The Sopranos, série por David CHASE

Divertida e bem feita, a série The Sopranos conta a história dessa família americana, descendente de italianos, que é envolvida na atuação da Máfia no estado de New Jersey, especialmente através da pessoa de Tony Soprano que se torna o chefe de facto da organização naquele estado desde a Primeira Temporada.

Por melhor que seja o entretenimento, porém, esta não é uma comédia. Há muitos alívios cômicos e muita variedade de sentimentos e símbolos, mas a série não pode ser espiritualmente inócua como alguns pretenderiam que fosse o caso, inclusive o falecido James Gandolfini, que interpretou o próprio Tony Soprano.

Para a nossa finalidade aqui, consideremos que apesar de termos alguma vantagem nos territórios da Soberania e da Vigilância com esta série, no fim das contas o testemunho espiritual que ela produz é negativo. Mas o seu simbolismo, por tratar justamente da condição humana de um ponto de vista bastante universal, embora não contenha saídas legítimas (por exemplo, todas as figuras cristãs na série são religiosas e vazias), retrata ao menos a parte negativa da experiência humana de modo fiel, e neste sentido é que podemos aproveitar algo da série, espiritualmente falando.

Tony Soprano é como um Adão, e sua esposa Carmela é como uma Eva. E a série conta basicamente a história da sua Queda, por vários ângulos diferentes, e a sua insistência em viver uma vida mentirosa, ou seja, sem Deus. Os demais personagens ilustram variadas repostas a esse pacto central voltado para a idolatria da família, dos costumes, etc. Nada nos permite acreditar que os ancestrais dos Soprano fossem melhores que eles, mas persiste essa insistência na lenda do valor passado, de modo que a tendência da série é de niilismo, cacolatria, ou de idealismo imanentista do passado.

Tony é um ladrão, adúltero, mentiroso, assassino e outras coisas mais, que não quer acreditar na sua própria Liberdade de agir diferente. Pior do que isso, não só ele recusa o Bem voluntariamente, repetidamente, insistentemente, mas ele ainda detesta que outros queiram a mesma Liberdade de crer e escolher o Bem que ele nega para si próprio, e odeia até mesmo que outros ousem sequer acreditar nela, e age deliberadamente para impedir que possam escolher melhor que ele, ou para ao menos desmoralizá-los. Seu fatalismo é a crença que baseia o seu caráter depressivo. E assim ele confronta todos os personagens que ousam contrariar a sua visão de mundo, todos na sua família (com uma certa ambiguidade apenas com relação aos filhos), todos nas suas relações de negócios, e inclusive a sua terapeuta, a Dra. Melfi. Tony não é simplesmente um criminoso e pecador que precisa de Redenção. Ele rejeita deliberadamente a Redenção e se aproxima, assim, do que chamamos de Pecado Mortal, ou Pecado contra o Espírito Santo. Muitas vezes, diante de tragédias, ele questiona: “que Deus é esse?“, sem se perguntar seriamente como todas essas coisas supostamente trágicas vieram a ocorrer de fato, porque isto obviamente o levaria a questionar a sua própria escolha de vida neste mundo, os ídolos do passado, etc. Somente no fim da série Tony vai entender finalmente que não há fatalismo determinista que o obrigue a ser quem ele é, e que sua Liberdade é muito real na escolha do Mal, como veremos.

A série possui a marca desse fatalismo determinista, que já faz parte até da música de abertura (Woke Up This Morning) onde o refrão diz “mas você nasceu sob um mau sinal, com uma lua azul nos seus olhos“. O termo “blue”, uma referência à cor azul, é um símbolo da depressão e da tristeza. A série mostra o corpo de Tony lutando contra a sua vontade de rejeitar o Espírito Santo: por reprimir seus sentimentos mais legítimos ele tem ataques de pânico e ataques de raiva, coisas que o levam a se consultar com a terapeuta, Dra. Melfi. A origem do seu estresse está obviamente na depressão, ou tristeza, que ele não quer assumir e resolver de fato, porque isso envolveria uma transformação muito grande pelo questionamento das grandes mentiras que ele aceitou desde sua infância, as crenças da suposta qualidade moral de seus pais, de seu tio, da própria Máfia como um todo, etc. Sua solução, obviamente falsa, está na aposta redobrada na mentira.

Sua esposa, Carmela, faz praticamente a mesma coisa que Tony, embora por outros caminhos. Ela sabe que se prostituiu ao marido em troca de bens materiais e da falsa imagem da família unida, um ídolo que ela compartilha fervorosamente com o marido. Ela não quer romper com essa mentira e assumir as consequências, e redobra também a sua aposta na mentira, até se tornar vítima ela própria do ciclo de violência que sempre foi a realidade secreta que sustentou a sua vida. Sua religiosidade é abjetamente hipócrita e superficial.

Os filhos do casal Soprano, Meadow e Anthony Jr. (“AJ”), conforme amadurecem, precisam deliberar por si mesmos a respeito dessa herança espiritual hedionda que seus pais lhes transmitem.

A moça, que é a mais velha, por vezes parece querer decidir por romper com o esquema, mas acaba por se convencer pela conveniência de uma certa acomodação. Conforme Meadow decide por si obter sucesso no mundo, pela sua carreira, ou cogitar a construção da sua própria família com os votos de matrimônio e maternidade, ela entende que o caminho para essas realizações é, senão o mesmo, ao menos análogo ao trilhado por seus pais, e com isso vive até certo ponto uma corrupção moral em si, embora com algumas ambiguidades. A última manifestação de um eco da sua Liberdade interior veio quando, alcoolizada, ela não resiste ao sentimentalismo de seu tio-avô, quando este canta Core Ingrato no velório se seu ex-namorado, Jackie Aprile Jr. Ela zomba e depois sai correndo do pai, quase sendo atropelada. Mas Meadow não é consequente na sua reação, ou ao menos não formaliza uma reflexão mais séria a respeito, e termina como uma personagem morna, talvez a única sobrevivente da família ao fim da série.

Já AJ amadurece de forma bem mais traumática. Ele revive episódios de ataques de pânico e de ira, como os sofridos por seu pai, mas vive sua depressão de um modo diferente, aceitando a tristeza como um sentimento legítimo, ao invés de negá-la. Eventualmente, mais para o fim da série, na Sexta Temporada, ao reconhecer que o mundo não é o que deveria ser através da frustração de uma experiência amorosa, ele vai rejeitando uma por uma todas as mentiras e confortos que seus pais apontam, seja comida, sexo, sucesso acadêmico, e mesmo as ambições de riqueza ou de violência. Finalmente tenta o suicídio, ou simula uma tentativa. Mas sua evolução na série não passa disso. Sua expressão mais legítima aparece numa sessão de terapia, quando ele afirma: “As pessoas andam por aí como se isto tudo importasse, elas ficam rindo e ninguém pára para pensar no que está acontecendo. Como é possível não estar [deprimido]? Só sendo maluco para não se deprimir. Sua cabeça teria de estar tão enfiada no rabo que só o que conseguiria ver é a própria cara estúpida. Tudo está tão fodido. Por que não podemos todos apenas nos entender?“. É o adolescente no limiar da maturidade de descobrir que o mundo em que seus pais lhe colocaram está muito longe de ser o conto de fadas que se poderia supor. Porém, na confusão emocional, ele não consegue separar ainda o que é a motivação pessoal do seu fracasso particular com a mais complexa realidade da vida e do mundo onde é sim justificável que as pessoas possam rir. Mas ele não tem chance de ampliar sua visão, ou não quer se dar uma chance de entender a profundidade do problema, e eventualmente arruma uma nova namoradinha e todos nós já sabemos onde isso deve dar. Novamente parece-nos particularmente forte a busca do homem jovem de um resgate do paraíso perdido da farsa da mãe na forma de uma nova farsa, a do matrimônio, onde a esposa supre essa carência. Deus não é buscado.

Com Christopher Moltisanti, um primo de Tony que é tratado pelo mafioso como sobrinho, e às vezes até como filho, revemos o drama da escolha diante do suposto destino fatal e até com maior clareza, porque ele faz parte da Máfia. Christopher acaba mantendo-se fiel à Tony e ao seu pacto de sangue, não porque seja leal por si, mas porque isso lhe convém pois não quer pagar os altos custos implicados na escolha pela Liberdade de rejeitar Tony e tudo o que ele representa para si, mais ou menos como Carmela. Quando tem a chance de salvar sua noiva e a si mesmo dessa vida desgraçada como criminoso, ele prefere a riqueza e o status do que uma vida honesta na pobreza. O problema é que Christopher não consegue bancar sua traição contra o Espírito como Tony faz. O preço que paga é mais pesado. Ele se torna menos funcional e mais vulnerável aos seus vícios, o que o leva finalmente à morrer pelas mãos do próprio Tony na circunstância de um acidente de carro. A grande revelação do sentido de sua vida vem num momento em que ele muito ingenuamente se abre com o veterano Paulie sobre seus sentimentos pela filha recém-nascida, e é zombado com piadas cínicas e grosseiras que o tiram subitamente de sua fantasia. Os gângsteres vivem mais instalados na realidade do que idealistas tolos, sem Deus, como Christopher. É um personagem que não pode ser trágico, porque é apenas cego para o mundo e até para si mesmo. Sórdido que seja no seu humor mórbido, Paulie não será surpreendido pela dureza e crueldade da realidade. Já na primeira temporada, quando Christopher reclamava de que lhe faltava “um arco” na sua história, o jovem pergunta: “você já teve a impressão de que nada de bom nunca lhe aconteceria na vida?“, ao que Paulie responde: “sim, nada aconteceu mesmo, e daí?“. Se achando especial, mas sem encontrar a sua especialidade com o Amor de Deus, Chistopher apenas se iludiu com sonhos enganosos, e não foi por falta de aviso.

O mencionado Paulie Gualtieri, aliás, é um personagem muito peculiar. Tão culpado por mentir, roubar e matar quanto qualquer outro, separa-se porém dos demais por suas superstições e uma conexão confusa com o mundo sobrenatural. Solteiro e sem filhos, ele vive misturado, mas ao mesmo tempo separado. Teria ele alguma intuição confusa e subconsciente do sentido da realidade? Alguns exemplos da falas estranhas de Paulie mostram a sua desconfiança com relação à natureza das coisas: “Uma coisa incrível sobre as cobras é que elas se reproduzem espontaneamente. É por isso que se chama de ‘cobra’ alguém em que você não confia. Como você poderia confiar em quem se fode a si mesmo? As cobras já estavam se fodendo muito antes de Adão e Eva“, “Mantenha-se solteiro enquanto puder“, e “Por que mijar, cagar e foder ocorrem todos num raio de duas polegadas?“. Ao fim ele tem uma visão súbita da Virgem Maria na boate Bada Bing (exatamente onde as garotas costumam dançar seminuas), se reconcilia com sua tia por ter se passado por sua mãe, e então recusa uma oferta de Tony e renuncia a assumir uma posição de maior prestígio e riqueza na Máfia, acreditando que isso traria alguma má sorte para si. De todos os personagens principais da série, Paulie é o único que se pode afirmar com maior segurança que tenha sobrevivido a todos os eventos da última temporada. Ambiguamente, ele participa de tudo o que não presta, mas não do mesmo jeito que os outros. Está junto, mas não misturado.

Mas quem na série teria alguma chance de elevar sua consciência a um nível de entendimento superior?

A grande chance foi da Dra. Melfi, a terapeuta de Tony que se achava muito esperta mas demorou seis temporadas para perceber que o mafioso era mais inteligente do que ela. Um apreço pela alta cultura, aliada a um certo intelectualismo, às vezes confundem certas personalidades deslumbradas e as fazem se sentir superiores aos outros. Ao invés de forçar o bandido a confrontar suas mentiras, Melfi preferiu se deixar seduzir pelo poder e charme de seu paciente. Só conseguiu se libertar de sua ilusão quando foi praticamente forçada a reconhecer a capacidade de um sociopata de manipular o processo terapêutico para se tornar mais funcional justamente como criminoso. Eu achei essa descoberta maravilhosa. Afinal, se o objetivo do estudo e tratamento da psique é tornar os seres humanos mais funcionais, o que isso significa num mundo governado por Satanás? Tony Soprano é um caso óbvio demais, e toma a forma de um desvio ou anomalia do propósito da psicoterapia. Mas será assim mesmo? Sutilmente, o mero objetivo da funcionalidade psíquica não serve apenas para a manutenção do Sistema da Besta?

Uma hipótese esclarecedora mais potente sobre o sentido da vida vem de Lívia, a mãe de Tony, que diz ao neto, AJ: “É tudo um grande nada.” Essa serpente niilista, odienta e odiosa, traumatizou Tony que só pôde se defender desse ataque espiritual se refugiando na ilusão de valor do pai, o mafioso que quis imitar como se fosse um conquistador da vida e alguém que pudesse responder ao desafio de Lívia. É tudo uma grande mentira.

As idéias espirituais mais explícitas na série aparecem em três vertentes.

Primeiro são sugeridas na representação da forte presença da cultura católica no seio dos ítalo-americanos, mas apenas na forma de hipocrisia e sentimentalismo, ou no sentido de um certo orgulho identitário. O Padre Intintola, por exemplo, é desmoralizado como um aproveitador, embora seja notável que resista à tentação de cometer adultério com Carmela. Ele não consegue responder satisfatoriamente para ela a origem e o sentido do desejo sexual, porém. Mantém-se uma liderança espiritual fraca, como todos os cristãos que aparecem mais tarde, como o Pastor Brewster que visita Tony que está doente no hospital. Os cristãos parecem ser ingênuos ou aproveitadores inescrupulosos.

Além disso, o segundo tipo de sugestão vem de algumas idéias espirituais gnósticas que aparecem na forma de uma certa ideologia da Nova Era. Há testemunhos do Budismo sobre a dissolução da ilusão do eu numa visão que Tony tem durante o seu coma, e também uma idéia monista gerada a partir de alguns elementos da Física Quântica, trazida pela influência de um paciente hospitalizado junto com Tony.

Por fim, as idéias espirituais mais substanciais aparecem pela intervenção de um elemento sobrenatural sutil na história, em experiências como as de Paulie, mas principalmente com o próprio Tony. Isso começa através de sonhos passíveis de interpretação pela atuação da Dra. Melfi, mas depois se amplia para visões durante o seu coma, e principalmente na experiência mais significativa de toda a série que ocorre no episódio 18 da última temporada, “Kennedy and Heidi“.

Neste episódio Tony mata Christopher depois de um acidente de carro. Aos poucos ele fica satisfeito com sua ação, e cada vez mais feliz, na verdade. Ele não suporta fingir o luto, nem ter que sequer justificar para si mesmo o seu ato, e nem o falso valor da vida familiar no qual no fundo começa a perceber que não acredita. Num relance, da parte superior de sua casa, Tony vê na sala abaixo a viúva de Christopher amamentando a filha, enquanto a avó, mãe de Christopher diz: “Ela não sabe de nada. Deus não é mesmo maravilhoso?” Sua posição neste momento é muito simbólica. Ele, desde cima, como um “deus”, também olha para essas mulherzinhas tontas e cegas sendo maravilhoso ele mesmo ao não compartilhar com elas as verdades que elas não aguentariam. O próprio ato amoroso de amamentar, que normalmente significaria segurança e cuidado, se mostra como parte de um esquema de acobertamentos do mal, ou até como a nutrição de uma promissora futura cumplicidade na ignorância. Essas sutilezas na série são fenomenais. Tony já não aguenta mais ficar no meio desse teatro patético representado por atores inferiores. Decide ir para Las Vegas espairecer.

Durante sua viagem a verdade é revelada. Inicialmente Tony perde ao jogar no cassino, continuando sua maré de azar que já vinha de tempos antes. Mas então toma droga (peiote) com uma prostituta. Volta aos jogos. Uma significativa imagem de um diabinho parece lhe sugerir alguma coisa qualquer. Então ele começa a ganhar repentinamente, e de forma espantosa. “Ele está morto!“, comemora. Era preciso que matasse Christopher para destravar algo em sua vida. Mais tarde, numa paisagem desértica inspiradora, Tony vê um flash de luz saindo do sol vermelho no horizonte, várias vezes. Ele se levanta, comovido, ergue os braços e proclama: “Eu entendi!” Está eufórico, mas não parece realmente feliz, e sim aliviado porque algo lhe foi esclarecido. Ri e chora ao mesmo tempo. Seus sentimentos estão confusos diante de uma revelação profunda. Ri porque entende algo muito valioso, mas chora porque o que ele entendeu é terrível.

Não é novidade nenhuma que o uso de drogas psicodélicas é um meio comum de liberação de acesso da consciência humana para a comunicação com espíritos infernais. Qual mensagem Tony teria recebido ali, naquele deserto? A resposta me pareceu muito simples na segunda vez que assisti a série. Tony entendeu uma grande verdade que esclareceu-lhe o sentido de sua vida: este mundo pertence ao diabo, e aqueles, como ele próprio, que servem apenas aos seus desejos de poder e satisfação, não precisam prestar contas senão a si próprios, porque este mundo lhes pertence. Christopher precisava morrer porque, embora vacilasse na sua escolha, o próprio Tony, não vacilando na sua própria decisão, fez apenas o que lhe cabia na sua própria Liberdade. Tony tomou consciência do sentido espiritual de sua própria decisão, finalmente. Sua jornada de autoconhecimento alcançou o ápice. O propósito de sua vida foi realizado e ele está pronto para morrer em breve.

O que Tony não conseguiu encarar através de todos os seus anos de terapia, a experiência com a droga no deserto de Las Vegas o obrigou a ver: que ele fez o que quis com a vida que teve. Não importa mais fingir que sua vida foi fatalmente predeterminada pela sua vontade de agradar e obter o amor de seus pais, e de fingir que eles eram bons. Foi ele quem trocou o Deus verdadeiro e seu Amor pela idolatria da família e, principalmente, pela busca do Poder. Tony não precisa mais fingir que não consegue mudar sua vida, porque agora ele sabe que não quer fazer isso.

É muito conveniente atentarmos para o sentido da Liberdade independente de quaisquer transgressões particulares: o que o ser humano precisa conhecer é a sua própria Arbitragem a respeito do Amor divino, isso já tendo como pressuposto, como diz o apóstolo Paulo, que todos são pecadores e que ninguém se salva por si (“Deus encerrou a todos na desobediência para a todos fazer misericórdia“).

Esses dois personagens de quem falamos aqui, Paulie e Tony, por exemplo, são comparáveis e semelhantes por todos os seus crimes e pecados, mas suas decisões diante de uma visão do Sagrado são diferentes: um restringe sua vontade por confiança em algum Bem transcendente que ele não entende direito mas ao qual quer se submeter, e o outro a libera completamente de qualquer restrição.

Nota espiritual: 3,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte1
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,4

Amar a Deus é uma questão de Justiça

Já me reclamaram, a partir de uma visão empesteada pelo vício religioso, que é muito difícil seguir as leis divinas, agradar a Deus, etc. Tudo isso é falso. O que Deus quer é que pratiquemos o bem que podemos praticar, e não o impossível. É claro que sempre podemos melhorar, o que cria uma condição de relação contínua com o Espírito Santo para que cresçamos na vida da Graça. Mas o impossível não faz parte do que se requer de nós.

Quando Jesus diz que devemos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, ele afirma duas coisas: 1) que devemos ser generosíssimos no Perdão e na Misericórdia, que é o contexto imediato do que ele explicava; e 2) que em tudo aquilo que não podemos ser perfeitos ele próprio, Jesus Cristo, Filho do Homem, é perfeito por nós, bastando-nos portanto estarmos ligados à ele para que ele nos justifique perante o Pai.

O que atormenta o ser humano que se pensa cristão, mas que ainda precisa se converter, é o saco de mentiras religiosas que ele carrega nas costas por sua própria culpa. Depois de Jesus Cristo não há mais razão para a escravidão do pecado e da mentira. Ele nos libertou. Quem se mantém escravo da mentira depois de conhecer o Evangelho é agora mais responsável ainda por sua condição do que era antes de receber a Boa Notícia, especialmente quando isso se dá pela participação na mentira da Religião. Por isso Jesus diz que haverá mais misericórdia para Sodoma e Gomorra no Dia do Juízo do que para os religiosos, e que as prostitutas e os ladrões precederão aos religiosos na entrada da Salvação. Porque negar o Amor divino é pecar contra o Espírito Santo, é o pecado mortal que nega a própria essência da Salvação. Como pode querer viver para sempre, na imortalidade da Vida Eterna, aquele que ama a mentira e odeia a liberdade?

O Amor é uma questão de Justiça, tanto a Deus quanto ao próximo.

Amar a Deus é ser justo com Ele: não temos a vida e os bens da vida por nós mesmos, mas pela Graça. Se vivemos pela Graça, em Sua Presença, já não temos nenhuma pretensão de sermos bons ou de possuirmos qualquer bem senão pelo Amor divino, e assim somos fiéis e justos com Ele. É disso que se trata.

Amar ao próximo é ser justo com o próximo: faça ao outro como você espera que façam consigo, e não faça ao outro aquilo que não quer que te façam. Isso é o suficiente para que a Justiça divina impere sobre a Terra.

Deus só quer de nós essa Justiça de ser reconhecido no seu Amor, como nosso Pai, e que reconheçamos o próximo como seu filho, nosso irmão. É só isso. Essa é a Lei. A Lei é o Amor. Mas os homens preferiram a mentira.

O que sempre arruinou a simplicidade dessa experiência é o espírito de Presunção que criou ambições fora do âmbito do Amor divino e do amor ao próximo, ou seja, ambições contrárias à Lei divina. E nenhuma ambição é pior e mais cheia de terríveis consequências do que o Pecado Original.

Em favor daquilo que identifiquei como a hipótese da Melhor Geração (ou “Última Geração”, no meu livro A Coruscância), é um dever cristão reconhecer a grande generosidade de Deus, mesmo em relação à nossa condição já tão avançada de desenvolvimento da decadência e da corrupção do nosso decaimento. Sim, nosso Senhor é generoso. E o que nos custa colher os frutos da sua generosidade? Apenas abandonar a Pretensão de viver alheios à sua Vontade.

A maior parte da humanidade vive tragada pelo costume de traição contra o Amor e contra a Sabedoria de Deus. E não faz muita questão de se libertar. Isso é provado pelo desprezo com que os próprios assim chamados “cristãos” tratam a liberdade que Jesus lhes ofereceu e que desprezam todos os dias, fazendo-se escravos dos homens, e de mandamentos e costumes humanos.

Vamos deixar uma coisa muito clara aqui, especialmente para aqueles que pensam que isso tudo pode ser muito vago e impreciso: o Pecado Original é uma coisa muito exata e precisa.

Senão vejamos: feito à imagem e semelhança de Deus, o homem recebeu seu Intelecto e sua Vontade para conhecer a verdade e amar o bem. Quando não realiza essas metas, o ser humano frustra o sentido de sua vida. E todas as vezes que o ser humano se refugia na mentira de suas falsas ambições de poder sem Deus ele busca uma compensação vazia pela sua falha em buscar a verdade e o bem apenas em Deus. Esses serão os “fortes” que julgarão como fracos os que renunciam à mentira para buscar apenas a vida da Graça, na Presença.

Quando olho ao meu redor, vejo a abundância provida pela Graça sendo desperdiçada em vidas sem sentido, cheias de vaidade, ganância, disputas pelo poder, etc. Se a Graça fosse usada apenas para favorecer o relacionamento com Deus, quão fácil seria alterar essa condição?

Mas a maior parte dos seres humanos não quer isso, como prova o costume da perpetuação do Pecado Original.

Quem multiplica a Necessidade (no sentido grego da ἀνάγκη — anánkē) não deseja viver o benefício espiritual do provimento da Graça. Ao invés de bloquear o mal com a Cruz dada por Jesus, o Caminho, que nos ensinou a nos tornar Filhos de Deus, os Filhos de Adão querem multiplicar o mal que lhes foi feito originalmente, como se essa fosse a vontade de Deus para si. Não aceitam a liberdade, e um espírito maligno os atormenta e os lança na falsa solução do costume. Transformam uma deliberação livre de outros seres humanos num destino fatal.

Mas como poderá amar a Deus e realizar a correta finalidade da Vontade humana aquele que não vive pela Graça, mas permanece atormentado pelas consequências da sua rejeição da liberdade em Deus? E como poderá também este conhecer a Verdade e realizar a correta finalidade do Intelecto?

Não existe amor ao Bem e conhecimento da Verdade para quem deseja ser escravo da mentira e do mal. Só existe o salário do pecado, que é a morte. Tudo muito justo.

Como posso falar do Amor de Deus para quem está esmigalhando a Graça com suas ambições mundanas, alheio ao contentamento e, principalmente, ao dom do Louvor e da Presença? Quem não quer viver pela Graça e não quer esperar pelo Paraíso já vive a sua própria morte. Um morto não pode ouvir as palavras de Jesus, a Árvore da Vida, porque é como um ramo cortado.

Como posso falar da Sabedoria de Deus para quem quer usar toda a sua capacidade para entender de tudo, menos do sentido de sua própria existência e das coisas divinas?

Entendem?

Não existe Evangelho de verdade e não existe Filosofia de verdade PARA ESCRAVOS.

NÃO SE PODE FALAR DE LIBERDADE, AMOR E VERDADE PARA ESCRAVOS.

Os escravos ouvem, mas não entendem.

E não entendem não porque não conseguem, mas porque não querem.

Que assim seja, Deus seja louvado para sempre.

PS: tecnicamente falando, é inválida a omissão no amor a Deus pela justificativa de que há qualquer grau de sofrimento causado pelo uso discricionário da Arbitragem do Excesso de Mistura, seja por aquele que se omite, ou por terceiro.

Destrinchando o Gnosticismo

É conveniente esclarecer a diferença que existe entre o Gnosticismo como um conjunto histórico particular de crenças que pode (e deve) ser rejeitado, da Gnose já qualificada como uma dupla possibilidade de rejeição do Amor divino de acordo com a Monadofilia, e do Gnosticismo como o espírito contrário à liberdade da vontade (Soberania). Digo isso porque no meu trabalho às vezes esses termos não são tão claros no seu uso específico, principalmente para uma pessoa pouco estudada.

O Gnosticismo como conjunto histórico identificável de crenças costuma ser reconhecido por três princípios: 1) a idéia de um criador mau, geralmente chamado de “Demiurgo”, que prende almas ou espíritos numa dimensão inferior; 2) a idéia de que a maldade está na decadência da substância espiritual na substância material, ou corpórea; 3) a idéia de que a salvação da condição da prisão da matéria se dá pela obtenção da Gnose.

Já o Gnosticismo qualificado pelo entendimento filosófico da Monadofilia, especialmente sintetizado nos cinco conceitos sinóticos, é um sistema duplo de rejeição do Amor divino que abarca um esquema muito mais amplo de crenças. Nesta perspectiva o primeiro tipo de Gnosticismo é apenas uma das suas formulações possíveis, o caminho da Mão Esquerda, da Revolução Gnóstica, o Caminho da Caim, o Esoterismo Gnóstico. Do outro lado se posiciona o Gnosticismo da Mão Direita, da Tradição Gnóstica, o Caminho de Abel, o Exoterismo Gnóstico. No que essas duas formulações gnósticas se diferenciam, e no que elas se identificam? Elas se diferenciam porque propõe uma crença diferente diante do status quo da condição humana: por um lado, esquerdo, há a rejeição do Limite, e por outro lado, direito, há a legitimação da Mistura, em ambos os casos ocorrendo a sucumbência da Vontade diante de uma suposta Gnose revelada que obscurece o ato de assentimento a essas crenças. E se identificam porque são ambas formas de rejeição do Amor divino que só pode ser integralmente louvado pelas atitudes inversas tanto ao Esoterismo quanto ao Exoterismo gnósticos: através da aceitação do Limite e da rejeição da Mistura, atos de VONTADE LIVRE e não consequências de um conhecimento (Gnose) obtido para rejeição do Limite ou legitimação da Mistura.

Até aqui só estamos falando de crenças intelectualmente reconhecíveis nos seus componentes e no seu funcionamento lógico interno, porém não mandatórias pois não fundadas em premissas auto-evidentes e inquestionáveis. Ao contrário, essas duas crenças gnósticas, já mais qualificadas pela Monadofilia, são ambas formas de idolatria: o caso esotérico, a idolatria do Homem na forma da Presunção, como se o homem pudesse se tornar como Deus, e no caso exotérico, a idolatria da Natureza, como se a Natureza fosse divina ou pudesse conter o Ser divino de algum modo. A verdade é que o homem possui sua forma substancial definida pelo seu Limite, e que esta natureza é condicionada secundum quid por uma Mistura que é espiritualmente conveniente para a situação do ser humano presente, mas que não a determina essencialmente, pois não faz parte do Limite que constitui a sua forma substancial.

Entendemos, assim, como essas duas crenças gnósticas propõem um tipo de conhecimento, ou Gnose, que funciona como um dispositivo reativo diante da pressão da condição humana, por um lado oferecendo um grau impossível de Liberdade pela dissolução do Limite, que na verdade equivale a um desejo de morte, e por outro lado oferecendo uma aceitação abjeta e abominável da condição de Mistura de Luz e Trevas como se esta fosse necessária a qualquer ser possível. Quem não entender isso com clareza jamais entenderá o duplo golpe dialético do Gnosticismo. Existe uma condição real, inescapável, incontornável, de Mistura de Luz e Trevas. Todo ser humano sabe instintivamente desde o seu nascimento que isto não convém à sua própria Apetição. Há algo de errado com esta realidade. O que há de errado é a traição contra o Amor divino, perpetrada pelos praticantes do Pecado Original (o Pacto Ouroboros). A solução é a aceitação dos termos da vida presente como meio espiritual de assentimento livre na escolha do Amor divino, ou seja, o uso do mundo e das coisas do mundo como meio de negar o Pacto Ouroboros e confiar em Deus, aceitando o Limite como essência da nossa forma substancial e como meio da nossa realização com Deus, e rejeitando a Mistura como parte constituinte desse Limite interno à nossa forma, o que permite o aceite da Obra divina de Separação, ou Santificação, que é a única forma de solução, ou salvação, para a condição humana. Essa é a luta espiritual. O outro lado, porém, diante do mesmo quadro de experiência da Mistura, oferece uma dessas duas mentiras: ou a de que o Limite é mau, ou a de que a Mistura é boa. O ser humano que por natureza e temperamento é mais inclinado à rebeldia é levado ao esoterismo gnóstico da negação do Limite como se este fosse mau, e o ser humano mais inclinado à obediência é levado ao exoterismo da legitimação da Mistura, como se esta fosse boa. Em ambos os casos a Gnose, ou iniciação, de qualquer uma dessas mentiras leva o ser humano a rejeitar a Obra divina de Separação, ou Santificação: o esotérico não aceita Separação porque rejeita a Luz junto com as Trevas, e o exotérico não aceita a Separação porque só aceita a Luz se esta estiver eternamente misturada com as Trevas.

Existem duas Gnoses, enquanto crenças e caminhos iniciáticos, que afastam o homem de Deus: a Esotérica que nega a vida e deseja a morte porque rejeita o Limite como forma substancial de ser criatura, e a Exotérica que nega a Separação e deseja a perpetuação da Mistura da Luz com as Trevas. Contra essas duas mentiras gnósticas existe o Caminho de Jesus Cristo, o próprio Verbo de Deus Encarnado, que nos ensina a salvação como Filho de Deus: a aceitação do Limite, como um filho que aceita a sua dependência do amor paterno, e a rejeição da Mistura, aceitando a condição presente como Cruz e levando esta condição desgraçada até o seu fim, com a consumação da morte das Obras da Carne e a realização da Separação entre Luz e Trevas na forma da Ressurreição, na posse do Corpo de Glória.

Na mitologia do Éden nós temos a Queda de Adão e Eva pela traição contra o Amor divino em troca da Gnose da Serpente, o que foi consumado pelo Pecado Original, ou Pacto Ouroboros. Isso é admitido pela Tradição, até certo ponto. Que o Pecado Original sempre tenha sido a multiplicação das Obras da Carne me parece óbvio. O decreto de Gênesis 3 não afirma que Adão e Eva devam multiplicar o seu estado decaído e amaldiçoado, gerado pelo seu pacto demoníaco, ad aeternum, com efeito sobre toda a descendência. Ao contrário, o decreto propõe a libertação desse estado através da misericórdia da morte, que é a Justiça aplicada ao pecado da rejeição do Amor divino (“o salário do pecado é a morte“). A melhor coisa que pode ocorrer a quem rejeita o Amor de Deus é morrer. Mas o primeiro casal desobedece a Deus e lida com a Serpente como o seu novo deus “libertador” pelo dom da Gnose. Isso se realiza na escravidão da descendência do primeiro casal, para que o estado decadente seja perpetuado e o Ouroboros seja a única divindade sobre o homem, em troca de conhecimento oculto. Essa Gnose é a Tradição Primordial que deu origem a todas as religiões: a legitimação da Mistura, a adoração da Serpente por toda a descendência gerada pelas Obras da Carne em troca do conhecimento do domínio sobre a natureza decaída. Essa é a iniciação tradicional, do aceite da Mistura junto com o Limite. Para capturar todas as oposições contra essa crença uma outra Gnose é oferecida como iniciação revolucionária com o intuito de rejeitar o Limite junto com a Mistura, esta outra iniciação sendo aquilo que se conhece culturamente como a heresia gnóstica.

A única solução veio por Jesus Cristo, o Segundo Adão, que sendo inocente e puro por não ter nascido das Obras da Carne, aceitou sobre si o juízo que Adão rejeitou e, carregando a Cruz e recebendo a morte que Adão negou, mostrou o Caminho da Salvação: aceitar o decreto de Gênesis 3 que nossos ancestrais recusaram e participar das Obras do Espírito com a Separação de Luz e Trevas e a Ressurreição.

O Diabo só possui domínio através da perpetuação da Mistura, que depende da continuidade do Pacto Ouroboros, o Pecado Original. Esse domínio já teve um fim decretado, mas a participação na vitória de Cristo depende da vontade de cada alma de libertar-se das mentiras das duas Gnoses, porque só obtém essa vitória quem acredita nela, ou seja, na bondade do Limite e no fim da Mistura. Lembrem-se disso sempre: o mal deseja que se ignore a obra de Separação, ou Santificação, e se creia em uma dessas duas mentiras, a de que a Mistura é tão boa quanto o Limite, e a de que o Limite é tão mal quanto a Mistura.

O Ouroboros, esse mentiroso, ladrão, usurpador, farsante, fundou a ficção gnóstica que constitui o sequestro do Bem pelo Mal: ou se aceita a parasitagem da Mistura (exoterismo gnóstico), ou todo o Bem está perdido (esoterismo gnóstico). Seu objetivo é se colocar no lugar do Deus verdadeiro, ou então negar toda possibilidade de vida. Jesus destruiu toda essa mentira, e para seus seguidores o Bem não é mais refém do Mal: a Ressurreição separa e exalta o Bem para sempre.

Enfatizo o fenômeno imediato, exaustivamente repetido, desde a nossa infância, pela mera repetição do costume, das iniciações gnósticas exotéricas, na forma da apresentação de qualquer bem como condicionado à Mistura. Nossos pais, professores, chefes, sacerdotes e reis, enquanto atores desse teatro pretensioso e mesquinho, se colocam como representantes e co-criadores ou co-provedores de um bem que só é possível como sequestrado pelo esquema da Mistura, e viável pela mediação desses subdeuses. São usurpadores e ladrões querendo roubar o louvor e a glória que só pertencem a Deus. São representantes da Idolatria e imitadores do diabo, aquele ladrão, usurpador, farsante e mentiroso que quer se colocar como produtor do Bem, como se fosse Deus ou como se a bondade de Deus dele dependesse em qualquer grau. E são cúmplices desse sequestro quando negam toda a Graça direta, divina, provida pela bondade do Deus verdadeiro que de nada depende, mas que de tudo pode fazer uso para decretar a sua Vontade, o mesmo Deus que, por sinal, liberou seus verdadeiros adoradores, os cristãos, para de tudo fazer uso sem se deixar escravizar por nada, em tudo dando Graças à Ele.

Ao fim só resta a escolha da crença pura de Deus como doador do Ser e do Bem, ou das crenças gnósticas deturpadas e corrompidas que mediam a bondade de Deus e a misturam com as Trevas, na forma da idolatria da Natureza ou do Homem como causas intermediárias incondicionais da experiência do Bem divino.

Quando falamos de crenças, falamos de possibilidades de verdades que podem ser acreditadas, mas que jamais podem ser determinadas pela razão humana, portanto falamos de objetos primários da Vontade, só secundariamente objetos do Intelecto.

Finalmente, o Gnosticismo como um espírito é aquele contrário ao próprio dom da Soberania que permite o reconhecimento da liberdade da Vontade de escolha da crença que convém ao arbítrio humano. Existe, portanto, uma crença particular que dá o entendimento de que a nossa Vontade não possui a liberdade suficiente para fazer uma escolha diante das opções mencionadas. Essa crença é animada por um espírito maligno, que é o que chamamos também de Gnosticismo, no sentido da falsa negação da liberdade da Soberania humana sob a suposta exigência da posse de uma Gnose suficiente para que a Vontade seja obrigada à uma submissão terminal. Esse espírito é especialmente perigoso quando impede o ser humano de reconhecer a sua liberdade de aceitar ou rejeitar o Limite, e de aceitar ou rejeitar a Mistura.

Podemos, e devemos, a partir de agora, buscar o uso mais qualificado possível da terminologia da maneira que segue:

Vamos chamar de Gnosticismo Histórico aquela formulação clássica da heresia caracterizada pelos três princípios já identificados (Demiurgo Mau, decadência na matéria-corpo, e salvação pela Gnose), de Gnosticismo Dialético as formulações da Dialética do Ouroboros, do duplo erro dos gnosticismos esotérico e exotérico, e de Gnosticismo Espiritual a formulação específica da rejeição do dom de Soberania.

O Gnosticismo Espiritual é a forma mais fundamental e mais sutil do erro, porque implica na rejeição in limine da liberdade de escolha e, portanto, na rejeição da responsabilidade pelas crenças. Isto é o que mais interessa para Deus, porque nada é mais sagrado do que a liberdade de aceitar ou rejeitar o Amor divino, de modo que a recusa da situação de liberdade implica numa falsificação da condição humana, como se alguém pudesse se omitir da decisão de confiar ou não no Amor divino.

O Gnosticismo Dialético é o conjunto mais amplo das possibilidades de crença na rejeição do Amor divino nas duas formas espiritualmente reconhecíveis, a esotérica da rejeição do Limite, e a exotérica da legitimação da Mistura. Não é muito difícil que pessoas estudadas percebam o componente esotérico do Gnosticismo Dialético, porque este já é abundantemente identificado na literatura que trabalhou e condenou o Gnosticismo Histórico como heresia. Muito mais difícil é admitir a perversidade da idolatria do componente exotérico que nega igualmente a bondade de Deus, porque identifica a condição da Mistura com a vontade do Amor divino e pratica a idolatria da Natureza.

O Gnosticismo Histórico é a formulação clássica que todos já conhecemos e que é tão fácil condenar com base na bondade de Deus e de sua Criação, na bondade da matéria e do corpo através da Encarnação e Ressurreição de Cristo, e na dependência da Graça para a verdadeira salvação que só Deus nos pode dar.

A identificação de todo o Gnosticismo apenas com o Gnosticismo Histórico é uma redução absurda e inviável, que nos deixa cegos ao processo da Dialética do Ouroboros, e do próprio espírito do Gnosticismo contrário à Soberania. Isso não tira o mérito da condenação dessa forma clássica de Gnosticismo, mas esta é a defesa contra apenas um erro de três possíveis.

Coerentemente contrários à rejeição do Limite, somos lançados àquela outra negação da bondade divina, que é a legitimação da Mistura, e assim nos tornamos vítimas do Gnosticismo Dialético.

E, por fim, amedrontados pela nossa própria liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino, procuramos refúgio no falso conforto oferecido pelo Gnosticismo Espiritual.

Em suma, se precisássemos reunir de volta todos os conceitos a um único conceito unificador, diríamos que: o Gnosticismo é um espírito maligno contrário ao dom de Soberania que aliena a liberdade humana de confiança do Amor divino nas formas da aceitação do Limite e de rejeição da Mistura.

GNOSE, afinal, é o conhecimento oferecido em troca do Amor divino que só pode ser confiado com um ato livre da Vontade humana, sem garantias e sem demonstrações além da evidência da Teleologia Metaracional do Sumo-Bem, como já explicado anteriormente. Gnosticismo, assim, é a tendência maligna de alienação da liberdade de escolha do Amor em troca da posse de um conhecimento que signifique a posse do Bem sem a dependência da ação divina, seja na forma da mentira da negação do Limite, seja na forma da mentira da legitimação da Mistura. Nos dois casos supostamente nos bastaria algum bem independente da ação divina direta como causa eficiente da nossa Salvação: nossa transformação em deuses independentes de Deus no primeiro caso (negação do Limite), ou a nossa posse da bondade divina através da relação de domínio com a Natureza, que seria um deus-aí sempre disponível de forma terminativa e completa (legitimação da Mistura).

Identificamos, assim, cinco tipos de possibilidade de atitude espiritual diante do fait accompli da experiência da Mistura:

  1. Escravo do Costume (desejo mimético)
  2. Legitimador da Mistura (seguidor de religião, filosofia, ideologia política, etc.)
  3. Negador do Limite (seguidor de culto da morte)
  4. Realista Responsável (cumpridor de Deveres de Estado, abstinente de Votos voluntários)
  5. Seguidor de Cristo (filho adotivo, vive na Presença e dá o Testemunho)

Live do Solstício do Verão de 2025: Trump, o Terceiro Templo e a N.O.M.

O que é uma perspectiva escatológica: É um cálculo que mistura Geopolítica com Profecias, com vistas ao cumprimento de determinadas etapas previstas em uma certa visão espiritual da história. Por exemplo, enquanto na Geopolítica se ignora a importância da pouca expressividade do recém-eleito Papa Leão XIV no cenário político internacional, isso pode ter valor profético, já que esse personagem pode aguardar o devido momento (um acordo de paz global) para se revelar como o Falso Profeta. Os eventos atuais no mundo, e em especial no Oriente Médio, fazem parte de mais um giro na roda da História, ou de uma série final de ocorrências em direção ao Fim dos Tempos?

Ataque minucioso de 13/06/25: Lembrem-se da mentira de que essa mesma administração afirmou que 07/10/23 foi uma surpresa total.

Trump: Chantagem do Mossad (Operação Epstein)? Cenário análogo ao de Wilson antes da Primeira Guerra? Possibilidade de assassinato?

Israel: Destruição de al-Aqsa? Descoberta da Arca da Aliança? Construção do Templo, revelação do Anticristo, implantação das Leis de Noé (N.O.M.).

Irã: Se possui arma nuclear, deve testar o mais rápido possível para impedir a escalada (ex. Paquistão, Coréia do Norte, Israel, etc.); se não possui, se defende de Israel, mas precisa da Rússia-China para se defender dos EUA.

EUA-MAGA: Oposição de parte da base populista (Steve Bannon, Tucker Carlson, Alex Jones, etc.), vs. Dispensacionalismo evangélico, Neocons e lobbys de AIPAC/Complexo Industrial Militar.

EUA-Deep State: Ataques de falsa bandeira, destruição de um porta-aviões no Oriente Médio pelo “Irã”, ataque a algum alvo americano no Báltico pela “Rússia”, ou explosão de artefato nuclear em território americano; possível guerra civil nos EUA.

Europa: amarrada com a Rússia na Ucrânia, mas atrasada no rearmamento.

Rússia: amarrada com a Europa na Ucrânia, muito interesse em se desembaraçar disso com um acordo, para se defender nas frentes do Oriente Médio/Ásia; se Trump propusesse trocar Ucrânia pelo Irã, provavelmente vão rejeitar.

China: não quer a interrupção da logística do petróleo, pode agir para impedir qualquer disrupção à manutenção da sua reserva estratégica.

Gatilhos escatológicos: guerra terrestre em grande escala nas fronteiras ou no interior de Israel; a destruição de Damasco; a destruição da mesquita de al-Aqsa e o início da construção do Terceiro Templo; crise econômica mundial pela disrupção da logística do petróleo; terremotos e fenômenos vulcânicos simultâneos por todo o mundo; aparições de OVNIS e/ou proliferação de “aparições”, “prodígios” e “milagres” (sinais da ação da Besta).

Perspectiva mais ampla: Esse cenário, que é como um palco de teatro, foi preparado desde o começo do século passado e até de antes. A permissão espiritual foi recebida pela anuência través da continuidade do Pacto Ouroboros (Pecado Original). Todas as oposições radicais no Oriente Médio foram fabricadas por EUA/Israel para a mudança do status quo na direção da Nova Ordem Mundial. Politicamente com as guerras mundiais, e culturalmente com a influência das Religiões messiânicas (Cristianismo e Islamismo) sobre as massas, e da Maçonaria sobre as elites, preparando o mundo para o Terceiro Templo, para as Leis de Noé e para o Anticristo e a N.O.M.

Puer Aeternus, livro por Marie-Louise von FRANZ

§ 1. Humildade vs. Presunção: A autora sofre do mesmo mal típico das ideologias psicologistas de encarar o Ignorado como Inconsciente, ou seja, sob o ponto de vista de uma gnosiologia antropocentrista, humanista, sem a intermediação do governo de uma Providência que produza uma Harmonia Pré-estabelecida. Ela chega a defender valores abertamente anticristãos, no sentido explicitamente contrário à Humildade dos cordeiros. Incapaz de entender o valor da inocência do Puer como valor espiritual. O que chama de maturidade, que seria uma saúde psíquica, é a própria Presunção. Não percebe que o psicologismo se tornou uma pretensa arte soteriológica, uma farsa em substituição à verdadeira vida espiritual diante de Deus. O psicólogo se coloca no lugar de um Sacerdote, ou até de um deus. Nota 1.

§ 2. Presença vs. Idolatria: Humanista, psiquista, só possui bens contingentes e limitados à mesquinharia e pequenez deste mundo, não possui praticamente nenhuma abertura para uma transcendência verdadeira que supere a Psique. O idealismo do Puer é uma ficção, apenas uma fuga do mundo real, da contingência que é tudo o que existe para a autora. Compara Cristo à arquétipos mitológicos ligados à idéia do Puer, como Tamuz, Atis, Adônis, Dionísio ou Eros, como o Deus-Criança, o Deus da Juventude Eterna, o Deus da Vida e da Ressurreição, em suposta guerra contra a divindade do limite e da restrição, o Senex. Não compreende que o problema da liberdade cristã não é a violação do Limite, mas a aceitação da Mistura como se fosse constituição do Limite. O idealismo do Puer não aceita uma falsa restrição produzida pela pretensão do arbítrio humano, derivado por sua vez do espírito de Idolatria. Nota 2.

§ 3. Louvor vs. Sedução-Pacto com a Morte: Cria a angústia da necessidade de se aproveitar uma vida para realizar a tal individuação, senão algo de bom estará perdido para sempre. Exige que o Puer se defina com relação à objetivos e metas limitados pela contingência, ou perca definitivamente a possibilidade de se realizar nessa estreita experiência de vida. Nota 2.

§ 4. Paixão vs. Terror-Pacto com o Inferno: Dá o testemunho de uma visão fatalista e trágica do mundo. A todo momento fala de destinos trágicos. Coloca-se como serva do Inferno, prendendo, como faz a Astrologia, as vítimas de uma fatal consecução de fatos dentro de uma prisão sem saída. Não tem nenhuma noção do valor da Cruz, da confiança numa Redenção que venha desde o divino para resgatar o humano. Se o ser humano não se salvar, não terá salvação. Tem uma visão realmente abominável da realidade humana. Nota 0.

§ 5. Soberania vs. Gnosticismo: Testemunha pela estrita interpretação de experiências e sonhos desde o esquema arquetípico que aprendeu com seu mestre, aquele satanista enrustido chamado Jung. Não tem a menor noção da verdadeira liberdade cristã, e portanto não compreende a sua própria restrição voluntária aos esquemas de crenças do psicologismo. Por isso só pode condenar a liberdade interior do Puer como uma fraqueza. Nota 2.

§ 6. Vigilância vs. Ingenuidade: Interpreta o mundo e a vida humana desde um ponto de vista ingênuo, sem condições de identificar a estrutura elementar da experiência humana definida pelo próprio arbítrio. Para quem fala tanto de responsabilidade sobre a realidade, não enxerga a primeira das responsabilidades, que vem do Pecado Original. Condena a suposta imaturidade do Puer, mas ela própria não se enxerga escondendo-se o tempo todo por trás da narrativa de supostos destinos trágicos, etc., como se o ser humano não tivesse desde o início o poder de buscar para si e para o outro a liberdade. Nota 3.

§ 7. Discernimento vs. Psiquismo: Obviamente dá um testemunho dessa visão de mundo grosseira e rasteira que interpreta tudo desde um mecanicismo psíquico simplório, como se diante de um dado fato não existisse liberdade senão pelas alternativas identificadas nos esquemas mapeados pela sua visão de mundo humanista, fatalista, etc. Nota 2.

Nota espiritual: 1,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno0
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final1,7

Filosofia medieval, livro por Frederick COPLESTON

§ 1. O padre jesuíta Copleston inicia sua obra com um prefácio no qual não quer admitir que a dificuldade inerente ao destaque dos méritos da filosofia medieval vem do problema da sua inegável mistura com a religião cristã. A filosofia medieval em geral é excelente. Mas sua mistura com essa porcaria chamada Religião sujou a sua reputação. Copleston não pode nos dizer isso, é claro. Ele diz que os estudiosos que “não acreditam no cristianismo” terão dificuldades em entender o período. Essa é uma expressão curiosa. Já nos mostra um problema: que diabos significa não acreditar no cristianismo? O que é o cristianismo? Não crer nessa coisa, que é uma religião, é o mesmo que não crer no Evangelho, ou o mesmo que não crer em Jesus Cristo? Um religioso pensa exatamente assim. Lhe convém deixar tudo isso misturado, de modo que quem quiser se considerar cristão, isso significando apenas ser um seguidor de Cristo, é melhor que se considere também um crente no tal do Cristianismo, ou seja, como participante num grupo criado e governado por seres humanos, legitimando com seu assentimento essa autoridade temporal sobre os homens, etc. É desse modo que os cristãos aprenderam a imitar os judeus. Quem quiser crer no Deus revelado por Moisés na Torá deverá crer nos seus legítimos intérpretes, os rabinos, como se esses tivessem o poder de sequestrar o testemunho e pegar emprestado para si o prestígio da autoridade divina. Já falei dessa perversidade que foi iniciada com o próprio Lúcifer, que quis ser o “revelador” ao homem, como um Prometeu, de uma Glória que nunca foi sua. Cristianismo, afinal, é um termo que designa uma criação cultural humana. Digamos que seja o conjunto das religiões que pretendem ser as legítimas anunciadoras da Revelação do Evangelho. Mas eu não posso crer em Jesus e no Evangelho sem crer nessa criação humana particular? É claro que posso. E se eu não pudesse, essas diferentes religiões cristãs também não poderiam diferenciar-se entre si. Talvez Copleston não possa jamais reconhecer isso, mas isso já é problema dele. Para a mentalidade de um católico, por exemplo, não possuir a garantia da veracidade de uma determinada interpretação da Revelação por uma Religião verdadeira é o fim do mundo, o caos na Terra, etc. Para mim a dúvida sobre a posse da verdade é apenas um reflexo da realidade da ignorância humana, da dependência da Graça, e do dom de Humildade (o verdadeiro sacrifício de comunhão que Deus nos pede).

§ 2. Na explicação da evolução da filosofia na época, ele nos mostra bem o drama da passagem do Império Romano para o período medieval. O conhecimento filosófico é preservado principalmente nos mosteiros, que têm essa função de cofres culturais, quase cápsulas do tempo. Quando a Europa já estiver um pouco mais reorganizada politicamente e vier um novo Império com Carlos Magno, aos poucos a cultura guardada pelos monges pode reaparecer no ensino por todo o território. Essa realidade nos mostra como a alta cultura depende de paz e estabilidade social para florescer. A barbárie só mantém a ignorância e a escravidão do homem à Maldição e ao Poder. O que não significa que a Civilização não produza suas tentações particulares, entenda-se bem.

§ 3. Copleston nos apresenta Agostinho e Boécio como figuras de transição entre o período da filosofia antiga e o da filosofia medieval. Identifica Anselmo da Cantuária como uma primeira figura medieval de destaque. O argumento ontológico de Anselmo no Proslogion é até hoje mencionado, mas de forma errada. Não existe o convencimento racional sobre a suposta “existência” de Deus. Para começar, cá entre nós, como já expliquei, Deus não existe, Ele É. Em segundo lugar, a vida na Presença de Deus, ou seja, a vida da Fé, é uma realidade gerada pela Graça divina, e não pela razão natural. É o Espírito Santo quem dá o testemunho do Ser divino. Anselmo, portanto, não pregava para descrentes. Ele filosofava para cristãos que já tinham a Fé. Daí afirma-se a máxima tão importante para a Filosofia Cristã, do crede ut intelligas, intellige ut credas. O maior vem antes do menor, isto é, a Fé como dom sobrenatural vem antes da razão natural. É para estes cristãos que já possuem a Fé que até hoje é poderosa a verificação de que o conceito de um ente perfeito requer a existência do mesmo, que é a essência do argumento ontológico.

§ 4. O famoso problema dos universais ganha relevância com a filosofia de Pedro Abelardo, e a partir dessa discussão conhecemos as possibilidades de respostas desde o ultra-realismo, o realismo moderado, e o nominalismo. Junto com a filosofia de Abelardo existe toda uma preparação para o rigor lógico que servirá de base para as construções das grandes sínteses no Século XIII e além. Seu famoso livro de Sentenças se torna uma literatura obrigatória para toda a filosofia futura. Todo mundo usa essa base para fazer comentários e criar algo em cima. Antecipando muitas discussões, o nominalismo vence. Se Deus salva a alma já havia a previsão de uma Criação de individualidades e para indivíduos e não de universalidades para uma coletividade, o que é monadologicamente adequado. Possivelmente a Igreja lutava teologicamente dentro de si contra a posição coletivista herdada do Israel bíblico, um vício que precisou ser depurado e finalmente extirpado com uma filosofia adequada á Revelação final, isto é, do Evangelho. O que não impediu algumas figuras poderosas de rejeitarem a Filosofia como um todo, inclusive já na época de Abelardo, como foi o caso de Bernardo de Claraval.

§ 5. Em seguida a grande luta da filosofia medieval ocorreu pela missão autoimposta por grandes intelectuais de absorver a filosofia aristotélica e fazê-la estar de acordo com a teologia. Aristóteles foi muito confiado como autoridade, frequentemente sendo chamado de “O Filósofo”, inclusive por Tomás de Aquino. No lado islâmico, Avicena tem mais facilidade em recusar teses do estagirita. Já Averróis sucumbe ao naturalismo aristotélico e empesteia a Europa com suas idéias. Do lado cristão, Aristóteles é inicialmente proibido em Paris etc., e depois é saudavelmente glosado pelos franciscanos que tinham um platonismo e neoplatonismo robustos, aprendidos com Agostinho, para bloquear os excessos naturalistas; porém, o aristotelismo termina perigosamente influente dentro da filosofia tomista, um projeto iniciado por Alberto Magno, mestre do aquinate.

§ 6. Com Boaventura, o Doutor Seráfico, Cristo mantém sua excelência filosoficamente intraduzível. Já com Alberto Magno e Tomás de Aquino, Aristóteles se torna quase que um profeta. A gratuidade de Deus depende da liberdade contra o naturalismo aristotélico. Os franciscanos são superiores do lado teleológico. Com Boaventura temos uma antecipação da TMSB, porque ele era intelectualmente agostiniano, portanto um tipo de agatista. Também são superiores os franciscanos medievais, epistemologicamente, com a iluminação divina que põe o intelecto humano no seu devido lugar, dependente da Graça até para suas operações mais elementares. Isso não muda o mérito do abstracionismo como descrição científica do processo cognitivo. Uma coisa é a causalidade intermediária e eficiente, outra é a causalidade primeira e finalística.

§ 7. Os germes das futuras ciências seculares foram desenvolvidos por alguns experimentalistas e especuladores medievais, como Grosseteste e Roger Bacon. A idéia da ciência iluminista, ou mesmo da filosofia moderna, em atitude de rompimento com o pensamento medieval é uma idéia caricatural que infelizmente impregnou a divulgação enciclopédica sobre o período, um vício derivado da propaganda gerada pela ideologia iluminista. Qualquer estudioso sério do período percebe muito rapidamente o quanto isso é falso.

§ 8. Das glórias de Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, podemos citar facilmente a criação por analogia, e o conhecimento de Deus também por analogia (uma certa agnosia), de modo que conhecer a Deus é ver o infinito no finito, ou o Uno no Múltiplo. Somente Deus é o Ato Puro. Tomás distingue o esse simpliciter do esse secundum quid, e abre a possibilidade das futuras ontologia e epistemologia monádicas (mas não sem intervenções importantes de personagens como Duns Scot ou Ockham). Por outro lado ele não teme rejeitar Aristóteles ou Averróis para defender a continuidade da alma depois da morte do corpo, o que também é meritório e esperado de um filósofo cristão. A fraqueza de Tomás é a epistemologia da abstração e a derivação hierárquica da lei divina pela lei natural desconsiderando a Queda, algo pelo que não se pode culpar Aristóteles que não recebeu a Revelação de Gen 3, mas pelo que se pode culpar um teólogo cristão, ou mesmo um filósofo cristão. É importante lembrar que o Doutor Angélico só se tornou o filósofo católico por excelência pela decisão papal de 1879 na Aeterni Patris de Leão XIII, ou seja, muitos séculos depois do contexto da obra tomista. Em sua própria época, Tomás de Aquino foi largamente contestado ou mesmo rejeitado.

§ 9. Há como reintegrar as teses mais incompatíveis do Filósofo e do seu Comentador, isto é, de Aristóteles e de Averróis, à visão cristã? Ora, a eternidade do mundo pode se referir à indeterminação da quantidade da Criação, algo alheio à Física aristotélica, mas viável de algum modo no contexto da visão daquilo que realmente é Eterno. Considerando-se o Logos como o Eterno, criador de mundos, não teríamos problema nenhum. Por outro lado, o monopsiquismo do intelecto agente pode refletir a mutualidade da representação dos intelectos passivos, isto é, das mônadas criadas, algo que é produzido pela Providência divina (a Harmonia Pré-estabelecida em Leibniz). Da mortalidade da alma se pode dizer que esta se refere ao estado imanente da mesma, a situção da mônada criada por si, desconsiderado o efeito da Graça. Já da eudaimonia nesta vida contra a bem-aventurança eterna se pode falar da ética ideal no caminho em direção à consumação da causa final, a boa corrida, o bom combate, etc. E finalmente, do princípio material de individuação, essa distinção não se torna irrelevante, antes que impropria, com a reflexividade holográfica? O que quero dizer com essas especulações é que para alguém bem intencionado tudo pode ter solução, em tese.

§ 10. Com Duns Scot, o Doutor Sutil, temos as minúcias medievais que mais tarde irritariam e sobrecarregariam os modernos. Com a Haecceitas temos o Principium Individuationis formal, uma “distinção formal objetiva” entre as individualidades. Copleston sofre para nos explicar a ideia, e isso no Século XX! Imaginem como sofreram os estudantes do Século XVI. Para mim a contribuição scotiana é fundamental: se toda manifestação material é o reflexo de uma objetividade formal, o único modo de manter a analogia sem cair num monismo panteísta é a Haecceitas. As almas humanas são mônadas criadas, singularidades, Unidades geradas por analogia com o Uno divino. É uma antecipação da metafísica monadológica. O gênio de Scot não para por aí. Ele sabe que a univocidade conceitual da analogia requer que algo do Ser divino seja compreensível a partir da característica do ser criado e vice-versa. Essa ponte é necessária para não se cair num agnosticismo, como o tomismo arriscava com uma analogia total que lembrava o tom islâmico do averroísmo. Imagem e semelhança, enfim, designam carácteres objetivos sobre o Ser divino em analogia com o humano. E de outro modo não se poderia, aliás, compreender a possibilidade da Encarnação de Cristo. Copleston acerta na defesa da reputação de Duns Scot, especialmente na importância da Soberania da Vontade contra o Gnosticismo das visões intelectualistas. E para sermos justos, este filósofo em particular nada inventou neste sentido, porque esse já era o entendimento de agostinianos e franciscanos na valorização do Amor sobre a Gnose. De todos os cavalos de batalha da filosofia medieval, este talvez fosse o mais importante, e Duns Scot estava do lado certo da história.

§ 11. Com Guilherme de Ockham, o Doutor Invencível, temos a valorização do conhecimento por intuição acima da abstração, o princípio da economia (a famosa “Navalha de Ockham”), e a simplificação do problema dos universais no que Copleston chama de “conceptualismo”, mais do que nominalismo. A questão, porém, já era antiga. Já Aristóteles se preocupava com a multiplicação dos seres no sistema platônico. Ockham identifica a universalidade com uma necessidade mais lógica, a partir do modus raciocinandi, do que ontológica, como distinção de realidades fora da mente. Em defesa do filósofo, Copleston explica que Ockham “tinha uma ideia rigorosa do que era uma demonstração”. O rigor lógico, dialético e silogístico de Ockham o obrigava a defender a pureza da teologia cristã contra as pretensões da metafísica pagã importada dos gregos. Se lembrarmos daquele princípio de que a tentação do conhecimento divino, isto é, a Gnose, foi o primeiro dos pecados (o original do original, de Lúcifer antes de Adão), podemos enxergar a superioridade dessa doutrina de Ockham como uma necessidade até para o lema da minha filosofia (Coram Uno Amor Tantum). Já na questão do voluntarismo de Ockham, de que Deus ordena o que é o bem porque quer e não porque é obrigado a isso, parece escapar a Copleston a razão desse procedimento: a abolição do paganismo na forma de uma dedução moral da Lei Natural. Especialmente se tivermos em vista a natureza decaída que já não representa a vontade originária, mas um ordenamento secundum quid, derivado do arbítrio humano especificamente desobediente, o voluntarismo de Ockham é inquestionável. Mas Copleston acerta ao valorizar a preocupação teológica do filósofo. “Nada no mundo é necessário”, como bem lembrou. Abolindo o necessitarismo causal de dentro da metafísica cristã, Ockham libertou o Evangelho do paganismo naturalista. Novamente vejo a semelhança com as premissas da minha Monadofilia, quando proponho as realidades de escassez, causalidade e irreversibilidade como contingências. Copleston na verdade não faz plena justiça à filosofia de Ockham. O filósofo testemunha diretamente que Deus pode produzir qualquer Percepção ao intelecto criado sem uso de causas intermediárias. Já é quase uma epistemologia monadológica e uma antecipação da holografia. Um tremendo testemunho da Presença e do Discernimento. Também afirma a possibilidade de um número indeterminado de universos ou realidades paralelas sustentadas pela Onipotência. Enfim, realmente Ockham libertou a Filosofia Cristã da estreiteza e pequenez da antiga filosofia pagã naturalista. Quando, por exemplo, afirma que qualquer proposição que pretenda ser verdadeira deve ser dubitabilis, “duvidável”, ele não só abre o caminho da investigação científica séria, mas também de uma Teologia séria e de uma Filosofia Cristã séria, desde que o primeiro dos predicados sobre a substância divina, aquele mais eminente de que Deus é Amor, deve ser duvidável, caso contrário não só a traição de Adão não seria possível, mas nem mesmo a de Lúcifer. As proposições se pretendem verdadeiras na sua própria dimensão, que é nominal, mas a sua realidade depende de um juízo que requer o assentimento de uma vontade livre, de modo que o que não pode ser negado também não pode ser afirmado, porque não pode sequer ser pensado. Neste sentido, Ockham também dá um testemunho formidável do dom de Soberania, alinhado com uma inclinação que já vinha tendo progressos com a filosofia dos franciscanos. Copleston não nos dá nada disso, talvez simplesmente porque isso não convém à sua Igreja? Há um medo, talvez, de que o ateísmo se torna intelectualmente viável com Ockham? Ora, quem fundou essa realidade da liberdade humana foi Deus, e se um homem não pode duvidar de Deus, igualmente outro homem não pode confiar em Deus realmente. O custo da liberdade, ou o seu risco, é alto porque a sua recompensa é igualmente valiosa, unicamente preciosa. Mas para sermos justos, esta obra não é uma análise em detalhe da obra de Ockham, e é um trabalho breve e introdutório apenas. Por fim, Copleston também não pode tomar partido no alinhamento de Ockham com Luís IV da Baviera, Imperador do Sacro Império, contra o Papa João XXII na discussão a respeito das propriedades da Igreja. Os franciscanos atacavam a concentração de riquezas pela Igreja romana, e enquanto os papistas defendiam que o uso dos bens implicavam no seu direito de propriedade, Ockham contribuiu com a distinção entre usus juris e usus fructis, etc. Excomungado e perseguido, teve que buscar refúgio no reino de Luís IV e morreu em Munique.

§ 12. O movimento ockhamista no Século XIV dá seguimento aos progressos escolásticos e antecipa as teses dos futuros modernos: nenhum juízo sintético é auto-evidente exceto a da existência do eu que pensa que nega a si mesmo (antecipando Descartes), ou então a proposição da existência de Deus não é analítica (antecipando Kant), etc. Estamos na encruzilhada do pensamento moderno, mas ainda em voz medieval.

§ 13. Nas margens do fim da Idade Média, Copleston identifica contribuições notáveis da mística de autores como Mestre Eckhart em antecipação ao idealismo alemão, e de Nicolau de Cusa como inspirador de Leibniz com sua coincidentia oppositorum, que é uma maneira de ver o desdobramento do Uno na manifestação do Múltiplo como relação, na sua linguagem, entre o Infinito e o finito.

§ 14. O autor termina fazendo uma breve referência às teorias políticas medievais, sem grandes consequências, exceto pelo seu constante ponto cego que o impede de ver a Igreja Católica como um poder humano em disputa com outros poderes seculares, o que simplificaria bastante o entendimento das disputas políticas entre Igreja e Estado. Copleston não conclui, mas podemos concluir nós mesmos, que a Filosofia Política de Tomás de Aquino pode ter sido o pivô da iniciativa papal do seu ensinamento como parte permanente do magistério da Igreja, muito mais do que outras partes da obra filosófica do aquinate.

Nota espiritual: 5,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,0

Mentiras católicas? Lutero cabalista, Cátaros abortistas e Bogomilos sodomitas

Tive recentemente a oportunidade de ver uns descarados falarem montes de coisas contra montes de gentes desde aquele ponto de vista tão privilegiado que é o do farisaísmo católico. Falo de pessoas inteligentes e capazes que simplesmente se recusam a pensar na sua Mater et Magistra com o mesmo espírito crítico que dirigem aos adversários da Coisa (termo de Chesterton).

Perguntei ao nosso amigo Chat GPT sobre essas supostas verdades católicas, e ele nos informa que são mentiras católicas. É claro que o Chat GPT faz parte de uma grande conspiração anti-católica, etc., o que nem precisa deixar de ser verdade para que essas mentiras continuem sendo mentirosas. Vou mostrar os resultados das minhas pesquisas para vocês, mas não sem fazer antes uma observação importante a respeito do problema da Cabala.

O que é a Cabala? É a recepção da Tradição Oral pelos judeus, precisamente aquela Tradição condenada por Jesus. Interessante notar o quanto o catolicismo se tornou uma continuidade do messianismo talmúdico e cabalista, com a pretensão de um totalitarismo secular em nome de Deus, para fazer a restauração do mundo e instaurar o Reino de Deus no tempo presente, ou seja, dentro da História da Queda. Reparamos na repetição dos erros judaicos dentro do costume católico, isto é, aquelas grandes traições da Religião: 1) a imposição de uma Tradição Oral contra a liberdade individual de consciência e responsabilidade; 2) o culto da oferta de sangue como sacrifício aceito por Deus para a reconciliação espiritual; 3) o incentivo da continuidade do Pecado Original, o Pacto Ouroboros, em continuidade à prática iniciada por Adão e Eva; 4) a ameaça de uma penalidade terrível por toda a Eternidade em caso de questionamento dessas práticas religiosas. São esses judeus enrustidos que querem nos fazer crer que Lutero e outros são cabalistas, etc. São esses que se recusam a receber a liberdade trazida por Cristo contra toda a mentira diabólica desde o princípio, o próprio Gênesis, e que não querem que outros recebam a Boa Notícia dessa liberdade.

Vejamos os resultados das minhas consultas sobre os temas específicos.

Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre Martinho Lutero ter algum envolvimento com a Cabala judaica?

A ideia de que Martinho Lutero teria envolvimento com a cabala (ou que era “cabalista”) não é uma posição oficial ou comum do catolicismo, nem historicamente sustentada por evidências sólidas. No entanto, essa associação ocasional pode ter surgido em certos círculos polêmicos ou apologéticos, especialmente no contexto de reações católicas contra o protestantismo durante e após a Reforma.

Aqui estão alguns possíveis motivos pelos quais essa ideia surgiu em certos discursos:

1. Polêmicas religiosas e associação com heresias

Durante a Contra-Reforma, apologistas católicos (e também protestantes entre si) frequentemente acusavam uns aos outros de heresias, influências judaicas, gnósticas, ou cabalísticas, como forma de deslegitimar seus adversários. A cabala, sendo mística e associada a correntes esotéricas judaicas, era vista com desconfiança. Acusar alguém de simpatia pela cabala era uma forma de pintar essa pessoa como herética ou desviada da ortodoxia cristã.

2. Confusão com interesse por línguas e textos hebraicos

Lutero estudou hebraico para traduzir o Antigo Testamento e tinha contato com textos judaicos. Isso, para alguns, podia ser mal interpretado como uma simpatia pela cabala, já que muitos textos cabalísticos são escritos em hebraico. Na época, o simples fato de lidar com fontes judaicas já era motivo de suspeita para alguns setores conservadores.

3. Teorias conspiratórias posteriores

Especialmente em séculos posteriores (século XIX em diante), algumas teorias conspiratórias tentaram ligar Lutero ao judaísmo esotérico ou à maçonaria, muitas vezes como parte de narrativas antissemitas ou antiprotestantes. Essas teorias às vezes tentam criar uma cadeia de influência “herética” que incluiria o protestantismo, a cabala, os iluministas e a maçonaria.

4. Literatura marginal

Alguns autores católicos ultra-tradicionalistas ou esotéricos podem ter feito essa ligação, não com base em evidências históricas sérias, mas por conveniência teológica ou ideológica. Essas fontes, contudo, não representam a doutrina católica oficial.

Fato histórico:

Martinho Lutero era profundamente hostil ao judaísmo em seus escritos tardios, especialmente em textos como “Sobre os judeus e suas mentiras” (1543). Isso torna ainda mais improvável qualquer envolvimento sincero com a cabala judaica.

Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre os cátaros, ou albigenses, que estes iam de cidade em cidade obrigando as mulheres a abortar, de modo que foi a população do sul da França que pediu ao Papa que organizasse uma Cruzada para detê-los?

Não, essa narrativa propagada por alguns setores católicos modernos sobre os cátaros — de que eles iam de cidade em cidade obrigando mulheres a abortar e que a população do sul da França pediu ao Papa uma cruzada para detê-los — não é historicamente precisa e carece de evidências confiáveis. Vamos separar os fatos históricos das distorções posteriores:


O que sabemos com base em fontes históricas confiáveis:

  1. Os cátaros (ou albigenses) eram um movimento cristão dualista ativo na região do Languedoc (sul da França) entre os séculos XII e XIII. Tinham crenças influenciadas pelo maniqueísmo, com uma visão dualista do mundo (espírito bom / matéria má), o que os colocava em oposição à Igreja Católica.
  2. Os cátaros pregavam uma vida ascética e condenavam o mundo material, o que incluía críticas ao casamento, à procriação e à Igreja Católica institucional. Os mais devotos (os “perfeitos”) evitavam relações sexuais, consumo de carne e riqueza.
  3. A Cruzada Albigense (1209–1229) foi convocada pelo Papa Inocêncio III, oficialmente para combater a heresia cátara, mas também envolvia interesses políticos e territoriais. O sul da França era relativamente autônomo e culturalmente distinto, o que incomodava o reino da França e a Igreja.
  4. Não há registros confiáveis de que os cátaros “obrigassem” mulheres a abortar ou praticassem tal política sistemática. As acusações de práticas “perversas” (como aborto, incesto ou canibalismo) são típicas de campanhas de difamação contra grupos hereges na Idade Média — e devem ser vistas com ceticismo, pois muitas vezes eram propagandas da Igreja para justificar a repressão.

A narrativa de que a população pediu ajuda ao Papa:

  • A iniciativa da cruzada não partiu das populações locais, mas do Papa e de nobres do norte da França, interessados tanto em eliminar a heresia quanto em conquistar terras no sul.
  • Muitos senhores locais do Languedoc protegeram ou toleraram os cátaros, o que mostra que não havia uma rejeição popular generalizada ao movimento.

Fontes históricas relevantes:

  • “Montaillou: The Promised Land of Error” – Emmanuel Le Roy Ladurie (baseado em registros inquisitoriais)
  • “The Perfect Heresy” – Stephen O’Shea
  • “Heretics and Heroes” – Thomas Cahill
  • Registros da Inquisição, como os de Bernard Gui, também revelam tanto sobre as crenças cátaras quanto sobre as táticas da repressão.

Conclusão:

A ideia de que os cátaros impunham abortos e que a cruzada foi um pedido popular é uma releitura distorcida e anacrônica, provavelmente usada para justificar ou minimizar a brutalidade da Cruzada Albigense. A verdade é mais complexa: envolveu conflito teológico, interesses políticos e repressão violenta de uma dissidência religiosa significativa.

Pergunta: É verdade o que os católicos afirmam, de que os Bogomilos praticavam a sodomia?

Não há evidências históricas confiáveis de que os Bogomilos, um movimento cristão dualista surgido no século X na região dos Bálcãs, praticassem a sodomia como parte de sua doutrina ou ritos religiosos. Essa acusação foi feita por seus oponentes — principalmente autoridades católicas e ortodoxas — e deve ser entendida dentro do contexto das polêmicas religiosas e perseguições da época.

A Igreja frequentemente atribuía aos hereges práticas sexuais consideradas desviantes (como sodomia, orgias, incesto) como forma de demonização e difamação, independentemente da veracidade dessas alegações. Esse padrão se repetiu com outros grupos considerados heréticos, como os cátaros e os valdenses.

Os Bogomilos, na verdade, pareciam praticar uma forma de ascetismo rigoroso, rejeitando a carne, o casamento, e outras expressões materiais e carnais da vida, o que contradiz diretamente a ideia de que promoviam ou toleravam práticas sexuais libertinas.

Em resumo:
Não, não é verdade no sentido de ser um fato historicamente comprovado. Essa alegação provavelmente fazia parte de uma campanha de propaganda religiosa contra o grupo.

De olhos bem fechados, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Com o décimo filme de Kubrick em análise, podemos ver agora a sua obra como um todo desde um patamar mais privilegiado do que no início. Este filme foi feito, imaginemos, com a máxima qualidade técnica do cineasta, especialmente de sua apurada capacidade de trabalhar o controle do mise-en-scène. Nossa primeira obra analisada era de 1957 (Glória feita de sangue). Em seguida analisamos trabalhos de 1960 (Spartacus), 1962 (Lolita), 1964 (Dr. Fantástico), 1968 (2001: uma odisséia no espaço), 1971 (Laranja mecânica), 1975 (Nascido para matar), e finalmente chegamos em 1980, com O Iluminado. São nove obras pouco mais de vinte anos. Pois bem, dezoito anos depois, em 1999, Kubrick aparece com sua obra final, este De olhos bem fechados. Parece que quer dar-nos um recado? Dizer algo importante, antes de partir? Isso poderia parecer mais uma conspiração tola, se não fosse relevante o fato de que Kubrick morre exatamente seis dias depois de entregar a edição do filme finalizado para a Warner Bros. Para quem gosta de conspirações convém pensar que Kubrick possa ter desejado falar algo, dentro das regras do jogo, e portanto com a permissão de Hollywood sob as regras sagradas do Annuit Coeptis, não mais sobre atos farsescos, como o pouso do homem na Lua, mas sobre as pessoas que sustentam a farsa deste mundo e a origem do seu poder. Dirão que estou indo longe demais, mas esse talvez seja o meu trabalho mesmo, dizer o que os tímidos temem.

§ 2. O título do filme já precisa ser explicado, e o pode facilmente com a imagem usada para a sua publicidade: William Harford (Tom Cruise), ou simplesmente Bill, fecha os olhos ao beijar Alice, sua esposa (Nicole Kidman). Isso representa a fantasia dos casados ao se beijarem, de poder estar com outros parceiros. Mas ao mesmo tempo e principalmente no contexto deste filme representa o adultério num sentido mais profundo, aquilo que Bill não quer ver de jeito nenhum, as mentiras da vida e do mundo, e até a maior das mentiras, de que o mundo é governado por boas almas e não por servidores que fizeram pacto com o Inferno. Como veremos, Alice mantém os olhos abertos porque ela vê o que Bill se recusa a enxergar.

§ 3. Bill é o Dr. Harford, médico de pessoas ricas em Nova Iorque. O filme começa com Bill e Alice comparecendo à festa de Ziegler, um homem poderoso e rico. Lá já vemos os dois flertando com outros participantes da festa. Um senhor húngaro que dança com Alice pergunta: “um dos encantos do casamento não é que ele exige a farsa das duas partes?” Isto é, o casamento se mantém com base numa mentira na qual pactuam os dois cônjuges, a mentira de que só querem um ao outro. Alice está bem solta por conta da bebida, mas se contém quando é convidada à traição. William também flerta com duas moças que querem levá-lo ao “fim do arco-íris”, que é um símbolo do fim da consumação do Adultério no sentido espiritual, quando Deus não mais manterá a Aliança feita com Noé. De acordo com a regra que nos foi dada por Jesus, de fato ambos Bill e Alice já são adúlteros, porque isto é o que está em seus corações. Esta é a verdade do ser humano: ele é um mentiroso.

§ 4. No meio da festa Bill é chamado para cuidar de Mandy, uma amante (ou prostituta?) de Ziegler que passa mal depois de abusar de algumas drogas. Ziegler pede segredo sobre o caso. Harford participa dos segredos e mentiras do alto escalão da sociedade, até certo ponto, mas não avança para além. Sua curiosidade, porém, o fará passar dos limites, como veremos. Mais tarde, embalada pelo uso de droga (maconha), Alice confronta William e ambos discutem o problema da fidelidade. Bill quer manter a mentira, mas sua esposa quer a verdade. De sua parte conta seus sentimentos de infidelidade num episódio do passado. Ela não o traiu, mas definitivamente o quis fazer. Isso o atormentará durante o resto do filme. Alice não o quis poupar disso porque a mentira dele alcançou um cúmulo que ela não mais suportou.

§ 5. Bill tem que sair na noite para visitar a residência de um paciente que acabou de falecer. Fica com tudo que sua esposa disse em mente o tempo todo. Na casa do falecido encontra Marion, a filha do morto, que beija o médico e diz que o ama. Ele se desvincula dela, mas fica evidente que as mulheres estão colocando Bill na realidade: tudo acontece ao redor do poder e do sexo. Ele sai pelas ruas pensando sobre tudo isso. Bill acaba aceitando o convite de Domino, uma prostituta, para entrar no apartamento dela para um programa. Mas ele nem sabe o que pedir. Ela conduz a situação, mas Alice liga para o marido antes que eles possam avançar, e ele muda de ideia. Da o dinheiro para ela mesmo assim, 150 dólares. E segue na noite. Bill quer consumar o adultério, mas não consegue ser o adúltero consumado.

§ 6. Bill encontra seu amigo, o ex-colega de curso de medicina, Nick Nightingale, tocando como pianista num bar. Eles já tinham se reencontrado na festa de Ziegler, onde Nick também performou. Os dois conversam no bar. Bill fica sabendo do trabalho de Nick numa misteriosa festa com mulheres bonitas e fica curioso. Descobre a senha, “Fidelio”, e decide conhecer o mistério. Antes, porém, precisa de uma fantasia e de uma máscara. Ele consegue a roupa com Milich, numa loja chamada “Rainbow Fashions”. Uma referência bem óbvia àquele estímulo inicial das duas mulheres na festa de Ziegler. Na loja a filha de Milich, menor de idade, está com dois amantes. Tudo estimula Bill na direção de uma consumação erótica, porque tudo ao redor é sobre sexo. Mas principalmente o que o conduz é a confissão da esposa, que continua como um pensamento fixo em sua mente.

§ 7. Ele finalmente se dirige à Mansão Somerton, o local da misteriosa festa indicado por Nick. Todos estão mascarados. Lá ele encontra um ritual em andamento, onde aquele que cumpre o papel de um sacerdote, vestido com uma roupa vermelha, como que invoca alguma força e a distribui por algumas mulheres participantes do rito, mulheres estas que são enviadas então para encontrar parceiros no evento. Esse rito que Bill assiste é para mim um símbolo muito óbvio do Pecado Original: a Serpente encontra a mulher, lhe transmite o seu “dom”, a Gnose que é a mentira do amor e da felicidade sem Deus, e então a mulher procura o homem para propagar esse “dom” recebido. Bill é escolhido por uma das mulheres que logo lhe diz: não sei o que você pensa que está fazendo, mas você não pertence a este lugar e deve ir embora logo, está correndo um grande perigo. Ele continua vagando curioso pela festa até que é descoberto. Quando está prestes a ser punido, a mulher que o alertou pede que parem e se oferece para redimi-lo. Ele é convidado a se retirar com o alerta de que não deve falar de nada do que viu para ninguém, ou ele e sua família sofrerão as piores consequências.

§ 8. Ele finalmente volta para casa. Sua esposa acorda de um sonho e ele pede que a conte o que era. No sonho ela transava com muitos homens para zombar dele, enquanto ria descontrolada. Isso só vai fortalecer suas angústias interiores. No dia seguinte Bill maneja as consequências de tudo. Descobre que seu amigo Nick foi sequestrado pelos organizadores da festa, provavelmente por ter sido ligado à sua presença como não convidado. Descobre também, quando vai devolver a roupa alugada para a festa, que o Sr. Milich está prostituindo a filha. O mundo vai se mostrando nas suas realidades. Por fim, Bill decide visitar a Mansão Somerton. Ele recebe um bilhete: “desista de suas investigações”.

§ 9. Bill continua obcecado pela ideia de sua esposa com outros homens. Ele tenta refazer o percurso da noite anterior com outras mulheres, para tentar consumar uma traição vingativa ou catártica, não sabemos bem porque ele próprio não sabe bem o que quer, mas elas não estão disponíveis. O marido de Marion atende o telefone no lugar dela. Já Domino saiu e no seu apartamento Bill só encontra Sally, a amiga que vive com ela. Bill está disposto a ficar com Sally mesmo assim, tamanha a sua miséria espiritual, mas ela quebra o clima e diz que Domino descobriu que está com HIV. Mais mundo real.

§ 10. Bill volta a vagar pelas ruas à noite, e tem a certeza de que está sendo seguido. Ninguém o ataca, mas é um recado de que está sendo vigiado. Ele descobre pelos jornais que uma famosa modelo foi encontrada morta por overdose, Amanda Curran. Imediatamente imagina que Amanda é a “Mandy”, a garota de que cuidou na festa de Ziegler. Ele vai reconhecer o corpo e está convicto de que foi ela quem o salvou na festa. A realidade do mundo está escancarada, eis o que há no fim do arco-íris: sequestro, violência, prostituição, doença e morte.

§ 11. Ziegler o chama para uma conversa. Revela que estava na festa e reafirma que Bill correu um grande risco, embora depois tente convencê-lo de que tudo não teria passado de uma farsa. Sua intervenção é obviamente cheia de mentiras e manipulações. Quer apenas controlar uma situação, ao custo de contar o que o médico quiser ouvir para seguir com sua vida. Mas Bill fala que reconheceu a mulher morta. E pergunta: que tipo de farsa termina com uma morte? Aí vem a grande revelação de Ziegler. Diz que Bill não entendeu muitas coisas do que viu. “Ninguém matou ninguém. Alguém morreu. Acontece o tempo todo. Mas a vida continua. Sempre continua… até que acaba. Mas você sabe disso, não é?” Sim, isso é nada menos que uma repetição do dito bíblico: o salário do pecado é a morte. Ziegler está relembrando Bill, que não é nenhuma criança, de que o mundo é assim e sempre foi assim. A única resposta digna diante disso seria a condenação do pecado, mas Bill não conhece Deus, só conhece sua profissão prestigiosa, sua bela esposa troféu, e sua vida de pai de família respeitável. É a mentira da qual não pode escapar, porque não tem Deus. Ziegler o enquadrou num xeque-mate espiritual.

§ 12. De volta para casa, Bill vê que a esposa descobriu sua máscara da festa em Somerton e desaba, dizendo que vai contar tudo para a esposa. Na última cena, enquanto passeiam por uma loja com a filha Helen, Bill pergunta o que eles devem fazer. Alice diz que devem ser gratos por ter sobrevivido e por estarem bem, e torce para que isso dure bastante. Bill diz: “para sempre”, mas ela responde que isso a assusta. Ela sabe das coisas. Alice termina dizendo que há uma coisa muito importante que eles precisam fazer o mais rápido possível: foder. Ela já entendeu tudo muito mais rapidamente e profundamente do que ele jamais poderia, pobre coitado.

§ 13. Bill é como um menino assustado que precisa que alguém lhe diga o que deve fazer. Provavelmente só trocou sua mãe pela esposa nesse papel. Muitos, muitos homens são assim. Alice percebe a condição de Bill e resolve que apesar da situação como um todo ser falsa, isto é, o próprio casamento, Bill precisa disso para sobreviver na insanidade do mundo. Ela precisa dar o sexo para ele, como uma mãe precisa amamentar seu filho. Ele não aguentará a realidade.

§ 14. E como ele poderia? Através de Discernimento espiritual, e da vida na Presença de Deus. Isso poderia fazê-lo entender a realidade em que se encontra, um mundo governado pelo diabo que comprou a humanidade com o Pecado Original. Alice, como toda mulher, por ser usada pelo homem como veículo do domínio da mentira, tem uma intuição visceral da realidade do pecado. Como Bill se recusa a ser uma testemunha de Deus e de seu Amor, ele precisa ser protegido por Alice, inclusive com o sexo seguro e supostamente santificado através do matrimônio.

§ 15. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, que amor não é possessão. O verdadeiro ciúme é uma coisa sagrada, divina. O ciúme de Bill é doentio porque ele crê que precisa de qualquer coisa que não seja Deus para a sua felicidade, e isto se concretiza na sua vida na forma da sua mulher. Seu foco em Alice o ajuda a não se perder mais ainda no mundo de mentiras e ilusões. Mas ele não deixa de ser presa do pecado. Como Ziegler lhe disse, ninguém mata ninguém, mas todo mundo morre. E que tipo de farsa termina com uma morte? A farsa do Pecado Original travestido de Amor. Por isso Alice não quis afirmar que se amariam para sempre: ela não quer que a mentira dure para sempre. Eles precisam morrer.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade8
Discernimento/Psiquismo6
Nota final5,4

Como já terminamos de ver os dez principais filmes de Kubrick, podemos calcular a nota espiritual média para essa parte principal de sua obra: 4,9 (Moriquendi).

Nascido para matar, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Este filme –o nosso nono de Kubrick– conta a estória de um grupo de fuzileiros navais americanos desde o seu treinamento de seis semanas na Carolina do Sul até a sua entrada em ação no teatro de guerra do Vietnã. Testemunhamos o problema do treinamento de um exército profissional moderno: por não existir o apelo imediato da defesa da terra e da família que movia as mobilizações militares desde o tribalismo até o fim da Idade Média, é preciso fazer um extenso doutrinamento ideológico para transformar homens comuns em assassinos aptos a matarem desconhecidos do outro lado do mundo. Nosso grupo de soldados sofre nas mãos do rigoroso Sargento Hartman, interpretado pelo excelente Lee Ermey. Especialmente o soldado Leonard Lawrence (o “Gomer Pyle”) é vitimado pela rotina e pelo ambiente do treinamento. O protagonista, que é o soldado Davis (“Joker”), percebe a dificuldade de Lawrence, mas não consegue fazer nada para evitar a situação. Não quer se destacar do grupo em defesa de um. A psicologia da manada tem efeito até sobre sua personalidade supostamente mais diferenciada e esclarecida. Kubrick parece gostar de mostrar a corrupção dos melhores, dos que seriam mais confiáveis.

§ 2. Lawrence à certa altura começará a enlouquecer com a lavagem cerebral do treinamento, e no último dia dos soldados antes de seu envio para a guerra ele tem um surto no qual perde o controle. Davis diz que ele deve se recompor, ou eles estarão “num mundo de merda”. Lawrence, já praticamente possuído por um ódio homicida, responde: “ah, mas eu já estou num mundo de merda.” O Sargento Hartman aparece, Lawrence o mata e se suicida em seguida. É a colheita do incentivo ao tal “espírito assassino” que foi uma doutrina do treinamento. O objetivo do treinamento foi atingido parcialmente. Só falhou o direcionamento do ódio do instinto assassino de Lawrence. Hartman pagou por sua incompetência?

§ 3. Na guerra o soldado Davis vai trabalhar na sessão de jornalismo do USMC, ou seja, com a missão de fabricação de mentiras sobre a guerra. Ele acaba testemunhando a Ofensiva do Tet, quando os vietcongues surpreenderam os americanos no meio do cessar-fogo do feriado do Ano Novo lunar. Do ponto de vista militar podemos dizer que a estratégia global vietcongue foi vencedora porque eles foram mais fiéis à arte da guerra, que é a mentira e a manipulação. Guerra é política, já tinha ensinado não só Sun Tzu, mas também Clausewitz.

§ 4. Davis vai para a frente de batalha em Hué. Testemunha muitas atrocidades, dos dois lados da guerra. Um Coronel questiona Davis, que usa o broche da paz no peito enquanto em seu capacete está escrito “nascido para matar”. Não tem coerência alguma. Davis diz que isso vem da dualidade humana, algo junguiano, mas não se aprofunda. Ele percebe a Mistura, mas não sabe, ou não quer, discernir para além disso. Seu papel é de se aprofundar na aceitação desse status quo como uma realidade inescapável. O filme de Kubrick parece se encaminhar para um quadro fatalista.

§ 5. Ao fim do filme, depois de uma salada emocional com triunfos e frustrações no meio da guerra, Davis parte do Vietnã com sonhos eróticos em mente, imaginando o reencontro com sua namorada. Diz-nos, como narrador do filme: “sim, estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo.” Davis viu as vísceras da condição humana na guerra, mas não entendeu nada. Sua atitude de querer voltar para sua pátria para viver sua história com a namorada, possível futura esposa e mãe de seus filhos, como manda o costume, mostra que ele dá o assentimento para esse estado de coisas. É uma visão trágica e fatalista do mundo. Quando Lawrence tinha lhe dito que “já estava num mundo de merda”, não ocorreu a Davis investigar as razões para que isso fosse assim, bem como de toda a desgraça que ele vai presenciar no Vietnã. Ao fim ele reafirma, sim, estou num mundo de merda de fato, mas vamos em frente…

§ 6. Isso porque não existe transcendência neste filme. Jesus é um personagem religioso usado apenas para o doutrinamento militar dos fuzileiros contra os “pagãos comunistas”. Os símbolos religiosos e espirituais são apenas instrumentos de propaganda. Kubrick nos mostra um mundo brutal de onde não há escapatória, nem redenção, e nem esperança alguma senão a de tentar lucrar algo com a participação na Mistura. Que Hartman, ou qualquer outro soldado pensasse assim, seria esperado e muito verossímil. Mas porque Davis não pode cogitar uma alternativa? Porque ele não quer. Davis não é mais um nascido para matar pelo desígnio de uma vontade exterior, mas pela sua própria vontade, pelo seu próprio assentimento. Sendo inteligente e sensível, Davis é o ponto de identificação de um público inteligente e sensível. E Kubrick está usando Davis para dizer a esse público esclarecido: não há saída, é isso mesmo, vocês estão num mundo de merda e a única coisa que podem fazer é ir em frente e viver como seres nascidos para matar.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,9

O Iluminado, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Um filme obsessivamente analisado em seu simbolismo, O Iluminado, o nosso oitavo de Kubrick, de fato mostra o capricho do diretor em seu mise-en-scène. E é claro que há referências que servem como prato cheio para os teóricos da conspiração. As pessoas vêem foguetes aqui e ali, e de fato não pode nos escapar a blusa de Danny com a imagem representando a Apollo 11.

§ 2. A estória, baseada num livro de Stephen King, fala de Jack Torrance, um frustrado pretendente a escritor, que assume o serviço de cuidar do Hotel Overlook durante uma temporada de inverno. Leva sua esposa, Wendy, e seu filho, Danny. O Hotel, porém, já tem uma história sinistra, um crime horrível ocorrido nas mesmas circunstâncias em que Jack estará com a sua família. O zelador anterior assassinou suas duas filhas e se matou. Jack é avisado do risco da chamada “cabin fever” pelo gerente do Hotel. Jack não se preocupa.

§ 3. O pequeno Danny, por sua vez, tem um dom misterioso que o faz ter visões do futuro. Ele conversa com seu amigo imaginário, Tony, que lhe previne que o Hotel para onde eles irão é um local assombrado. Ele pede e recebe sua primeira visão do local, uma cena sangrenta. Quando chegam no Hotel, Danny conhece o Sr. Halloran, o cozinheiro. Halloran logo perece o dom de Danny, porque ele próprio possui uma capacidade semelhante. Diz que eles são “iluminados”. E previne para que ele tome cuidado naquele lugar. Diz que tudo que acontece num lugar deixa rastros, e que algumas coisas que aconteceram ali não foram boas.

§ 4. Jack não quer cuidar de suas ocupações no Hotel, que acabam sobrando para Wendy na maior parte. Mas também não consegue trabalhar como escritor. Fica distraído, sem inspiração, perdido. Sua esposa e o filho o irritam. Descobrimos que Jack já foi violento com Danny antes, e é possível que isso tenha inclusive despertado o dom misterioso da criança. Talvez assustado demais com a realidade o garoto tenha buscado refúgio no seu interior e descobriu algo ali?

§ 5. Em determinado ponto da estória algo se manifesta. Jack tem um pesadelo e Danny aparece machucado depois de entrar no quarto 237, onde Halloran havia dito que não deveria ir de jeito nenhum. Wendy acusa Jack de ter sido violento novamente contra o filho. Totalmente perdido, Jack vaga pelo Hotel e começa a ter suas próprias experiências sobrenaturais. Quando Wendy o procura, encontra o “trabalho literário” do mesmo: uma pilha de folhas onde Jack escreveu a sua famosa frase “all work and no play makes Jack a dull boy”. Ele pergunta: você gostou? Começa o terror.

§ 6. Jack quer agarrar e trucidar a mulher e o filho. Eles tentam escapar enquanto o Hotel manifesta ao máximo suas energias malignas. Agora até Wendy tem visões. Quando eles estão prestes a serem pegos, surge uma buzina na noite de nevasca lá fora. É o Sr. Halloran, que teve sua própria visão e decidiu ir até o Hotel para checar a situação. Jack desvia sua atenção da família, vai atrás de Halloran e o mata. Jack termina caçando o filho no labirinto em frente ao Hotel, mas o menino por astúcia consegue enganar o pai e fugir com a mãe. Jack morre congelado.

§ 7. Qual é a origem do mal no Hotel Overlook? Existem muitas explicações, a mais antiga vindo desde a época da construção do mesmo, já que tendo sido feita sobre um antigo cemitério indígena, envolveu alguma violência na defesa da construção contra ataques da tribo local. Jack mesmo parece reencarnar o antigo zelador do local. Estas especulações não chegam em lugar nenhum, porém. O que nos interessa é saber porque Jack foi possuído por essas forças demoníacas, sejam quais forem as origens das mesmas. Lá convivem funcionários e hóspedes a maior parte do ano, e mesmo na ocasião da crise da família Torrance, o mal foca em Jack especificamente como um veículo para a sua manifestação.

§ 8. Jack mesmo nos dá a pista disso em seu “trabalho literário”. Ele não quer carregar a sua Cruz, particularmente suas obrigações com a família. No caso do filho ele se vê claramente forçado a gostar do mesmo a contragosto. No momento de seu ataque de ódio, é disso que ele fala com Wendy: de suas responsabilidades. Vítima do Pecado Original como qualquer nascido de mulher, nunca ocorreu a Jack que ele caiu como vítima de um naufrágio neste mundo. Embalado pelas promessas de felicidade e de um possível Paraíso terrestre, como qualquer pessoa comum Jack mente para si mesmo a respeito da natureza do mundo em que vive, faz planos, e envolve pessoas nestes planos. Wendy acredita no mentiroso, como as mulheres geralmente fazem. E Danny nasce desse casamento entre a Pretensão do pai com a Ingenuidade da mãe. Quanto mais nos envolvemos com as mentiras da vida neste mundo e mais investimos nelas, mais arbitramos o excesso da experiência da Mistura e caminhamos na direção daquilo de que deveríamos fugir para o mais longe possível. Foi o que Jack fez.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo8
Nota final5,6