Amar a Deus é uma questão de Justiça

Já me reclamaram, a partir de uma visão empesteada pelo vício religioso, que é muito difícil seguir as leis divinas, agradar a Deus, etc. Tudo isso é falso. O que Deus quer é que pratiquemos o bem que podemos praticar, e não o impossível. É claro que sempre podemos melhorar, o que cria uma condição de relação contínua com o Espírito Santo para que cresçamos na vida da Graça. Mas o impossível não faz parte do que se requer de nós.

Quando Jesus diz que devemos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, ele afirma duas coisas: 1) que devemos ser generosíssimos no Perdão e na Misericórdia, que é o contexto imediato do que ele explicava; e 2) que em tudo aquilo que não podemos ser perfeitos ele próprio, Jesus Cristo, Filho do Homem, é perfeito por nós, bastando-nos portanto estarmos ligados à ele para que ele nos justifique perante o Pai.

O que atormenta o ser humano que se pensa cristão, mas que ainda precisa se converter, é o saco de mentiras religiosas que ele carrega nas costas por sua própria culpa. Depois de Jesus Cristo não há mais razão para a escravidão do pecado e da mentira. Ele nos libertou. Quem se mantém escravo da mentira depois de conhecer o Evangelho é agora mais responsável ainda por sua condição do que era antes de receber a Boa Notícia, especialmente quando isso se dá pela participação na mentira da Religião. Por isso Jesus diz que haverá mais misericórdia para Sodoma e Gomorra no Dia do Juízo do que para os religiosos, e que as prostitutas e os ladrões precederão aos religiosos na entrada da Salvação. Porque negar o Amor divino é pecar contra o Espírito Santo, é o pecado mortal que nega a própria essência da Salvação. Como pode querer viver para sempre, na imortalidade da Vida Eterna, aquele que ama a mentira e odeia a liberdade?

O Amor é uma questão de Justiça, tanto a Deus quanto ao próximo.

Amar a Deus é ser justo com Ele: não temos a vida e os bens da vida por nós mesmos, mas pela Graça. Se vivemos pela Graça, em Sua Presença, já não temos nenhuma pretensão de sermos bons ou de possuirmos qualquer bem senão pelo Amor divino, e assim somos fiéis e justos com Ele. É disso que se trata.

Amar ao próximo é ser justo com o próximo: faça ao outro como você espera que façam consigo, e não faça ao outro aquilo que não quer que te façam. Isso é o suficiente para que a Justiça divina impere sobre a Terra.

Deus só quer de nós essa Justiça de ser reconhecido no seu Amor, como nosso Pai, e que reconheçamos o próximo como seu filho, nosso irmão. É só isso. Essa é a Lei. A Lei é o Amor. Mas os homens preferiram a mentira.

O que sempre arruinou a simplicidade dessa experiência é o espírito de Presunção que criou ambições fora do âmbito do Amor divino e do amor ao próximo, ou seja, ambições contrárias à Lei divina. E nenhuma ambição é pior e mais cheia de terríveis consequências do que o Pecado Original.

Em favor daquilo que identifiquei como a hipótese da Melhor Geração (ou “Última Geração”, no meu livro A Coruscância), é um dever cristão reconhecer a grande generosidade de Deus, mesmo em relação à nossa condição já tão avançada de desenvolvimento da decadência e da corrupção do nosso decaimento. Sim, nosso Senhor é generoso. E o que nos custa colher os frutos da sua generosidade? Apenas abandonar a Pretensão de viver alheios à sua Vontade.

A maior parte da humanidade vive tragada pelo costume de traição contra o Amor e contra a Sabedoria de Deus. E não faz muita questão de se libertar. Isso é provado pelo desprezo com que os próprios assim chamados “cristãos” tratam a liberdade que Jesus lhes ofereceu e que desprezam todos os dias, fazendo-se escravos dos homens, e de mandamentos e costumes humanos.

Vamos deixar uma coisa muito clara aqui, especialmente para aqueles que pensam que isso tudo pode ser muito vago e impreciso: o Pecado Original é uma coisa muito exata e precisa.

Senão vejamos: feito à imagem e semelhança de Deus, o homem recebeu seu Intelecto e sua Vontade para conhecer a verdade e amar o bem. Quando não realiza essas metas, o ser humano frustra o sentido de sua vida. E todas as vezes que o ser humano se refugia na mentira de suas falsas ambições de poder sem Deus ele busca uma compensação vazia pela sua falha em buscar a verdade e o bem apenas em Deus. Esses serão os “fortes” que julgarão como fracos os que renunciam à mentira para buscar apenas a vida da Graça, na Presença.

Quando olho ao meu redor, vejo a abundância provida pela Graça sendo desperdiçada em vidas sem sentido, cheias de vaidade, ganância, disputas pelo poder, etc. Se a Graça fosse usada apenas para favorecer o relacionamento com Deus, quão fácil seria alterar essa condição?

Mas a maior parte dos seres humanos não quer isso, como prova o costume da perpetuação do Pecado Original.

Quem multiplica a Necessidade (no sentido grego da ἀνάγκη — anánkē) não deseja viver o benefício espiritual do provimento da Graça. Ao invés de bloquear o mal com a Cruz dada por Jesus, o Caminho, que nos ensinou a nos tornar Filhos de Deus, os Filhos de Adão querem multiplicar o mal que lhes foi feito originalmente, como se essa fosse a vontade de Deus para si. Não aceitam a liberdade, e um espírito maligno os atormenta e os lança na falsa solução do costume. Transformam uma deliberação livre de outros seres humanos num destino fatal.

Mas como poderá amar a Deus e realizar a correta finalidade da Vontade humana aquele que não vive pela Graça, mas permanece atormentado pelas consequências da sua rejeição da liberdade em Deus? E como poderá também este conhecer a Verdade e realizar a correta finalidade do Intelecto?

Não existe amor ao Bem e conhecimento da Verdade para quem deseja ser escravo da mentira e do mal. Só existe o salário do pecado, que é a morte. Tudo muito justo.

Como posso falar do Amor de Deus para quem está esmigalhando a Graça com suas ambições mundanas, alheio ao contentamento e, principalmente, ao dom do Louvor e da Presença? Quem não quer viver pela Graça e não quer esperar pelo Paraíso já vive a sua própria morte. Um morto não pode ouvir as palavras de Jesus, a Árvore da Vida, porque é como um ramo cortado.

Como posso falar da Sabedoria de Deus para quem quer usar toda a sua capacidade para entender de tudo, menos do sentido de sua própria existência e das coisas divinas?

Entendem?

Não existe Evangelho de verdade e não existe Filosofia de verdade PARA ESCRAVOS.

NÃO SE PODE FALAR DE LIBERDADE, AMOR E VERDADE PARA ESCRAVOS.

Os escravos ouvem, mas não entendem.

E não entendem não porque não conseguem, mas porque não querem.

Que assim seja, Deus seja louvado para sempre.

PS: tecnicamente falando, é inválida a omissão no amor a Deus pela justificativa de que há qualquer grau de sofrimento causado pelo uso discricionário da Arbitragem do Excesso de Mistura, seja por aquele que se omite, ou por terceiro.

Destrinchando o Gnosticismo

É conveniente esclarecer a diferença que existe entre o Gnosticismo como um conjunto histórico particular de crenças que pode (e deve) ser rejeitado, da Gnose já qualificada como uma dupla possibilidade de rejeição do Amor divino de acordo com a Monadofilia, e do Gnosticismo como o espírito contrário à liberdade da vontade (Soberania). Digo isso porque no meu trabalho às vezes esses termos não são tão claros no seu uso específico, principalmente para uma pessoa pouco estudada.

O Gnosticismo como conjunto histórico identificável de crenças costuma ser reconhecido por três princípios: 1) a idéia de um criador mau, geralmente chamado de “Demiurgo”, que prende almas ou espíritos numa dimensão inferior; 2) a idéia de que a maldade está na decadência da substância espiritual na substância material, ou corpórea; 3) a idéia de que a salvação da condição da prisão da matéria se dá pela obtenção da Gnose.

Já o Gnosticismo qualificado pelo entendimento filosófico da Monadofilia, especialmente sintetizado nos cinco conceitos sinóticos, é um sistema duplo de rejeição do Amor divino que abarca um esquema muito mais amplo de crenças. Nesta perspectiva o primeiro tipo de Gnosticismo é apenas uma das suas formulações possíveis, o caminho da Mão Esquerda, da Revolução Gnóstica, o Caminho da Caim, o Esoterismo Gnóstico. Do outro lado se posiciona o Gnosticismo da Mão Direita, da Tradição Gnóstica, o Caminho de Abel, o Exoterismo Gnóstico. No que essas duas formulações gnósticas se diferenciam, e no que elas se identificam? Elas se diferenciam porque propõe uma crença diferente diante do status quo da condição humana: por um lado, esquerdo, há a rejeição do Limite, e por outro lado, direito, há a legitimação da Mistura, em ambos os casos ocorrendo a sucumbência da Vontade diante de uma suposta Gnose revelada que obscurece o ato de assentimento a essas crenças. E se identificam porque são ambas formas de rejeição do Amor divino que só pode ser integralmente louvado pelas atitudes inversas tanto ao Esoterismo quanto ao Exoterismo gnósticos: através da aceitação do Limite e da rejeição da Mistura, atos de VONTADE LIVRE e não consequências de um conhecimento (Gnose) obtido para rejeição do Limite ou legitimação da Mistura.

Até aqui só estamos falando de crenças intelectualmente reconhecíveis nos seus componentes e no seu funcionamento lógico interno, porém não mandatórias pois não fundadas em premissas auto-evidentes e inquestionáveis. Ao contrário, essas duas crenças gnósticas, já mais qualificadas pela Monadofilia, são ambas formas de idolatria: o caso esotérico, a idolatria do Homem na forma da Presunção, como se o homem pudesse se tornar como Deus, e no caso exotérico, a idolatria da Natureza, como se a Natureza fosse divina ou pudesse conter o Ser divino de algum modo. A verdade é que o homem possui sua forma substancial definida pelo seu Limite, e que esta natureza é condicionada secundum quid por uma Mistura que é espiritualmente conveniente para a situação do ser humano presente, mas que não a determina essencialmente, pois não faz parte do Limite que constitui a sua forma substancial.

Entendemos, assim, como essas duas crenças gnósticas propõem um tipo de conhecimento, ou Gnose, que funciona como um dispositivo reativo diante da pressão da condição humana, por um lado oferecendo um grau impossível de Liberdade pela dissolução do Limite, que na verdade equivale a um desejo de morte, e por outro lado oferecendo uma aceitação abjeta e abominável da condição de Mistura de Luz e Trevas como se esta fosse necessária a qualquer ser possível. Quem não entender isso com clareza jamais entenderá o duplo golpe dialético do Gnosticismo. Existe uma condição real, inescapável, incontornável, de Mistura de Luz e Trevas. Todo ser humano sabe instintivamente desde o seu nascimento que isto não convém à sua própria Apetição. Há algo de errado com esta realidade. O que há de errado é a traição contra o Amor divino, perpetrada pelos praticantes do Pecado Original (o Pacto Ouroboros). A solução é a aceitação dos termos da vida presente como meio espiritual de assentimento livre na escolha do Amor divino, ou seja, o uso do mundo e das coisas do mundo como meio de negar o Pacto Ouroboros e confiar em Deus, aceitando o Limite como essência da nossa forma substancial e como meio da nossa realização com Deus, e rejeitando a Mistura como parte constituinte desse Limite interno à nossa forma, o que permite o aceite da Obra divina de Separação, ou Santificação, que é a única forma de solução, ou salvação, para a condição humana. Essa é a luta espiritual. O outro lado, porém, diante do mesmo quadro de experiência da Mistura, oferece uma dessas duas mentiras: ou a de que o Limite é mau, ou a de que a Mistura é boa. O ser humano que por natureza e temperamento é mais inclinado à rebeldia é levado ao esoterismo gnóstico da negação do Limite como se este fosse mau, e o ser humano mais inclinado à obediência é levado ao exoterismo da legitimação da Mistura, como se esta fosse boa. Em ambos os casos a Gnose, ou iniciação, de qualquer uma dessas mentiras leva o ser humano a rejeitar a Obra divina de Separação, ou Santificação: o esotérico não aceita Separação porque rejeita a Luz junto com as Trevas, e o exotérico não aceita a Separação porque só aceita a Luz se esta estiver eternamente misturada com as Trevas.

Existem duas Gnoses, enquanto crenças e caminhos iniciáticos, que afastam o homem de Deus: a Esotérica que nega a vida e deseja a morte porque rejeita o Limite como forma substancial de ser criatura, e a Exotérica que nega a Separação e deseja a perpetuação da Mistura da Luz com as Trevas. Contra essas duas mentiras gnósticas existe o Caminho de Jesus Cristo, o próprio Verbo de Deus Encarnado, que nos ensina a salvação como Filho de Deus: a aceitação do Limite, como um filho que aceita a sua dependência do amor paterno, e a rejeição da Mistura, aceitando a condição presente como Cruz e levando esta condição desgraçada até o seu fim, com a consumação da morte das Obras da Carne e a realização da Separação entre Luz e Trevas na forma da Ressurreição, na posse do Corpo de Glória.

Na mitologia do Éden nós temos a Queda de Adão e Eva pela traição contra o Amor divino em troca da Gnose da Serpente, o que foi consumado pelo Pecado Original, ou Pacto Ouroboros. Isso é admitido pela Tradição, até certo ponto. Que o Pecado Original sempre tenha sido a multiplicação das Obras da Carne me parece óbvio. O decreto de Gênesis 3 não afirma que Adão e Eva devam multiplicar o seu estado decaído e amaldiçoado, gerado pelo seu pacto demoníaco, ad aeternum, com efeito sobre toda a descendência. Ao contrário, o decreto propõe a libertação desse estado através da misericórdia da morte, que é a Justiça aplicada ao pecado da rejeição do Amor divino (“o salário do pecado é a morte“). A melhor coisa que pode ocorrer a quem rejeita o Amor de Deus é morrer. Mas o primeiro casal desobedece a Deus e lida com a Serpente como o seu novo deus “libertador” pelo dom da Gnose. Isso se realiza na escravidão da descendência do primeiro casal, para que o estado decadente seja perpetuado e o Ouroboros seja a única divindade sobre o homem, em troca de conhecimento oculto. Essa Gnose é a Tradição Primordial que deu origem a todas as religiões: a legitimação da Mistura, a adoração da Serpente por toda a descendência gerada pelas Obras da Carne em troca do conhecimento do domínio sobre a natureza decaída. Essa é a iniciação tradicional, do aceite da Mistura junto com o Limite. Para capturar todas as oposições contra essa crença uma outra Gnose é oferecida como iniciação revolucionária com o intuito de rejeitar o Limite junto com a Mistura, esta outra iniciação sendo aquilo que se conhece culturamente como a heresia gnóstica.

A única solução veio por Jesus Cristo, o Segundo Adão, que sendo inocente e puro por não ter nascido das Obras da Carne, aceitou sobre si o juízo que Adão rejeitou e, carregando a Cruz e recebendo a morte que Adão negou, mostrou o Caminho da Salvação: aceitar o decreto de Gênesis 3 que nossos ancestrais recusaram e participar das Obras do Espírito com a Separação de Luz e Trevas e a Ressurreição.

O Diabo só possui domínio através da perpetuação da Mistura, que depende da continuidade do Pacto Ouroboros, o Pecado Original. Esse domínio já teve um fim decretado, mas a participação na vitória de Cristo depende da vontade de cada alma de libertar-se das mentiras das duas Gnoses, porque só obtém essa vitória quem acredita nela, ou seja, na bondade do Limite e no fim da Mistura. Lembrem-se disso sempre: o mal deseja que se ignore a obra de Separação, ou Santificação, e se creia em uma dessas duas mentiras, a de que a Mistura é tão boa quanto o Limite, e a de que o Limite é tão mal quanto a Mistura.

O Ouroboros, esse mentiroso, ladrão, usurpador, farsante, fundou a ficção gnóstica que constitui o sequestro do Bem pelo Mal: ou se aceita a parasitagem da Mistura (exoterismo gnóstico), ou todo o Bem está perdido (esoterismo gnóstico). Seu objetivo é se colocar no lugar do Deus verdadeiro, ou então negar toda possibilidade de vida. Jesus destruiu toda essa mentira, e para seus seguidores o Bem não é mais refém do Mal: a Ressurreição separa e exalta o Bem para sempre.

Enfatizo o fenômeno imediato, exaustivamente repetido, desde a nossa infância, pela mera repetição do costume, das iniciações gnósticas exotéricas, na forma da apresentação de qualquer bem como condicionado à Mistura. Nossos pais, professores, chefes, sacerdotes e reis, enquanto atores desse teatro pretensioso e mesquinho, se colocam como representantes e co-criadores ou co-provedores de um bem que só é possível como sequestrado pelo esquema da Mistura, e viável pela mediação desses subdeuses. São usurpadores e ladrões querendo roubar o louvor e a glória que só pertencem a Deus. São representantes da Idolatria e imitadores do diabo, aquele ladrão, usurpador, farsante e mentiroso que quer se colocar como produtor do Bem, como se fosse Deus ou como se a bondade de Deus dele dependesse em qualquer grau. E são cúmplices desse sequestro quando negam toda a Graça direta, divina, provida pela bondade do Deus verdadeiro que de nada depende, mas que de tudo pode fazer uso para decretar a sua Vontade, o mesmo Deus que, por sinal, liberou seus verdadeiros adoradores, os cristãos, para de tudo fazer uso sem se deixar escravizar por nada, em tudo dando Graças à Ele.

Ao fim só resta a escolha da crença pura de Deus como doador do Ser e do Bem, ou das crenças gnósticas deturpadas e corrompidas que mediam a bondade de Deus e a misturam com as Trevas, na forma da idolatria da Natureza ou do Homem como causas intermediárias incondicionais da experiência do Bem divino.

Quando falamos de crenças, falamos de possibilidades de verdades que podem ser acreditadas, mas que jamais podem ser determinadas pela razão humana, portanto falamos de objetos primários da Vontade, só secundariamente objetos do Intelecto.

Finalmente, o Gnosticismo como um espírito é aquele contrário ao próprio dom da Soberania que permite o reconhecimento da liberdade da Vontade de escolha da crença que convém ao arbítrio humano. Existe, portanto, uma crença particular que dá o entendimento de que a nossa Vontade não possui a liberdade suficiente para fazer uma escolha diante das opções mencionadas. Essa crença é animada por um espírito maligno, que é o que chamamos também de Gnosticismo, no sentido da falsa negação da liberdade da Soberania humana sob a suposta exigência da posse de uma Gnose suficiente para que a Vontade seja obrigada à uma submissão terminal. Esse espírito é especialmente perigoso quando impede o ser humano de reconhecer a sua liberdade de aceitar ou rejeitar o Limite, e de aceitar ou rejeitar a Mistura.

Podemos, e devemos, a partir de agora, buscar o uso mais qualificado possível da terminologia da maneira que segue:

Vamos chamar de Gnosticismo Histórico aquela formulação clássica da heresia caracterizada pelos três princípios já identificados (Demiurgo Mau, decadência na matéria-corpo, e salvação pela Gnose), de Gnosticismo Dialético as formulações da Dialética do Ouroboros, do duplo erro dos gnosticismos esotérico e exotérico, e de Gnosticismo Espiritual a formulação específica da rejeição do dom de Soberania.

O Gnosticismo Espiritual é a forma mais fundamental e mais sutil do erro, porque implica na rejeição in limine da liberdade de escolha e, portanto, na rejeição da responsabilidade pelas crenças. Isto é o que mais interessa para Deus, porque nada é mais sagrado do que a liberdade de aceitar ou rejeitar o Amor divino, de modo que a recusa da situação de liberdade implica numa falsificação da condição humana, como se alguém pudesse se omitir da decisão de confiar ou não no Amor divino.

O Gnosticismo Dialético é o conjunto mais amplo das possibilidades de crença na rejeição do Amor divino nas duas formas espiritualmente reconhecíveis, a esotérica da rejeição do Limite, e a exotérica da legitimação da Mistura. Não é muito difícil que pessoas estudadas percebam o componente esotérico do Gnosticismo Dialético, porque este já é abundantemente identificado na literatura que trabalhou e condenou o Gnosticismo Histórico como heresia. Muito mais difícil é admitir a perversidade da idolatria do componente exotérico que nega igualmente a bondade de Deus, porque identifica a condição da Mistura com a vontade do Amor divino e pratica a idolatria da Natureza.

O Gnosticismo Histórico é a formulação clássica que todos já conhecemos e que é tão fácil condenar com base na bondade de Deus e de sua Criação, na bondade da matéria e do corpo através da Encarnação e Ressurreição de Cristo, e na dependência da Graça para a verdadeira salvação que só Deus nos pode dar.

A identificação de todo o Gnosticismo apenas com o Gnosticismo Histórico é uma redução absurda e inviável, que nos deixa cegos ao processo da Dialética do Ouroboros, e do próprio espírito do Gnosticismo contrário à Soberania. Isso não tira o mérito da condenação dessa forma clássica de Gnosticismo, mas esta é a defesa contra apenas um erro de três possíveis.

Coerentemente contrários à rejeição do Limite, somos lançados àquela outra negação da bondade divina, que é a legitimação da Mistura, e assim nos tornamos vítimas do Gnosticismo Dialético.

E, por fim, amedrontados pela nossa própria liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino, procuramos refúgio no falso conforto oferecido pelo Gnosticismo Espiritual.

Em suma, se precisássemos reunir de volta todos os conceitos a um único conceito unificador, diríamos que: o Gnosticismo é um espírito maligno contrário ao dom de Soberania que aliena a liberdade humana de confiança do Amor divino nas formas da aceitação do Limite e de rejeição da Mistura.

GNOSE, afinal, é o conhecimento oferecido em troca do Amor divino que só pode ser confiado com um ato livre da Vontade humana, sem garantias e sem demonstrações além da evidência da Teleologia Metaracional do Sumo-Bem, como já explicado anteriormente. Gnosticismo, assim, é a tendência maligna de alienação da liberdade de escolha do Amor em troca da posse de um conhecimento que signifique a posse do Bem sem a dependência da ação divina, seja na forma da mentira da negação do Limite, seja na forma da mentira da legitimação da Mistura. Nos dois casos supostamente nos bastaria algum bem independente da ação divina direta como causa eficiente da nossa Salvação: nossa transformação em deuses independentes de Deus no primeiro caso (negação do Limite), ou a nossa posse da bondade divina através da relação de domínio com a Natureza, que seria um deus-aí sempre disponível de forma terminativa e completa (legitimação da Mistura).

Identificamos, assim, cinco tipos de possibilidade de atitude espiritual diante do fait accompli da experiência da Mistura:

  1. Escravo do Costume (desejo mimético)
  2. Legitimador da Mistura (seguidor de religião, filosofia, ideologia política, etc.)
  3. Negador do Limite (seguidor de culto da morte)
  4. Realista Responsável (cumpridor de Deveres de Estado, abstinente de Votos voluntários)
  5. Seguidor de Cristo (filho adotivo, vive na Presença e dá o Testemunho)

O Nome da Rosa, filme por Jean-Jacques ANNAUD

Estamos no Século XIV. Dois monges franciscanos, um mestre (William de Baskerville) e um discípulo (Adson), se dirigem a um sinistro mosteiro no norte da Itália, para participar da disputa sobre a concentração de riquezas pelo papado e pela Igreja Católica de forma geral. Ao chegarem em seu destino descobrem um clima de intriga e conspiração ao redor de algumas mortes suspeitas. Resumindo a trama, o mosteiro possui uma vasta coleção de obras escondidas por razões de uma suposta piedade religiosa da parte dos anciãos do local. A obra em torno de que ocorreram os assassinatos foi a Poética de Aristóteles. As mentiras são descobertas, o debate termina sem nenhuma concessão do papado, ao mesmo tempo em que testemunhamos a crueldade de uma ação da Santa Inquisição no local.

O filme nos mostra três elementos principais: a corrupção da Igreja Católica, a liberdade filosófica do antigo Aristóteles e do contemporâneo William, e o mistério do Amor na paixão do jovem Adson por uma jovem.

Da corrupção da Igreja temos abundantes amostras com o acobertamento dos crimes ocorridos no mosteiro, com a manutenção em segredo da biblioteca profana com escritos perigosos ao dogma católico (como se a verdade do Evangelho tivesse que temer alguma filosofia do mundo), com a ação criminosa da Inquisição na produção de uma falsa justiça, e com a derrota do argumento franciscano na disputa pela divisão dos bens da Igreja.

Na obra que levou monges a matarem e a morrerem, A Poética de Aristóteles, encontramos o elogio da Comédia como gênero literário, e o poder do riso para a descoberta da verdade, especialmente da verdade que desagrada aos poderes e instituições estabelecidos. A interpretação daqueles que suprimem o conhecimento filosófico é de que “o riso mata o medo, e sem o medo não pode haver fé. Sem o medo do diabo, não há mais necessidade de Deus“, uma teologia fraquíssima e gnóstica. Essa Igreja é fetichista e mórbida, tanto quanto aquele farisaísmo que matou Jesus. O filósofo grego estava muito mais próximo da verdade e, portanto, do verdadeiro Evangelho, quando afirmou que o riso desarma o dogma, destrói a solenidade, torna os poderosos ridículos e enfraquece a obediência baseada no medo. Sobretudo, se deus é bom, se seu Amor é invencível, a Revelação de certo modo é um tipo de Comédia, uma história com final feliz.

Com William de Baskerville temos a concordância da fé com o espírito investigativo, de amor à Verdade doa a quem doer. No contexto do filme isso se mostra no caráter curioso e aberto da mente de William. Já no âmbito mais amplo da filosofia da Ordem dos Franciscanos, entendemos que o problema do “Nome da Rosa” aponta para o legado franciscano da investigação do principium individuationis, uma filosofia que contestou a individuação pela matéria defendida por Aristóteles e por Tomás de Aquino. Para além dessa conquista franciscana concentrada na figura de Duns Scot no Século XIII, chegamos ao próximo Século com William Baskerville representando o legado do outro William, de Ockham, o nominalista que separou as coisas do seus nomes, defendendo a Unidade da substância real contra a generalização das universalizações racionais. Na criatura a ousia ultrapassa o logos, porque só em Deus o Ser e o Conhecer se unificam plenamente. O Nome da Rosa é, afinal, um mistério que só Deus conhece plenamente.

Isso não nos faz deixar de desejar o deleite de experimentar esse mistério divino, o que nos leva para a parte final e mais importante do filme, que é a experiência da paixão de Adson. No fim do filme o jovem monge vai embora do mosteiro com seu mestre, deixando para trás aquela jovem que tanto o encantou. Em seu relato enquanto já idoso ele afirma em memória: “Da rosa antiga resta apenas o nome; apenas nomes nus temos agora.”

Essa expressão melancólica trai o sentido sagrado do final feliz da Comédia que Aristóteles defendia em sua Poética. Afinal, o que Adson poderia perder daquele mistério, se todo o Bem é Eterno em Deus, esse Deus a quem ele próprio se dirige com a consumação de sua vida? Infelizmente isso reduz a qualidade espiritual da obra. Não sei do livro, mas o filme desaponta neste sentido. Possivelmente a idéia do próprio Umberto Eco foi a de endossar a interpretação da inclinação ateística e materialista do nominalismo, o que é um grande erro em face da verdadeira intenção dos Franciscanos: o que eles queriam não era destruir a Eternidade do Logos divino, mas a pretensão do logos humano. Desastrosamente, para o espírito humanista e antropocentrista, uma coisa quer dizer a perda da outra, mas para quem tem a Fé tudo está resolvido, e até ao contrário, a Humildade favorece a exaltação do Logos divino.

A morte é lucro, meu jovem velho Adson.

Confiando em Deus você não perdeu a Rosa, mas a ganhou para sempre.

Acho que o que você perdeu foi o fio da meada do Evangelho…

PS: Completando a explicação nos termos da minha própria filosofia (Monadofilia): corretamente entendido, o Nominalismo corrige o âmbito da experiência humana mostrando o Limite da Percepção, que é o conhecimento da Rosa concreta, e o Limite da Apercepção, que é o Nome da Rosa, mas jamais às custas da idéia eterna da Rosa no Logos divino, ao qual temos o acesso prometido pela nossa participação na Eternidade de Deus.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,4

Ética a Nicômaco, livro por ARISTÓTELES

Nosso filósofo começa afirmando que a finalidade de qualquer coisa é o seu bem e que o bem último do ser humano é a sua maior e melhor finalidade. Neste sentido o bem coletivo é proposto acima dos bens individuais. A ética, portanto, enquanto ciência da busca do bem, ou ciência da felicidade, é mais importante pelos seus efeitos no âmbito da política do que da moral individual. Isso pode levar a uma certa idolatria humanista, e ao bolchevismo espiritual, quando se vive para o ideal coletivo da humanidade, ao invés de se viver individualmente na Presença de Deus. O idealismo político dos gregos antigos gera esse problema. Mas é claro que observamos isso desde o ponto de vista privilegiado de quem já sabe do fracasso da polis no período alexandrino e helenístico, para não falar do declínio e queda do Império Romano.

O Estagirita notará que o problema da ética é viável apenas para adultos, ou pessoas maduras, já que aqueles que são governados pelas paixões e que carecem de autocontrole amam mais a ação do que o conhecimento, e não desejam a racionalidade. Isto é verdade, contanto que nos lembremos que os costumes morais podem escravizar tanto quanto os desregramentos, embora sejam menos danosos nas suas consequências a maior parte das vezes. Aristóteles sabia disso, mas as pessoas podem se esquecer. O autocontrole em si não é a felicidade humana, mas apenas uma condição da Liberdade necessária para a felicidade. Quem não possui esse bem é governado pelas paixões ou pelos limites artificiais e exteriores dos costumes.

No seu inventário das coisas que são consideradas boas por si, o autor começa notando a “vida do gozo” como objetivo da maior parte da espécie. Ele diz: “o grosso da espécie humana se revela inteiramente vil. Sua preferência é por uma vida própria do gado“. Já “pessoas refinadas e de ação” pensam que o bem é a honra e todas as virtudes políticas. E, por fim, pessoas contemplativas pensam que o bem é o conhecimento, isto é, a filosofia e a sabedoria. Nisto o discípulo está bem fiel ao mestre: esta é a doutrina platônica. Mas eles têm razão? Sim e não. É óbvio que o homem foi feito para atualizar a sua inteligência e a sua vontade livre, e a busca da sabedoria realiza isso de modo excelente. Mas o bem não é o conhecimento em si, mas o conteúdo deste, especialmente o Amor divino. Porém, como se realiza a bondade de Deus para a criatura humana, senão pela satisfação de todos os seus apetites? Assim, é boa a Sabedoria assim como é boa a Justiça, e também é bom o gozo de todos os bens da vida. Deste modo a única prioridade dos contemplativos sobre os demais tipos de seres humanos é a excelência do objeto da sua busca, desde que os demais bens não sejam preteridos. Ter a Sabedoria em meio à injustiça e à sofrimentos e privações não constitui uma vida plenamente boa e feliz. O filósofo só consegue se realizar na sua busca porque primeiro pôde satisfazer minimamente as suas necessidades nas esferas particular e pública. Onde impera a miséria e a desordem é muito mais difícil, quando não impossível, fazer boa filosofia.

Com muita propriedade o filósofo distinguirá o que é útil do que é bom, sendo a utilidade um meio para a finalidade, e a bondade o próprio fim em si. Uma vida voltada, por exemplo, para a aquisição e o acúmulo de dinheiro, pode ser uma vida útil, mas nunca boa em si, dependendo de como a utilidade é empregada. Mas o autor nota a dificuldade do problema da incompletude dos bens parciais, como a posse de riquezas, de saúde, de honra, etc., em face do Bem como Idéia, isto é, o Sumo-Bem platônico. Com muita razão e com bastante cuidado Aristóteles afirma a prioridade desse Bem supremo sobre todos os bens parciais, mas sem exigir que estes sejam prescindidos em nome daquele. Ele quer que o Sumo-Bem seja objeto de uma investigação especial –que é o tema da sua Metafísica–, sem desqualificar a busca de quaisquer outros bens, especialmente os da vida prática que são justamente o objeto da sua Ética. Um médico, por exemplo, não deveria abandonar a sua busca pela saúde em troca da idéia do Bem, sem que isso o impeça de buscar a Sabedoria na condição também de filósofo, sem prejuízo à sua busca do bem da saúde enquanto médico.

Eventualmente Aristóteles indicará um bem comum por trás dos bens particulares, que será o objetivo final de todos eles e o correspondente, na dimensão humana, ao que é o Sumo-Bem na dimensão divina. Este bem, que é o objeto de toda a ética, é a felicidade considerada como propriedade interior, ou atividade da alma. Coerentemente, de imediato o filósofo admite que esta felicidade deve ser um dom divino concedido ao homem. Mas ele não investiga isso a fundo, deixando esse aspecto para outra ocasião da qual não temos notícia (1099b10). Isto é uma pena, mas é compreensível, dado o propósito de seu estudo.

Mas uma distinção importante virá adiante que poderá ajudar a diferenciar a felicidade enquanto atividade humana de um outro sentido ligado ao divino. Lembrando muito o legado de Sócrates, essa felicidade que é um bem da alma humana é a vontade e o prazer pelo bem que é independente das circunstâncias. Renunciar à injustiça, mesmo quando se é vítima dela, é uma felicidade humana, porque o mal foi rejeitado pela alma. É por exemplo o que faz aquele que perdoa: derrota o mal em si. Essa felicidade como realidade interior e espiritual do homem é a eudaimonia. Esta, porém, não garante a posse de todos os bens externos que completariam a satisfação humana, especialmente no possível destino além da morte. Apenas a divindade poderia conceder este nível de bondade que é a mekariotes, ou bem-aventurança.

Esta doutrina é excelente. O propósito da ética é a obtenção da felicidade como cultivo do bem no interior do ser humano, independentemente da obtenção da bem-aventurança que somente Deus pode conceder. É claro que esse bem interior também tem origem divina, mas sobre ele a Liberdade humana possui maior responsabilidade, justamente pela recepção e pelo cultivo.

Mais adiante Aristóteles definirá a felicidade como a atividade da alma que a predisporá para a virtude, e a própria virtude como o estado que permite a escolha racional da mediania, isto é, o poder de evitar os vícios representados pelos extremos estados de deficiência ou de excesso das faculdades que lidam com as paixões. Isso é aceitável, embora talvez uma outra abordagem fosse mais eficaz, como a do ideal de manutenção da liberdade contra a escravidão, seja da sucumbência aos desejos, ou da sua repressão, como falamos na Monadofilia quando condenamos tanto a libertinagem quanto o Costume.

De modo muito apropriado, ao tratar da medida excessiva que gera insensibilidade, Aristóteles já deixa vencida a idéia do estoicismo à respeito da supressão das paixões, que é a apatheia. A moderação é superior, porque as paixões não são más em si. Má é a escravidão às paixões. E nós poderíamos dizer mais, que a filosofia estóica corresponde àquela frieza espiritual da Igreja de Éfeso, contra a qual Jesus alerta no Apocalipse. Talvez possamos tratar do problema dos estóicos no futuro.

No Capítulo 8 do Livro II o nosso filósofo observa que a mediania sempre parecerá uma medida desregrada por deficiência ou excesso desde os pontos de vista dos extremos. Isso nos ajuda a entender porque a verdadeira Liberdade é condenada desde o ponto de vista relativo dos dois tipos de escravidão: para o libertino, a Liberdade contra o desejo parece repressiva, e para o moralista a Liberdade contra o costume parece licenciosa. Daqui extraímos o maior valor da ética aristotélica da mediania, especialmente da moderação (sophrosyne) e do autocontrole (enkrateia), que são moralmente superiores às soluções extremas tanto do epicurismo quanto do estoicismo.

Aristóteles nos diz que a virtude é difícil porque é boa, e que o bom é sempre difícil, raro e nobre. Ele não está errado, mas este é um ponto de vista humanista e antropocêntrico. Isso porque vincula a nobreza da virtude com o esforço humano de fazer o que é difícil por seus meios, como se o que fosse difícil para nós não fosse fácil para a divindade capaz de dispensar seu benefício por liberalidade, desde que o ser humano seja humilde o suficiente para não se ensoberbar com seus benefícios. Como disse Jesus, a respeito da dificuldade da entrada no Paraíso: “mas para Deus nada é impossível“. Esse problema do autor, ou incompletude, é característico do pensamento antigo e só será corrigido quando o Evangelho converter gregos e romanos, e só começará a tomar forma filosófica a partir de Agostinho.

No seu inventário de virtudes o Estagirita menciona entre outras aquilo que foi traduzido por Bini como “grandeza de alma”. Não confundamos com a generosidade, e nem com a magnanimidade, que ele já destacou e explicou separadamente. Isto aqui é outra coisa. Em suas notas o tradutor diz que isto poderia ser “orgulho”. Mas por que ele não escolheu então esse termo no próprio texto traduzido? Por que isto poderia dar uma conotação errada? Mas talvez não fosse tão errado assim dizer que para Aristóteles o orgulho fosse uma virtude. O autor diz que esta é a virtude de quem reivindica uma qualidade, honra ou mérito, na medida em que possui essas coisas de fato. Ao contrário da vaidade, ou da vanglória, isto pode ser chamado sim, e com toda a razão, de orgulho. A questão é que isto é um pecado dentro da teologia cristã, e dos mais graves, senão mesmo o pior de todos. E para não se dizer que este é um exagero, os termos empregados mostram essa essência com tanta clareza que fica difícil negar a idéia. O próprio tradutor assume em suas notas que “megalopsykhos” é “orgulhoso”, e que o estado de deficiência, “mikropsykhos“, é a qualidade do humilde. Ora, a mentira da apropriação de uma falsa qualidade já foi destacada pelo estado de excesso na alma, o vício de quem reivindica uma qualidade para além da medida correta. Em nenhum momento Aristóteles distingue entre a origem humana e a origem divina das virtudes. Lembremos que ele desistiu de fazê-lo desde o início de sua investigação. O “pobre de espírito” e o “humilde e manso de coração” que Jesus elogia é, assim, considerado em estado de vício por deficiência. O filósofo nos dá um claro testemunho dos espíritos de Presunção e de Psiquismo. Isso já era implícito em toda a sua teoria sobre as virtudes, mas ele foi além e transformou o próprio orgulho numa virtude, explicitamente. Fico curioso para ver como Tomás de Aquino vai sambar para justificar essa idéia, se é que ele vai querer fazer isso.

Como a falha no elogio da grandiosidade se relaciona à discussão do mérito nas origens das qualidades das demais virtudes, o autor não deixa de ter razão ao identificar algumas propriedades positivas de quem possui essa virtude. Entre essas é justo mencionar o desprezo por assuntos inferiores, a busca de poucas ocupações que sejam mais excelentes, a indiferença pelas opiniões desqualificadas, a dispensa das honrarias exteriores e dos elogios humanos, etc. Essas características revelam um caráter focado naquilo que é bom e superior, independentemente da discussão da origem dos méritos, e aqui temos uma chance de viabilidade no reconhecimento da grandiosidade como virtude. Aquele que completa estas propriedades mencionadas com o reconhecimento da origem divina de todos os bens pode possuir a virtude de uma grandiosidade legítima e frutuosa.

Já no âmbito da virtude da Justiça, com razão o filósofo a chama de “perfeita”, porque ela engloba o elogio de tudo o que é correto e a condenação de tudo o que não convém. Diríamos mais, espiritualmente, que a Justiça é boa para todos os fins, para seu próprio portador, para Deus que é honrado pelo amor ao seu Bem transcendente que é o mais amável, e para o próximo que é reconhecido na sua carência como tão necessitado de bens quanto o próprio justo. O justo é um amante, e amar a Deus e ao próximo é ser justo consigo mesmo, com o Criador, e com o semelhante. O amor é uma questão de Justiça, e essa virtude realiza o ideal da ação humana. Aristóteles não nos diz tudo isso nestes termos, mas chega perto ao seu próprio modo.

Vale a pena citar que Aristóteles menciona, em 1135b1, Capítulo 8, Livro V, que tanto a velhice quanto a morte seriam processos incidentais nos quais a ausência de disposição voluntária implica na isenção de injustiça. Isso é materialmente errado. Velhice e morte são processos causados pela procriação animal submetida ao princípio de geração e corrupção, ato involuntário somente nos animais irracionais. Nos seres humanos existe a competência racional para arbitrar livremente a respeito de processos naturais que não sejam espontâneos. O ato procriativo humano é portanto de responsabilidade imputável: quando não é justificado ocorre a negligência ou omissão, e quando é justificado a sua razão subjacente deve ser qualificada. Sabemos que nem pelo naturalismo e nem pela antropodiceia se justificaria o ato livre da procriação, sendo necessária uma teodiceia. A justificativa divina, porém, só libera a ação humana de procriar com a condição de que a melhor hipótese, moralmente mais conveniente, seja sempre também admitida por uma questão de justiça, já que a sua alternativa não pode ser afirmada como necessária de forma exclusiva. Aristóteles ignora tudo isso e submete sua Ética ao Naturalismo e ao Costume. O que na verdade não nos surpreende.

No Livro VII o filósofo dá um testemunho que valida a lógica paulina, tanto por identificar que o descontrolado é melhor que o desregrado, quanto por reconhecer que não só a moderação é superior à licenciosidade, mas também à insensibilidade. Da melhor condição do descontrolado, ou simplesmente fraco, esta consiste no fato de que embora seja vencido pelas paixões, este ainda ama a razão e a verdade, enquanto o desregrado odeia essas coisas. E a superioridade da moderação sobre a insensibilidade reflete a Liberdade verdadeira que não só livra da escravidão das paixões, mas também da escravidão da repressão das mesmas. Ser livre contra os desejos significa ter poder sobre eles de todo modo, não cedendo sem razão, mas igualmente não se privando sem razão, podendo de tudo fazer uso, mas sem se deixar escravizar por nada.

No Livro VIII Aristóteles se empenhará na explicação da virtude da amizade. Distingue entre utilidades e finalidades, e obviamente destaca a superioridade da amizade voltada para o segundo tipo de objetivo, cujo bem é mais íntegro e pleno. Mas encontra seus limites ao notar que o benefício do outro termina quando impede o nosso próprio, razão pela qual também é incapaz de reconhecer o que seria a amizade de Deus pelos homens, já que Aquele em nada pode ser beneficiado por estes. Por esta razão ele também não pode reconhecer a maior amizade possível entre os próprios seres humanos, porque esta é totalmente mediada pela mutualidade da plenitude no usufruto do Amor divino. No Capítulo 7 isto fica muito claro. Diz ele: “Contudo, quando um se torna muito distanciado do outro, como Deus está dos seres humanos, não há mais possibilidade de amizade. Isso enseja a questão: amigos desejam para seus amigos os maiores bens? Por exemplo, serem deuses: com efeito, nesse caso perderiam seus amigos e, portanto, perderiam certos bens, uma vez que amigos são bens. Se, então, foi dito com acerto anteriormente que o amigo deseja o bem de seu amigo pelo próprio amigo e em favor dele, o amigo deveria manter sua própria identidade, fosse o que fosse. De sorte que lhe desejará somente os maiores bens condizentes com sua permanência na condição de ser humano” (1159a1).

Toda essa lógica se baseia na condição decaída e amaldiçoada que é para o Estagirita uma realidade terminal. Jamais podemos nos esquecer disso ao estudar os filósofos pagãos. Que eles pensassem assim não era culpa deles, mas que nós ignoremos o significado espiritual disso diante do Evangelho é culpa nossa. Para quem não existe a Queda, igualmente também não existe a Redenção, e esta não seria sequer necessária, porque o estado da Mistura estaria legitimado. Não já tão grande distância assim entre Deus e os homens sob o ponto de vista da potência, pois tudo o que há é a Substância Simples, ou Mônada, e a distância total que há entre o Criador e as criaturas se localiza na atualidade da Unidade, que Deus tem por si plenamente, mas que as mônadas criadas não possuem em nenhum grau por si mesmas. Sendo justamente o ato divino a única fonte de ser e movimento para a criatura, não só é possível a amizade entre Deus e os seres humanos, como é a única relação viável entre os dois, já que Deus em nada depende e em nada lucra com a sua Criação, senão pelo total benefício do que foi criado. A criatividade gratuita e amorosa de Deus revela a sua amizade pura e plena, que é a essência da sua relação com o ser humano.

Do mesmo modo os seres humanos que são realmente amigos entre si desejam sobretudo que se realizem para todos as promessas divinas, especialmente a eterna bem-aventurança. Esse desejo não os distancia, mas os aproxima, pois podem assim se auxiliar e testemunhar a favor uns dos outros na perseguição dessa meta espiritual da vida na Presença que têm em comum, se encorajando e auxiliando mutuamente. Quando um amigo morre para este mundo, ele não é perdido, mas é ganho para a Eternidade. Isto especialmente considerando a sua singularidade: o que há de amável no amigo, afinal? Aquilo que compõe a diversidade das suas qualidades faz parte do ser do próprio amante, que conhece a Deus por reflexo através de cada um desses bens. E aquilo que constitui a unicidade indeterminada do amigo é a sua condição de total Liberdade que eu amo tanto quanto a minha própria, e que não pode se realizar na condição da Mútua Representação, mas somente na plena comunhão com o Espírito Santo na Coruscância. Na essência do outro o que eu encontro, senão uma potência pura para a bem-aventurança, como a minha própria? Pelo Princípio da Identidade dos Indiscerníveis (Leibniz), não há mais nada pré-determinado. E essa potência só se realiza pela vida na Presença, com Deus. Por isso Paulo disse que por ele o bom era partir e estar com Deus. O que ele ganharia no estado da Mútua Representação, além do poder de dar algum testemunho útil para o próximo? Do mesmo modo, Jesus disse que se os Apóstolos soubessem para onde ele estaria partindo –isto é, para junto do Pai–, eles não se lamentariam. A manutenção da “identidade”, ou da “condição de ser humano”, com que Aristóteles se preocupa, não é o problema. A questão é compreender a verdadeira natureza desse ser, e a sua última finalidade. O filósofo jamais discordaria disso. Vamos dar o benefício da dúvida: ele amava a verdade, mas não conhecia o Evangelho.

O amigo que ascendeu pela redenção da Ressurreição e atingiu a vida paradisíaca da Coruscância não pode ser “perdido” (como aliás não existe bem real que o possa ser, por sinal): tudo que havia de bom nele é propriedade de toda mônada para sempre, e tudo de bom que ele era por si próprio só pode se realizar na plena comunhão com o Espírito Santo. Se eu quisesse preservar meu amigo na sua condição atual, como diz Aristóteles, eu desejaria então limitar tanto o meu gozo das suas qualidades, quanto o seu próprio potencial para a bem-aventurança na Eternidade. Isto seria o inferno. A verdadeira amizade, que é o amor ao próximo, ou Monadofilia Menor, é a busca do maior bem possível que não se contenta com a perpetuação da atual condição da vida humana, como aliás o próprio Deus não se contenta, Ele que instituiu tanto a morte das Obras da Carne quanto a Ressurreição das Obras do Espírito.

No Capítulo 8 do Livro IX o autor corrige a falsa impressão, derivada do senso comum, de que quem ama a si mesmo seja mau, como um egoísta. Ora, quem ama deseja o bem, e privilegiar-se de forma injusta contra os interesses alheios não é algo bom, e assim o egoísta não pode ser amigo de si mesmo, não pode ter amor próprio, pois não deseja o seu bem. Podemos ir além, e devemos. Sem o conhecimento imediato da conveniência do bem próprio não é possível conhecer o bem alheio: quem não se ama não pode amar o outro, pois não pode conhecer o bem do outro quem desconhece o mesmo bem para si. Só pode ser amigo do outro quem é primeiro amigo de si mesmo, porque o amigo, como diz Aristóteles, é “um outro eu”. Isto também por razões ligadas às causas eficientes das benfeitorias. Quem tem amor próprio cuida de si e dos seus bens e a partir desse cuidado e prudência se coloca em vantagem para o benefício alheio. Quem descuida de si se impede de agir em benefício alheio, quando não mesmo se torna um estorvo na vida dos outros. A primeira caridade é o amor próprio: cuida do outro quem cuida de si mesmo e não sobrecarrega o próximo. Por fim, o maior dos amores, a Deus, seria incompreensível se Deus não fosse reconhecido como o supremo benfeitor, e como isto poderia ser admitido senão pela noção dos interesses que cada um tem, conhecidos através de seu amor próprio? Mesmo sem o Evangelho é possível identificar a racionalidade da Monadofilia Primeira.

No Livro X Aristóteles reforça o Psiquismo ao afirmar que a felicidade não é uma disposição, mas uma atividade da alma. Que alguns componentes da experiência da felicidade tenham a ver com atividades da alma, isso é inegável, mas o fundamento da experiência da felicidade é um subsídio externo, a Graça divina. Lembremos que isto seria, para Aristóteles, a bem-aventurança em contraste com a felicidade, mas isso só porque ele separa os bens interiores dos exteriores como se todos os primeiros fossem sempre baseados na atividade da alma, e os segundos não. Mas ele acerta em vários aspectos no seu argumento final. Diz que “virtude e inteligência, de onde se originam as atividades nobres, não se subordinam à posse do poder“, o que é uma verdade tremenda, pois são atividades liberais, de homens livres, e a busca ou submissão ao Poder é uma atividade de escravos. A felicidade é a atividade virtuosa da alma, e nada é mais virtuoso do que o Intelecto que “é capaz de pensar o que é nobre e divino”, a nobreza da atividade intelectual se revelando por sua autossuficiência, ociosidade e descanso. Para Aristóteles, o filósofo e o sábio são os mais felizes, pois estão, por sua atividade, o mais próximos de Deus que é possível. Ele apenas desconsidera que isso pode ser realizado por meios espirituais que dispensem a prática filosófica, tanto quanto ignora que essa filosofia pode se tornar gnóstica e iniciática com facilidade.

Alguns trechos dos Capítulos 7 e 8 do Livro X merecem ser citados em maior extensão:

Quando fala da “parte soberana e melhor”, Aristóteles fala na verdade não de uma parte do composto, mas da essência da forma substancial, isto é, da própria mônada enquanto tal. E tem razão em reconhecer que esta é que merece se realizar, e isto não pode se suceder se o ser humano quiser se realizar nos alvos típicos da sua suposta existência composta. Como Jesus disse, deve-se buscar primeiro o Reino e a Justiça, essas coisas nobres e divinas, e o resto é acrescentado pela própria Graça de Deus. E em seguida, de modo até surpreendente, o filósofo reconhece que as virtudes morais que o ser humano emprega para a sua melhor existência não são tão puras, ou seja, separadas, quanto a virtude intelectual, porque lidam com os componentes inferiores que nada têm a ver com o que é divino e superior. Ele afirma que estas virtudes inferiores lidam com o composto, porque ele ainda lida com o problema sob a ótica de corpo e alma, mas nós podemos identificar o problema como a experiência da Mistura. Ora, como podem ser eternas as virtudes que só servem para se lidar com o que não é eterno? A Justiça só é necessária onde existe injustiça, a Coragem onde existe o medo, a Caridade onde existe a escassez e a carência, e mesmo a Sabedoria só tem valor onde existe a ignorância. Afastados os vários males que só subsistem através da experiência da Mistura, igualmente restam afastadas essas virtudes que só se justificam como remédios ou compensações para a lida com esses males. É neste sentido, e com muita razão, que Aristóteles reconhece que a virtude superior é intelectual, e que a felicidade humana é uma atividade especulativa da alma. Aqui caberia a correção de que a questão não é praticar a filosofia, mas contemplar o divino, o que também requer uma disposição moral, até mais do que intelectual, mas isso escapa a Aristóteles. Ele está mais inclinado ao Gnosticismo e à Presunção do que à Soberania e à Humildade, infelizmente. Mas não faltava muito para ele entender a essência da felicidade humana. Chegou muito perto mesmo de decifrar as coisas, e estamos falando de um pagão do Século IV a.C., o que prova que Deus nunca deixa de instruir aqueles que o buscam.

O Livro X vai longe e muito bem, até se degenerar num certo Gnosticismo tipicamente filosófico e intelectualista, e então chega na deprimente observação de que a maioria dos seres humanos são incapazes de aprender o que é bom por virtude, e que devem ser governados por leis que os forcem ao bem. Nisto o autor lembra o seu mestre, o Platão da República e de As Leis. Claro que há uma contradição: se o que individua e realiza o sujeito humano é a sua intelecção pessoal, de que adianta criar um dispositivo político que o obrigue a ser bom? Ele pode até se comportar como se fosse bom, mas não vai se tornar isso, porque age por uma motivação externa, seja por temer punições ou desejar recompensas. A bondade só é escolhida livremente por aqueles que a amam por si mesma. Leis não podem criar a bondade. A bondade é livre, porque o bom ama o bem livremente. Leis só criam escravos.

Aristóteles volta-se para a Política, portanto, já que esta seria eminentemente a ciência da produção de Leis, e a boa filosofia seria assim uma produtora de bons estadistas, isto é, bons legisladores. O que escapa dessa visão é o governo divino e a perfeição da Providência que já dispensa a cada alma a provisão mais adequada de experiências de acordo com finalidades muito mais excelentes, voltadas para a Eternidade, em comparação com a importância dos Estados seculares.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,3

Charlie Kirk e a próxima fase da guerra contra o Irã

Passado um tempinho desde a execução do ativista americano Charlie Kirk, consegui começar a montar na minha cabeça um quadro um pouco mais lúcido a respeito do evento.

Obviamente, pelo dom de Vigilância, nenhum de nós teria a permissão de aceitar a versão oficial de que ele teria morrido pela ação de um fanático esquerdista. Isto é o mesmo que acreditar que o ataque de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gêmeas foi feito por terroristas islâmicos. Uma parcela da humanidade vai continuar confiando nessas coisas, inclusive no pouso do homem na Lua em 1969, etc. Eu não estou trabalhando para essas pessoas. Infelizmente estamos no Brasil, e aqui ser de “direita”, ou seja, ser escravizado como parte do sistema dialético, já é considerado uma atividade subversiva o suficiente. Entendo que serei compreendido por poucos, como sempre.

Nos EUA ocorre algo um pouco diferente. Ainda há muito controle dialético, mas não apenas isso. Uma nova geração habituada com a circulação instantânea e sem censura de informações na internet começa a perceber que as versões oficiais dos fatos, assim como as versões mais comuns da história, são provavelmente falsificadas. Este meme, porém, não deve alcançar o Brasil em nenhum cenário futuro até o fim do mundo:

Nossa cultura predominante ainda é de origem católica, ou seja, não absorvemos coletivamente nem a reação mais básica de rejeição ao sequestro do Evangelho pelos poderes do mundo. Quando recebemos aqui os frutos do protestantismo, este já é o subproduto religioso corrompido que não só não resolve nada como até piora a situação de quem quer ser cristão. O brasileiro médio está muito mais pronto para aceitar o Anticristo sem grandes críticas do que outras populações mais acostumadas com o pensamento crítico, seja nos EUA, na Europa ou na Ásia.

Dito isso, vamos ao caso de Charlie Kirk.

Sua atuação sempre me pareceu ser a daquele típico americano que é inteligente e esforçado, e ao mesmo tempo extremamente ingênuo. Pois é, se coletivamente o americano médio pode estar um pouquinho melhor que o brasileiro médio, na escala do varejo das individualidades encontramos de tudo.

Desde bem jovem Kirk se engajou em debates públicos, no qual se destacou por uma certa habilidade retórica, para não se dizer sofística. Nem preciso explicar que esse tipo de procedimento nunca me agradou. Que ele tenha sido apoiador de causas políticas como a de Trump, é apenas um agravante maior ainda. Aos poucos ele cresceu na sua carreira, sustentado pelo lobby direitista que é, por sua vez, financiado por interesses sionistas via AIPAC. Sua atuação era particularmente relevante no front universitário, justificando a disputa por verbas federais de acordo com alinhamentos ideológicos, e principalmente preparando o terreno para o boicote intelectual de iniciativas anti-sionistas, sob o cobertor de combate ao anti-semitismo.

Essa trajetória da carreira de Kirk não surpreenderia em nada, seria mais um em muitos.

Acontece que nos EUA existe mobilização política de base nos movimentos chamados grassroots. Esse fenômeno, por praticamente não existir no Brasil, pode ser de difícil compreensão por aqui. Por lá é perfeitamente viável que uma base popular force certas lideranças a mudarem o rumo de suas posições e condutas públicas. E o fato é que a base política de Kirk, basicamente composta de pessoas bem jovens, começou a pressioná-lo a respeito de temas ligados a Israel. E o próprio Kirk passou a questionar coisas que normalmente seriam inquestionáveis por alguém que é sustentado pelo lobby direitista. Principalmente:

  1. A ligação da operação de Epstein com o Mossad;
  2. A narrativa oficial dos eventos de 07 de Outubro de 2023 e o subsequente apoio americano à guerra de extermínio em Gaza;
  3. O apoio americano à guerra de Israel contra o Irã.

Este último ponto provavelmente foi o decisivo para que Kirk fosse visto como persona non grata. Ingênuo, o serviçal de Israel não percebeu que se voltava contra a mão que o alimentava e que dava o seu poder político. Será que ele achava mesmo que seu sucesso se devia pura e simplesmente à sua capacidade oratória? Se achava, como foi ingênuo! Ele poderia ser mais um zé mané, um ninguém na fila do pão, se não fosse o interesse dos poderes do mundo em usar a sua atividade para fins de propaganda e mobilização das massas. Essa era a serventia de Kirk ao sistema: a legitimação de crimes de Estado, da Dialética do Ouroboros e do Sistema da Besta como um todo. Foi essa a origem real da sua fama, do seu prestígio e do seu sucesso.

Quando Kirk começou a questionar partes inconvenientes da narrativa oficial da direita política, ele foi chamado para mais uma rodada de negociações onde, no caso, Netanyahu entraria com muito dinheiro e influência, e Kirk entraria com o resto de sua alma. Kirk recusou o acordo e saiu da mesa. Achou que poderia ter vida própria e algum poder no mundo sem a ajuda de Satanás.

Mas quando a verdade pura se levanta para falar, o mundo literalmente a mata no tempo de uma semana. Foi o que já aconteceu uma vez em Jerusalém, para os cristãos que não perderam a memória.

O ingênuo Charlie Kirk achava que tinha autonomia para perseguir a verdade e a justiça com autonomia? Foi rapidamente corrigido pelos poderes do mundo, poderes que o usaram em vida e agora o usam na morte, para reforçar o sistema dialético.

Trump chegou a compartilhar essa imagem grotesca em sua rede social (Truth Social):

Mas resta uma questão: por que assassinaram o cara?

Não seria mais fácil e menos suspeito simplesmente desmontar a sua operação? Retirar as verbas, acionar o shadowban, praticar a espiral do silêncio, etc.?

Seria mais fácil, mas isso leva tempo. Para que uma operação dessas tenha efeito pode ser preciso passar no mínimo uns 6 a 12 meses, e talvez ainda mais no caso do movimento de Kirk, justamente por esse ter uma forte base grassroot.

E acontece que talvez Israel precise mobilizar a opinião pública americana para algo muito importante antes desse prazo, ou seja, logo mais, nas próximas semanas ou meses.

Qual evento justificaria essa emergência?

Ora, nada se encaixa mais no cenário do que uma nova fase na guerra contra o Irã.

É preciso soterrar os questionamentos sobre Epstein e a farsa do 7 de Outubro de 2023, e colocar o lobby para forçar o apoio dos EUA a Israel nesse próxima fase da guerra.

Possivelmente isso deva acontecer antes das midterm elections nos EUA, ou seja, até no máximo Março ou Abril de 2026.

Esse calendário favoreceria a opção pela eliminação física imediata de Kirk, com o bônus de que se os EUA guinarem para fora da zona de influência do lobby sionista antes da próxima fase na guerra, ainda se teria a vantagem de aumentar as chances de deflagrar uma guerra civil nos EUA para neutralizar a sua capacidade de interferência em assuntos internacionais. Afinal, se os EUA não estiverem comigo, o mínimo que eu preciso é garantir que eles não estarão contra mim por estarem, por exemplo, ocupados demais num conflito interno entre Direita X Esquerda, etc. É muito importante que a maior parte da população americana continue hipnotizada pela Dialética, e a própria morte de Kirk está sendo usada para essa finalidade. Vai funcionar? Não sabemos, mas não é difícil desestabilizar a economia americana, altamente alavancada, com uma crise econômico-financeira, bem como o sistema político, que é lotado de elementos comprometidos por operações de blackmail.

O incidente também está sendo usado para testar a lealdade de outros assets de inteligência influentes sobre a sociedade americana. Estes estão sendo orientados, senão mesmo ameaçados quando necessário, para insistir na narrativa contra a esquerda radical, os trans, etc. O recado foi dado da forma mais clara possível. Ao mesmo tempo os movimentos de base conseguem detectar facilmente quais influências e lideranças estão comprometidas com o sionismo. Figuras de grande relevo na mídia alternativa estão sendo rapidamente esvaziadas, como é o caso de Alex Jones e sua operação (Infowars).

O calendário foi a provável motivação para a execução de Kirk.

Sobre a pressa de Netanyahu que quer acelerar as coisas em todo o Oriente Médio, há uma interpretação geopolítica de que isso seria conveniente antes da mudança de ares políticos nos EUA, ou mesmo antes da queda do império americano, já que com China e Rússia o sionismo não teria o mesmo poder de influência (supostamente). Mas há que se considerar também a questão escatológica. Toda uma geração de rabinos messiânicos pressionam Netanyahu para que eles sejam os preparadores finais para a chegada do seu Messias triunfante, e muitos destes acreditam que apenas os construtores americanos (os maçons mais poderosos do mundo) poderão erguer o Terceiro Templo. Seria preciso então fazer tudo acontecer logo: comprometer os EUA com um conflito na região, jogar Esaú contra Ismael, destruir al-Aqsa, “descobrir” a Arca da Aliança, e construir o Terceiro Templo. É claro que essas possibilidades escatológicas escapam da análise geopolítica típica que ainda tenta compreender tudo em termos de interesses nacionais, políticos, econômicos, etc.

Do ponto de vista mais individual, no âmbito da alma do sujeito, Kirk abraçou a idolatria da família, mas não se comprometeu totalmente com os poderes do mundo. Ele pagou por essas decisões. Ele precisava ser vitorioso neste mundo. Não estava esperando pelo próximo, não repousava apenas em Cristo. Tinha que ter planos, vitórias, sucessos. Casou e teve filhos, então ele precisava que essa porcaria de mundo, destinado à destruição, fosse viável para seus descendentes. Isso o levou a se envolver com poderes malignos travestidos com o bom-mocismo direitista, conservador, etc., poderes que o dariam os meios práticos de crescer na vida e ter o sucesso e a vitória que ele precisava dar a si mesmo e à sua família.

Mas era um acordo espiritual com o mundo. Quando ele resolveu desfazer o acordo, as consequências vieram rapidamente.

Politicamente, ninguém vai escapar daquelas duas verdades supremas reveladas na Bíblia desde a antiguidade:

  1. Para os fiéis Deus já é o único rei legítimo, e todas as demais autoridades são no mínimo problemáticas, quando não são mesmo comprometidas, malignas e demoníacas;
  2. É a mentira e não a verdade que prevalece na terra.

O ser humano típico gosta de acreditar nas mentiras e escolher um lado da Dialética do Ouroboros porque não quer receber o dom da Vigilância que o Espírito Santo nos dá para suportar o fato de que nós todos nascemos como escravos, vendidos para o diabo pelos nossos ancestrais, e então crer que a nossa única salvação está em cumprir o Decreto de Gênesis 3 seguindo Jesus Cristo: aceitando a morte e recebendo a ressurreição.

Charlie Kirk, na prática, desprezou o exemplo de Jesus Cristo, assim como sua esposa desprezou o exemplo da Virgem Maria. Eles preferiram imitar Adão e Eva, e os poderes do mundo aplaudiram e exaltaram o casal, como sempre fizeram desde o princípio, e como farão até o fim.

Como Jesus veio pessoalmente revelar a verdade e ainda a revela a quem a quiser receber, a história de Kirk não é uma tragédia. É um drama que terminará como comédia, para aqueles que crêem.

PS: pode ser que estejamos muito perto da ativação de protocolos avançados de controle ditatorial dentro de uma tecnocracia totalitária. É possível que as coisas que eu expliquei aqui já sejam suficientes para não só uma censura futura, mas mesmo para sanções automáticas com efeitos transnacionais. Percebam que uma legislação aprovada no Congresso norte-americano pode ter efeito sobre cidadãos brasileiros, pelo simples fato de que o sistema financeiro já tem efeitos em escala mundial. A Marca da Besta pode mesmo não estar muito longe de nós na escala do tempo. Mas ainda parece ser inviável que tudo se resolva até Setembro de 2028. Veremos.

Da Alma, livro por ARISTÓTELES

Algumas coisas parecem ser ao mesmo tempo intuitivamente simples de se entender e difíceis de se explicar. Entre essas coisas encontramos com frequência aquilo que é metareferencial, como a consciência que é consciente de si mesma, ou o conhecimento que conhece a si mesmo. Nesta mesma categoria podemos encontrar a idéia de alma, que foi o objeto de um estudo de Aristóteles neste trabalho.

A alma pode se referir ao corpo como parte dele, ou como independente porém relacionada num composto, ou até como realidade totalmente separada do que é corporal. A alma pode se aproximar mais da idéia de mente (psique), ou da de princípio vital (anima), ou ainda da de intelecto ou espírito (nous).

Na Monadofilia não há a necessidade de fazer essa definição, pois tudo se relaciona à Mônada como sujeito ou objeto da Percepção e da Apetição, de modo que os diversos aspectos atribuíveis à alma podem ser localizados nas respectivas partes das propriedades da Mônada conforme o caso. A Mônada já tem substancialidade suficiente para justificar as experiências de alma e corpo, etc., sem precisarmos multiplicar esses entes que correspondem apenas a modos da Percepção.

Neste seu tratado sobre o tema da alma, o próprio Aristóteles admite a dificuldade. Além do problema da metareferência, o nosso filósofo também enfrenta o desafio da multiplicação dos entes. Mesmo que tenha já simplificado muito o sistema platônico do Mundo das Idéias, o Estagirita ainda lida com uma Natureza complexa ainda participante da idéia da Substância de algum modo. Isso sempre vai gerar dificuldades filosóficas. A realidade ou natureza ainda não reduzida à Multiplicidade como mero reflexo da Unidade como única ou simples substância sempre produz aporias filosóficas insolúveis. Dentro de seu escopo, porém, sua iniciativa é respeitável e merece a nossa atenção.

Ao tratar das propriedades mais elementares da alma, Aristóteles procede de modo escolástico e conservador, inventariando as opiniões dos filósofos anteriores sobre o tema. O autor expõe o que talvez tenha mais proximidade com as propriedades da Mônada: a sensação e o movimento. A partir desses rudimentos de base já poderíamos guiar a investigação num caminho monadológico. Ora, todo movimento pode ser interior, de passagem de uma Percepção para outra, bem como a sensação pode ser tanto um efeito quanto um componente ou aspecto da Percepção. De todo modo, aquilo que se move o faz diante daquele que o percebe porque se mantém fixo como aquilo que percebe o que se move, e nada de objetivo a seu respeito pode ser atribuído senão por uma instância diante da qual ocorre a Percepção. Igualmente, o que é sentido o é para quem o percebe, etc.

Para o âmbito daquilo que se chama de “alma”, a Relação entre o Uno e o Múltiplo se dá na experiência entre o que é Permanente e o que é Transitório, ou entre o Ser e o Vir-a-Ser, ou ainda entre o Fixo e o Mutável, o primeiro desses elementos representando o Uno como percipiente de uma experiência e cada objeto percebido considerado isoladamente no seu ideal, e o segundo representando o Múltiplo como o conteúdo da experiência percebida enquanto sucessão das percepções. O ser é o que percebe e o percebido, o Intelecto e o inteligiso, e o vir-a-ser é a sucessividade das intelecções. Observe-se que a integridade da alma está na sua fixidez ou unicidade. O que constitui e identifica o ser humano, por exemplo, como imagem e semelhança à Deus, não é o que normalmente indicaríamos, como com elementos de natureza ou ambiente, ou o conjunto de memórias, etc., mas a capacidade elementar e primária de experimentar quaisquer naturezas possíveis, em quaisquer ambientes possíveis, uma singularidade ou substância simples com a capacidade de perceber e escolher entre percepções diversas. Quanto mais a pesquisa a respeito da alma foge desse centro unitário, mais ela se perde nas propriedades dos objetos da alma e os confundem com a essência permanente e independente destes. Aristóteles tem seus méritos na busca da melhor distinção dessas sutilezas neste assunto, mas cá entre nós foi só com Plotino e depois Agostinho que a alma finalmente ganha o seu status mais digno, análogo ao da Unidade, e para sempre separado da Multiplicidade. Se até hoje muitos seres humanos se mantém alheios a esse conhecimento que já foi produzido na Antiguidade, isso apenas mostra como é a ignorância e a confusão que imperam sobre a terra, a reboque dessa grande tirania que é o Pecado Original.

Em dado momento (407b1) Aristóteles afirma que a intelecção se assemelha a um repouso, de maneira que o movimento seria de algum modo contrário à bem-aventurança da alma. E também afirma que é “penoso” ou “indesejável” a associação entre corpo e alma. Embora ele esteja ainda veiculando mais as doutrinas precedentes do que expondo a sua própria, não devemos deixar essas idéias passarem impunemente. São formulações obviamente gnósticas, e que devem ser inquiridas e glosadas pelos cristãos.

Sobre a oposição entre repouso na intelecção e o movimento, não pode haver em nenhum dado momento a não-intelecção. Do mesmo modo que o momento presente não possui duração, a intelecção é como uma fotografia retirada de um filme. O movimento, por sua vez, nada mais é que a alternância entre intelecções diversas entre si. O movimento não pode ser oposto ao repouso, neste sentido particular da operação intelectual, porque ele não impede a intelecção, mas somente realiza a sua alternância. Isso, aliás, num intelecto finito, é o único modo viável de expansão da intelecção, razão pela qual afirmamos que o Limite é um dos Cinco Conceitos Sinóticos fundamentais da Monadofilia, como Forma do Escolhido. O problema gnóstico, como sempre, é a Legitimação da Mistura ou a Rejeição do Limite. Neste caso das observações que Aristóteles propõe no seu Da Alma, o Limite é rejeitado, porque para que o Ser seja conhecido por um intelecto finito é necessário que as intelecções sejam sucessivas na sua parcialidade, ou seja, que haja o movimento do Intelecto (ou da alma, como queiram). Não estaria errada a afirmação de que a mais plena bem-aventurança pertence a um ser capaz da intelecção total, ou seja, Deus. Mas é equivocada a idéia de que somente Deus possa ser feliz, ou bem-aventurado, a não ser que seja por si mesmo. Porque a premissa de que o Limite é mau não é necessária, desde que o Ser divino na sua infinitude poderia sempre doar as percepções apetecíveis pelas criaturas finitas, bastando apenas que o quisesse fazer, ou seja, que tenha a natureza amorosa suficiente para beneficiar as mônadas criadas livre e gratuitamente (princípio do Sumo-Bem como a Condição do Escolhido). Por isso a crença gnóstica é maligna: sua premissa profunda é a negação do Amor divino, sempre. É uma doutrina luciferina, cheia de rebelião e falsidade a respeito de Deus.

Já sobre a suposta inconveniência da associação entre corpo e alma, basta reconhecer que a mesma trata de uma relação condicional e não necessária. Este corpo não deriva de uma criação puramente simpliciter e ex nihilo, mas de uma subcriação secundim quid já mediada pelo arbítrio de uma criatura decaída e falível, e não de um Deus criativamente perfeito. Que este corpo está destinado à destruição é algo decretado pela autoridade divina e reafirmado pelo aceite desse decreto pelo próprio Deus encarnado como homem, Jesus Cristo. Por fim, que outros corpos sejam possíveis, ou seja, convenientes em associação com o Intelecto, é algo também demonstrado pela Revelação, através da Ressurreição. O Evangelho nos liberta de condições que a filosofia aristotélica não poderia ultrapassar per se.

Vocês conseguem entender como o Evangelho é a Revelação mais perfeita? Jesus Cristo destruiu de uma só vez os dois braços da doutrina demoníaca, os dois lados do Gnosticismo: com a Cruz destruiu a Legitimação da Mistura, através do seu aceite voluntário e gratuito do Decreto de Gen 3, e com a Ressurreição destruiu a Rejeição do Limite, através da redenção do seu Corpo de Glória. Este é o Salvador, não apenas por pregação, ou por amostras de seu poder, mas por sua liderança com atos. Jesus literalmente nos liderou na direção da Redenção.

Em outro momento Aristóteles fará a crítica a Xenócrates, a respeito da idéia de que a alma seja um número. Em geral essa crítica procede, principalmente pelos ângulos da Geometria (o número como ponto, linha ou superfície) e da Física (o número como posição ou extensão). Porém, metafisicamente, a idéia da Unidade não é incomparável com qualquer descrição simples da alma. O filósofo se pergunta sobre qual seria a diferença entre uma e outra unidade. Não existe diferença formal, senão pela total analogia entre diferentes singularidades totalmente separadas. A solução desse problema requereria ainda outras soluções filosóficas futuras, como a esseidade de Duns Scot, e o Princípio da Identidade dos Indiscerníveis de Leibniz. Assim, cada mônada preservaria a sua igualdade formal e experimentaria ao mesmo tempo a individuação da sua singularidade, através da atuação de seu Intelecto e de sua Vontade. Seria demais pedir para que Aristóteles antecipasse tudo isso, por mais genial que ele fosse.

No desfecho do Livro I o nosso filósofo termina de mostrar como todas as doutrinas por ele então reconhecidas sobre a alma parecem insuficientes, razão pela qual ele se viu motivado a tentar a sua própria solução. Isto é um filósofo de verdade, alguém insatisfeito com as filosofias dos outros. Observem como isto é diferente de ser professor de filosofia, ou historiador de filosofia. É particularmente notável a observação de Aristóteles de que não pode ser o corpo que produza a alma, e nem o fator que a unifique, simplesmente porque a experiência mostra o que parece ser o contrário, ou seja, que a alma seja o princípio ativo do composto: na ausência da alma, o corpo se corrompe e suas partes perdem unidade.

Mas, pelo menos por ora, algo parece ter escapado ao atencioso Estagirita: nunca se percebe a morte do próprio corpo, por regra, mas somente a de terceiros. O corpo pode não existir senão como fenômeno. E mesmo as EQMs não contrariariam a hipótese da holografia e da Mútua Representação.

No Livro II, Aristóteles proporá a sua definição de alma. Ele começa por dizer que deve ser uma substância. E afirma que substância é o que se atribui à matéria (potência), à forma (atualização), ou ao composto. E finalmente definirá a alma como forma do corpo. Essa sua definição possui uma integridade maravilhosa quando se considera o corpus aristotelicum como um todo. Para nós não é necessário subscrever essa noção, porém, porque ela adquire uma complexidade excessiva pelo conceito do composto. O ideal é que entre o Uno e o Múltiplo haja a relação mais direta possível. Platão trazia muitas complexidades com a sua Díade e o seu Mundo das Idéias. Aristóteles, de maneira louvável, conseguiu simplificar muito tudo isso, mas as suas substâncias compostas ainda são complexas demais. É mais perfeito (simples) que o Uno produza a intelecção de si mesmo como um reflexo, que é o Múltiplo. Não é preciso ter forma, matéria, e nem composto e, portanto, nem alma e nem corpo, a não ser que estes sejam objetos para o Intelecto que é capaz tanto de Apercepção quanto de Percepção, respectivamente. Mas o brilhantismo de Aristóteles não pode ser negado: de algum modo sua definição da alma como ato primeiro de um corpo com a potência de vida dá testemunho da prioridade do componente formal, ou intelectivo, sobre o material enquanto potencial passivo. Ele é, afinal, herdeiro dessa formidável tradição metafísica dos gregos, de Platão, e também de Pitágoras e Anaxágoras.

À partir do Capítulo 4 do Livro II Aristóteles se afasta da essência primária e mais universal da alma e parte para uma investigação naturalista que perderá valor para o nosso objetivo. Isto não diminui a importância que esses elementos possam ter para a perspectiva da Biologia, ou das Ciências Naturais como um todo, afinal de contas o Estagirita foi o fundador de todas elas e sempre tem algo valioso a ensinar.

Não podemos deixar de observar, porém, que nessa visão naturalista se inclui a interpretação da excelência dos processos de nutrição e reprodução na consideração de que os animais preservam não somente as suas individualidades de maneira provisória, mas principalmente a unidade da espécie, o que constituiria o seu maior bem possível. A extrapolação dessa condição ao ser humano representará um grande perigo espiritual. Aristóteles ignora, e não por sua culpa, dois fatores que os cristãos não têm a permissão de ignorar: a teologia da Criação ex nihilo, e a filosofia do principium individuationis formal. Quem quiser interpretar a realidade, especialmente a da condição humana, com recursos exclusivamente aristotélicos, o faz por sua própria conta e risco, e deveria estar ciente do que isso representa tanto teológica quanto filosoficamente.

Sendo bom filósofo como é, Aristóteles não deixará de notar as dificuldades da interpretação naturalista da alma. Ao trabalhar no problema da unidade das percepções sensíveis ele encontrará os limites do seu método. A consciência que percebe os elementos na sua diversidade possui uma unidade inexplicável, maravilhosa, para não dizer miraculosa. Uma explicação totalmente intelectual, pela representação holográfica da reflexividade monádica, resolveria tudo: somente o Uno possui substância, e o Múltiplo é apenas o seu reflexo. Mas para Aristóteles a Natureza precisa ser uma coisa, ter ousia, e a consciência precisa ser produzida desde dentro dessa coisa. Ele jamais vai sair dessa situação enquanto continuar coisificando o mundo natural: “enquanto indivisível, o que discrimina é uno e discrimina os dois sensíveis simultaneamente; considerado como divisível, deixa de ser uno visto que se utiliza duas vezes do mesmo ponto no mesmo tempo. Desse modo, na medida em que assume o limite como dois, discrimina dois objetos separados mediante o que é, de algum modo, separado; mas quando assume o limite quando um, discrimina dois objetos num só momento“. Esse tipo de problema sempre existirá enquanto se insistir numa explicação que não considere apenas a mônada como verdadeira substância, e toda variedade manifestada como seu reflexo. Caso contrário algo sempre permanecerá contraditório: como pode uma alma unificada conhecer formas variadas? Exemplo: uma criança vê um gato branco. Sua consciência não é apenas de gato, e nem apenas de branco, mas dos dois, e ao mesmo tempo. Mas como isso seria possível, se o dessemelhante não pode conhecer o semelhante? Isto é, a consciência da criança, ou sua alma, precisa possuir essas duas formas em sua potência intelectiva ao mesmo tempo, ou o objeto, que é o gato branco, não seria percebido em sua própria unidade de essência e acidente. Como pode a consciência unificar o conhecimento de formas diversas de si mesma e entre si próprias de modo intuitivo e simultâneo? Em outras palavras: como o conhecimento do Múltiplo é possível para uma consciência unificada? Isso só pode ser feito com uma solução completamente formal, ou intelectual, que retire o problema a falsa substancialidade de qualquer coisa que não seja a própria consciência. Mas dizer que o mundo e a natureza não existem senão como impressões para um observador consciente era algo não só arriscado no Século IV a.C., mas até hoje, quem diria. Até Leibniz teve que esboçar a idéia de composições à partir das mônadas, para não irritar suscetibilidades. Mas isso desonra o amor e a busca pela Verdade. Não por acaso, no centro da questão está justamente o grande problema espiritual da Idolatria.

Na passagem que citei, do Capítulo 2 do Livro III, o filósofo compara a unidade da alma, enquanto percipiente de sensações, com a unidade do ponto na Geometria, quanto elemento que ao mesmo tempo separa e unifica na discriminação dos objetos da sensação. Platão já percebia essas coisas, e as dificuldades inerentes a essas observações. O ponto, assim como o Uno, é essa forma ideal pura, a mais perfeita, que revela todas as coisas, mas que não se deixa revelar por nenhuma delas. É, ao mesmo tempo, a intuição mais forte e inegável de todas, e a mais misteriosa e inefável. Quando essa idéia da Unidade é aplicada ao problema da alma, isso problematiza imediatamente toda a noção da unidade do mundo, ou da natureza, assim como a figura do Observador desfez a suposta virtude da integridade material do continuum do espaço-tempo na física quântica. Este problema sempre foi muito grande, talvez até o maior de todos, e Aristóteles não poderia resolvê-lo sozinho, até porque ele se ocupava com muitas investigações ao mesmo tempo. A solução requererá algumas dezenas de séculos, passando pelo Uno de Plotino, pelo animocentrismo de Agostinho, pela Haecceitas de Duns Scot, e pela Monadologia de Leibniz.

Mais adiante Aristóteles distinguirá totalmente as percepções sensíveis das intelecções racionais. Justificará isso pela observação dos animais irracionais, que percebem mas não inteligem, e também por notar que a sensação é sempre verdadeira em si, enquanto a intelecção pode errar. Ora, dos animais caberia questionar a sua substancialidade fora do ser consciente que os observa, de modo que seriam incomparáveis então os seus estatutos ontológicos. E da diferença entre os graus de veracidade entre as sensações e intelecções bastaria distinguir entre funções diversas do Intelecto que variam entre passividade e atividade, como Percepção e Apercepção, e especialmente, nesta última classe, do ato livre de estimativa da parte de um Intelecto limitado, ou seja, ignorante. Sem as premissas de que o ser humano seja comparável aos animais, e de que ele tenha que ser infalível nas suas estimativas a respeito do ignorado (o que aliás é uma premissa gnóstica), não é tão necessário separar as sensações das intelecções. Por outro lado, o desejo de separar esses dois aspectos do Intelecto vai gerar o dualismo gnóstico, a tentação da Idolatria, etc.

Aqui eu devo lembrar do alerta do Apóstolo Paulo contra as filosofias que julgam conhecer a verdade através dos elementos do mundo. O Aristóteles do Da Alma certamente entra nessa categoria. Isso não desqualifica toda a obra do Estagirita. Mas é preciso ter Discernimento. Alguns cristãos ficarão atentos: agostinianos, franciscanos, etc. Mas a força do messianismo de certo modo prevalecerá na história da Igreja, que dará preferência a autores mais favoráveis à “restauração do mundo” (tikkun olam), ao paraíso terrestre, entre outras idéias idolátricas, antiredentoras, antirressurrecionais e anticristãs.

Obviamente o uso que quaisquer pessoas tenham feito da filosofia aristotélica para essas finalidades não é de responsabilidade deste filósofo. Aristóteles é responsável por ser naturalista até certo ponto, mas sabemos, graças à sua Metafísica, que ele não é apenas isso.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,9

Marcial Maciel (O Lobo de Deus), série por Matías GUEILBURT

Para que não digam que a Religião em geral, ou a Igreja Católica em particular, é perseguida com alguma obsessão, a história de Marcial Maciel, o fundador da ordem dos Legionários de Cristo, serve para mostrar como o fenômeno da corrupção moral humana é universal e não só não escapa do âmbito da religiosidade, como parece se acomodar muito bem dentro desse tipo de ambiente. É como se identificássemos que num mundo inteiro que é governado por Satanás, parece que o diabo tem uma certa preferência e um carinho especial, entre seus vários domínios, pela Religião.

Este breve documentário da HBO em quatro episódios conta a história de Marcial Maciel, mais um monstro religioso travestido de santo.

Nasceu no México em 1920. Efeminado quando criança, Maciel sofreu bullying, abandono e abuso. Incapaz de carregar a sua cruz e seguir Jesus, de algum modo parece que ele quis se encaixar e participar profundamente do jogo do mundo que o mal tratou. E o fez com a excelência dos maiores perversos.

Maciel decidiu seguir uma suposta missão pessoal como católico, mas num sistema quase paralelo. Ordenou-se padre, mas interessava-se mesmo era em arregimentar quadros e acumular poder, especialmente na exploração da fragilidade alheia, oferecendo acolhida à crianças e jovens de famílias carentes, e ganhando doações de viúvas sentimentais, e de ricos com a consciência culpada. Com o máximo de autonomia e emprestando autoridade e prestígio da Igreja Católica, fundou a ordem dos Legionários de Cristo, inspirado na Ordem dos Jesuítas. Não se pode negar que Maciel tivesse grandes capacidades de organização, e que fosse um oportunista muito habilidoso.

Maciel se financiava com a ajuda de pessoas ricas, especialmente viúvas abastadas, e com o dinheiro abria institutos de educação para formar uma nova elite católica. Essa elite se contraporia ao modernismo do Vaticano II e aos avanços do marxismo da Teologia da Libertação na América Latina. Enquanto os idiotas se distraíam com essa fachada, Maciel concentrava poder e dinheiro, e se divertia com os abusos de menores e de drogas.

Maciel corrompeu a hierarquia da Igreja com dinheiro, e principalmente com o seu poder de arregimentar grupos sociais para o organismo religioso. Numa época de crescente liberdade religiosa, essas grandes e velhas instituições como a Igreja Católica são sedentas por renovações dos seus quadros, especialmente de lideranças capazes de trazer as novas vítimas necessárias à manutenção do sistema, a nova geração. Maciel foi extremamente bem-vindo como líder popular e carismático, trazendo de reboque uma vasta clientela e novos operários das engrenagens religiosas, além de um fluxo constante de doações. E para envernizar essa obra maravilhosa, Maciel vestiu os Legionários de Cristo com as roupas dos campeões contra o Vaticano II, contra o Comunismo, etc.

Mas aos poucos seus crimes se tornam conhecidos e isso cria uma situação problemática na Igreja Católica. Em 1956 Macial é afastado de suas atividades depois de uma investigação. Mas com a morte de Pio XII ele volta à ativa. Mais tarde Maciel encontra um grande parceiro em João Paulo II, esse santo que provavelmente foi o maior responsável por cobrir Maciel com um manto de legitimidade e autoridade.

Expandindo suas atividades, Maciel cria a Regnum Christi para atrair jovens mulheres para apoio aos Legionários, tomando seu dinheiro, seus serviços, etc., basicamente escravizando essas mulheres, inspirado na idéia da instituição dos leigos consagrados da Opus Dei. Observe-se novamente que, assim como aconteceu com os Jesuítas, Maciel não inventou nada: todo o esquema de exploração dos seres humanos em nome de Deus já estava pronto e em funcionamento nesses vários tipos de organização. Tudo o que Maciel fez foi repetir essas programações.

Maciel usava as vastas doações doações de dinheiro recebidas pelos Legionários para manter um estilo de vida luxuoso, e também para o suborno de autoridades políticas ou religiosas, estas últimas através principalmente de “obras de caridade”. Lavagem de dinheiro e desvios de recursos para paraísos fiscais se tornaram uma especialidade na ordem dos Legionários.

Eventualmente acusações mais graves e mais comprovadas são feitas, finalmente, quando algumas das principais vítimas de Maciel decidem que não aguentam mais mentir e esconder os fatos. As denúncias contra Maciel tiveram que ser feitas nos EUA, porque no México era inviável a acusação de uma celebridade como ele. Isso nos faz pensar: o quanto é inviável a denúncia dos famosos em geral, quando isso arrisca causar um grande escândalo e até o abalo da ordem social? Vejam como funciona o comprometimento moral da sociedade humana ao esquema de Satanás: emprega-se um tão grande alinhamento das consciências a esses esquemas mentirosos, que a desmoralização geral da comunidade torna inviável a revelação da verdade. É isso o que autoriza o procedimento do sacrifício ritualístico dos bodes expiatórios: uma vítima simbólica deve morrer como símbolo do mal, para que o próprio mal possa se perpetuar no governo de uma sociedade hipócrita e moralmente apodrecida. No fim, até com Maciel será este o caso. Vão-se os anéis, ficam os dedos: o líder morre, fisicamente e simbolicamente, mas os Legionários continuam, e principalmente a Sacra Igreja Católica Apostólica Romana.

Entre suas várias aventuras, Maciel teve esposa e filhos, tanto no México como na Espanha. Era um ator, um farsante, um grande mentiroso. E apesar de ter seus vários papéis no mundo, ele nunca quis realmente ser bom em nenhum deles. Abusou de seus dois filhos mexicanos. E conseguiu, sabe-se lá como, que o próprio Papa João Paulo II batizasse sua filha espanhola, Norma. Desculpem, mas se além do dinheiro e do prestígio de Maciel, se ele não tivesse também o poder de chantagem contra lideranças católicas, não sei se certas coisas seriam possíveis. Afinal, de que outro modo uma instituição tão poderosa poderia ter sua liderança maior submetida aos caprichos e desejos de Maciel? Entendem como isso funciona? O governante de todas as religiões é o Ouroboros, a grande e velha Serpente, desde o seu primeiro pacto com o primeiro dos homens, Adão. O que Maciel fez foi usar as ferramentas espirituais de conquista e concentração de poder, que é a moeda do diabo, e com isso Maciel ganhou controle até sobre a Igreja Católica. Este mundo está a serviço do diabo, com a exceção daqueles que são livres da busca pelo poder, aqueles que amam a Deus e ao próximo.

Já depois de muitas denúncias, o Vaticano ainda reconhecia e legitimava a posição de Maciel, inclusive num grande evento com o Papa no Vaticano para celebrar o aniversário dos Legionários de Cristo. Uma grande vergonha, e uma grande evidência para quem não tem medo de reconhecer a verdade.

Um novo processo interno de investigação é iniciado pelo então Cardeal Ratzinger. Esse processo continua depois da morte de João Paulo II, e é finalizado no papado do próprio Ratzinger, já como Bento XVI. Porém, qual é a resposta que a Igreja dá para o caso? Maciel é afastado da liderança dos Legionários e é recomendado a viver em oração e penitência. Obviamente Maciel ignora a recomendação e faz o que quer. Ele viaja pelo mundo, inclusive para a Tailândia, onde parece que se diverte com a exploração da prostituição de menores.

Com isso se vê que não há grande diferença entre este papado, ou aquele papado. Essa dialética imita aquela que vemos operar na política: é uma distração para enganar os imbecis.

Desde a época de Pio XII se sabia dos crimes de Maciel, mas ele nunca foi julgado nem condenado por nada. Maciel soube explorar muito bem a corrupção de pessoas e principalmente de instituições, com as massas de pessoas e as grandes riquezas dos Legionários.

Se a Igreja quisesse proteger os órfãos e as viúvas, que é a religião verdadeira que Cristo instituiu, ela teria impedido Maciel de agir. Mas ela não só não o impediu, como o autorizou e legitimou. Pelos frutos conhecereis a árvore. Foi isso que Jesus ensinou. Sai dela, povo meu!

Na maior ilusão, alguns dos acusadores de Maciel, querendo separar a religião ideal da religião real, acusaram Maciel de ser apóstata e ateu.

Mas foi justamente na condição de religioso que Maciel se realizou como predador, com a cobertura, leniência, omissão e negligência da própria Igreja Católica.

Como já dissemos antes, a Igreja Católica é um projeto messiânico igual ao Partido Comunista, apenas mais antigo e tradicional: quando falha, nunca perde o brilho da sua forma ideal que continua sendo acreditada como se Deus tivesse algo que ver com as ilusões humanas.

Quanta ilusão! Não foi enquanto apóstata e ateu que Maciel explorou suas vítimas, mas enquanto líder religioso consagrado pela Igreja Católica. Eis a força da mentira e da ilusão humana.

Pensando na pessoa de Maciel em si mesmo, o que ele poderia ter feito? Poderia ter carregado a sua cruz como vítima de abuso, e se quisesse poderia ter buscado a castidade e a virtude dentro da Religião, ou então, poderia ainda carregar a sua cruz como pessoa afastada da Igreja e do Poder do mundo, vivendo de forma privada da melhor maneira que pudesse.

Mas ele faz a pior escolha de todas, se tornou um lobo travestido de cordeiro, e usou do poder e do prestígio da Religião para abusar e explorar seres humanos vulneráveis.

O maior problema não é que existam tipos como Maciel.

O maior problema é que estes tipos sejam os líderes mais aplaudidos e reverenciados da humanidade.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade8
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

Retórica, livro por ARISTÓTELES

Neste trabalho o nosso filósofo tratará da arte do discurso persuasivo. Ainda estamos no território da imagem ou aparência da verdade (doxa, ou opinião). A diferença com relação ao que vimos antes, na Poética, é que lá a verdade era imitada sob o aspecto da impressão, como a gerada pelas sensações, enquanto aqui na Retórica a imagem da verdade adquire maior grau de abstração, como o que é gerado pelo discurso.

O Estagirita nos dá logo a sua definição da arte retórica:

Essa explicação está em linha com a prévia investigação socrática-platônica a respeito do objeto indeterminado da sofística. Que habilidade é essa que permite falar de tudo com maior poder de convencimento do que aqueles que conhecem melhor cada tema em particular? Isso gerava perplexidade e até antipatia da parte dos filósofos. Já Aristóteles, com um espírito mais frio e científico, não se preocupa tanto com a denúncia dessa prática quanto com o entendimento dos motivos da sua efetividade. O que é próprio do discurso retórico é a sua atuação sobre aquilo que é persuasível em qualquer caso. Assim, tanto quanto vimos, no Órganon, que a estrutura da lógica analítica é universal para todos os intelectos, do mesmo modo as propriedades daquilo que é persuasivo são universais para todas as psiques. Todos os seres humanos costumam ser convencidos daquilo que é verossímil do mesmo modo.

Aristóteles percebe que o discurso persuasivo orbita em torno de seu tema, sobre o qual pode conjecturar indefinidamente, mas se apóia em duas componentes alheias ao assunto em si: a credibilidade do orador (ou autor), e as emoções e inclinações do ouvinte (ou leitor), que é o árbitro e, portanto, o elemento “que determina a finalidade e o objeto do discurso“. O objeto da retórica não é a verdade, mas o movimento da crença do juiz do discurso. Um discurso que seja desqualificado por sua relação com a verdade sobre o assunto pode se tornar convincente apenas porque seu autor possui credibilidade suficiente, ou porque as emoções e inclinações dos ouvintes foram movidos na direção que convinha para que fossem persuadidos.

A verdade é convincente por si mesma, mas a aparência da verdade pode ser convincente por recursos alheios ao que é verdadeiro. A arte retórica explora esses recursos.

Como bom inventariante que é, Aristóteles logo começará a fazer listas de coisas, o que aliás parece ser algo típico de pessoas inteligentes, ou no mínimo curiosas. Sobre temas do debate político ele relaciona os assuntos fundamentais sobre os quais as disputas políticas costumam versar, quais sejam: recursos, guerra e paz, defesa nacional, importações e exportações, e legislação. Eu poderia penalizar este segmento por sua Ingenuidade, já que com a consideração do efeito do Pecado Original sobre todos esses temas políticos, estes restam vazios (res exclusae in limine) ou ao menos muito preteridos em face da conveniência do desarmamento moral generalizado em direção à idéia da Melhor Geração. Mas o filósofo apenas inventaria aqui aqueles assuntos políticos que são debatidos de acordo com o costume, e portanto não pode ser responsabilizado pelo que os outros entendem ser de maior importância. Se ele próprio produzisse um juízo de mérito a respeito, então poderíamos avaliar essa decisão, como deverá ser o caso na avaliação da sua Política, ocasião na qual poderemos confrontar as suas posições.

Algo diferente talvez ocorra quando o filósofo passa a listar os bens que produzem, por sua posse, a felicidade dos seres humanos. Ele não erra ao reconhecer que a felicidade e os seus componentes são universalmente desejáveis. Mas possivelmente erra na própria listagem desses bens, para não falar na omissão sobre a origem primeira de todos os bens, o que pode levar ao erro do Psiquismo. Vejamos o trecho:

Já Sócrates, e com ele Platão, afirmava a superioridade da virtude (arete) sobre todos os outros bens. Nós mesmos podemos ir além e afirmar a Graça como a fonte de toda felicidade verdadeira. Novamente me inclino à leniência, porque Aristóteles pode se referir, mais uma vez, àquilo que é acreditado pelo costume, como ele mesmo nos avisou que faria, e como aliás faz sentido que faça, já que reconhecemos que a retórica visa à persuasão e não à investigação da verdade. Mas há o erro, talvez, de não disputar ou ressalvar o quanto essa valorização pode ser prejudicial. Como ele enfatizou a origem axiológica dessas idéias, o que é muito apropriado e exato, de novo podemos deixar passar. É difícil glosar Aristóteles. Mas oportunidades não faltarão para um reexame das idéias por elas mesmas, como com o Da Alma, com a Ética a Nicômaco, etc.

Sua definição daquilo que é bom é excelente e possivelmente até insuperável:

Grande é a importância de dois componentes nessa definição: a característica da finalidade e a característica da racionalidade. A finalidade torna todos os meios dispensáveis todas as vezes em que isso for possível, e a racionalidade implica na falsidade dos bens que são considerados apenas pela sua natureza e independentes de finalidades. Ambos componentes são espiritualmente vitais. Aqui Aristóteles se mostra um legítimo e digno herdeiro do idealismo platônico, e se mostra também livre, pelo menos por ora, de qualquer Naturalismo.

Neste trecho do Capítulo 6 vemos como o nosso filósofo é exato em seus termos, razão pela qual sempre foi muito apreciado:

A chave está na expressão “a consideramos um fim“. Esse caráter subjetivo neste tipo de juízo mostra o grande perigo da capacidade e do interesse humano de perverter o senso da realidade das coisas. Pois o modo de proceder típico desses seres criados no cativeiro da Idolatria e na cultura do Pacto Sadomasoquista é o de fazer o valor dos esforços e sofrimentos dos meios das ações humanas emprestarem legitimidade, de modo artificial, às finalidades. É uma racionalização abusiva e falaciosa, a justificação das finalidades pelos meios. O fato de que quaisquer meios para a obtenção de determinados fins tenham sido custosos, especialmente em termos da impressão subjetiva causada por sofrimentos gerados por danos ou esforços deliberados, não servem para a qualificação dos fins. Qualquer fim deve ser bom por si mesmo, por definição, já que isto é o que qualifica e determina a essência daquilo que é uma finalidade. Aristóteles não se aprofunda nisto agora, mas seu testemunho é bom o suficiente para nos despertar um alerta: o quanto não pode ser conveniente a um ser ao mesmo tempo racional em potência e ignorante em ato a atribuição retroativa da bondade dos fins de suas ações pela consideração do valor subjetivo dos meios voluntariamente empregados? Numa alma predisposta à Presunção, especialmente, é mais fácil simular a Sabedoria do que ser Humilde, porque para o orgulhoso a Humildade é humilhação.

Ainda nessa matéria da prioridade dos fins sobre os meios, nosso filósofo tem mais observações interessantes e que merecem ser notadas, por mais óbvias que sejam:

Ora, não há causa mais primordial, mais benéfica, ou mais perfeita nos seus meios e nos seus efeitos, do que a Graça, que é a ação divina por excelência. Aristóteles não tem a obrigação de reconhecer isso, mas os filósofos cristãos têm. E isso especialmente em face do sentido do Pecado Original. Ninguém podendo restringir a potência da criatividade divina, resta como absurda toda ação que se presuma boa por livre deliberação sem o constrangimento das circunstâncias, principalmente quando implique em riscos evidentemente inapropriados.

Por uma razoável extensão o autor fará o inventário dos elementos mais convincentes para a persuasão, com ênfase nos âmbitos das disputas forenses e políticas. Aqueles que estão envolvidos nesses tipos de atividades podem encontrar instruções valiosas nesta Retórica.

Naquilo que nos interessa, que é o sentido espiritual, há uma passagem relevante sobre o amor e a amizade que vale a pena destacarmos, sem prejuízo de futuras manifestações da parte do mesmo autor em outras obras:

Esta definição de amor (philia), ou amizade, é perfeita. Essa noção mostra como todas as outras relações humanas, em contraste, refletem posições como de poder ou posse, e conflitos de interesses pelos bens relativamente a uma das partes em detrimento ou em indiferença aos interesses das demais. Sócrates, e com ele Platão, já havia notado isso, e Aristóteles subscreve.

Em outra passagem descobrimos um importante testemunho à favor da Vigilância:

Aqui novamente ressalvamos o destaque para a função técnica desses testemunhos, o que implica que não necessariamente o filósofo endossa essas idéias enquanto investigador ou na competência de pessoa particular que emite sua opinião. Mas, com o risco de que bons testemunhos não sejam reiterados em outra ocasião, prefiro fazer o destaque do citado.

E no que isso implica? Na corrupção e na decadência reconhecidas por efeito das inclinações naturais, de modo que a virtude e a bondade não são naturais, extraordinárias. A natureza não é boa e não inclina os agentes livres ao bem e à virtude.

Esse testemunho não só auxilia à favor da Vigilância, mas também favorece o reconhecimento da Presença, particularmente contra a Idolatria naturalista. Estamos falando de um filósofo pagão sem acesso ao testemunho revelado da Queda gerada pelo Pecado Original. Com qual subsídio operam então os medievais aristotélicos a exaltação da Lei Natural para além da sua justa medida, que é a da regulação dos entes submetidos à corrupção da Queda? Se os gregos já tinham produzido a Segunda Navegação e superado, assim, o naturalismo fisicalista das gerações precedentes de investigadores, de onde os medievais tiraram então a revalorização da Natureza acima do seu nível de direito? De outras fontes, como até certo ponto também Agostinho o tinha feito. O que está em jogo é a sanidade filosófica do escape da dupla armadilha da Dialética do Ouroboros: nem rejeitar o Limite, e nem legitimar a Mistura. Isto é: nem negar a bondade de alguma natureza simpliciter revelada como expressão do Limite, e nem a idolatria de uma natureza secundum quid já condicionada pelo mau uso da Liberdade.

A natureza amável é aquela mais pura e mais simples, gerada pela vontade divina e não pervertida ou deturpada pela agência de quaisquer outras vontades, e não aquela que foi arruinada pela ação humana.

Mais adiante, no Capítulo 21, ao tratar do emprego das máximas, Aristóteles mostra com clareza como a arte retórica tende à mentira e à corrupção:

É persuasivo, e isso não deveria nos surpreender, o discurso que não só confirma as opiniões que o público já possui, mas que usa de sua arte, como com o emprego de máximas, para tornar essa opinião valorosa com as formas da Sabedoria (principalmente através da pretensão de universalidade).

E também é persuasivo o discurso que versa sobre coisas nobres e qualidades virtuosas, porque se supõe que aquele que fala do que é superior possui em si próprio algo de superior.

Em suma, o ser humano está geralmente predisposto a enganar e a ser enganado, e cria até mesmo uma arte refinada com o propósito de conquista e dominação da vontade alheia, independentemente da bondade ou verdade de suas idéias.

Assim como o discurso poético tem o potencial, derivado de uma capacidade humana geral para a mentira, de produzir uma falsa imagem da verdade, também o discurso retórico possui este potencial, embora o desenvolva em outra direção, não por artes imitativas, mas por artes discursivas.

Dito isso, o componente mais crucial da arte retórica como um todo, e que a inclina para a malícia ou corrupção derivadas de algum grau de Presunção, é o fator da busca do verossímil à revelia do provável em face de uma decisão tempestiva. O discurso retórico quer persuadir um árbitro, ou juiz, a decidir em tempo hábil sobre o objeto em disputa, e portanto sacrifica o desejo pelo que é bom e verdadeiro em face daquilo que parece ser bom e verdadeiro, isto é, opera uma espécie de troca do Amor (pela verdade) pelo Poder (para agir).

Isso significa que qualquer situação que leve um agente a ser persuasivo não por força das circunstâncias, mas por Pretensão, constitui uma tentação para a malícia.

Igualmente, aqueles que são amantes do Bem e da Verdade agem como seres livres da necessidade da arbitragem em qualquer disputa a que não sejam obrigados a participar por força maior, e se dão o direito mais nobre de buscar o mais provável ou certo, podendo assumir em seu benefício o fato de sua ignorância, sem sofrer a pressão como fazem aqueles que se escravizam em busca do Poder.

Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,3

Brightburn, filme por David YAROVESKY

O casal Breyer deseja ter filhos. A primeira cena do filme mostra pilhas de livros com o tema da gravidez, sugerindo que o desejo da maternidade é uma obsessão, provavelmente da parte da mulher, Tori.

Enquanto o casal se entrega às preliminares para mais uma tentativa de causar uma gravidez, as luzes piscam e então ocorre um tremor, como causado por um impacto. Os dois verificam pela janela da casa que algo caiu na floresta próxima, algo que emite uma misteriosa luz vermelha.

Como se trata de um filme de terror, mantém-se um mistério no decorrer da história, mas aqui podemos exibir a ordem cronológica: basicamente o casal encontra um bebê dentro do que seria, supostamente, uma nave espacial. E decidem juntos criar o menino como se fosse seu filho, que será reconhecido como adotivo. Ele se chamará Brandon.

Aos dez anos de idade Brandon será afetado por alguma influência da sua nave de origem, descobrirá que tem poderes extraordinários, e decifrará a mensagem na língua misteriosa que lhe diz: “tome o mundo“.

O menino aos poucos vai se tornar um vilão, por não aceitar mais as limitações impostas pelas circunstâncias normais da vida de um garoto de dez anos de idade. Eventualmente comete seu primeiro assassinato, e daí para frente não tem mais retorno. A culminação da história estará no homicídio de seus pais adotivos, primeiro o pai e depois a mãe, ambos mortos na circunstância de terem decidido eliminar a criança.

O que temos de importante, espiritualmente falando, é um duplo alerta que enfatiza o dom da Vigilância.

Primeiro, observamos na obstinação da mãe uma cegueira particularmente perigosa que serviu apenas para a leniência diante da consumação do mal para uma série de pessoas (e, como o filme vai sugerir ao fim, talvez do mundo inteiro). No começo do filme Tori se mostra obcecada com a idéia da gravidez, e foi dessa obsessão que saiu a idéia de criar o bebê que caiu na floresta em primeiro lugar. Depois, ela não quer aceitar a hipótese de que há algo de muito errado com o rapaz, quando já tem razões de sobra para concluir racionalmente o contrário. Se não fosse obcecada, Tori poderia ter deixado outras providências e circunstâncias terem interferido com o aparecimento do bebê, e depois teria dado chance para que outras pessoas, inclusive seu marido, pudessem sobreviver aos ataques da criança. Não seria de todo impossível inclusive fazer o menino alterar sua disposição com relação ao mundo, etc., mas isso requereria que Tori quisesse viver no mundo real, e não na sua ficção. Se a nave de origem de Brightburn lhe influenciou numa certa direção, porque seus pais, e principalmente sua mãe, não poderiam ter contraposto essa influência com outra maior na direção oposta? Não nos esqueçamos que todos os atos de violência do menino têm como motivação uma frustração com outros seres humanos, o que é uma experiência normal para qualquer adolescente. Diante dos limites impostos por regras e convenções, conhecendo sua superioridade, o menino não sabe como agir, e vai aceitando a sugestão da programação que vem da nave (ou que ele acha que vem da nave). Tori poderia ter sido uma influência para o bem, se quisesse, mas não poderia fazer isso enquanto negasse a verdade dos fatos. E o que o filme sugere é que a criação de Brandon não foi boa o suficiente, até antes do momento da influência da programação advinda da nave, para que o rapaz contrapusesse por sua própria conta essa nova afetação à um quadro estável, forte e profundo de valores que gerassem na sua consciência uma oposição moral suficiente para impedir a sua decadência. Por exemplo, a influência de valores morais que estariam acima até de um extraterrestre superpoderoso vivendo entre humanos fracos, como os valores que a família Kent teria transmitido ao jovem Superman. Ora, quem foi a pessoa mais responsável entre todas, no mundo inteiro, por ajudar a criar essa consciência moral no jovem Brandon? Tori. Ela falhou. Não se deve supor que as leis dos homens e os seus sistemas de fiscalização e punição serão sempre suficientes para impedir a ação criminosa. Muito mais poderosa é a capacidade de autocensura e o autocontrole de natureza moral. Mas isto requer o reconhecimento da grandeza de uma instância que está acima dos homens, as famosas leis não escritas às quais já os antigos gregos se referiam, ou o Temor de Deus ensinado pela Revelação, etc. Será que Tori se preocupou em aprender ela mesma essas noções, ou em transmiti-las ao seu filho? Ou ela só estava preocupada em viver a fantasia pequena e mesquinha de um papel vazio de mãe?

Segundo, Brandon, que se tornou o vilão Brightburn (em homenagem à cidade em que foi criado), poderia ser comparável com qualquer algoz real da humanidade. Quem deseja um filho nunca imagina que este possa ser um vilão de verdade, mas de onde os vilões saem? Do nada? Não, eles saem desse desejo irracional de multiplicação das Obras da Carne. Isto se aplica ao caso, porque ainda que tenha sido adotado, Brandon o foi no contexto do desejo particular de Tori de ser mãe. Ela não considerou qual seria o possível efeito negativo de criar uma consciência sensível que seria afetada pelas várias brutalidades e limitações do mundo, como por exemplo as mães de estudantes revoltados costumam desconsiderar, e depois se surpreendem quando o resultado dessa sua temeridade acaba em violência. Não é estranho, quando sabemos que ocorreu algum tiroteio em uma escola, provocado por exemplo por um jovem perturbado, talvez vítima de bullying, que esse tipo de crime ainda surpreenda tantas pessoas, quando deveria ser mais previsível que isso ocorresse eventualmente dada a relativa absurdidade da condição humana quando esta não é justificada por valores superiores e transcendentes, como o da vida na Presença? Todos os tiranos, psicopatas, sociopatas, assassinos, torturadores, estupradores, ladrões, etc., são todos filhos das mães, produtos do desejo de pessoas como Tori. E, como diria Agostinho, se o ser humano se abstivesse dessa vontade irracional, nada menos que o advento do Reino de Deus seria antecipado, e em uma geração o domínio de Satanás sobre este mundo seria destruído eternamente.

Já sabemos, porém, que não vai ser assim…

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

A infinitude de Deus, livro por Duns SCOT

Este livro foi feito a partir de um trecho da Lectura de Duns Scot, Livro I, Distinção 2, Parte 1, Questão 1: “Se entre os entes há algum infinito em ato“.

O autor, franciscano, intitulado “Doutor Sutil” pela própria Igreja Católica, que depois inclusive o beatificou, fará os contrapontos ao aristotelismo dominicano conhecido através dos trabalhos de expoentes como Alberto de Colônia e Tomás de Aquino, revalorizando noções caras aos estudiosos de sua ordem, como as aprendidas pela filosofia agostiniana. Duns Scot está, no âmbito da filosofia franciscana do Medievo, entre Boaventura (o “Doutor Seráfico”) e Guilherme de Ockham (o “Doutor Invencível”), e sua obra certamente faz uma ponte entre esses pontos de entrada e saída do período.

Entre essas noções encontramos a da limitação dos intelectos criados diante de verdades mais acessíveis (ou até exclusivamente) por um ato de Vontade, inclusive e principalmente pela iluminação da Fé. Por exemplo:

O conhecimento da verdade “per se nota” dos termos é obrigatória como hipótese, mas não como realidade. A proposição sobre o Ser divino, ou sobre a sua infinitude, não pode ser negada como possibilidade, pois não possui contradição interna; mas só pode ser assentida como verdadeira por um ato de Fé, ou por demonstração. Não nos esqueçamos, porém, como o próprio autor nos lembra, que mesmo na demonstração a premissa maior é presumida como evidente ainda que não o seja, por ser intuitiva em si mesma ou porque resultou como conclusão de outra demonstração. Ora, a maior desse tipo de proposição “Deus É” ou “Deus é infinito em ato” contém uma essência indemonstrável por definição, que é o próprio Ser divino. A evidência intuitiva disso é um produto da Fé, e não do raciocínio e da demonstração, porque pelo pensamento sempre se poderia considerar de outro modo, como ocorre aliás com a dúvida maliciosa dos sistemas luciferianos e adâmicos. Assim, mesmo que esse tipo de proposição possa ser demonstrada racionalmente, sem o recurso à evidência produzida pela Fé, o mesmo não pode ser dito da premissa maior do raciocínio, a não ser por hipótese. Sem a Fé, a psique pode afirmar que algum ser divino com tal essência poderia possuir o ser ou a infinitude por necessidade formal, mas não poderia assentir a isso para além do nível hipotético, ou seja, meramente de que isto seria possível. É a Fé que dá a intuição de que as coisas são assim. O mesmo se pode afirmar do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária em seu Proslogion: sua “prova” serve como evidência para quem já tem a intuição gerada pela Fé a respeito da verdade da premissa maior do argumento. Se não fosse assim, qual seria o mérito humano de aceitação da iluminação divina? E qual seria, mais ainda, o mérito do Espírito Santo de conceder o dom sobrenatural de conhecê-Lo? E a própria pregação não seria nem produzida e nem aceita por força da vontade humana, mas como um processo pedagógico como o das ciências em geral.

As luzes naturais, que também são um dom de Deus por sinal, não podem violar a sacralidade da liberdade humana. Caso contrário o próprio Pecado Original e a Queda de Adão não seriam possíveis, pois o primeiro homem possuía essas luzes naturais do modo mais eminente e perfeito possível, e nem por isso ele resistiu à malícia de desconfiar da natureza divina. Ora, nem Lúcifer resistiu. Então há um ato de vontade que move o intelecto para aceitar intuições de verdades que superam as capacidades racionais naturais de qualquer criatura. As criaturas são livres para escolher, e todos são livres para atualizar sua realidade espiritual diante de Deus, e para tomar suas decisões com relação ao seu destino eterno. Deus fez assim. Duns Scot foi um filósofo cristão que quis mostrar isso, mesmo que isso custasse, por exemplo, a perda de um poder dogmático e magisterial totalitário como o da Igreja medieval. E é claro que os totalitaristas teocráticos até hoje não o perdoam por isso, chamando-o de “voluntarista”, etc. Se condenam tanto um defensor da liberdade humana, porque não dão mais um passo e condenam também o Criador dela? Sejam íntegros e coerentes. Eu amo a liberdade porque amo o seu inventor, e amo tudo o que Ele faz, porque tudo que Ele cria é bom. Duns Scot também amava. Nós não temos que prestar contas para tiranos, humanistas, ou idólatras.

A Igreja Católica perdeu autoridade porque perdeu carisma e legitimidade moral, e não porque alguns filósofos franciscanos inventaram doutrinas como o Voluntarismo ou o Nominalismo. É tão mais fácil acusar do que assumir erros. Se não me engano Jesus ensinou algo sobre isso, não foi?

O que tradicionalistas e conservadores católicos deveriam observar é que o título de Mater et Magistra não é um privilégio. É um encargo. Quem mais quiser se exaltar mais deve servir, e não ser servido. Ser sal da terra e luz do mundo não é um poder mágico concedido por participação em rituais religiosos. É um dever moral de dar o testemunho por atos. Por séculos e mais séculos A Coisa se envolveu com corrupção, tirania e crueldades, e a culpa do declínio católico é de alguns filósofos franciscanos? Façam-me o favor…

Nos números 45 e 48 encontramos distinções importantes entre causas essenciais e acidentais que nos ajudam a entender porque Jesus afirma “a ninguém na terra chameis de pai” (Mt 23:9), do ponto de vista da filosofia cristã:

Em sua nota, Sidney Silveira diz: “Um filho insere-se numa série causal acidentalmente ordenada. Para que ele viva não é necessário, por exemplo, que os seus tataravós –causas distantes do ser do filho, na série– estejam vivos“. Aí pergunto eu: e os pais carnais diretos, são necessários vivos por serem causas mais próximas? O pai só é necessário até a fecundação, e a mãe até o parto. E isso em se tratando apenas da causalidade acidental, é claro. Sem a causa primeira, porém, o filho não poderia existir jamais, e nem subsistir de nenhum modo, nem por nenhuma duração. Quem, portanto, é pai?

Já falamos disso. Abraão é pai de Isaac? Digamos que seja, como é o costume que se diga. Mas não é pai de Sarah. Então como podemos dizer que Abraão é pai? Ele é e não é ao mesmo tempo. É por acidente, numa circunstância. E apenas por um tempo, porque nem é mais: Abraão já morreu, então nem dizemos que Abraão é pai de Isaac, apenas que ele foi isso e já não é mais. Mas Deus é pai de Isaac, como sempre foi e sempre será, tanto quanto foi, é e será sempre pai de Sarah, e do próprio Abraão, etc. Ou seja, Deus é Pai de modo essencial e eterno. E não se pode dizer que Deus dependeu de Abraão para ser pai de Isaac, como se existisse dependência, porque um Deus que depende da criatura em qualquer medida ou sentido não pode ser Deus de modo absoluto. Foi isso que Jesus ensinou quando disse que só Deus é Pai. Foi o Pecado Original que introduziu confusão e idolatria na história humana. Mas o Filho de Deus veio nos libertar de todas essas trevas, para que triunfe a Glória do único e legítimo Criador para sempre.

Continuando no número 48, Scot afirma:

É óbvio que os pais carnais não podem produzir a Mônada, ou a Alma. A Substância Simples não pode ser gerada nem corrompida, pois não possui partes. Só pode ser criada e aniquilada por um ato divino. O que as causas acidentais produzem é a experiência da interface persistente da Percepção, isto é, um corpo, para uma mônada criada por Deus, e o fazem imperfeitamente desde a sua condição, gerando o que é corrompível e perecível, destinado à morte, enquanto a criação divina é perfeita e destinada à imortalidade.

Nestes próximos parágrafos encontramos mais noções interessantes sobre o problema da relação entre as causas:

Diga-se do exposto o seguinte: que a causa primeira perfeita e infinita não depende de nenhuma causa segunda, senão para a produção daquilo que é imperfeito, mas de modo não essencial, só pelo acidente –e só do nosso ponto de vista– da volição da causa imperfeita. A Deus não pode faltar o que lhe permita criar qualquer ser do nada e de modo perfeito. A criação de imperfeitos depende de causas segundas, como a vontade de Adão e Eva, mas Deus não dependia disso para qualquer finalidade, inclusive para a criação de um ser livre para errar, porque o Limite não é um defeito do ser criado, como crêem os gnósticos, mas condição da sua forma substancial. Só pelo acidente da vontade imperfeita de subcriadores contingentes existe a criação de seres imperfeitos, como se observa com o Pecado Original. Mas até último ser criado sob a condição da imperfeição ainda é criado por Deus de modo eminente e primário, ou não teria substância verdadeira. Daí a virtude criativa de Deus alcançar toda a ordem de seres criados por quantas causas secundárias existam, por possuir virtude infinita.

O livro aborda apenas uma parte bem limitada da obra de Scot, de modo que não há mais o que apreciar para nosso proveito além do que foi visto.

Mostra-se o suficiente assim, porém, para percebermos que nem o aristotelismo e nem o tomismo foram filosofias definitivas para o Século XIII, nem para qualquer outro período imediatamente posterior. Foi só no tempo moderno, quando os efeitos mais longos da separação de teologia e filosofia foram sentidos, que a Igreja, ou uma parte dela, resolveu retroagir seu entendimento e revalorizar essas doutrinas vencidas à época. Mas pelos frutos históricos sabemos o que teve mais sucesso de fato, e os motivos, e as consequências, etc.

Nota final: 5,2 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria7
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,2