Sendo a Singularidade inefável senão para um Intelecto infinito (divino), a única relação possível do ser finito com o infinito é o de amor como contemplação, confiança e repouso, atos antes volitivos do que intelectuais (§2, Cap. I)

§ 2. Sendo a Singularidade inefável senão para um Intelecto infinito (divino), a única relação possível do ser finito com o infinito é o de amor como contemplação, confiança e repouso, atos antes volitivos do que intelectuais. A Singularidade, ou Unicidade, é a qualidade de Absoluto e Infinito que Deus possui e que só Ele mesmo pode conhecer. Que exista o Infinito e o finito e a relação entre os dois é uma necessidade metafísica derivada da Percepção de qualquer contingente, já que sem Limite não há Percepção de formas discretas (conteúdos formais cuja primeira qualidade é a de participação no Ser e de formalização pelo Princípio de Identidade), e sem o Infinito não há atualidade possível a qualquer ser informado por um Limite. A operação do Intelecto é sempre garantida, do contrário não há sequer a Percepção da relação. O Uno, que transcende infinitamente, na sua completude, a capacidade de apreensão de um intelecto finito, só pode ser objeto de Amor e não de Gnose. O conhecimento sempre pode se expandir, da parte do intelecto finito, mas nunca alcança aquilo que só a vontade completa por sua crença voluntária sobre a essência da Unidade, especialmente na qualidade da Bondade. Daí o moto da Monadofilia ser “Coram Uno Amor Tantum” (“Diante do Uno, apenas o Amor”). A Unidade plenamente cognoscível ao ser contingente perderia sua essência e integridade, e se reduziria apenas a uma imagem do Ser da Unidade, como ocorre com as idolatrias da Natureza e do próprio Homem, por exemplo. O Uno só pode ser conhecido adequadamente, assim, através do amor que completa por desejo voluntário aquilo que o intelecto finito alcançou no seu Limite. Essa é uma aplicação direta das súmulas do Evangelho: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:27), “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14:6), “A vida eterna é esta: que eles te conheçam, a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (17:3), “Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17:22) e “Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17:26).

Monadofilia é uma filosofia cristã que propõe o Amor pela Unidade, que é a forma do Ser (§1, Cap. I)

Monadofilia é uma filosofia cristã que propõe o Amor pela Unidade, que é a forma do Ser. A filosofia é o amor pela sabedoria. O amor é o desejo que o amante tem pelo bem do amado. A sabedoria é o conhecimento do Bem, o conhecimento dos Princípios, o conhecimento do conhecimento, ou a Apercepção da Percepção, ou a consciência da consciência: ela informa o ser que conhece, que percebe ou que é consciente do valor e do sentido de sua experiência intelectual. Essa sabedoria, ainda indiferenciada e desqualificada, se apresenta apenas como um ideal amável pelo filósofo, pela inspiração que o conhecimento das verdades apodíticas (aletheia apodeixis) demonstradas inicialmente pela Geometria, e depois depuradas conceitualmente nas idéias de juízos analíticos a priori (Kant), ou juízos de razão (Leibniz), sugerem. Como a Sabedoria cristã é diferenciada e qualificada pelo conteúdo revelado do Evangelho, a filosofia cristã é o amor de quem ama a Sabedoria do Evangelho, de modo que tanto a premissa maior quanto a conclusão final são dadas antes do processo filosófico em si. Desta maneira a investigação filosófica cristã não tem como propósito descobrir o objeto do seu amor, que é o Evangelho, mas somente o motivo de porque ele é amável. Sendo o Intelecto humano gerado e sustentado pela Graça da iluminação pelo Intelecto divino, a filosofia cristã não vai modificar o seu praticante senão na sua qualidade de amante esclarecido de Deus, como uma forma de realização do Primeiro Mandamento, na descoberta do sentido da bondade da Sabedoria divina que a torna amável. Note-se que todas as filosofias indiferenciadas, ainda que não possuam necessariamente conclusões peticionadas em princípio, devem possuir necessariamente premissas declaradas como autoevidentes, ainda que não sejam necessidades metafísicas. A escolha do Evangelho como premissa da filosofia cristã é somente a aplicação intelectual do conteúdo da crença cristã que se coloca para o crente como autoevidente tanto quanto quaisquer outras crenças podem ser indefinidamente postuladas por outros tipos de filosofia na formulação de suas premissas. O privilégio cristão é o da escolha de confiar em Jesus Cristo que diz de si mesmo: “Eu Sou a luz do mundo, quem me seguir não andará mais nas trevas, mas terá a luz da vida“. Os filósofos que não querem ser cristãos podem ter seus próprios privilégios, mas estes lhes custam a decisão de ser indiferentes ou repelentes ao testemunho que Jesus dá de si mesmo, por sua própria conta e risco. Por fim, a Sabedoria do Evangelho revela a Unidade como forma do Ser por diversas declarações, especialmente na Revelação do Filho de Deus em sua relação com o Pai, e no Amor como Causa Final do Ser. Isso se coaduna com a necessidade ontológica da Substância Simples, ou Mônada, que corresponde metafisicamente como princípio intelectual necessário ao Primeiro Mandamento e a Revelação do Nome de Deus (EU SOU), contra todo tipo de mentira na forma das várias idolatrias. Além do testemunho de Deus através de Moisés em Êxodo 20, temos Jesus afirmando que “o Bom é um só“, e o apóstolo Paulo ensinando que “Nele somos, nos movemos e estamos“, entre outros exemplos que podem ser encontrados. O sentido da vida humana é encontrado na sua analogia, por imagem e semelhança, com o Ser divino, cujo Bem é encontrado em Si mesmo, e cujo bem particular que nos completa contingencialmente é informado pelo nosso Limite. Com a consciência da Unidade do Ser sendo eminentemente amável, todos os erros intelectuais e morais derivados de ignorância ou confusão gerados pela ilusão da Idolatria se desfazem. Como filosofia cristã, a Monadofilia se propõe, assim, como a melhor descrição da natureza da realidade e da condição da experiência humana.

Brightburn, filme por David YAROVESKY

O casal Breyer deseja ter filhos. A primeira cena do filme mostra pilhas de livros com o tema da gravidez, sugerindo que o desejo da maternidade é uma obsessão, provavelmente da parte da mulher, Tori.

Enquanto o casal se entrega às preliminares para mais uma tentativa de causar uma gravidez, as luzes piscam e então ocorre um tremor, como causado por um impacto. Os dois verificam pela janela da casa que algo caiu na floresta próxima, algo que emite uma misteriosa luz vermelha.

Como se trata de um filme de terror, mantém-se um mistério no decorrer da história, mas aqui podemos exibir a ordem cronológica: basicamente o casal encontra um bebê dentro do que seria, supostamente, uma nave espacial. E decidem juntos criar o menino como se fosse seu filho, que será reconhecido como adotivo. Ele se chamará Brandon.

Aos dez anos de idade Brandon será afetado por alguma influência da sua nave de origem, descobrirá que tem poderes extraordinários, e decifrará a mensagem na língua misteriosa que lhe diz: “tome o mundo“.

O menino aos poucos vai se tornar um vilão, por não aceitar mais as limitações impostas pelas circunstâncias normais da vida de um garoto de dez anos de idade. Eventualmente comete seu primeiro assassinato, e daí para frente não tem mais retorno. A culminação da história estará no homicídio de seus pais adotivos, primeiro o pai e depois a mãe, ambos mortos na circunstância de terem decidido eliminar a criança.

O que temos de importante, espiritualmente falando, é um duplo alerta que enfatiza o dom da Vigilância.

Primeiro, observamos na obstinação da mãe uma cegueira particularmente perigosa que serviu apenas para a leniência diante da consumação do mal para uma série de pessoas (e, como o filme vai sugerir ao fim, talvez do mundo inteiro). No começo do filme Tori se mostra obcecada com a idéia da gravidez, e foi dessa obsessão que saiu a idéia de criar o bebê que caiu na floresta em primeiro lugar. Depois, ela não quer aceitar a hipótese de que há algo de muito errado com o rapaz, quando já tem razões de sobra para concluir racionalmente o contrário. Se não fosse obcecada, Tori poderia ter deixado outras providências e circunstâncias terem interferido com o aparecimento do bebê, e depois teria dado chance para que outras pessoas, inclusive seu marido, pudessem sobreviver aos ataques da criança. Não seria de todo impossível inclusive fazer o menino alterar sua disposição com relação ao mundo, etc., mas isso requereria que Tori quisesse viver no mundo real, e não na sua ficção. Se a nave de origem de Brightburn lhe influenciou numa certa direção, porque seus pais, e principalmente sua mãe, não poderiam ter contraposto essa influência com outra maior na direção oposta? Não nos esqueçamos que todos os atos de violência do menino têm como motivação uma frustração com outros seres humanos, o que é uma experiência normal para qualquer adolescente. Diante dos limites impostos por regras e convenções, conhecendo sua superioridade, o menino não sabe como agir, e vai aceitando a sugestão da programação que vem da nave (ou que ele acha que vem da nave). Tori poderia ter sido uma influência para o bem, se quisesse, mas não poderia fazer isso enquanto negasse a verdade dos fatos. E o que o filme sugere é que a criação de Brandon não foi boa o suficiente, até antes do momento da influência da programação advinda da nave, para que o rapaz contrapusesse por sua própria conta essa nova afetação à um quadro estável, forte e profundo de valores que gerassem na sua consciência uma oposição moral suficiente para impedir a sua decadência. Por exemplo, a influência de valores morais que estariam acima até de um extraterrestre superpoderoso vivendo entre humanos fracos, como os valores que a família Kent teria transmitido ao jovem Superman. Ora, quem foi a pessoa mais responsável entre todas, no mundo inteiro, por ajudar a criar essa consciência moral no jovem Brandon? Tori. Ela falhou. Não se deve supor que as leis dos homens e os seus sistemas de fiscalização e punição serão sempre suficientes para impedir a ação criminosa. Muito mais poderosa é a capacidade de autocensura e o autocontrole de natureza moral. Mas isto requer o reconhecimento da grandeza de uma instância que está acima dos homens, as famosas leis não escritas às quais já os antigos gregos se referiam, ou o Temor de Deus ensinado pela Revelação, etc. Será que Tori se preocupou em aprender ela mesma essas noções, ou em transmiti-las ao seu filho? Ou ela só estava preocupada em viver a fantasia pequena e mesquinha de um papel vazio de mãe?

Segundo, Brandon, que se tornou o vilão Brightburn (em homenagem à cidade em que foi criado), poderia ser comparável com qualquer algoz real da humanidade. Quem deseja um filho nunca imagina que este possa ser um vilão de verdade, mas de onde os vilões saem? Do nada? Não, eles saem desse desejo irracional de multiplicação das Obras da Carne. Isto se aplica ao caso, porque ainda que tenha sido adotado, Brandon o foi no contexto do desejo particular de Tori de ser mãe. Ela não considerou qual seria o possível efeito negativo de criar uma consciência sensível que seria afetada pelas várias brutalidades e limitações do mundo, como por exemplo as mães de estudantes revoltados costumam desconsiderar, e depois se surpreendem quando o resultado dessa sua temeridade acaba em violência. Não é estranho, quando sabemos que ocorreu algum tiroteio em uma escola, provocado por exemplo por um jovem perturbado, talvez vítima de bullying, que esse tipo de crime ainda surpreenda tantas pessoas, quando deveria ser mais previsível que isso ocorresse eventualmente dada a relativa absurdidade da condição humana quando esta não é justificada por valores superiores e transcendentes, como o da vida na Presença? Todos os tiranos, psicopatas, sociopatas, assassinos, torturadores, estupradores, ladrões, etc., são todos filhos das mães, produtos do desejo de pessoas como Tori. E, como diria Agostinho, se o ser humano se abstivesse dessa vontade irracional, nada menos que o advento do Reino de Deus seria antecipado, e em uma geração o domínio de Satanás sobre este mundo seria destruído eternamente.

Já sabemos, porém, que não vai ser assim…

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Poética, livro por ARISTÓTELES

Ao tratar daquilo que é o poético, o Estagirita aborda imediatamente a distinção entre objetos e meios, afirmando que o que é próprio daquilo que ele chama de poético é a arte imitativa, e não o veículo próprio de apresentação desta arte, de modo que um filósofo pode usar meios aparentemente poéticos para produzir sua filosofia, e nem por isso se tornaria poeta. O contrário disso, porém, não nos parece ser verdadeiro, de vez que conforme o discurso é mais organizado formalmente parece que ele perde a sua capacidade imitativa. Assim, podemos encontrar, por exemplo, nas literaturas russa ou norte-americana, uma produção filosófica legítima, mas será difícil encontrar poetas que se expressem filosoficamente, porque esta expressão já exige uma abstração que viola o princípio das artes imitativas, que é o de sugerir possibilidades, que são aparências de verdades, e não probabilidades ou certezas.

É evidente que as artes imitativas podem ser usadas para a produção de ídolos, isto é, de objetos de culto no lugar da divindade real. Isso se dá porque a imitação pode ser veraz ou mentirosa. Precisamos distinguir, porém, com Aristóteles, os usos desse tipo de arte para conferir o quanto essa possibilidade tende a se realizar, mais ou menos, conforme o emprego das artes imitativa.

O filósofo nota que a imitação da vida humana deve ser capaz de representar as qualidades humanas, e portanto as virtudes e os vícios, e os caráteres superiores, ou nobres, e os inferiores.

Feita essa primeira observação, reparamos que um tipo bem antigo e clássico de arte imitativa, a poesia épica, como a de Homero ou Hesíodo, tem como objeto tipos superiores de seres humanos no contexto de assuntos da maior seriedade, e o elogio da sua virtude, fazendo isto de modo narrativo, o que cria uma projeção ideal algo distante da realidade humana comum. É uma narrativa mitológica que se distancia da temporalidade convencional. Já a poesia trágica, por sua vez, como de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, traz essa virtude e nobreza para a realidade humana mais cotidiana, substituindo a narrativa pela representação direta da ação (drama) na dimensão temporal da nossa experiência pessoal. Deixemos o nosso filósofo, este primoroso definidor, nos ensinar:

Esse caráter purgativo, catártico, fazia da poesia trágica um elemento essencial da vida psíquica e religiosa dos gregos antigos, trazendo à sua consciência elementos cruciais do sentido da condição humana que sem essa expressão poderiam permanecer soterrados no subconsciente. Não foi à toa que essa civilização produziu uma grande filosofia. O discurso poético antecede o político, o científico, e finalmente o filosófico (v. Aristóteles em nova perspectiva, de Olavo de Carvalho). Antes que a realidade humana pudesse ser integralmente considerada de forma objetiva, ela precisava ganhar expressividade suficiente nos seus diversos sentidos subjetivos. Daí também notamos que uma poética pobre e limitada sempre tornará uma sociedade filosoficamente incapaz de abstrair, por não possuir elementos simbólicos suficientes para representar a totalidade da experiência humana.

O exemplo mais óbvio e imediato dessa dependência que a filosofia tem da poética se dá no caso brasileiro onde a representação da vida geralmente alcança apenas os caráteres inferiores, sendo normalmente incapaz de se referir ao que é superior senão de forma irônica, sarcástica, com zombaria, etc. Isso instala toda uma população no estado de Apeirokalia, a falta da experiência das coisas mais belas. As virtudes não podem ser racionalmente reconhecidas no âmbito das discussões sociais, políticas e filosóficas, se elas não forem primeiro reconhecidas no seu legítimo valor no âmbito do sentido simbólico da vida do dia-a-dia. Se a nobreza, a generosidade, a magnanimidade, etc., forem zombadas na arte imitativa, serão também zombadas na vida real, e a política e a filosofia não poderão se realizar usando essas virtudes, porque elas foram desqualificadas pela arte imitativa. Aquilo que não compõe a imaginação primeiro, não poderá compor a abstração mais tarde. Daí observamos facilmente a grande futilidade desses empreendimentos políticos no Brasil, querendo salvar uma pátria que está poética e moralmente apodrecida, como se fosse possível alcançar paz e prosperidade numa sociedade em que a cultura é de ódio, violência, baixaria e futilidades. Não faz sentido algum. Uma árvore ruim não dá bons frutos. Primeiro seria preciso plantar boas árvores, e disso se colheria então bons frutos.

Voltando à Poética, numa de suas passagens mais notórias o filósofo nos ensina que a poesia está mais próxima da universalidade filosófica do que a história:

A maior seriedade, ou veracidade, da poesia se refere à sua maior universalidade ou pureza, desde que do ponto de vista mais universal do sentido das coisas, a possibilidade não só antecede a fatualidade histórica como é independente desta. Por exemplo, uma grande virtude, como de sacrifício da própria vida pelo bem de outro, não precisa se realizar historicamente para ser possível, e mesmo quando se realiza na história, só o fez porque foi antes possível, e é nesse âmbito de possibilidade que essa virtude possui a sua qualidade universalmente distintiva, o que é apreciado de forma mais pura na poesia porque esta destaca o caráter essencial da ação, como o valor heróico daquele que se sacrificou, enquanto na história o que tem importância se mistura com acidentes que desqualificam o caráter da ação, como a afirmação de que o herói era de uma certa etnia, tinha certa idade, era mais alto ou mais baixo, ou que vestia certas roupas, etc.

A respeito do potencial idolátrico das artes poéticas, como a avaliação disto não é o objetivo de Aristóteles, só podemos nós mesmos refletir sobre isso por nossa própria conta. Uma passagem do livro talvez nos ajude:

Reparem que estamos falando de uma poesia épica que tinha uma função religiosa e cívica. Isso não é uma novidade. Já vimos Platão afirmar expressamente que a mentira é necessária para o governo da sociedade. Qualquer reserva, portanto, quanto à legitimidade das fontes públicas de autoridade, inclusive e principalmente do tipo religioso, é autorizada pela mais elementar noção de como é fabricada realmente a “salsicha”, desde testemunhos antigos como esses de Platão e Aristóteles. Os ídolos são fabricados como instrumentos de poder sobre as massas que não buscam a verdadeira autoridade, que é a divina.

De resto o filósofo aponta para o que convém mais à arte imitativa, fazendo inclusive notas valiosas do ponto de vista gramatical, sobre a identificação de erros, etc.

Aristóteles obviamente não nos disse tudo o que podia sobre esse tema. Aquilo que nos está perdido só pode ser imaginado ao gosto de cada um e de suas preferências.

O filósofo termina por afirmar que a tragédia é a arte poética superior, principalmente por razões técnicas ligadas à extensão desse tipo de obra em comparação com as epopéias, e também pelo potencial de atingir os seus objetivos psicossociais com maior chance de acerto (embora em grande dependência da qualidade dos atores).

Falta-nos, porém, o elogio da comédia como recurso contrário à idolatria humanista e à Ingenuidade. Mas não podemos culpar Aristóteles pelo que ele não disse.

Nota espiritual: 4,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,7

John Wick, filme por Chad STAHELSKI

Assisti os quatro filmes da franquia John Wick: De volta ao jogo (2014), Um novo dia para matar (2017), Parabellum (2019) e Baba Yaga (2023).

Esses filmes não merecem uma análise detalhada, de um por um. Vou fazer apenas este comentário e já valerá para os quatro.

Parece que Keanu Reeves está sempre envolvido com filmes violentos especificamente voltados para a expansão dos limites do que é culturalmente tolerável. Hoje isso deve ter sido esquecido, mas na época do lançamento de filmes como Velocidade Máxima, ou Matrix, essa discussão existiu. Mas é claro que isso já foi esquecido. Nem sei se John Wick chegou sequer a causar alguma discussão, mas se não causou, deveria ter causado.

O protagonista desta série é um homem com um passado violento de envolvimento enquanto mercenário com serviços criminosos, particularmente como assassino.

Depois de muitos sacrifícios para conseguir sua aposentadoria, ele finalmente fica com sua esposa em paz, que era o seu objetivo, até que ela morre subitamente de uma doença (câncer?). O viúvo se consola com seu carro e com seu cachorro, este último um presente de sua falecida esposa.

Por um lance do destino, talvez um tipo de carma, Wick esbarra com mafiosos russos que terminam por lhe roubar o carro e matar o cachorro, e isso basta para que o personagem busque sua vingança que levará quatro filmes para acabar.

No percurso da história desse desgraçado que tinha tão pouco para dar valor em sua vida (literalmente só uma esposa, um carro e um cachorro), a sua vingança o levará a confrontar grandes chefões mafiosos.

Descobriremos as altas instâncias do crime organizado e toda a sua institucionalidade: a rede de hotéis Continental como santuários do crime, os rituais de pactos de sangue, e a Alta Cúpula (ou High Table), cujo líder é um misterioso Ancião que vive no meio de um deserto no norte da África.

Eventualmente Wick conseguirá enfrentar todos os desafios e sair vivo e vingado. Mas o que foi exaltado nestes filmes? O poder e prestígio dessas organizações secretas, a glamourização da violência como recurso legítimo, e a suposta justiça do desejo de vingança do protagonista. São valores abertamente anticristãos.

John Wick deveria ser desprezado como o verme moral que ele é, nem tanto por suas querelas com os criminosos, mas principalmente por sua opacidade espiritual. Hollywood continua educando a juventude para ser no mínimo espiritualmente insensível, quando não ensina mesmo a própria ambição por tudo que há de maligno.

A miséria espiritual de John Wick é revelada já no começo do primeiro filme e constitui todo o seu problema: ele não tem Deus. Se tivesse Deus, não poderia realmente perder a esposa, nem o cachorro, e nem o carro. Tudo o que é amável está eternamente em Deus. De fato, o que John amava de fato era Deus na forma de sua esposa, de seu cachorro, e de seu carro. Sua cruz lhe cobrou o acesso imediato a experiência dessas coisas amáveis, mas Deus é imperdível. E tantas graças quanto poderiam haver foram desprezadas porque John Wick achava que tinha perdido o que há de bom para sempre. Se carregasse seu fardo e confiasse em Deus, poderia ter vivido tantas coisas mais que o aproximariam do Pai, mas ele não quis. Preferiu experimentar essa vingança inútil e desnecessária. A morte já estava pronta para acolher todos os seus algozes, porque a verdadeira vingança é de Deus, e desta ninguém escapa. Mas Wick, querendo se colocar no lugar que não lhe cabia, perdeu o lugar de amor que lhe era destinado. Uma vida perdida em ambição, cegueira e tolice. Será que um próximo filme pode mudar essa sina?

Nota espiritual: 2,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final2,7

Órganon, livro por ARISTÓTELES

Esta edição contempla vários tratados lógicos do Estagirita, a saber:

  • Categorias
  • Da Interpretação
  • Analíticos Anteriores
  • Analíticos Posteriores
  • Tópicos
  • Refutações Sofísticas

Diferente dos filósofos que o precederam, que distinguem mais intuitivamente do que analiticamente a diferença da sua investigação em comparação com a atividade dos sofistas, Aristóteles se aprofundará no entendimento da própria linguagem humana e na sua correspondência lógica com os fatos do mundo real. Podemos entender essa como uma segunda jornada no território do Sujeito da filosofia, enquanto produtor de discursos, assim como com Sócrates o Sujeito filosófico foi investigado enquanto agente moral. Esse empreendimento, entre outros, torna Aristóteles o filósofo mais completo de sua época, embora talvez não seja necessariamente o mais profundo, dependendo do quanto ele consiga –conforme veremos– colaborar na investigação mais poderosa dos metafísicos anteriores, isto é, o tema do Uno e do Múltiplo tal como foi abordado por Pitágoras e Platão.

No livro das Categorias encontramos a primeira correspondência ao Uno na forma do mais elementar dos tipos de nomes que podem ser produzidos, a Categoria da Substância, e dentro desta especialmente o que ele chama de Substância Primária. Diz-nos Aristóteles:

A determinação da substância primária afirma a sua prioridade no Ser e a sua singularidade enquanto compatível com a diversidade de qualidades do Múltiplo, qualidades estas que são indefinidamente possíveis e que recebem a sua própria determinação por ação do Uno. Isso não é dito, por óbvio, nas Categorias, mas não é difícil fazer essa dedução. A implicação metafísica disto produz consequências espirituais decisivas: tudo o que reconhecemos pela sua qualidade distintiva formal afirma algo do Ser, mas não se confunde com ele, porque não o determina, mas é determinado por ele. Nossa inteligência apreende as formas do Ser, manifestado na Multiplicidade das suas qualidades, mas o Ser mesmo não pode ser reduzido a nenhuma delas, pois as antecede ontológica e formalmente. Ou seja, a atribuição de substancialidade a qualquer Ser que não seja o Uno, inefável na sua singularidade, é um juízo falso que corresponde, na dimensão espiritual, ao erro da Idolatria.

Mais adiante, ao investigar na Categoria da Relação a comunicação lógica de termos contrários, diz-nos o filósofo:

Essa simples afirmação é suficiente para desfazer uma gigantesca pretensão platônica, e também gnóstica, que precedia essa distinção: a de que às oposições lógicas entre termos contrários intelectualmente distintos pelo reconhecimento de sua oposição, corresponda uma oposição real no próprio Ser. A bondade de qualquer qualidade, como o estado de saúde de qualquer ser vivo, reconhecível, não somente, mas também pela relação de oposição com a maldade do estado contrário, que é o da sua ausência, não exige que esta oposição tenha que ser realizada no Ser e reconhecida como existente, à não ser apenas contingencialmente, se esta distinção for experimentada por um agente livre que precisa conhecer seu próprio arbítrio na escolha daquilo que é bom.

Para Platão, as idéias são tão ou até mais reais do que os entes que as manifestam como suas imagens ou aparências. Daí que às idéias opostas a qualquer bem particular se intelige por oposição as idéias das suas ausências, os males que lhes correspondem, e estas idéias devem possuir tanto Ser quanto as suas contrárias. Assim, conhecemos o mal na experiência porque existe lá na dimensão do mundo das idéias platônicas essas idéias eternas de todos os males possíveis, de modo que se não fosse assim não poderíamos reconhecer a bondade das idéias contrárias. Essa doutrina é profundamente gnóstica, já que atribui dualidade à dimensão divina do plano das idéias eternas. Para haver Bem deve haver Mal, para haver Luz deve haver Trevas, etc.

Para Aristóteles, as idéias são verdadeiras para o Intelecto, sem precisar possuir substancialidade fora dele, ou seja, sem participação necessária no Ser. Só a Unidade, correspondente à Categoria da Substância Primária, é necessária. Portanto, a oposição entre o que é bom e o que é mau é apenas uma aplicação da Categoria de Relação para o reconhecimento de possibilidades que se contrariam no Logos, mas não necessariamente no Ser. O Bem não precisa do Mal para ser o Bem, e nem sequer para ser reconhecido como o Bem, senão apenas sob um aspecto da Categoria da Relação.

A ressalva que eu fiz acima se refere à carência do ser livre contingente, com Intelecto finito, que requer particularmente alguma experiência da oposição no ser manifestado para que possa conhecer sua própria liberdade de escolha entre uma possibilidade e a outra. A medida dessa carência, porém, é variável, como já vimos no tema da Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM). Um Intelecto limitado, por não possuir a consciência atual de toda a bondade de todo o Ser possível como Deus possui, não pode aderir por uma vontade esclarecida na escolha do Bem sem conhecê-lo livremente diante de uma oposição concreta. Disto se depreende uma necessidade mínima de Mistura para esse tipo de ser realizar sua liberdade e escolher o Bem. A afirmação de que essa experiência contingente implica na necessidade ontológica de Mistura para qualquer condição de conhecimento do Bem não passa de uma Presunção advinda da Idolatria humanista e antropocêntrica. A forma como conhecemos o Ser não é a forma do conhecimento que Deus tem de Si mesmo. “Meus pensamentos não são vossos pensamentos, e vossos caminhos não são meus caminhos. Quanto os céus estão acima da terra, tanto meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.”

Com os Analíticos Anteriores Aristóteles nos ensina a lógica do discurso com a função exclusiva de conferir a sua validade. A veracidade do discurso depende da evidência das premissas maiores que transcendem o seu escopo. Em outros termos: a verdade do discurso está fora dele, não é uma qualidade lógica sua, mas ontológica, referindo-se à ousia, o Ser, e não ao logos, que é o discurso posterior e análogo ao Ser. A qualidade lógica do discurso aponta apenas para a sua validade. O que é autoevidente constitui uma premissa verdadeira em si, enquanto o que não possui evidência por si tem somente a qualidade de probabilidade e só pode ser afirmado se a mesma formulação comportar a negativa contrária, de acordo com o princípio científico da falseabilidade. Em suma, e como Kant esclareceu muito bem mais tarde, o que pertence à razão humana não é a Verdade, mas sim a coerência lógica.

Aristóteles herda de Sócrates, através de Platão, um certo ceticismo que se torna ferramenta de rigor analítico do discurso. Nos últimos capítulos do Livro I dos Analíticos Anteriores ele menciona várias vezes o poder enganador dos discursos, especialmente quando as premissas não funcionam direito, seja quando as declaradas não se aplicam, ou quando as aplicáveis não são declaradas. Isso nos evidencia um problema clássico na investigação da verdade: a urgência, ou pressa, para se obter as conclusões de um discurso competem diretamente com a capacidade analítica de esclarecer a validade e a veracidade de todas as premissas necessárias ao aferimento dessas conclusões. Daí que o espírito filosófico, e mesmo o verdadeiramente científico, se inclina naturalmente para a contemplação, e não para a arbitragem de disputas e questões práticas, onde o convencimento pelo discurso persuasivo é mais conveniente para a formação da opinião. Essa contradição entre a contemplatividade da verdadeira Filosofia e Ciência e a praticidade de uma imagem finita da verdade na forma da opinião persuasiva sempre me pareceu um elemento essencial que diferencia os seres humanos entre Amorosos e Furiosos. Quem quer decidir, sem que tenha tido o poder para fazê-lo por imposição das circunstâncias, coloca-se num grande risco moral. Ninguém deveria fazer isso contra si mesmo, e nem contra os outros. Antes, a rendição ao Mistério do Ser exige do ser humano a redução ao máximo de sua exposição a essas atividades de arbitragem. Todo o Pacto Ouroboros, por exemplo, poderia ser evitado por essa simples opção pela contemplação no lugar da persuasão sedutora da conquista de alguma vantagem através do risco do engano. Sempre que todas as premissas de um dado argumento forem investigadas com verdadeiro rigor filosófico o espírito de Presunção será desarmado, porque amar a Verdade é o contrário de presumir possuí-la, e esse amor é experiência do dom da Humildade.

No Capítulo VIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, Aristóteles destaca a diferença radical entre o conhecimento superior e puro, referente ao que é Eterno, e o conhecimento inferior, ou misturado, dos contingentes:

Isso é muito relevante para um grande estudioso da natureza como foi este filósofo, porque nos dá a noção da grandeza de sua visão. Embora tenha se dedicado tanto ao estudo detalhado das realidades naturais, o Estagirita jamais deixaria de reconhecer a hierarquia do Ser desde os primeiros princípios e as necessidades metafísicas até as contingências da realidade natural manifestada na nossa experiência. Quando mais tarde uma certa idolatria na forma de Lei Natural tentar imprimir às relações entre os contingentes vínculos de necessidade de uma natureza indevida, como se fossem verdades metafísicas, isso constituirá um erro tremendo que levará muitos séculos para ser corrigido, primeiro com a filosofia franciscana da Idade Média, e depois com a filosofia kantiana. Esse erro foi um dogmatismo que feria a hierarquia das coisas e o próprio espírito da melhor filosofia aristotélica, como podemos notar na leitura desta passagem do Órganon.

Que, por exemplo, um ser humano não deva matar o seu semelhante, não é uma revelação da Lei Natural, mas uma revelação divina pertencente ao domínio daquilo que transcende toda natureza possível. Ao querer “enfiar” Deus na Natureza, o que o dogmatismo tradicionalista fez foi endossar o ramo exotérico da dialética gnóstica do Ouroboros, ou seja, a legitimação da Mistura.

Igualmente, e até com maior importância, o fato de uma certa Lei Natural apontar para a conveniência da procriação não modifica o âmbito espiritual que deve ser independente e permitir o reconhecimento, com Aristóteles, de que “no que concerne a relações corruptíveis, não há demonstração ou conhecimento scricto sensu, mas somente no sentido acidental em que o predicado ou atributo pertence ao sujeito não universalmente, mas num dado tempo ou sob dadas condições“. Os animais não podem atingir essa consciência, mas os seres humanos podem e, como podem, devem, no que aliás se realizam mais como criaturas à imagem e semelhança de Deus, e não dos animais. Com a categoria teológica da Cruz, ou com a filosófica da RSMM, podemos por exemplo entender como a reprodução pode ser conveniente para alguns casos, mas não para todos, e principalmente nunca como regra de uma suposta Lei Natural. A distinção entre Obras da Carne e Obras do Espírito, afinal, não pode ser deduzida da Lei Natural porque implica justamente na sua total transcendência, do mesmo modo que a virtude da castidade da Virgem Maria, ou mesmo de Jesus, sublima completamente o decaimento embutido na natureza amaldiçoada desde Gênesis 3. Curiosamente, Aristóteles não tinha nenhuma dessas noções reveladas pelo Evangelho, mas sua filosofia era potente o suficiente para reconhecer os limites contingenciais das verdades obtidas pela observação da natureza. Que isso seja sempre lembrado quando algum dogmático quiser alegar a autoridade da Lei Natural para justificar a prática do Pacto Ouroboros.

No Capítulo X do Livro I dos Analíticos Posteriores lemos:

A validade do silogismo e a veracidade da demonstração são propriedades internas da alma que produz o assentimento a seu respeito. O que Aristóteles nos ensina aqui é que não existem proposições verdadeiras, senão em elipse. A Verdade está no Ser que é, e no Intelecto que o conhece. O discurso é apenas um símbolo dessa relação. O logos humano aponta para a correspondência externa entre nous e ousia. Diante de um discurso externo à alma, como a afirmação de um professor para um aluno, no exemplo dado, este é uma hipótese quando aceito como verdadeiro sem o correspondente discurso interno, e é um postulado quando não é aceito por hipótese. Assim, só podemos dizer que um discurso é verdadeiro por elipse, pois a verificação depende do discurso interior de cada alma.

No Capítulo XI do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

Esta é uma distinção vital na filosofia aristotélica contra a platônica. O Estagirita afirma que não é necessário separar o Uno e o Múltiplo para que qualquer predicação seja viável a respeito do Ser. Platão, desejando de algum modo proteger a eternidade das idéias, escolhe o caminho da multiplicação dos seres. Aristóteles, de certo modo mais eficiente, só requer que haja a identidade dos predicados no Intelecto. O mestre distanciava o Uno do Múltiplo posicionando essa classe de entes intermediários entre os dois e tornando os objetos da Percepção as imagens dos seus tantos variados arquétipos ideais, sem relação direta com o Uno. Já o discípulo, mais econômico, enxerga o Uno no Múltiplo pela identidade formal dos predicados do Ser. As filosofias futuras de Ockham e Kant seguirão essa pista de maneira frutuosa. E com Leibniz temos a maior unificação possível da relação entre o Uno e o Múltiplo com a Mônada que possui como objeto de Percepção a si mesma.

No Capítulo XXII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

Aristóteles nos mostra que é impossível possuir todos os conhecimentos por demonstração, porque se todos os termos forem eles mesmos demonstráveis, sua série seria infinita e nenhum conhecimento seria possível (atual). Certos termos intuitivos e autoevidentes são necessários para que qualquer conhecimento seja posteriormente demonstrável. E aquele intelecto que desejar a demonstração do que é intuitivo se colocará na tarefa impossível de realizar o que somente um intelecto divino poderia fazer, isto é, conhecer o infinito em ato. Foi isso o que Lúcifer desejou, a Gnose divina (noesis noeseos, “a visão da visão”), e através dessa frustração foi que ele caiu do Céu “como um raio“, como disse Jesus. De fato, a natureza desse conhecimento intuitivo e não demonstrável dos termos superiores, ou primeiros princípios, de qualquer raciocínio, é misteriosa enquanto sumamente dependente da Graça da iluminação divina. Entenda-se bem: também a demonstração silogística possível aos termos intermediários depende da iluminação divina, mas nesta, como a prova é recebida como parte da evidência e complemento da intuição, a relação de dependência pode ser desconsiderada, mas isto é impossível na qualificação da veracidade das intuições puras.

No Capítulo XXIV do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

O conhecimento mais perfeito, ou mais completo, atinge as causas primeiras que são mais simples. Essa observação nos convém para revalorizar a ação do arbítrio divino na sustentação de todas as causas intermediárias, e mesmo para repensarmos toda a validade dos termos referentes às causas próximas e médias como meras deferências da parte das causas primárias. Assim, que algo posterior ao ato divino tenha causado um efeito por seu próprio movimento é apenas uma concessão de participação na Graça que é sempre a produtora das Percepções. É claro que a linguagem da lógica aristotélica não poderia antecipar o que formalizamos com a ontologia monadofílica –isto é, que todas as causas intermediárias, correspondentes aos termos médios das demonstrações, são partes do objeto da Percepção tão produzidos pela iluminação divina no Intelecto percipiente quanto todos os seus efeitos–, mas nos impressiona que ela seja tão compatível com suas conclusões. Sobretudo, contra a Idolatria, convém reafirmar o poder divino de produzir qualquer Percepção per se, sem outras causas senão a Vontade de Deus, de maneira que até os últimos efeitos de qualquer série causal possam ser produzidos ex nihilo. Conhecer o Amor divino como a causa eminente de todas as coisas é, portanto, a Sabedoria suprema.

No Capítulo XXXIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

A Verdade, assim, pode ser (1) um juízo de fato, (2) um juízo de razão, (3) um juízo volitivo, (4) ou um discurso sobre um juízo verdadeiro. A maior dificuldade se encontra nos juízos volitivos que sustentam a opinião (doxa). Isso parece até antifilosófico, mas isto é só uma impressão falsa decorrente de um certo hábito gnóstico na História da Filosofia. O próprio Edson Bini, que traduziu esta edição do Órganon, comenta a respeito desta passagem que os especialistas em Aristóteles a acham problemática, e divergem na sua interpretação. Pela Monadofilia observo que é próprio do Intelecto limitado a estimativa do verdadeiro na produção da sua crença, e entendo que é a essa experiência elementar que Aristóteles se refere. A opinião não é, assim, apenas objetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como é, mas é também subjetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como seria possível. A opinião subjetivamente falsa, por sua vez, é aquela que contraria algum outro juízo no mesmo Intelecto, o que constitui um erro, ou uma mentira. Toda crença é verdadeira para quem nela acredita na falta de melhor juízo.

No Capítulo VII do Livro II dos Analíticos Posteriores, lemos:

Aqui Aristóteles mostra sua genialidade, a abrangência do seu pensamento, antecipando o Nominalismo ockhamista e a Crítica kantiana: o logos humano compreende racionalmente e é capaz de demonstrar somente aquilo que parte dos primeiros princípios da intuição que são indemonstráveis, como já vimos antes. Os nomes das coisas, as identidades das formas e as definições simbolizam os objetos intuídos pelo Intelecto, mas não o demonstram nem o dominam racionalmente.

Os nomes descrevem possibilidades de seres que nunca possuem fundamento racional para existirem, exceto pelo caso de Deus. A única realidade que possui em sua definição a necessidade do Ser por essência é a Substância divina, ou a Mônada Incriada, como primeiro princípio ou termo inicial sem o qual nada mais poderia existir ou ser demonstrado. Mas isso já é um objeto mais próprio à Metafísica.

No Livro I dos Tópicos encontramos um traço de Ingenuidade na afirmação de que a Dialética deve discutir somente a opinião da maioria, ou dos sábios. Isso poderia fazer muito sentido no universo da polis, pois uma sociedade organizada pelo bem comum permite que a unanimidade ou a especialidade ajudem na formação da base de uma investigação. Mas se a realidade social humana costuma ultrapassar os limites desse ideal político grego, essa segurança já não existe mais. Aristóteles chega a rejeitar in limine opiniões como as de negação de reverência aos deuses, ou do amor aos pais, e cria, assim, um limite artificial, externo, à Dialética. Essa provisão de uma reserva tradicionalista também revela um traço de Gnosticismo, ao prejuízo do dom de Soberania. A suposta dignidade da opinião da maioria e dos sábios não foi capaz de receber Jesus Cristo, por exemplo.

No Capítulo I do Livro III dos Tópicos, lemos:

A categoria do elegível tem aqui a mesma função, para a afetação da Vontade, que o Escolhido, que é o primeiro dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia. O que é elegível por si é o que é bom por si, bom no sentido estrito, e este é o conteúdo terminal da nossa Apetição, ou a causa final do ser em geral.

As causas intermediárias, ou termos médios, são excluídos da finalidade pela sua operação, e não por sua espécie. Assim, se eu preciso caminhar para me locomover de uma origem a um destino no espaço, nessa operação, por si, o caminhar poderia ser substituído, digamos, por um teletransporte imediato, sem afetar a Apetição cujo objetivo era um destino espacial. Porém, se eu qualifico essa causa como final em si mesma, por sua espécie a operação se torna elegível em si mesma como causa final. É assim que se compreende a riqueza inerente ao Escolhido, que é a Coruscância, ou o Paraíso. O caminhar como meio é preterível, já o caminhar em si é desejável, etc.

No Capítulo II do Livro III dos Tópicos, lemos:

A hierarquia entre os bens nos remete à importância da superioridade de algumas virtudes sobre outras, e de alguns tipos de experiência sobre outros. Assim, a Humildade supera a Sabedoria, a Sabedoria supera a Saúde, a Saúde supera a Riqueza, etc. O ensino das virtudes em grupo é muito contraproducente. Viver na Presença com Humildade supera tudo e, na verdade, é a única e suficiente forma de frutificar os demais dons e virtudes.

Ainda no mesmo Capítulo III podemos ler:

Ora, o que é mais útil do que a Vontade de Deus? Nada pode ser. Aplicando a lógica aristotélica do Decreto de Gênesis 3 e à revelação cristã da salvação através da Cruz, Morte e Ressurreição, reafirmamos a conveniência do desarmamento moral da humanidade pela hipótese da Melhor Geração (ou Última Geração). Aqueles que buscam qualquer tipo de felicidade, bem-estar, ou justiça sem contar com a Vontade divina tomam uma decisão irracional. E antes que se afirme que igualmente a perpetuação do Pacto Ouroboros pela procriação carnal se justifica como fruto da Vontade divina, é suficiente lembrar que nenhum nascimento é jamais obrigatório dada a potência racional da alma que pode produzir um juízo que escolha o autocontrole e a castidade, ao passo que a morte de todas as Obras da Carne, do ponto de vista humano, é inescapável. Isso aponta para a distinção do que é a provisão divina para um ato de liberdade da escolha do bem e do que é provimento para o ato de aceite de uma verdade inescapável.

No Capítulo V do Livro VII dos Tópicos, lemos:

Esta observação de Aristóteles, casualmente produzida enquanto o filósofo analisava as respectivas forças e fraquezas dos argumentos dialéticos, nos permite ver como a ambição científica é difícil, e potencialmente frustrante, e indiretamente indica a conveniência geral de uma postura cética e de agnosia, que corresponde, filosoficamente, ao dom espiritual da Humildade. Isto tudo deriva do Limite enquanto definidor da forma substancial humana. E é por isso que a Filosofia pode ser tão perigosa. Ela parece predispor a alma à tentação da Presunção e do Gnosticismo.

Além disso, nota-se como parece ser mais produtivo buscar as grandes intuições sobre o Ser, do que as suas infindáveis aplicações particulares. O especialista toma sempre o risco de se perder na sua investigação e de esquecer a firmeza dos primeiros princípios que lhe inspiraram inicialmente. O generalista, por outro lado, apesar de não ser mais infalível por si, fortalece o seu Intelecto por estar sempre próximo das grandes intuições originárias, como fazem os metafísicos na Filosofia, e os místicos na Teologia.

No Capítulo V do Livro VIII dos Tópicos, lemos:

Esta passagem ajuda na desambiguação da finalidade da Dialética e nos esclarece a natureza radicalmente diferente da Filosofia, e da Ciência pura, comparando-se com o que havia até então. Aristóteles se vê mesmo obrigado a reconhecer que está prestes a definir regras que nunca antes foram formalizadas, o que de certo modo produz um ajuste indireto na sua postura tradicionalista.

Mas será que os homens de antes não buscaram nunca a Verdade? É claro que eles buscaram. A questão é: com que clareza eles discerniam que este alvo não poderia ser atingido com o convencimento alheio? Nossa questão aqui trata da descoberta de um novo paradigma que é moral por sua natureza, e que foi inaugurado com plena autoconsciência por Sócrates. Já não importa ter uma opinião convincente. O que interessa agora é o convencimento de si mesmo. E, paradoxalmente, neste intuito é mais valioso o reconhecimento da ignorância do que a geração da imagem da verdade. O filósofo está (ou deveria estar) totalmente separado do teatro da Pretensão humana. Sem função social, ele enxerga por sobre as restrições dos vários papéis e está livre para não precisar chegar em nenhuma conclusão. Os outros precisam fingir que sabem, porque estão presos nas suas formas sociais que os impedem de ser honestos. O filósofo está livre dessa mentira. Sócrates de certo modo fundou a expressão da subjetividade autoconsciente. Aquele eu cartesiano que soube que existia por duvidar, precisou antes disso ser um eu socrático que sabia que não sabia o que os outros fingiam que sabiam. Com esse paradigma Sócrates inventou a verdadeira Filosofia.

Aristóteles é um descendente direto dessa nova tradição. Tão nova que este neto intelectual de Sócrates se vê obrigado a distinguir na Dialética essas duas funções radicalmente distantes uma da outra: por um lado a arte de se ter razão contra o outro, e por outro lado a arte de se ter razão contra si mesmo.

O triunfo da Humildade é um grande desarmamento moral para o qual boa parte da humanidade ainda não está pronta. Assim como na vida do espírito Jesus ainda é rejeitado, o mesmo se dá com Sócrates na vida intelectual.

No Capítulo XIV do Livro VIII dos Tópicos, lemos:

A investigação da Verdade só deve ser feita entre as mentes que podem fazê-la, quais sejam: as daqueles que já não disputam entre si, mas que fazem as próprias idéias serem disputadas, para que vença a melhor idéia, e não o melhor disputador.

Uma maneira rápida de verificar se dada mente possui o desejo da investigação da Verdade está em conferir com qual facilidade se dispõe a entreter-se com hipóteses as mais diversas, especialmente as mais inconvenientes, sem se deixar irritar ou cansar.

No Capítulo I das Refutações Sofísticas, lemos:

Duas observações merecem ser feitas a esse preâmbulo de Aristóteles a respeito da argumentação sofística.

Primeiro, destaquemos o abismo que existe entre as coisas e os seus nomes. Isso aponta, por sua vez, para a distância entre o Logos divino e o logos humano: o primeiro cria todas as coisas, e o segundo cria apenas algumas imagens precárias de algumas dessas coisas. Quem puder notar essa relação entre o divino e o humano poderá entender que só Deus pode ser sábio, e que ao ser humano cabe ser então o filósofo, que ama a verdadeira Sabedoria porque ama Aquele que é sábio.

Em segundo lugar, notamos como justamente aquele que se pretende sábio entre os homens não pode sê-lo, porque se fosse sábio enquanto homem, saberia que a Sabedoria não lhe pertence. Um homem verdadeiramente sábio, por outro lado, não pode aparentar sê-lo porque aceita que sua sabedoria não lhe é própria, mas é o objeto de seu amor por Aquele que a possui em si. Na melhor condição, este sabe que não sabe de nada por si, mas por Aquele que sabe.

A origem de todo Gnosticismo e de todo o Psiquismo é, assim, a Pretensão daquele que pratica a Idolatria do logos que produz as imagens da verdade como se estas pudessem capturar a verdade das coisas que só pertencem ao Logos divino. Observamos com isso, novamente, que a Idolatria é a origem de todos os males, e que a sua cura é a vida na Presença.

Em conclusão, esta louvável obra lógica de Aristóteles, ainda que tenha tido o seu grandioso papel de contribuição na História da Filosofia, termina por nos enfatizar o valor da Soberania sobre todas as formas de Gnosticismo. A mera quantidade de argumentos formuláveis inventariados pelo Estagirita para se defender argumentos corretos de refutadores desonestos, ou para se atacar argumentos desonestos com raciocínios corretivos, já serve para mostrar que a integridade moral dos investigadores importa muito mais do que o rigor lógico, já que sem o primeiro o segundo jamais é garantido, e entre aqueles amam a Sabedoria não é necessário tanto rigor quanto o mero desejo e um bom caráter. Talvez esta tenha sido a mais simples e poderosa mensagem de Sócrates que possa ter parecido menos importante do que era.

Poder-se-ia alegar que esta lógica seria necessária como fundação da Civilização ocidental e de suas instituições acadêmicas, mas qual será o destino de tudo isto, senão aquela destruição já prometida para o Dia do Juízo? Neste ponto enxergamos o comprometimento espiritual de Aristóteles com uma certa Ingenuidade. Ainda que não possuísse a Revelação das profecias sobre o Fim dos Tempos, certamente o filósofo era inteligente o suficiente para deduzir a maior probabilidade desse tipo de destino, como já deu a entender em várias partes de sua obra.

A análise exaustiva e detalhada da correção lógica dos discursos humanos nos lembra o papel da Lei na vida espiritual: a compilação de uma série de regras que jamais modificarão o coração de quem não possui uma boa disposição interior, e que só servirá para a acusação destes por meio de provas universais. Esse tipo de prática distancia a alma humana tanto da Soberania quanto do Discernimento, embora possamos entender porque, em dados contextos históricos, pareça ser muito conveniente aplicar esse tipo de técnica para a qualificação dos testemunhos que se pretendem verdadeiros. Mas se uma sociedade já está distante da Verdade por falta de integridade moral, não é a conferência lógica disso que modificará essa escolha.

Esta obra aristotélica demonstra a Ingenuidade dos empreendimentos escolares que nos ensinam coisas boas para sermos competentes ao lidar com uma realidade decaída e amaldiçoada que jamais modificaremos com toda a nossa qualidade intelectual, já que neste caso aquilo de que mais necessitamos é de qualidades morais como as que são desenvolvidas pelo impulso contrário, como o da Vigilância, por exemplo.

Nota espiritual: 4,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,7

O Nome da Rosa, filme por Jean-Jacques ANNAUD

Estamos no Século XIV. Dois monges franciscanos, um mestre (William de Baskerville) e um discípulo (Adson), se dirigem a um sinistro mosteiro no norte da Itália, para participar da disputa sobre a concentração de riquezas pelo papado e pela Igreja Católica de forma geral. Ao chegarem em seu destino descobrem um clima de intriga e conspiração ao redor de algumas mortes suspeitas. Resumindo a trama, o mosteiro possui uma vasta coleção de obras escondidas por razões de uma suposta piedade religiosa da parte dos anciãos do local. A obra em torno de que ocorreram os assassinatos foi a Poética de Aristóteles. As mentiras são descobertas, o debate termina sem nenhuma concessão do papado, ao mesmo tempo em que testemunhamos a crueldade de uma ação da Santa Inquisição no local.

O filme nos mostra três elementos principais: a corrupção da Igreja Católica, a liberdade filosófica do antigo Aristóteles e do contemporâneo William, e o mistério do Amor na paixão do jovem Adson por uma jovem.

Da corrupção da Igreja temos abundantes amostras com o acobertamento dos crimes ocorridos no mosteiro, com a manutenção em segredo da biblioteca profana com escritos perigosos ao dogma católico (como se a verdade do Evangelho tivesse que temer alguma filosofia do mundo), com a ação criminosa da Inquisição na produção de uma falsa justiça, e com a derrota do argumento franciscano na disputa pela divisão dos bens da Igreja.

Na obra que levou monges a matarem e a morrerem, A Poética de Aristóteles, encontramos o elogio da Comédia como gênero literário, e o poder do riso para a descoberta da verdade, especialmente da verdade que desagrada aos poderes e instituições estabelecidos. A interpretação daqueles que suprimem o conhecimento filosófico é de que “o riso mata o medo, e sem o medo não pode haver fé. Sem o medo do diabo, não há mais necessidade de Deus“, uma teologia fraquíssima e gnóstica. Essa Igreja é fetichista e mórbida, tanto quanto aquele farisaísmo que matou Jesus. O filósofo grego estava muito mais próximo da verdade e, portanto, do verdadeiro Evangelho, quando afirmou que o riso desarma o dogma, destrói a solenidade, torna os poderosos ridículos e enfraquece a obediência baseada no medo. Sobretudo, se deus é bom, se seu Amor é invencível, a Revelação de certo modo é um tipo de Comédia, uma história com final feliz.

Com William de Baskerville temos a concordância da fé com o espírito investigativo, de amor à Verdade doa a quem doer. No contexto do filme isso se mostra no caráter curioso e aberto da mente de William. Já no âmbito mais amplo da filosofia da Ordem dos Franciscanos, entendemos que o problema do “Nome da Rosa” aponta para o legado franciscano da investigação do principium individuationis, uma filosofia que contestou a individuação pela matéria defendida por Aristóteles e por Tomás de Aquino. Para além dessa conquista franciscana concentrada na figura de Duns Scot no Século XIII, chegamos ao próximo Século com William Baskerville representando o legado do outro William, de Ockham, o nominalista que separou as coisas do seus nomes, defendendo a Unidade da substância real contra a generalização das universalizações racionais. Na criatura a ousia ultrapassa o logos, porque só em Deus o Ser e o Conhecer se unificam plenamente. O Nome da Rosa é, afinal, um mistério que só Deus conhece plenamente.

Isso não nos faz deixar de desejar o deleite de experimentar esse mistério divino, o que nos leva para a parte final e mais importante do filme, que é a experiência da paixão de Adson. No fim do filme o jovem monge vai embora do mosteiro com seu mestre, deixando para trás aquela jovem que tanto o encantou. Em seu relato enquanto já idoso ele afirma em memória: “Da rosa antiga resta apenas o nome; apenas nomes nus temos agora.”

Essa expressão melancólica trai o sentido sagrado do final feliz da Comédia que Aristóteles defendia em sua Poética. Afinal, o que Adson poderia perder daquele mistério, se todo o Bem é Eterno em Deus, esse Deus a quem ele próprio se dirige com a consumação de sua vida? Infelizmente isso reduz a qualidade espiritual da obra. Não sei do livro, mas o filme desaponta neste sentido. Possivelmente a idéia do próprio Umberto Eco foi a de endossar a interpretação da inclinação ateística e materialista do nominalismo, o que é um grande erro em face da verdadeira intenção dos Franciscanos: o que eles queriam não era destruir a Eternidade do Logos divino, mas a pretensão do logos humano. Desastrosamente, para o espírito humanista e antropocentrista, uma coisa quer dizer a perda da outra, mas para quem tem a Fé tudo está resolvido, e até ao contrário, a Humildade favorece a exaltação do Logos divino.

A morte é lucro, meu jovem velho Adson.

Confiando em Deus você não perdeu a Rosa, mas a ganhou para sempre.

Acho que o que você perdeu foi o fio da meada do Evangelho…

PS: Completando a explicação nos termos da minha própria filosofia (Monadofilia): corretamente entendido, o Nominalismo corrige o âmbito da experiência humana mostrando o Limite da Percepção, que é o conhecimento da Rosa concreta, e o Limite da Apercepção, que é o Nome da Rosa, mas jamais às custas da idéia eterna da Rosa no Logos divino, ao qual temos o acesso prometido pela nossa participação na Eternidade de Deus.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,4

The Sopranos, série por David CHASE

Divertida e bem feita, a série The Sopranos conta a história dessa família americana, descendente de italianos, que é envolvida na atuação da Máfia no estado de New Jersey, especialmente através da pessoa de Tony Soprano que se torna o chefe de facto da organização naquele estado desde a Primeira Temporada.

Por melhor que seja o entretenimento, porém, esta não é uma comédia. Há muitos alívios cômicos e muita variedade de sentimentos e símbolos, mas a série não pode ser espiritualmente inócua como alguns pretenderiam que fosse o caso, inclusive o falecido James Gandolfini, que interpretou o próprio Tony Soprano.

Para a nossa finalidade aqui, consideremos que apesar de termos alguma vantagem nos territórios da Soberania e da Vigilância com esta série, no fim das contas o testemunho espiritual que ela produz é negativo. Mas o seu simbolismo, por tratar justamente da condição humana de um ponto de vista bastante universal, embora não contenha saídas legítimas (por exemplo, todas as figuras cristãs na série são religiosas e vazias), retrata ao menos a parte negativa da experiência humana de modo fiel, e neste sentido é que podemos aproveitar algo da série, espiritualmente falando.

Tony Soprano é como um Adão, e sua esposa Carmela é como uma Eva. E a série conta basicamente a história da sua Queda, por vários ângulos diferentes, e a sua insistência em viver uma vida mentirosa, ou seja, sem Deus. Os demais personagens ilustram variadas repostas a esse pacto central voltado para a idolatria da família, dos costumes, etc. Nada nos permite acreditar que os ancestrais dos Soprano fossem melhores que eles, mas persiste essa insistência na lenda do valor passado, de modo que a tendência da série é de niilismo, cacolatria, ou de idealismo imanentista do passado.

Tony é um ladrão, adúltero, mentiroso, assassino e outras coisas mais, que não quer acreditar na sua própria Liberdade de agir diferente. Pior do que isso, não só ele recusa o Bem voluntariamente, repetidamente, insistentemente, mas ele ainda detesta que outros queiram a mesma Liberdade de crer e escolher o Bem que ele nega para si próprio, e odeia até mesmo que outros ousem sequer acreditar nela, e age deliberadamente para impedir que possam escolher melhor que ele, ou para ao menos desmoralizá-los. Seu fatalismo é a crença que baseia o seu caráter depressivo. E assim ele confronta todos os personagens que ousam contrariar a sua visão de mundo, todos na sua família (com uma certa ambiguidade apenas com relação aos filhos), todos nas suas relações de negócios, e inclusive a sua terapeuta, a Dra. Melfi. Tony não é simplesmente um criminoso e pecador que precisa de Redenção. Ele rejeita deliberadamente a Redenção e se aproxima, assim, do que chamamos de Pecado Mortal, ou Pecado contra o Espírito Santo. Muitas vezes, diante de tragédias, ele questiona: “que Deus é esse?“, sem se perguntar seriamente como todas essas coisas supostamente trágicas vieram a ocorrer de fato, porque isto obviamente o levaria a questionar a sua própria escolha de vida neste mundo, os ídolos do passado, etc. Somente no fim da série Tony vai entender finalmente que não há fatalismo determinista que o obrigue a ser quem ele é, e que sua Liberdade é muito real na escolha do Mal, como veremos.

A série possui a marca desse fatalismo determinista, que já faz parte até da música de abertura (Woke Up This Morning) onde o refrão diz “mas você nasceu sob um mau sinal, com uma lua azul nos seus olhos“. O termo “blue”, uma referência à cor azul, é um símbolo da depressão e da tristeza. A série mostra o corpo de Tony lutando contra a sua vontade de rejeitar o Espírito Santo: por reprimir seus sentimentos mais legítimos ele tem ataques de pânico e ataques de raiva, coisas que o levam a se consultar com a terapeuta, Dra. Melfi. A origem do seu estresse está obviamente na depressão, ou tristeza, que ele não quer assumir e resolver de fato, porque isso envolveria uma transformação muito grande pelo questionamento das grandes mentiras que ele aceitou desde sua infância, as crenças da suposta qualidade moral de seus pais, de seu tio, da própria Máfia como um todo, etc. Sua solução, obviamente falsa, está na aposta redobrada na mentira.

Sua esposa, Carmela, faz praticamente a mesma coisa que Tony, embora por outros caminhos. Ela sabe que se prostituiu ao marido em troca de bens materiais e da falsa imagem da família unida, um ídolo que ela compartilha fervorosamente com o marido. Ela não quer romper com essa mentira e assumir as consequências, e redobra também a sua aposta na mentira, até se tornar vítima ela própria do ciclo de violência que sempre foi a realidade secreta que sustentou a sua vida. Sua religiosidade é abjetamente hipócrita e superficial.

Os filhos do casal Soprano, Meadow e Anthony Jr. (“AJ”), conforme amadurecem, precisam deliberar por si mesmos a respeito dessa herança espiritual hedionda que seus pais lhes transmitem.

A moça, que é a mais velha, por vezes parece querer decidir por romper com o esquema, mas acaba por se convencer pela conveniência de uma certa acomodação. Conforme Meadow decide por si obter sucesso no mundo, pela sua carreira, ou cogitar a construção da sua própria família com os votos de matrimônio e maternidade, ela entende que o caminho para essas realizações é, senão o mesmo, ao menos análogo ao trilhado por seus pais, e com isso vive até certo ponto uma corrupção moral em si, embora com algumas ambiguidades. A última manifestação de um eco da sua Liberdade interior veio quando, alcoolizada, ela não resiste ao sentimentalismo de seu tio-avô, quando este canta Core Ingrato no velório se seu ex-namorado, Jackie Aprile Jr. Ela zomba e depois sai correndo do pai, quase sendo atropelada. Mas Meadow não é consequente na sua reação, ou ao menos não formaliza uma reflexão mais séria a respeito, e termina como uma personagem morna, talvez a única sobrevivente da família ao fim da série.

Já AJ amadurece de forma bem mais traumática. Ele revive episódios de ataques de pânico e de ira, como os sofridos por seu pai, mas vive sua depressão de um modo diferente, aceitando a tristeza como um sentimento legítimo, ao invés de negá-la. Eventualmente, mais para o fim da série, na Sexta Temporada, ao reconhecer que o mundo não é o que deveria ser através da frustração de uma experiência amorosa, ele vai rejeitando uma por uma todas as mentiras e confortos que seus pais apontam, seja comida, sexo, sucesso acadêmico, e mesmo as ambições de riqueza ou de violência. Finalmente tenta o suicídio, ou simula uma tentativa. Mas sua evolução na série não passa disso. Sua expressão mais legítima aparece numa sessão de terapia, quando ele afirma: “As pessoas andam por aí como se isto tudo importasse, elas ficam rindo e ninguém pára para pensar no que está acontecendo. Como é possível não estar [deprimido]? Só sendo maluco para não se deprimir. Sua cabeça teria de estar tão enfiada no rabo que só o que conseguiria ver é a própria cara estúpida. Tudo está tão fodido. Por que não podemos todos apenas nos entender?“. É o adolescente no limiar da maturidade de descobrir que o mundo em que seus pais lhe colocaram está muito longe de ser o conto de fadas que se poderia supor. Porém, na confusão emocional, ele não consegue separar ainda o que é a motivação pessoal do seu fracasso particular com a mais complexa realidade da vida e do mundo onde é sim justificável que as pessoas possam rir. Mas ele não tem chance de ampliar sua visão, ou não quer se dar uma chance de entender a profundidade do problema, e eventualmente arruma uma nova namoradinha e todos nós já sabemos onde isso deve dar. Novamente parece-nos particularmente forte a busca do homem jovem de um resgate do paraíso perdido da farsa da mãe na forma de uma nova farsa, a do matrimônio, onde a esposa supre essa carência. Deus não é buscado.

Com Christopher Moltisanti, um primo de Tony que é tratado pelo mafioso como sobrinho, e às vezes até como filho, revemos o drama da escolha diante do suposto destino fatal e até com maior clareza, porque ele faz parte da Máfia. Christopher acaba mantendo-se fiel à Tony e ao seu pacto de sangue, não porque seja leal por si, mas porque isso lhe convém pois não quer pagar os altos custos implicados na escolha pela Liberdade de rejeitar Tony e tudo o que ele representa para si, mais ou menos como Carmela. Quando tem a chance de salvar sua noiva e a si mesmo dessa vida desgraçada como criminoso, ele prefere a riqueza e o status do que uma vida honesta na pobreza. O problema é que Christopher não consegue bancar sua traição contra o Espírito como Tony faz. O preço que paga é mais pesado. Ele se torna menos funcional e mais vulnerável aos seus vícios, o que o leva finalmente à morrer pelas mãos do próprio Tony na circunstância de um acidente de carro. A grande revelação do sentido de sua vida vem num momento em que ele muito ingenuamente se abre com o veterano Paulie sobre seus sentimentos pela filha recém-nascida, e é zombado com piadas cínicas e grosseiras que o tiram subitamente de sua fantasia. Os gângsteres vivem mais instalados na realidade do que idealistas tolos, sem Deus, como Christopher. É um personagem que não pode ser trágico, porque é apenas cego para o mundo e até para si mesmo. Sórdido que seja no seu humor mórbido, Paulie não será surpreendido pela dureza e crueldade da realidade. Já na primeira temporada, quando Christopher reclamava de que lhe faltava “um arco” na sua história, o jovem pergunta: “você já teve a impressão de que nada de bom nunca lhe aconteceria na vida?“, ao que Paulie responde: “sim, nada aconteceu mesmo, e daí?“. Se achando especial, mas sem encontrar a sua especialidade com o Amor de Deus, Chistopher apenas se iludiu com sonhos enganosos, e não foi por falta de aviso.

O mencionado Paulie Gualtieri, aliás, é um personagem muito peculiar. Tão culpado por mentir, roubar e matar quanto qualquer outro, separa-se porém dos demais por suas superstições e uma conexão confusa com o mundo sobrenatural. Solteiro e sem filhos, ele vive misturado, mas ao mesmo tempo separado. Teria ele alguma intuição confusa e subconsciente do sentido da realidade? Alguns exemplos da falas estranhas de Paulie mostram a sua desconfiança com relação à natureza das coisas: “Uma coisa incrível sobre as cobras é que elas se reproduzem espontaneamente. É por isso que se chama de ‘cobra’ alguém em que você não confia. Como você poderia confiar em quem se fode a si mesmo? As cobras já estavam se fodendo muito antes de Adão e Eva“, “Mantenha-se solteiro enquanto puder“, e “Por que mijar, cagar e foder ocorrem todos num raio de duas polegadas?“. Ao fim ele tem uma visão súbita da Virgem Maria na boate Bada Bing (exatamente onde as garotas costumam dançar seminuas), se reconcilia com sua tia por ter se passado por sua mãe, e então recusa uma oferta de Tony e renuncia a assumir uma posição de maior prestígio e riqueza na Máfia, acreditando que isso traria alguma má sorte para si. De todos os personagens principais da série, Paulie é o único que se pode afirmar com maior segurança que tenha sobrevivido a todos os eventos da última temporada. Ambiguamente, ele participa de tudo o que não presta, mas não do mesmo jeito que os outros. Está junto, mas não misturado.

Mas quem na série teria alguma chance de elevar sua consciência a um nível de entendimento superior?

A grande chance foi da Dra. Melfi, a terapeuta de Tony que se achava muito esperta mas demorou seis temporadas para perceber que o mafioso era mais inteligente do que ela. Um apreço pela alta cultura, aliada a um certo intelectualismo, às vezes confundem certas personalidades deslumbradas e as fazem se sentir superiores aos outros. Ao invés de forçar o bandido a confrontar suas mentiras, Melfi preferiu se deixar seduzir pelo poder e charme de seu paciente. Só conseguiu se libertar de sua ilusão quando foi praticamente forçada a reconhecer a capacidade de um sociopata de manipular o processo terapêutico para se tornar mais funcional justamente como criminoso. Eu achei essa descoberta maravilhosa. Afinal, se o objetivo do estudo e tratamento da psique é tornar os seres humanos mais funcionais, o que isso significa num mundo governado por Satanás? Tony Soprano é um caso óbvio demais, e toma a forma de um desvio ou anomalia do propósito da psicoterapia. Mas será assim mesmo? Sutilmente, o mero objetivo da funcionalidade psíquica não serve apenas para a manutenção do Sistema da Besta?

Uma hipótese esclarecedora mais potente sobre o sentido da vida vem de Lívia, a mãe de Tony, que diz ao neto, AJ: “É tudo um grande nada.” Essa serpente niilista, odienta e odiosa, traumatizou Tony que só pôde se defender desse ataque espiritual se refugiando na ilusão de valor do pai, o mafioso que quis imitar como se fosse um conquistador da vida e alguém que pudesse responder ao desafio de Lívia. É tudo uma grande mentira.

As idéias espirituais mais explícitas na série aparecem em três vertentes.

Primeiro são sugeridas na representação da forte presença da cultura católica no seio dos ítalo-americanos, mas apenas na forma de hipocrisia e sentimentalismo, ou no sentido de um certo orgulho identitário. O Padre Intintola, por exemplo, é desmoralizado como um aproveitador, embora seja notável que resista à tentação de cometer adultério com Carmela. Ele não consegue responder satisfatoriamente para ela a origem e o sentido do desejo sexual, porém. Mantém-se uma liderança espiritual fraca, como todos os cristãos que aparecem mais tarde, como o Pastor Brewster que visita Tony que está doente no hospital. Os cristãos parecem ser ingênuos ou aproveitadores inescrupulosos.

Além disso, o segundo tipo de sugestão vem de algumas idéias espirituais gnósticas que aparecem na forma de uma certa ideologia da Nova Era. Há testemunhos do Budismo sobre a dissolução da ilusão do eu numa visão que Tony tem durante o seu coma, e também uma idéia monista gerada a partir de alguns elementos da Física Quântica, trazida pela influência de um paciente hospitalizado junto com Tony.

Por fim, as idéias espirituais mais substanciais aparecem pela intervenção de um elemento sobrenatural sutil na história, em experiências como as de Paulie, mas principalmente com o próprio Tony. Isso começa através de sonhos passíveis de interpretação pela atuação da Dra. Melfi, mas depois se amplia para visões durante o seu coma, e principalmente na experiência mais significativa de toda a série que ocorre no episódio 18 da última temporada, “Kennedy and Heidi“.

Neste episódio Tony mata Christopher depois de um acidente de carro. Aos poucos ele fica satisfeito com sua ação, e cada vez mais feliz, na verdade. Ele não suporta fingir o luto, nem ter que sequer justificar para si mesmo o seu ato, e nem o falso valor da vida familiar no qual no fundo começa a perceber que não acredita. Num relance, da parte superior de sua casa, Tony vê na sala abaixo a viúva de Christopher amamentando a filha, enquanto a avó, mãe de Christopher diz: “Ela não sabe de nada. Deus não é mesmo maravilhoso?” Sua posição neste momento é muito simbólica. Ele, desde cima, como um “deus”, também olha para essas mulherzinhas tontas e cegas sendo maravilhoso ele mesmo ao não compartilhar com elas as verdades que elas não aguentariam. O próprio ato amoroso de amamentar, que normalmente significaria segurança e cuidado, se mostra como parte de um esquema de acobertamentos do mal, ou até como a nutrição de uma promissora futura cumplicidade na ignorância. Essas sutilezas na série são fenomenais. Tony já não aguenta mais ficar no meio desse teatro patético representado por atores inferiores. Decide ir para Las Vegas espairecer.

Durante sua viagem a verdade é revelada. Inicialmente Tony perde ao jogar no cassino, continuando sua maré de azar que já vinha de tempos antes. Mas então toma droga (peiote) com uma prostituta. Volta aos jogos. Uma significativa imagem de um diabinho parece lhe sugerir alguma coisa qualquer. Então ele começa a ganhar repentinamente, e de forma espantosa. “Ele está morto!“, comemora. Era preciso que matasse Christopher para destravar algo em sua vida. Mais tarde, numa paisagem desértica inspiradora, Tony vê um flash de luz saindo do sol vermelho no horizonte, várias vezes. Ele se levanta, comovido, ergue os braços e proclama: “Eu entendi!” Está eufórico, mas não parece realmente feliz, e sim aliviado porque algo lhe foi esclarecido. Ri e chora ao mesmo tempo. Seus sentimentos estão confusos diante de uma revelação profunda. Ri porque entende algo muito valioso, mas chora porque o que ele entendeu é terrível.

Não é novidade nenhuma que o uso de drogas psicodélicas é um meio comum de liberação de acesso da consciência humana para a comunicação com espíritos infernais. Qual mensagem Tony teria recebido ali, naquele deserto? A resposta me pareceu muito simples na segunda vez que assisti a série. Tony entendeu uma grande verdade que esclareceu-lhe o sentido de sua vida: este mundo pertence ao diabo, e aqueles, como ele próprio, que servem apenas aos seus desejos de poder e satisfação, não precisam prestar contas senão a si próprios, porque este mundo lhes pertence. Christopher precisava morrer porque, embora vacilasse na sua escolha, o próprio Tony, não vacilando na sua própria decisão, fez apenas o que lhe cabia na sua própria Liberdade. Tony tomou consciência do sentido espiritual de sua própria decisão, finalmente. Sua jornada de autoconhecimento alcançou o ápice. O propósito de sua vida foi realizado e ele está pronto para morrer em breve.

O que Tony não conseguiu encarar através de todos os seus anos de terapia, a experiência com a droga no deserto de Las Vegas o obrigou a ver: que ele fez o que quis com a vida que teve. Não importa mais fingir que sua vida foi fatalmente predeterminada pela sua vontade de agradar e obter o amor de seus pais, e de fingir que eles eram bons. Foi ele quem trocou o Deus verdadeiro e seu Amor pela idolatria da família e, principalmente, pela busca do Poder. Tony não precisa mais fingir que não consegue mudar sua vida, porque agora ele sabe que não quer fazer isso.

É muito conveniente atentarmos para o sentido da Liberdade independente de quaisquer transgressões particulares: o que o ser humano precisa conhecer é a sua própria Arbitragem a respeito do Amor divino, isso já tendo como pressuposto, como diz o apóstolo Paulo, que todos são pecadores e que ninguém se salva por si (“Deus encerrou a todos na desobediência para a todos fazer misericórdia“).

Esses dois personagens de quem falamos aqui, Paulie e Tony, por exemplo, são comparáveis e semelhantes por todos os seus crimes e pecados, mas suas decisões diante de uma visão do Sagrado são diferentes: um restringe sua vontade por confiança em algum Bem transcendente que ele não entende direito mas ao qual quer se submeter, e o outro a libera completamente de qualquer restrição.

Nota espiritual: 3,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte1
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,4

Amar a Deus é uma questão de Justiça

Já me reclamaram, a partir de uma visão empesteada pelo vício religioso, que é muito difícil seguir as leis divinas, agradar a Deus, etc. Tudo isso é falso. O que Deus quer é que pratiquemos o bem que podemos praticar, e não o impossível. É claro que sempre podemos melhorar, o que cria uma condição de relação contínua com o Espírito Santo para que cresçamos na vida da Graça. Mas o impossível não faz parte do que se requer de nós.

Quando Jesus diz que devemos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, ele afirma duas coisas: 1) que devemos ser generosíssimos no Perdão e na Misericórdia, que é o contexto imediato do que ele explicava; e 2) que em tudo aquilo que não podemos ser perfeitos ele próprio, Jesus Cristo, Filho do Homem, é perfeito por nós, bastando-nos portanto estarmos ligados à ele para que ele nos justifique perante o Pai.

O que atormenta o ser humano que se pensa cristão, mas que ainda precisa se converter, é o saco de mentiras religiosas que ele carrega nas costas por sua própria culpa. Depois de Jesus Cristo não há mais razão para a escravidão do pecado e da mentira. Ele nos libertou. Quem se mantém escravo da mentira depois de conhecer o Evangelho é agora mais responsável ainda por sua condição do que era antes de receber a Boa Notícia, especialmente quando isso se dá pela participação na mentira da Religião. Por isso Jesus diz que haverá mais misericórdia para Sodoma e Gomorra no Dia do Juízo do que para os religiosos, e que as prostitutas e os ladrões precederão aos religiosos na entrada da Salvação. Porque negar o Amor divino é pecar contra o Espírito Santo, é o pecado mortal que nega a própria essência da Salvação. Como pode querer viver para sempre, na imortalidade da Vida Eterna, aquele que ama a mentira e odeia a liberdade?

O Amor é uma questão de Justiça, tanto a Deus quanto ao próximo.

Amar a Deus é ser justo com Ele: não temos a vida e os bens da vida por nós mesmos, mas pela Graça. Se vivemos pela Graça, em Sua Presença, já não temos nenhuma pretensão de sermos bons ou de possuirmos qualquer bem senão pelo Amor divino, e assim somos fiéis e justos com Ele. É disso que se trata.

Amar ao próximo é ser justo com o próximo: faça ao outro como você espera que façam consigo, e não faça ao outro aquilo que não quer que te façam. Isso é o suficiente para que a Justiça divina impere sobre a Terra.

Deus só quer de nós essa Justiça de ser reconhecido no seu Amor, como nosso Pai, e que reconheçamos o próximo como seu filho, nosso irmão. É só isso. Essa é a Lei. A Lei é o Amor. Mas os homens preferiram a mentira.

O que sempre arruinou a simplicidade dessa experiência é o espírito de Presunção que criou ambições fora do âmbito do Amor divino e do amor ao próximo, ou seja, ambições contrárias à Lei divina. E nenhuma ambição é pior e mais cheia de terríveis consequências do que o Pecado Original.

Em favor daquilo que identifiquei como a hipótese da Melhor Geração (ou “Última Geração”, no meu livro A Coruscância), é um dever cristão reconhecer a grande generosidade de Deus, mesmo em relação à nossa condição já tão avançada de desenvolvimento da decadência e da corrupção do nosso decaimento. Sim, nosso Senhor é generoso. E o que nos custa colher os frutos da sua generosidade? Apenas abandonar a Pretensão de viver alheios à sua Vontade.

A maior parte da humanidade vive tragada pelo costume de traição contra o Amor e contra a Sabedoria de Deus. E não faz muita questão de se libertar. Isso é provado pelo desprezo com que os próprios assim chamados “cristãos” tratam a liberdade que Jesus lhes ofereceu e que desprezam todos os dias, fazendo-se escravos dos homens, e de mandamentos e costumes humanos.

Vamos deixar uma coisa muito clara aqui, especialmente para aqueles que pensam que isso tudo pode ser muito vago e impreciso: o Pecado Original é uma coisa muito exata e precisa.

Senão vejamos: feito à imagem e semelhança de Deus, o homem recebeu seu Intelecto e sua Vontade para conhecer a verdade e amar o bem. Quando não realiza essas metas, o ser humano frustra o sentido de sua vida. E todas as vezes que o ser humano se refugia na mentira de suas falsas ambições de poder sem Deus ele busca uma compensação vazia pela sua falha em buscar a verdade e o bem apenas em Deus. Esses serão os “fortes” que julgarão como fracos os que renunciam à mentira para buscar apenas a vida da Graça, na Presença.

Quando olho ao meu redor, vejo a abundância provida pela Graça sendo desperdiçada em vidas sem sentido, cheias de vaidade, ganância, disputas pelo poder, etc. Se a Graça fosse usada apenas para favorecer o relacionamento com Deus, quão fácil seria alterar essa condição?

Mas a maior parte dos seres humanos não quer isso, como prova o costume da perpetuação do Pecado Original.

Quem multiplica a Necessidade (no sentido grego da ἀνάγκη — anánkē) não deseja viver o benefício espiritual do provimento da Graça. Ao invés de bloquear o mal com a Cruz dada por Jesus, o Caminho, que nos ensinou a nos tornar Filhos de Deus, os Filhos de Adão querem multiplicar o mal que lhes foi feito originalmente, como se essa fosse a vontade de Deus para si. Não aceitam a liberdade, e um espírito maligno os atormenta e os lança na falsa solução do costume. Transformam uma deliberação livre de outros seres humanos num destino fatal.

Mas como poderá amar a Deus e realizar a correta finalidade da Vontade humana aquele que não vive pela Graça, mas permanece atormentado pelas consequências da sua rejeição da liberdade em Deus? E como poderá também este conhecer a Verdade e realizar a correta finalidade do Intelecto?

Não existe amor ao Bem e conhecimento da Verdade para quem deseja ser escravo da mentira e do mal. Só existe o salário do pecado, que é a morte. Tudo muito justo.

Como posso falar do Amor de Deus para quem está esmigalhando a Graça com suas ambições mundanas, alheio ao contentamento e, principalmente, ao dom do Louvor e da Presença? Quem não quer viver pela Graça e não quer esperar pelo Paraíso já vive a sua própria morte. Um morto não pode ouvir as palavras de Jesus, a Árvore da Vida, porque é como um ramo cortado.

Como posso falar da Sabedoria de Deus para quem quer usar toda a sua capacidade para entender de tudo, menos do sentido de sua própria existência e das coisas divinas?

Entendem?

Não existe Evangelho de verdade e não existe Filosofia de verdade PARA ESCRAVOS.

NÃO SE PODE FALAR DE LIBERDADE, AMOR E VERDADE PARA ESCRAVOS.

Os escravos ouvem, mas não entendem.

E não entendem não porque não conseguem, mas porque não querem.

Que assim seja, Deus seja louvado para sempre.

PS: tecnicamente falando, é inválida a omissão no amor a Deus pela justificativa de que há qualquer grau de sofrimento causado pelo uso discricionário da Arbitragem do Excesso de Mistura, seja por aquele que se omite, ou por terceiro.

Destrinchando o Gnosticismo

É conveniente esclarecer a diferença que existe entre o Gnosticismo como um conjunto histórico particular de crenças que pode (e deve) ser rejeitado, da Gnose já qualificada como uma dupla possibilidade de rejeição do Amor divino de acordo com a Monadofilia, e do Gnosticismo como o espírito contrário à liberdade da vontade (Soberania). Digo isso porque no meu trabalho às vezes esses termos não são tão claros no seu uso específico, principalmente para uma pessoa pouco estudada.

O Gnosticismo como conjunto histórico identificável de crenças costuma ser reconhecido por três princípios: 1) a idéia de um criador mau, geralmente chamado de “Demiurgo”, que prende almas ou espíritos numa dimensão inferior; 2) a idéia de que a maldade está na decadência da substância espiritual na substância material, ou corpórea; 3) a idéia de que a salvação da condição da prisão da matéria se dá pela obtenção da Gnose.

Já o Gnosticismo qualificado pelo entendimento filosófico da Monadofilia, especialmente sintetizado nos cinco conceitos sinóticos, é um sistema duplo de rejeição do Amor divino que abarca um esquema muito mais amplo de crenças. Nesta perspectiva o primeiro tipo de Gnosticismo é apenas uma das suas formulações possíveis, o caminho da Mão Esquerda, da Revolução Gnóstica, o Caminho da Caim, o Esoterismo Gnóstico. Do outro lado se posiciona o Gnosticismo da Mão Direita, da Tradição Gnóstica, o Caminho de Abel, o Exoterismo Gnóstico. No que essas duas formulações gnósticas se diferenciam, e no que elas se identificam? Elas se diferenciam porque propõe uma crença diferente diante do status quo da condição humana: por um lado, esquerdo, há a rejeição do Limite, e por outro lado, direito, há a legitimação da Mistura, em ambos os casos ocorrendo a sucumbência da Vontade diante de uma suposta Gnose revelada que obscurece o ato de assentimento a essas crenças. E se identificam porque são ambas formas de rejeição do Amor divino que só pode ser integralmente louvado pelas atitudes inversas tanto ao Esoterismo quanto ao Exoterismo gnósticos: através da aceitação do Limite e da rejeição da Mistura, atos de VONTADE LIVRE e não consequências de um conhecimento (Gnose) obtido para rejeição do Limite ou legitimação da Mistura.

Até aqui só estamos falando de crenças intelectualmente reconhecíveis nos seus componentes e no seu funcionamento lógico interno, porém não mandatórias pois não fundadas em premissas auto-evidentes e inquestionáveis. Ao contrário, essas duas crenças gnósticas, já mais qualificadas pela Monadofilia, são ambas formas de idolatria: o caso esotérico, a idolatria do Homem na forma da Presunção, como se o homem pudesse se tornar como Deus, e no caso exotérico, a idolatria da Natureza, como se a Natureza fosse divina ou pudesse conter o Ser divino de algum modo. A verdade é que o homem possui sua forma substancial definida pelo seu Limite, e que esta natureza é condicionada secundum quid por uma Mistura que é espiritualmente conveniente para a situação do ser humano presente, mas que não a determina essencialmente, pois não faz parte do Limite que constitui a sua forma substancial.

Entendemos, assim, como essas duas crenças gnósticas propõem um tipo de conhecimento, ou Gnose, que funciona como um dispositivo reativo diante da pressão da condição humana, por um lado oferecendo um grau impossível de Liberdade pela dissolução do Limite, que na verdade equivale a um desejo de morte, e por outro lado oferecendo uma aceitação abjeta e abominável da condição de Mistura de Luz e Trevas como se esta fosse necessária a qualquer ser possível. Quem não entender isso com clareza jamais entenderá o duplo golpe dialético do Gnosticismo. Existe uma condição real, inescapável, incontornável, de Mistura de Luz e Trevas. Todo ser humano sabe instintivamente desde o seu nascimento que isto não convém à sua própria Apetição. Há algo de errado com esta realidade. O que há de errado é a traição contra o Amor divino, perpetrada pelos praticantes do Pecado Original (o Pacto Ouroboros). A solução é a aceitação dos termos da vida presente como meio espiritual de assentimento livre na escolha do Amor divino, ou seja, o uso do mundo e das coisas do mundo como meio de negar o Pacto Ouroboros e confiar em Deus, aceitando o Limite como essência da nossa forma substancial e como meio da nossa realização com Deus, e rejeitando a Mistura como parte constituinte desse Limite interno à nossa forma, o que permite o aceite da Obra divina de Separação, ou Santificação, que é a única forma de solução, ou salvação, para a condição humana. Essa é a luta espiritual. O outro lado, porém, diante do mesmo quadro de experiência da Mistura, oferece uma dessas duas mentiras: ou a de que o Limite é mau, ou a de que a Mistura é boa. O ser humano que por natureza e temperamento é mais inclinado à rebeldia é levado ao esoterismo gnóstico da negação do Limite como se este fosse mau, e o ser humano mais inclinado à obediência é levado ao exoterismo da legitimação da Mistura, como se esta fosse boa. Em ambos os casos a Gnose, ou iniciação, de qualquer uma dessas mentiras leva o ser humano a rejeitar a Obra divina de Separação, ou Santificação: o esotérico não aceita Separação porque rejeita a Luz junto com as Trevas, e o exotérico não aceita a Separação porque só aceita a Luz se esta estiver eternamente misturada com as Trevas.

Existem duas Gnoses, enquanto crenças e caminhos iniciáticos, que afastam o homem de Deus: a Esotérica que nega a vida e deseja a morte porque rejeita o Limite como forma substancial de ser criatura, e a Exotérica que nega a Separação e deseja a perpetuação da Mistura da Luz com as Trevas. Contra essas duas mentiras gnósticas existe o Caminho de Jesus Cristo, o próprio Verbo de Deus Encarnado, que nos ensina a salvação como Filho de Deus: a aceitação do Limite, como um filho que aceita a sua dependência do amor paterno, e a rejeição da Mistura, aceitando a condição presente como Cruz e levando esta condição desgraçada até o seu fim, com a consumação da morte das Obras da Carne e a realização da Separação entre Luz e Trevas na forma da Ressurreição, na posse do Corpo de Glória.

Na mitologia do Éden nós temos a Queda de Adão e Eva pela traição contra o Amor divino em troca da Gnose da Serpente, o que foi consumado pelo Pecado Original, ou Pacto Ouroboros. Isso é admitido pela Tradição, até certo ponto. Que o Pecado Original sempre tenha sido a multiplicação das Obras da Carne me parece óbvio. O decreto de Gênesis 3 não afirma que Adão e Eva devam multiplicar o seu estado decaído e amaldiçoado, gerado pelo seu pacto demoníaco, ad aeternum, com efeito sobre toda a descendência. Ao contrário, o decreto propõe a libertação desse estado através da misericórdia da morte, que é a Justiça aplicada ao pecado da rejeição do Amor divino (“o salário do pecado é a morte“). A melhor coisa que pode ocorrer a quem rejeita o Amor de Deus é morrer. Mas o primeiro casal desobedece a Deus e lida com a Serpente como o seu novo deus “libertador” pelo dom da Gnose. Isso se realiza na escravidão da descendência do primeiro casal, para que o estado decadente seja perpetuado e o Ouroboros seja a única divindade sobre o homem, em troca de conhecimento oculto. Essa Gnose é a Tradição Primordial que deu origem a todas as religiões: a legitimação da Mistura, a adoração da Serpente por toda a descendência gerada pelas Obras da Carne em troca do conhecimento do domínio sobre a natureza decaída. Essa é a iniciação tradicional, do aceite da Mistura junto com o Limite. Para capturar todas as oposições contra essa crença uma outra Gnose é oferecida como iniciação revolucionária com o intuito de rejeitar o Limite junto com a Mistura, esta outra iniciação sendo aquilo que se conhece culturamente como a heresia gnóstica.

A única solução veio por Jesus Cristo, o Segundo Adão, que sendo inocente e puro por não ter nascido das Obras da Carne, aceitou sobre si o juízo que Adão rejeitou e, carregando a Cruz e recebendo a morte que Adão negou, mostrou o Caminho da Salvação: aceitar o decreto de Gênesis 3 que nossos ancestrais recusaram e participar das Obras do Espírito com a Separação de Luz e Trevas e a Ressurreição.

O Diabo só possui domínio através da perpetuação da Mistura, que depende da continuidade do Pacto Ouroboros, o Pecado Original. Esse domínio já teve um fim decretado, mas a participação na vitória de Cristo depende da vontade de cada alma de libertar-se das mentiras das duas Gnoses, porque só obtém essa vitória quem acredita nela, ou seja, na bondade do Limite e no fim da Mistura. Lembrem-se disso sempre: o mal deseja que se ignore a obra de Separação, ou Santificação, e se creia em uma dessas duas mentiras, a de que a Mistura é tão boa quanto o Limite, e a de que o Limite é tão mal quanto a Mistura.

O Ouroboros, esse mentiroso, ladrão, usurpador, farsante, fundou a ficção gnóstica que constitui o sequestro do Bem pelo Mal: ou se aceita a parasitagem da Mistura (exoterismo gnóstico), ou todo o Bem está perdido (esoterismo gnóstico). Seu objetivo é se colocar no lugar do Deus verdadeiro, ou então negar toda possibilidade de vida. Jesus destruiu toda essa mentira, e para seus seguidores o Bem não é mais refém do Mal: a Ressurreição separa e exalta o Bem para sempre.

Enfatizo o fenômeno imediato, exaustivamente repetido, desde a nossa infância, pela mera repetição do costume, das iniciações gnósticas exotéricas, na forma da apresentação de qualquer bem como condicionado à Mistura. Nossos pais, professores, chefes, sacerdotes e reis, enquanto atores desse teatro pretensioso e mesquinho, se colocam como representantes e co-criadores ou co-provedores de um bem que só é possível como sequestrado pelo esquema da Mistura, e viável pela mediação desses subdeuses. São usurpadores e ladrões querendo roubar o louvor e a glória que só pertencem a Deus. São representantes da Idolatria e imitadores do diabo, aquele ladrão, usurpador, farsante e mentiroso que quer se colocar como produtor do Bem, como se fosse Deus ou como se a bondade de Deus dele dependesse em qualquer grau. E são cúmplices desse sequestro quando negam toda a Graça direta, divina, provida pela bondade do Deus verdadeiro que de nada depende, mas que de tudo pode fazer uso para decretar a sua Vontade, o mesmo Deus que, por sinal, liberou seus verdadeiros adoradores, os cristãos, para de tudo fazer uso sem se deixar escravizar por nada, em tudo dando Graças à Ele.

Ao fim só resta a escolha da crença pura de Deus como doador do Ser e do Bem, ou das crenças gnósticas deturpadas e corrompidas que mediam a bondade de Deus e a misturam com as Trevas, na forma da idolatria da Natureza ou do Homem como causas intermediárias incondicionais da experiência do Bem divino.

Quando falamos de crenças, falamos de possibilidades de verdades que podem ser acreditadas, mas que jamais podem ser determinadas pela razão humana, portanto falamos de objetos primários da Vontade, só secundariamente objetos do Intelecto.

Finalmente, o Gnosticismo como um espírito é aquele contrário ao próprio dom da Soberania que permite o reconhecimento da liberdade da Vontade de escolha da crença que convém ao arbítrio humano. Existe, portanto, uma crença particular que dá o entendimento de que a nossa Vontade não possui a liberdade suficiente para fazer uma escolha diante das opções mencionadas. Essa crença é animada por um espírito maligno, que é o que chamamos também de Gnosticismo, no sentido da falsa negação da liberdade da Soberania humana sob a suposta exigência da posse de uma Gnose suficiente para que a Vontade seja obrigada à uma submissão terminal. Esse espírito é especialmente perigoso quando impede o ser humano de reconhecer a sua liberdade de aceitar ou rejeitar o Limite, e de aceitar ou rejeitar a Mistura.

Podemos, e devemos, a partir de agora, buscar o uso mais qualificado possível da terminologia da maneira que segue:

Vamos chamar de Gnosticismo Histórico aquela formulação clássica da heresia caracterizada pelos três princípios já identificados (Demiurgo Mau, decadência na matéria-corpo, e salvação pela Gnose), de Gnosticismo Dialético as formulações da Dialética do Ouroboros, do duplo erro dos gnosticismos esotérico e exotérico, e de Gnosticismo Espiritual a formulação específica da rejeição do dom de Soberania.

O Gnosticismo Espiritual é a forma mais fundamental e mais sutil do erro, porque implica na rejeição in limine da liberdade de escolha e, portanto, na rejeição da responsabilidade pelas crenças. Isto é o que mais interessa para Deus, porque nada é mais sagrado do que a liberdade de aceitar ou rejeitar o Amor divino, de modo que a recusa da situação de liberdade implica numa falsificação da condição humana, como se alguém pudesse se omitir da decisão de confiar ou não no Amor divino.

O Gnosticismo Dialético é o conjunto mais amplo das possibilidades de crença na rejeição do Amor divino nas duas formas espiritualmente reconhecíveis, a esotérica da rejeição do Limite, e a exotérica da legitimação da Mistura. Não é muito difícil que pessoas estudadas percebam o componente esotérico do Gnosticismo Dialético, porque este já é abundantemente identificado na literatura que trabalhou e condenou o Gnosticismo Histórico como heresia. Muito mais difícil é admitir a perversidade da idolatria do componente exotérico que nega igualmente a bondade de Deus, porque identifica a condição da Mistura com a vontade do Amor divino e pratica a idolatria da Natureza.

O Gnosticismo Histórico é a formulação clássica que todos já conhecemos e que é tão fácil condenar com base na bondade de Deus e de sua Criação, na bondade da matéria e do corpo através da Encarnação e Ressurreição de Cristo, e na dependência da Graça para a verdadeira salvação que só Deus nos pode dar.

A identificação de todo o Gnosticismo apenas com o Gnosticismo Histórico é uma redução absurda e inviável, que nos deixa cegos ao processo da Dialética do Ouroboros, e do próprio espírito do Gnosticismo contrário à Soberania. Isso não tira o mérito da condenação dessa forma clássica de Gnosticismo, mas esta é a defesa contra apenas um erro de três possíveis.

Coerentemente contrários à rejeição do Limite, somos lançados àquela outra negação da bondade divina, que é a legitimação da Mistura, e assim nos tornamos vítimas do Gnosticismo Dialético.

E, por fim, amedrontados pela nossa própria liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino, procuramos refúgio no falso conforto oferecido pelo Gnosticismo Espiritual.

Em suma, se precisássemos reunir de volta todos os conceitos a um único conceito unificador, diríamos que: o Gnosticismo é um espírito maligno contrário ao dom de Soberania que aliena a liberdade humana de confiança do Amor divino nas formas da aceitação do Limite e de rejeição da Mistura.

GNOSE, afinal, é o conhecimento oferecido em troca do Amor divino que só pode ser confiado com um ato livre da Vontade humana, sem garantias e sem demonstrações além da evidência da Teleologia Metaracional do Sumo-Bem, como já explicado anteriormente. Gnosticismo, assim, é a tendência maligna de alienação da liberdade de escolha do Amor em troca da posse de um conhecimento que signifique a posse do Bem sem a dependência da ação divina, seja na forma da mentira da negação do Limite, seja na forma da mentira da legitimação da Mistura. Nos dois casos supostamente nos bastaria algum bem independente da ação divina direta como causa eficiente da nossa Salvação: nossa transformação em deuses independentes de Deus no primeiro caso (negação do Limite), ou a nossa posse da bondade divina através da relação de domínio com a Natureza, que seria um deus-aí sempre disponível de forma terminativa e completa (legitimação da Mistura).

Identificamos, assim, cinco tipos de possibilidade de atitude espiritual diante do fait accompli da experiência da Mistura:

  1. Escravo do Costume (desejo mimético)
  2. Legitimador da Mistura (seguidor de religião, filosofia, ideologia política, etc.)
  3. Negador do Limite (seguidor de culto da morte)
  4. Realista Responsável (cumpridor de Deveres de Estado, abstinente de Votos voluntários)
  5. Seguidor de Cristo (filho adotivo, vive na Presença e dá o Testemunho)