio, e odeia até mesmo que outros ousem sequer acreditar nela, e age deliberadamente para impedir que possam escolher melhor que ele, ou para ao menos desmoralizá-los. Seu fatalismo é a crença que baseia o seu caráter depressivo. E assim ele confronta todos os personagens que ousam contrariar a sua visão de mundo, todos na sua família (com uma certa ambiguidade apenas com relação aos filhos), todos nas suas relações de negócios, e inclusive a sua terapeuta, a Dra. Melfi. Tony não é simplesmente um criminoso e pecador que precisa de Redenção. Ele rejeita deliberadamente a Redenção e se aproxima, assim, do que chamamos de Pecado Mortal, ou Pecado contra o Espírito Santo. Muitas vezes, diante de tragédias, ele questiona: “que Deus é esse?“, sem se perguntar seriamente como todas essas coisas supostamente trágicas vieram a ocorrer de fato, porque isto obviamente o levaria a questionar a sua própria escolha de vida neste mundo, os ídolos do passado, etc. Somente no fim da série Tony vai entender finalmente que não há fatalismo determinista que o obrigue a ser quem ele é, e que sua Liberdade é muito real na escolha do Mal, como veremos.
A série possui a marca desse fatalismo determinista, que já faz parte até da música de abertura (Woke Up This Morning) onde o refrão diz “mas você nasceu sob um mau sinal, com uma lua azul nos seus olhos“. O termo “blue”, uma referência à cor azul, é um símbolo da depressão e da tristeza. A série mostra o corpo de Tony lutando contra a sua vontade de rejeitar o Espírito Santo: por reprimir seus sentimentos mais legítimos ele tem ataques de pânico e ataques de raiva, coisas que o levam a se consultar com a terapeuta, Dra. Melfi. A origem do seu estresse está obviamente na depressão, ou tristeza, que ele não quer assumir e resolver de fato, porque isso envolveria uma transformação muito grande pelo questionamento das grandes mentiras que ele aceitou desde sua infância, as crenças da suposta qualidade moral de seus pais, de seu tio, da própria Máfia como um todo, etc. Sua solução, obviamente falsa, está na aposta redobrada na mentira.
Sua esposa, Carmela, faz praticamente a mesma coisa que Tony, embora por outros caminhos. Ela sabe que se prostituiu ao marido em troca de bens materiais e da falsa imagem da família unida, um ídolo que ela compartilha fervorosamente com o marido. Ela não quer romper com essa mentira e assumir as consequências, e redobra também a sua aposta na mentira, até se tornar vítima ela própria do ciclo de violência que sempre foi a realidade secreta que sustentou a sua vida. Sua religiosidade é abjetamente hipócrita e superficial.
Os filhos do casal Soprano, Meadow e Anthony Jr. (“AJ”), conforme amadurecem, precisam deliberar por si mesmos a respeito dessa herança espiritual hedionda que seus pais lhes transmitem.
A moça, que é a mais velha, por vezes parece querer decidir por romper com o esquema, mas acaba por se convencer pela conveniência de uma certa acomodação. Conforme Meadow decide por si obter sucesso no mundo, pela sua carreira, ou cogitar a construção da sua própria família com os votos de matrimônio e maternidade, ela entende que o caminho para essas realizações é, senão o mesmo, ao menos análogo ao trilhado por seus pais, e com isso vive até certo ponto uma corrupção moral em si, embora com algumas ambiguidades. A última manifestação de um eco da sua Liberdade interior veio quando, alcoolizada, ela não resiste ao sentimentalismo de seu tio-avô, quando este canta Core Ingrato no velório se seu ex-namorado, Jackie Aprile Jr. Ela zomba e depois sai correndo do pai, quase sendo atropelada. Mas Meadow não é consequente na sua reação, ou ao menos não formaliza uma reflexão mais séria a respeito, e termina como uma personagem morna, talvez a única sobrevivente da família ao fim da série.
Já AJ amadurece de forma bem mais traumática. Ele revive episódios de ataques de pânico e de ira, como os sofridos por seu pai, mas vive sua depressão de um modo diferente, aceitando a tristeza como um sentimento legítimo, ao invés de negá-la. Eventualmente, mais para o fim da série, na Sexta Temporada, ao reconhecer que o mundo não é o que deveria ser através da frustração de uma experiência amorosa, ele vai rejeitando uma por uma todas as mentiras e confortos que seus pais apontam, seja comida, sexo, sucesso acadêmico, e mesmo as ambições de riqueza ou de violência. Finalmente tenta o suicídio, ou simula uma tentativa. Mas sua evolução na série não passa disso. Sua expressão mais legítima aparece numa sessão de terapia, quando ele afirma: “As pessoas andam por aí como se isto tudo importasse, elas ficam rindo e ninguém pára para pensar no que está acontecendo. Como é possível não estar [deprimido]? Só sendo maluco para não se deprimir. Sua cabeça teria de estar tão enfiada no rabo que só o que conseguiria ver é a própria cara estúpida. Tudo está tão fodido. Por que não podemos todos apenas nos entender?“. É o adolescente no limiar da maturidade de descobrir que o mundo em que seus pais lhe colocaram está muito longe de ser o conto de fadas que se poderia supor. Porém, na confusão emocional, ele não consegue separar ainda o que é a motivação pessoal do seu fracasso particular com a mais complexa realidade da vida e do mundo onde é sim justificável que as pessoas possam rir. Mas ele não tem chance de ampliar sua visão, ou não quer se dar uma chance de entender a profundidade do problema, e eventualmente arruma uma nova namoradinha e todos nós já sabemos onde isso deve dar. Novamente parece-nos particularmente forte a busca do homem jovem de um resgate do paraíso perdido da farsa da mãe na forma de uma nova farsa, a do matrimônio, onde a esposa supre essa carência. Deus não é buscado.
Com Christopher Moltisanti, um primo de Tony que é tratado pelo mafioso como sobrinho, e às vezes até como filho, revemos o drama da escolha diante do suposto destino fatal e até com maior clareza, porque ele faz parte da Máfia. Christopher acaba mantendo-se fiel à Tony e ao seu pacto de sangue, não porque seja leal por si, mas porque isso lhe convém pois não quer pagar os altos custos implicados na escolha pela Liberdade de rejeitar Tony e tudo o que ele representa para si, mais ou menos como Carmela. Quando tem a chance de salvar sua noiva e a si mesmo dessa vida desgraçada como criminoso, ele prefere a riqueza e o status do que uma vida honesta na pobreza. O problema é que Christopher não consegue bancar sua traição contra o Espírito como Tony faz. O preço que paga é mais pesado. Ele se torna menos funcional e mais vulnerável aos seus vícios, o que o leva finalmente à morrer pelas mãos do próprio Tony na circunstância de um acidente de carro. A grande revelação do sentido de sua vida vem num momento em que ele muito ingenuamente se abre com o veterano Paulie sobre seus sentimentos pela filha recém-nascida, e é zombado com piadas cínicas e grosseiras que o tiram subitamente de sua fantasia. Os gângsteres vivem mais instalados na realidade do que idealistas tolos, sem Deus, como Christopher. É um personagem que não pode ser trágico, porque é apenas cego para o mundo e até para si mesmo. Sórdido que seja no seu humor mórbido, Paulie não será surpreendido pela dureza e crueldade da realidade. Já na primeira temporada, quando Christopher reclamava de que lhe faltava “um arco” na sua história, o jovem pergunta: “você já teve a impressão de que nada de bom nunca lhe aconteceria na vida?“, ao que Paulie responde: “sim, nada aconteceu mesmo, e daí?“. Se achando especial, mas sem encontrar a sua especialidade com o Amor de Deus, Chistopher apenas se iludiu com sonhos enganosos, e não foi por falta de aviso.
O mencionado Paulie Gualtieri, aliás, é um personagem muito peculiar. Tão culpado por mentir, roubar e matar quanto qualquer outro, separa-se porém dos demais por suas superstições e uma conexão confusa com o mundo sobrenatural. Solteiro e sem filhos, ele vive misturado, mas ao mesmo tempo separado. Teria ele alguma intuição confusa e subconsciente do sentido da realidade? Alguns exemplos da falas estranhas de Paulie mostram a sua desconfiança com relação à natureza das coisas: “Uma coisa incrível sobre as cobras é que elas se reproduzem espontaneamente. É por isso que se chama de ‘cobra’ alguém em que você não confia. Como você poderia confiar em quem se fode a si mesmo? As cobras já estavam se fodendo muito antes de Adão e Eva“, “Mantenha-se solteiro enquanto puder“, e “Por que mijar, cagar e foder ocorrem todos num raio de duas polegadas?“. Ao fim ele tem uma visão súbita da Virgem Maria na boate Bada Bing (exatamente onde as garotas costumam dançar seminuas), se reconcilia com sua tia por ter se passado por sua mãe, e então recusa uma oferta de Tony e renuncia a assumir uma posição de maior prestígio e riqueza na Máfia, acreditando que isso traria alguma má sorte para si. De todos os personagens principais da série, Paulie é o único que se pode afirmar com maior segurança que tenha sobrevivido a todos os eventos da última temporada. Ambiguamente, ele participa de tudo o que não presta, mas não do mesmo jeito que os outros. Está junto, mas não misturado.
Mas quem na série teria alguma chance de elevar sua consciência a um nível de entendimento superior?
A grande chance foi da Dra. Melfi, a terapeuta de Tony que se achava muito esperta mas demorou seis temporadas para perceber que o mafioso era mais inteligente do que ela. Um apreço pela alta cultura, aliada a um certo intelectualismo, às vezes confundem certas personalidades deslumbradas e as fazem se sentir superiores aos outros. Ao invés de forçar o bandido a confrontar suas mentiras, Melfi preferiu se deixar seduzir pelo poder e charme de seu paciente. Só conseguiu se libertar de sua ilusão quando foi praticamente forçada a reconhecer a capacidade de um sociopata de manipular o processo terapêutico para se tornar mais funcional justamente como criminoso. Eu achei essa descoberta maravilhosa. Afinal, se o objetivo do estudo e tratamento da psique é tornar os seres humanos mais funcionais, o que isso significa num mundo governado por Satanás? Tony Soprano é um caso óbvio demais, e toma a forma de um desvio ou anomalia do propósito da psicoterapia. Mas será assim mesmo? Sutilmente, o mero objetivo da funcionalidade psíquica não serve apenas para a manutenção do Sistema da Besta?
Uma hipótese esclarecedora mais potente sobre o sentido da vida vem de Lívia, a mãe de Tony, que diz ao neto, AJ: “É tudo um grande nada.” Essa serpente niilista, odienta e odiosa, traumatizou Tony que só pôde se defender desse ataque espiritual se refugiando na ilusão de valor do pai, o mafioso que quis imitar como se fosse um conquistador da vida e alguém que pudesse responder ao desafio de Lívia. É tudo uma grande mentira.
As idéias espirituais mais explícitas na série aparecem em três vertentes.
Primeiro são sugeridas na representação da forte presença da cultura católica no seio dos ítalo-americanos, mas apenas na forma de hipocrisia e sentimentalismo, ou no sentido de um certo orgulho identitário. O Padre Intintola, por exemplo, é desmoralizado como um aproveitador, embora seja notável que resista à tentação de cometer adultério com Carmela. Ele não consegue responder satisfatoriamente para ela a origem e o sentido do desejo sexual, porém. Mantém-se uma liderança espiritual fraca, como todos os cristãos que aparecem mais tarde, como o Pastor Brewster que visita Tony que está doente no hospital. Os cristãos parecem ser ingênuos ou aproveitadores inescrupulosos.
Além disso, o segundo tipo de sugestão vem de algumas idéias espirituais gnósticas que aparecem na forma de uma certa ideologia da Nova Era. Há testemunhos do Budismo sobre a dissolução da ilusão do eu numa visão que Tony tem durante o seu coma, e também uma idéia monista gerada a partir de alguns elementos da Física Quântica, trazida pela influência de um paciente hospitalizado junto com Tony.
Por fim, as idéias espirituais mais substanciais aparecem pela intervenção de um elemento sobrenatural sutil na história, em experiências como as de Paulie, mas principalmente com o próprio Tony. Isso começa através de sonhos passíveis de interpretação pela atuação da Dra. Melfi, mas depois se amplia para visões durante o seu coma, e principalmente na experiência mais significativa de toda a série que ocorre no episódio 18 da última temporada, “Kennedy and Heidi“.
Neste episódio Tony mata Christopher depois de um acidente de carro. Aos poucos ele fica satisfeito com sua ação, e cada vez mais feliz, na verdade. Ele não suporta fingir o luto, nem ter que sequer justificar para si mesmo o seu ato, e nem o falso valor da vida familiar no qual no fundo começa a perceber que não acredita. Num relance, da parte superior de sua casa, Tony vê na sala abaixo a viúva de Christopher amamentando a filha, enquanto a avó, mãe de Christopher diz: “Ela não sabe de nada. Deus não é mesmo maravilhoso?” Sua posição neste momento é muito simbólica. Ele, desde cima, como um “deus”, também olha para essas mulherzinhas tontas e cegas sendo maravilhoso ele mesmo ao não compartilhar com elas as verdades que elas não aguentariam. O próprio ato amoroso de amamentar, que normalmente significaria segurança e cuidado, se mostra como parte de um esquema de acobertamentos do mal, ou até como a nutrição de uma promissora futura cumplicidade na ignorância. Essas sutilezas na série são fenomenais. Tony já não aguenta mais ficar no meio desse teatro patético representado por atores inferiores. Decide ir para Las Vegas espairecer.
Durante sua viagem a verdade é revelada. Inicialmente Tony perde ao jogar no cassino, continuando sua maré de azar que já vinha de tempos antes. Mas então toma droga (peiote) com uma prostituta. Volta aos jogos. Uma significativa imagem de um diabinho parece lhe sugerir alguma coisa qualquer. Então ele começa a ganhar repentinamente, e de forma espantosa. “Ele está morto!“, comemora. Era preciso que matasse Christopher para destravar algo em sua vida. Mais tarde, numa paisagem desértica inspiradora, Tony vê um flash de luz saindo do sol vermelho no horizonte, várias vezes. Ele se levanta, comovido, ergue os braços e proclama: “Eu entendi!” Está eufórico, mas não parece realmente feliz, e sim aliviado porque algo lhe foi esclarecido. Ri e chora ao mesmo tempo. Seus sentimentos estão confusos diante de uma revelação profunda. Ri porque entende algo muito valioso, mas chora porque o que ele entendeu é terrível.
Não é novidade nenhuma que o uso de drogas psicodélicas é um meio comum de liberação de acesso da consciência humana para a comunicação com espíritos infernais. Qual mensagem Tony teria recebido ali, naquele deserto? A resposta me pareceu muito simples na segunda vez que assisti a série. Tony entendeu uma grande verdade que esclareceu-lhe o sentido de sua vida: este mundo pertence ao diabo, e aqueles, como ele próprio, que servem apenas aos seus desejos de poder e satisfação, não precisam prestar contas senão a si próprios, porque este mundo lhes pertence. Christopher precisava morrer porque, embora vacilasse na sua escolha, o próprio Tony, não vacilando na sua própria decisão, fez apenas o que lhe cabia na sua própria Liberdade. Tony tomou consciência do sentido espiritual de sua própria decisão, finalmente. Sua jornada de autoconhecimento alcançou o ápice. O propósito de sua vida foi realizado e ele está pronto para morrer em breve.
O que Tony não conseguiu encarar através de todos os seus anos de terapia, a experiência com a droga no deserto de Las Vegas o obrigou a ver: que ele fez o que quis com a vida que teve. Não importa mais fingir que sua vida foi fatalmente predeterminada pela sua vontade de agradar e obter o amor de seus pais, e de fingir que eles eram bons. Foi ele quem trocou o Deus verdadeiro e seu Amor pela idolatria da família e, principalmente, pela busca do Poder. Tony não precisa mais fingir que não consegue mudar sua vida, porque agora ele sabe que não quer fazer isso.
É muito conveniente atentarmos para o sentido da Liberdade independente de quaisquer transgressões particulares: o que o ser humano precisa conhecer é a sua própria Arbitragem a respeito do Amor divino, isso já tendo como pressuposto, como diz o apóstolo Paulo, que todos são pecadores e que ninguém se salva por si (“Deus encerrou a todos na desobediência para a todos fazer misericórdia“).
Esses dois personagens de quem falamos aqui, Paulie e Tony, por exemplo, são comparáveis e semelhantes por todos os seus crimes e pecados, mas suas decisões diante de uma visão do Sagrado são diferentes: um restringe sua vontade por confiança em algum Bem transcendente que ele não entende direito mas ao qual quer se submeter, e o outro a libera completamente de qualquer restrição.
Esta edição contempla vários tratados lógicos do Estagirita, a saber:
Categorias
Da Interpretação
Analíticos Anteriores
Analíticos Posteriores
Tópicos
Refutações Sofísticas
Diferente dos filósofos que o precederam, que distinguem mais intuitivamente do que analiticamente a diferença da sua investigação em comparação com a atividade dos sofistas, Aristóteles se aprofundará no entendimento da própria linguagem humana e na sua correspondência lógica com os fatos do mundo real. Podemos entender essa como uma segunda jornada no território do Sujeito da filosofia, enquanto produtor de discursos, assim como com Sócrates o Sujeito filosófico foi investigado enquanto agente moral. Esse empreendimento, entre outros, torna Aristóteles o filósofo mais completo de sua época, embora talvez não seja necessariamente o mais profundo, dependendo do quanto ele consiga –conforme veremos– colaborar na investigação mais poderosa dos metafísicos anteriores, isto é, o tema do Uno e do Múltiplo tal como foi abordado por Pitágoras e Platão.
No livro das Categorias encontramos a primeira correspondência ao Uno na forma do mais elementar dos tipos de nomes que podem ser produzidos, a Categoria da Substância, e dentro desta especialmente o que ele chama de Substância Primária. Diz-nos Aristóteles:
A determinação da substância primária afirma a sua prioridade no Ser e a sua singularidade enquanto compatível com a diversidade de qualidades do Múltiplo, qualidades estas que são indefinidamente possíveis e que recebem a sua própria determinação por ação do Uno. Isso não é dito, por óbvio, nas Categorias, mas não é difícil fazer essa dedução. A implicação metafísica disto produz consequências espirituais decisivas: tudo o que reconhecemos pela sua qualidade distintiva formal afirma algo do Ser, mas não se confunde com ele, porque não o determina, mas é determinado por ele. Nossa inteligência apreende as formas do Ser, manifestado na Multiplicidade das suas qualidades, mas o Ser mesmo não pode ser reduzido a nenhuma delas, pois as antecede ontológica e formalmente. Ou seja, a atribuição de substancialidade a qualquer Ser que não seja o Uno, inefável na sua singularidade, é um juízo falso que corresponde, na dimensão espiritual, ao erro da Idolatria.
Mais adiante, ao investigar na Categoria da Relação a comunicação lógica de termos contrários, diz-nos o filósofo:
Essa simples afirmação é suficiente para desfazer uma gigantesca pretensão platônica, e também gnóstica, que precedia essa distinção: a de que às oposições lógicas entre termos contrários intelectualmente distintos pelo reconhecimento de sua oposição, corresponda uma oposição real no próprio Ser. A bondade de qualquer qualidade, como o estado de saúde de qualquer ser vivo, reconhecível, não somente, mas também pela relação de oposição com a maldade do estado contrário, que é o da sua ausência, não exige que esta oposição tenha que ser realizada no Ser e reconhecida como existente, à não ser apenas contingencialmente, se esta distinção for experimentada por um agente livre que precisa conhecer seu próprio arbítrio na escolha daquilo que é bom.
Para Platão, as idéias são tão ou até mais reais do que os entes que as manifestam como suas imagens ou aparências. Daí que às idéias opostas a qualquer bem particular se intelige por oposição as idéias das suas ausências, os males que lhes correspondem, e estas idéias devem possuir tanto Ser quanto as suas contrárias. Assim, conhecemos o mal na experiência porque existe lá na dimensão do mundo das idéias platônicas essas idéias eternas de todos os males possíveis, de modo que se não fosse assim não poderíamos reconhecer a bondade das idéias contrárias. Essa doutrina é profundamente gnóstica, já que atribui dualidade à dimensão divina do plano das idéias eternas. Para haver Bem deve haver Mal, para haver Luz deve haver Trevas, etc.
Para Aristóteles, as idéias são verdadeiras para o Intelecto, sem precisar possuir substancialidade fora dele, ou seja, sem participação necessária no Ser. Só a Unidade, correspondente à Categoria da Substância Primária, é necessária. Portanto, a oposição entre o que é bom e o que é mau é apenas uma aplicação da Categoria de Relação para o reconhecimento de possibilidades que se contrariam no Logos, mas não necessariamente no Ser. O Bem não precisa do Mal para ser o Bem, e nem sequer para ser reconhecido como o Bem, senão apenas sob um aspecto da Categoria da Relação.
A ressalva que eu fiz acima se refere à carência do ser livre contingente, com Intelecto finito, que requer particularmente alguma experiência da oposição no ser manifestado para que possa conhecer sua própria liberdade de escolha entre uma possibilidade e a outra. A medida dessa carência, porém, é variável, como já vimos no tema da Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM). Um Intelecto limitado, por não possuir a consciência atual de toda a bondade de todo o Ser possível como Deus possui, não pode aderir por uma vontade esclarecida na escolha do Bem sem conhecê-lo livremente diante de uma oposição concreta. Disto se depreende uma necessidade mínima de Mistura para esse tipo de ser realizar sua liberdade e escolher o Bem. A afirmação de que essa experiência contingente implica na necessidade ontológica de Mistura para qualquer condição de conhecimento do Bem não passa de uma Presunção advinda da Idolatria humanista e antropocêntrica. A forma como conhecemos o Ser não é a forma do conhecimento que Deus tem de Si mesmo. “Meus pensamentos não são vossos pensamentos, e vossos caminhos não são meus caminhos. Quanto os céus estão acima da terra, tanto meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.”
Com os Analíticos Anteriores Aristóteles nos ensina a lógica do discurso com a função exclusiva de conferir a sua validade. A veracidade do discurso depende da evidência das premissas maiores que transcendem o seu escopo. Em outros termos: a verdade do discurso está fora dele, não é uma qualidade lógica sua, mas ontológica, referindo-se à ousia, o Ser, e não ao logos, que é o discurso posterior e análogo ao Ser. A qualidade lógica do discurso aponta apenas para a sua validade. O que é autoevidente constitui uma premissa verdadeira em si, enquanto o que não possui evidência por si tem somente a qualidade de probabilidade e só pode ser afirmado se a mesma formulação comportar a negativa contrária, de acordo com o princípio científico da falseabilidade. Em suma, e como Kant esclareceu muito bem mais tarde, o que pertence à razão humana não é a Verdade, mas sim a coerência lógica.
Aristóteles herda de Sócrates, através de Platão, um certo ceticismo que se torna ferramenta de rigor analítico do discurso. Nos últimos capítulos do Livro I dos Analíticos Anteriores ele menciona várias vezes o poder enganador dos discursos, especialmente quando as premissas não funcionam direito, seja quando as declaradas não se aplicam, ou quando as aplicáveis não são declaradas. Isso nos evidencia um problema clássico na investigação da verdade: a urgência, ou pressa, para se obter as conclusões de um discurso competem diretamente com a capacidade analítica de esclarecer a validade e a veracidade de todas as premissas necessárias ao aferimento dessas conclusões. Daí que o espírito filosófico, e mesmo o verdadeiramente científico, se inclina naturalmente para a contemplação, e não para a arbitragem de disputas e questões práticas, onde o convencimento pelo discurso persuasivo é mais conveniente para a formação da opinião. Essa contradição entre a contemplatividade da verdadeira Filosofia e Ciência e a praticidade de uma imagem finita da verdade na forma da opinião persuasiva sempre me pareceu um elemento essencial que diferencia os seres humanos entre Amorosos e Furiosos. Quem quer decidir, sem que tenha tido o poder para fazê-lo por imposição das circunstâncias, coloca-se num grande risco moral. Ninguém deveria fazer isso contra si mesmo, e nem contra os outros. Antes, a rendição ao Mistério do Ser exige do ser humano a redução ao máximo de sua exposição a essas atividades de arbitragem. Todo o Pacto Ouroboros, por exemplo, poderia ser evitado por essa simples opção pela contemplação no lugar da persuasão sedutora da conquista de alguma vantagem através do risco do engano. Sempre que todas as premissas de um dado argumento forem investigadas com verdadeiro rigor filosófico o espírito de Presunção será desarmado, porque amar a Verdade é o contrário de presumir possuí-la, e esse amor é experiência do dom da Humildade.
No Capítulo VIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, Aristóteles destaca a diferença radical entre o conhecimento superior e puro, referente ao que é Eterno, e o conhecimento inferior, ou misturado, dos contingentes:
Isso é muito relevante para um grande estudioso da natureza como foi este filósofo, porque nos dá a noção da grandeza de sua visão. Embora tenha se dedicado tanto ao estudo detalhado das realidades naturais, o Estagirita jamais deixaria de reconhecer a hierarquia do Ser desde os primeiros princípios e as necessidades metafísicas até as contingências da realidade natural manifestada na nossa experiência. Quando mais tarde uma certa idolatria na forma de Lei Natural tentar imprimir às relações entre os contingentes vínculos de necessidade de uma natureza indevida, como se fossem verdades metafísicas, isso constituirá um erro tremendo que levará muitos séculos para ser corrigido, primeiro com a filosofia franciscana da Idade Média, e depois com a filosofia kantiana. Esse erro foi um dogmatismo que feria a hierarquia das coisas e o próprio espírito da melhor filosofia aristotélica, como podemos notar na leitura desta passagem do Órganon.
Que, por exemplo, um ser humano não deva matar o seu semelhante, não é uma revelação da Lei Natural, mas uma revelação divina pertencente ao domínio daquilo que transcende toda natureza possível. Ao querer “enfiar” Deus na Natureza, o que o dogmatismo tradicionalista fez foi endossar o ramo exotérico da dialética gnóstica do Ouroboros, ou seja, a legitimação da Mistura.
Igualmente, e até com maior importância, o fato de uma certa Lei Natural apontar para a conveniência da procriação não modifica o âmbito espiritual que deve ser independente e permitir o reconhecimento, com Aristóteles, de que “no que concerne a relações corruptíveis, não há demonstração ou conhecimento scricto sensu, mas somente no sentido acidental em que o predicado ou atributo pertence ao sujeito não universalmente, mas num dado tempo ou sob dadas condições“. Os animais não podem atingir essa consciência, mas os seres humanos podem e, como podem, devem, no que aliás se realizam mais como criaturas à imagem e semelhança de Deus, e não dos animais. Com a categoria teológica da Cruz, ou com a filosófica da RSMM, podemos por exemplo entender como a reprodução pode ser conveniente para alguns casos, mas não para todos, e principalmente nunca como regra de uma suposta Lei Natural. A distinção entre Obras da Carne e Obras do Espírito, afinal, não pode ser deduzida da Lei Natural porque implica justamente na sua total transcendência, do mesmo modo que a virtude da castidade da Virgem Maria, ou mesmo de Jesus, sublima completamente o decaimento embutido na natureza amaldiçoada desde Gênesis 3. Curiosamente, Aristóteles não tinha nenhuma dessas noções reveladas pelo Evangelho, mas sua filosofia era potente o suficiente para reconhecer os limites contingenciais das verdades obtidas pela observação da natureza. Que isso seja sempre lembrado quando algum dogmático quiser alegar a autoridade da Lei Natural para justificar a prática do Pacto Ouroboros.
No Capítulo X do Livro I dos Analíticos Posteriores lemos:
A validade do silogismo e a veracidade da demonstração são propriedades internas da alma que produz o assentimento a seu respeito. O que Aristóteles nos ensina aqui é que não existem proposições verdadeiras, senão em elipse. A Verdade está no Ser que é, e no Intelecto que o conhece. O discurso é apenas um símbolo dessa relação. O logos humano aponta para a correspondência externa entre nous e ousia. Diante de um discurso externo à alma, como a afirmação de um professor para um aluno, no exemplo dado, este é uma hipótese quando aceito como verdadeiro sem o correspondente discurso interno, e é um postulado quando não é aceito por hipótese. Assim, só podemos dizer que um discurso é verdadeiro por elipse, pois a verificação depende do discurso interior de cada alma.
No Capítulo XI do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:
Esta é uma distinção vital na filosofia aristotélica contra a platônica. O Estagirita afirma que não é necessário separar o Uno e o Múltiplo para que qualquer predicação seja viável a respeito do Ser. Platão, desejando de algum modo proteger a eternidade das idéias, escolhe o caminho da multiplicação dos seres. Aristóteles, de certo modo mais eficiente, só requer que haja a identidade dos predicados no Intelecto. O mestre distanciava o Uno do Múltiplo posicionando essa classe de entes intermediários entre os dois e tornando os objetos da Percepção as imagens dos seus tantos variados arquétipos ideais, sem relação direta com o Uno. Já o discípulo, mais econômico, enxerga o Uno no Múltiplo pela identidade formal dos predicados do Ser. As filosofias futuras de Ockham e Kant seguirão essa pista de maneira frutuosa. E com Leibniz temos a maior unificação possível da relação entre o Uno e o Múltiplo com a Mônada que possui como objeto de Percepção a si mesma.
No Capítulo XXII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:
Aristóteles nos mostra que é impossível possuir todos os conhecimentos por demonstração, porque se todos os termos forem eles mesmos demonstráveis, sua série seria infinita e nenhum conhecimento seria possível (atual). Certos termos intuitivos e autoevidentes são necessários para que qualquer conhecimento seja posteriormente demonstrável. E aquele intelecto que desejar a demonstração do que é intuitivo se colocará na tarefa impossível de realizar o que somente um intelecto divino poderia fazer, isto é, conhecer o infinito em ato. Foi isso o que Lúcifer desejou, a Gnose divina (noesis noeseos, “a visão da visão”), e através dessa frustração foi que ele caiu do Céu “como um raio“, como disse Jesus. De fato, a natureza desse conhecimento intuitivo e não demonstrável dos termos superiores, ou primeiros princípios, de qualquer raciocínio, é misteriosa enquanto sumamente dependente da Graça da iluminação divina. Entenda-se bem: também a demonstração silogística possível aos termos intermediários depende da iluminação divina, mas nesta, como a prova é recebida como parte da evidência e complemento da intuição, a relação de dependência pode ser desconsiderada, mas isto é impossível na qualificação da veracidade das intuições puras.
No Capítulo XXIV do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:
O conhecimento mais perfeito, ou mais completo, atinge as causas primeiras que são mais simples. Essa observação nos convém para revalorizar a ação do arbítrio divino na sustentação de todas as causas intermediárias, e mesmo para repensarmos toda a validade dos termos referentes às causas próximas e médias como meras deferências da parte das causas primárias. Assim, que algo posterior ao ato divino tenha causado um efeito por seu próprio movimento é apenas uma concessão de participação na Graça que é sempre a produtora das Percepções. É claro que a linguagem da lógica aristotélica não poderia antecipar o que formalizamos com a ontologia monadofílica –isto é, que todas as causas intermediárias, correspondentes aos termos médios das demonstrações, são partes do objeto da Percepção tão produzidos pela iluminação divina no Intelecto percipiente quanto todos os seus efeitos–, mas nos impressiona que ela seja tão compatível com suas conclusões. Sobretudo, contra a Idolatria, convém reafirmar o poder divino de produzir qualquer Percepção per se, sem outras causas senão a Vontade de Deus, de maneira que até os últimos efeitos de qualquer série causal possam ser produzidos ex nihilo. Conhecer o Amor divino como a causa eminente de todas as coisas é, portanto, a Sabedoria suprema.
No Capítulo XXXIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:
A Verdade, assim, pode ser (1) um juízo de fato, (2) um juízo de razão, (3) um juízo volitivo, (4) ou um discurso sobre um juízo verdadeiro. A maior dificuldade se encontra nos juízos volitivos que sustentam a opinião (doxa). Isso parece até antifilosófico, mas isto é só uma impressão falsa decorrente de um certo hábito gnóstico na História da Filosofia. O próprio Edson Bini, que traduziu esta edição do Órganon, comenta a respeito desta passagem que os especialistas em Aristóteles a acham problemática, e divergem na sua interpretação. Pela Monadofilia observo que é próprio do Intelecto limitado a estimativa do verdadeiro na produção da sua crença, e entendo que é a essa experiência elementar que Aristóteles se refere. A opinião não é, assim, apenas objetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como é, mas é também subjetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como seria possível. A opinião subjetivamente falsa, por sua vez, é aquela que contraria algum outro juízo no mesmo Intelecto, o que constitui um erro, ou uma mentira. Toda crença é verdadeira para quem nela acredita na falta de melhor juízo.
No Capítulo VII do Livro II dos Analíticos Posteriores, lemos:
Aqui Aristóteles mostra sua genialidade, a abrangência do seu pensamento, antecipando o Nominalismo ockhamista e a Crítica kantiana: o logos humano compreende racionalmente e é capaz de demonstrar somente aquilo que parte dos primeiros princípios da intuição que são indemonstráveis, como já vimos antes. Os nomes das coisas, as identidades das formas e as definições simbolizam os objetos intuídos pelo Intelecto, mas não o demonstram nem o dominam racionalmente.
Os nomes descrevem possibilidades de seres que nunca possuem fundamento racional para existirem, exceto pelo caso de Deus. A única realidade que possui em sua definição a necessidade do Ser por essência é a Substância divina, ou a Mônada Incriada, como primeiro princípio ou termo inicial sem o qual nada mais poderia existir ou ser demonstrado. Mas isso já é um objeto mais próprio à Metafísica.
No Livro I dos Tópicos encontramos um traço de Ingenuidade na afirmação de que a Dialética deve discutir somente a opinião da maioria, ou dos sábios. Isso poderia fazer muito sentido no universo da polis, pois uma sociedade organizada pelo bem comum permite que a unanimidade ou a especialidade ajudem na formação da base de uma investigação. Mas se a realidade social humana costuma ultrapassar os limites desse ideal político grego, essa segurança já não existe mais. Aristóteles chega a rejeitar in limine opiniões como as de negação de reverência aos deuses, ou do amor aos pais, e cria, assim, um limite artificial, externo, à Dialética. Essa provisão de uma reserva tradicionalista também revela um traço de Gnosticismo, ao prejuízo do dom de Soberania. A suposta dignidade da opinião da maioria e dos sábios não foi capaz de receber Jesus Cristo, por exemplo.
No Capítulo I do Livro III dos Tópicos, lemos:
A categoria do elegível tem aqui a mesma função, para a afetação da Vontade, que o Escolhido, que é o primeiro dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia. O que é elegível por si é o que é bom por si, bom no sentido estrito, e este é o conteúdo terminal da nossa Apetição, ou a causa final do ser em geral.
As causas intermediárias, ou termos médios, são excluídos da finalidade pela sua operação, e não por sua espécie. Assim, se eu preciso caminhar para me locomover de uma origem a um destino no espaço, nessa operação, por si, o caminhar poderia ser substituído, digamos, por um teletransporte imediato, sem afetar a Apetição cujo objetivo era um destino espacial. Porém, se eu qualifico essa causa como final em si mesma, por sua espécie a operação se torna elegível em si mesma como causa final. É assim que se compreende a riqueza inerente ao Escolhido, que é a Coruscância, ou o Paraíso. O caminhar como meio é preterível, já o caminhar em si é desejável, etc.
No Capítulo II do Livro III dos Tópicos, lemos:
A hierarquia entre os bens nos remete à importância da superioridade de algumas virtudes sobre outras, e de alguns tipos de experiência sobre outros. Assim, a Humildade supera a Sabedoria, a Sabedoria supera a Saúde, a Saúde supera a Riqueza, etc. O ensino das virtudes em grupo é muito contraproducente. Viver na Presença com Humildade supera tudo e, na verdade, é a única e suficiente forma de frutificar os demais dons e virtudes.
Ainda no mesmo Capítulo III podemos ler:
Ora, o que é mais útil do que a Vontade de Deus? Nada pode ser. Aplicando a lógica aristotélica do Decreto de Gênesis 3 e à revelação cristã da salvação através da Cruz, Morte e Ressurreição, reafirmamos a conveniência do desarmamento moral da humanidade pela hipótese da Melhor Geração (ou Última Geração). Aqueles que buscam qualquer tipo de felicidade, bem-estar, ou justiça sem contar com a Vontade divina tomam uma decisão irracional. E antes que se afirme que igualmente a perpetuação do Pacto Ouroboros pela procriação carnal se justifica como fruto da Vontade divina, é suficiente lembrar que nenhum nascimento é jamais obrigatório dada a potência racional da alma que pode produzir um juízo que escolha o autocontrole e a castidade, ao passo que a morte de todas as Obras da Carne, do ponto de vista humano, é inescapável. Isso aponta para a distinção do que é a provisão divina para um ato de liberdade da escolha do bem e do que é provimento para o ato de aceite de uma verdade inescapável.
No Capítulo V do Livro VII dos Tópicos, lemos:
Esta observação de Aristóteles, casualmente produzida enquanto o filósofo analisava as respectivas forças e fraquezas dos argumentos dialéticos, nos permite ver como a ambição científica é difícil, e potencialmente frustrante, e indiretamente indica a conveniência geral de uma postura cética e de agnosia, que corresponde, filosoficamente, ao dom espiritual da Humildade. Isto tudo deriva do Limite enquanto definidor da forma substancial humana. E é por isso que a Filosofia pode ser tão perigosa. Ela parece predispor a alma à tentação da Presunção e do Gnosticismo.
Além disso, nota-se como parece ser mais produtivo buscar as grandes intuições sobre o Ser, do que as suas infindáveis aplicações particulares. O especialista toma sempre o risco de se perder na sua investigação e de esquecer a firmeza dos primeiros princípios que lhe inspiraram inicialmente. O generalista, por outro lado, apesar de não ser mais infalível por si, fortalece o seu Intelecto por estar sempre próximo das grandes intuições originárias, como fazem os metafísicos na Filosofia, e os místicos na Teologia.
No Capítulo V do Livro VIII dos Tópicos, lemos:
Esta passagem ajuda na desambiguação da finalidade da Dialética e nos esclarece a natureza radicalmente diferente da Filosofia, e da Ciência pura, comparando-se com o que havia até então. Aristóteles se vê mesmo obrigado a reconhecer que está prestes a definir regras que nunca antes foram formalizadas, o que de certo modo produz um ajuste indireto na sua postura tradicionalista.
Mas será que os homens de antes não buscaram nunca a Verdade? É claro que eles buscaram. A questão é: com que clareza eles discerniam que este alvo não poderia ser atingido com o convencimento alheio? Nossa questão aqui trata da descoberta de um novo paradigma que é moral por sua natureza, e que foi inaugurado com plena autoconsciência por Sócrates. Já não importa ter uma opinião convincente. O que interessa agora é o convencimento de si mesmo. E, paradoxalmente, neste intuito é mais valioso o reconhecimento da ignorância do que a geração da imagem da verdade. O filósofo está (ou deveria estar) totalmente separado do teatro da Pretensão humana. Sem função social, ele enxerga por sobre as restrições dos vários papéis e está livre para não precisar chegar em nenhuma conclusão. Os outros precisam fingir que sabem, porque estão presos nas suas formas sociais que os impedem de ser honestos. O filósofo está livre dessa mentira. Sócrates de certo modo fundou a expressão da subjetividade autoconsciente. Aquele eu cartesiano que soube que existia por duvidar, precisou antes disso ser um eu socrático que sabia que não sabia o que os outros fingiam que sabiam. Com esse paradigma Sócrates inventou a verdadeira Filosofia.
Aristóteles é um descendente direto dessa nova tradição. Tão nova que este neto intelectual de Sócrates se vê obrigado a distinguir na Dialética essas duas funções radicalmente distantes uma da outra: por um lado a arte de se ter razão contra o outro, e por outro lado a arte de se ter razão contra si mesmo.
O triunfo da Humildade é um grande desarmamento moral para o qual boa parte da humanidade ainda não está pronta. Assim como na vida do espírito Jesus ainda é rejeitado, o mesmo se dá com Sócrates na vida intelectual.
No Capítulo XIV do Livro VIII dos Tópicos, lemos:
A investigação da Verdade só deve ser feita entre as mentes que podem fazê-la, quais sejam: as daqueles que já não disputam entre si, mas que fazem as próprias idéias serem disputadas, para que vença a melhor idéia, e não o melhor disputador.
Uma maneira rápida de verificar se dada mente possui o desejo da investigação da Verdade está em conferir com qual facilidade se dispõe a entreter-se com hipóteses as mais diversas, especialmente as mais inconvenientes, sem se deixar irritar ou cansar.
No Capítulo I das Refutações Sofísticas, lemos:
Duas observações merecem ser feitas a esse preâmbulo de Aristóteles a respeito da argumentação sofística.
Primeiro, destaquemos o abismo que existe entre as coisas e os seus nomes. Isso aponta, por sua vez, para a distância entre o Logos divino e o logos humano: o primeiro cria todas as coisas, e o segundo cria apenas algumas imagens precárias de algumas dessas coisas. Quem puder notar essa relação entre o divino e o humano poderá entender que só Deus pode ser sábio, e que ao ser humano cabe ser então o filósofo, que ama a verdadeira Sabedoria porque ama Aquele que é sábio.
Em segundo lugar, notamos como justamente aquele que se pretende sábio entre os homens não pode sê-lo, porque se fosse sábio enquanto homem, saberia que a Sabedoria não lhe pertence. Um homem verdadeiramente sábio, por outro lado, não pode aparentar sê-lo porque aceita que sua sabedoria não lhe é própria, mas é o objeto de seu amor por Aquele que a possui em si. Na melhor condição, este sabe que não sabe de nada por si, mas por Aquele que sabe.
A origem de todo Gnosticismo e de todo o Psiquismo é, assim, a Pretensão daquele que pratica a Idolatria do logos que produz as imagens da verdade como se estas pudessem capturar a verdade das coisas que só pertencem ao Logos divino. Observamos com isso, novamente, que a Idolatria é a origem de todos os males, e que a sua cura é a vida na Presença.
Em conclusão, esta louvável obra lógica de Aristóteles, ainda que tenha tido o seu grandioso papel de contribuição na História da Filosofia, termina por nos enfatizar o valor da Soberania sobre todas as formas de Gnosticismo. A mera quantidade de argumentos formuláveis inventariados pelo Estagirita para se defender argumentos corretos de refutadores desonestos, ou para se atacar argumentos desonestos com raciocínios corretivos, já serve para mostrar que a integridade moral dos investigadores importa muito mais do que o rigor lógico, já que sem o primeiro o segundo jamais é garantido, e entre aqueles amam a Sabedoria não é necessário tanto rigor quanto o mero desejo e um bom caráter. Talvez esta tenha sido a mais simples e poderosa mensagem de Sócrates que possa ter parecido menos importante do que era.
Poder-se-ia alegar que esta lógica seria necessária como fundação da Civilização ocidental e de suas instituições acadêmicas, mas qual será o destino de tudo isto, senão aquela destruição já prometida para o Dia do Juízo? Neste ponto enxergamos o comprometimento espiritual de Aristóteles com uma certa Ingenuidade. Ainda que não possuísse a Revelação das profecias sobre o Fim dos Tempos, certamente o filósofo era inteligente o suficiente para deduzir a maior probabilidade desse tipo de destino, como já deu a entender em várias partes de sua obra.
A análise exaustiva e detalhada da correção lógica dos discursos humanos nos lembra o papel da Lei na vida espiritual: a compilação de uma série de regras que jamais modificarão o coração de quem não possui uma boa disposição interior, e que só servirá para a acusação destes por meio de provas universais. Esse tipo de prática distancia a alma humana tanto da Soberania quanto do Discernimento, embora possamos entender porque, em dados contextos históricos, pareça ser muito conveniente aplicar esse tipo de técnica para a qualificação dos testemunhos que se pretendem verdadeiros. Mas se uma sociedade já está distante da Verdade por falta de integridade moral, não é a conferência lógica disso que modificará essa escolha.
Esta obra aristotélica demonstra a Ingenuidade dos empreendimentos escolares que nos ensinam coisas boas para sermos competentes ao lidar com uma realidade decaída e amaldiçoada que jamais modificaremos com toda a nossa qualidade intelectual, já que neste caso aquilo de que mais necessitamos é de qualidades morais como as que são desenvolvidas pelo impulso contrário, como o da Vigilância, por exemplo.