“Se o próprio Deus criou o Mal, é porque ele mesmo tinha a maldade dentro dele.”

Continuemos o estudo, com a leitura e comentário de mais uma citação de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

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Aqui já estamos no pleno domínio da Abominação que confunde as coisas de Deus com as coisas dos homens e dos demônios. Façamos os esclarecimentos necessários, aproveitando a ocasião para destacar a distinção da santidade de Deus perante a miséria das criaturas, especialmente a das que são desobedientes.

Para começar, Deus não justifica os meios pelos fins, em nenhum momento, e esta crença é indigna do Criador. O que existe, da parte da criatura, é a confusão entre a sua própria ignorância da excelência da Obra divina, mesmo na escolha dos meios, e uma suposta arbitrariedade que violasse a integridade da Justiça divina.

Em segundo lugar, a morte não pode ser um “mal necessário”, desde que está escrito, por exemplo, que “Eu não tenho prazer na morte de quem quer que seja“, e também que “o salário do pecado é a morte“, etc. A aceitação da morte como parte de uma natureza compõe a cultura de normalização da mistura de luz e trevas, exatamente o oposto do Discernimento e da Obra de Separação. Foram as decisões dos nossos antepassados, e as da nossa raça até hoje, que causaram e continuam causando a morte. Apenas por um aspecto isto já fica claro: quem não reproduz o Pecado Original, isto é, o Pacto Ouroboros, não contribui para a perpetuação da morte.

Em terceiro lugar, Bem e Mal não são relativos, os nossos conhecimentos do Bem e do Mal é que são relativos à limitação da nossa forma substancial, isto é, não podemos conhecer a verdade plena como só Deus pode. Por isso às vezes as coisas parecem ser de um modo agora, ou de outro modo noutro momento, ou para uma pessoa e então para a outra, etc.

Em quarto lugar, o Mal não foi criado por Deus, a Liberdade é que foi criada e, para que ela fosse real, a possibilidade do Mal sempre teve de ser igualmente real, como mera potência, para a efetividade da liberdade dos contingentes.

Em quinto lugar, todo o resto do argumento, baseado num raciocínio de causalidade eficiente, já é uma redução das qualidades formais e teleológicas que constituem o valor espiritual da liberdade humana, e sendo assim é completamente desprezível. Pode-se afirmar que os espíritos infernais agem de acordo com as leis dessa causalidade, mas isso somente depois da condicional legalidade das suas petições junto ao Altíssimo, que por sua vez requerem a confirmação dos mais importantes subsídios espirituais, especialmente o assentimento da liberdade humana. É o arbítrio humano que está em disputa, e não o controle dos instrumentos da ação posterior à permissão divina.

Como se vê, a extensão da correção de uma compacta coleção de mentiras precisa ter o dobro ou o triplo do volume que ela mesma ocupou. Mas tudo isso será devidamente vingado, mais dia, menos dia.

“Se é o homem quem erra, não deve ser ele mesmo a pagar pelos seus atos?”

Vejamos mais uma passagem do livro O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

O sacrifício de sangue é usado para a abertura dos portais interdimensionais porque serve de subsídio legal, de acordo com as leis espirituais.

Isso não tem nada a ver com magia, ou Poder, mas com o sentido espiritual da Liberdade. É a maldade da adesão a um pacto em troca de Poder, em traição ao Amor, que concede legalidade à efetividade da influência dos espíritos infernais por sobre a realidade humana. Ou seja, o Poder em si (ou energia, como se fala com tanta obsessão), é apenas um móbile, uma causa eficiente, movido pela indeterminação singular de uma arbitrariedade livre. Não devemos confundir os meios empregados com as premissas do movimento: o sentido dos rituais sangrentos é a realização da liberdade humana de trair o Amor. Esta é a decisão que legaliza os pactos infernais, e todas as consequências decorrentes.

Para completar a confusão, acrescenta-se sempre a grande mentira de que o Deus verdadeiro tenha pedido sangue Ele mesmo, a favor da consumação da sua Aliança com o homem.

Já vimos antes o erro desta perspectiva nas nossas leituras do Gênesis, bem como do Êxodo. Quem pede sangue em troca de falsas alianças é o Usurpador, o Ouroboros.

Mas para que fique claro: a única Aliança efetiva de Deus com o homem se dá por meio da comunhão entre o Pai e o Filho, isto é, através de Jesus Cristo, o único Sacerdote a interceder com plena Justiça e Direito em nome de todos os filhos dos homens.

Todas as fracassadas tentativas anteriores de Aliança serviram única e exclusivamente para apontar para o sucesso de Jesus Cristo. Pela Lei veio apenas o conhecimento do pecado, mas foi pela Graça do Evangelho que descobrimos a Salvação, a única, a verdadeira.

A quem recusa a simplicidade da Salvação oferecida por Deus, resta apenas a confusão das muitas mentiras que se difundem, nesta tola e breve tentativa de negar a supremacia de Jesus, e o sucesso da sua Obra.

“Se o homem é Sua imagem –e Deus assim o fez– como fazer morrer o desejo?”

Vejamos mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

A correção desse acúmulo de erros é uma tarefa cansativa que me aborrece. Mas vamos lá.

Para começar, bem lido o Capítulo 3 do Gênesis, entendemos que o homem foi feito para ser feito filho de Deus, à sua imagem e semelhança, mas rejeitou a sua filiação ao recusar a vida pelo Amor divino (a Árvore da Vida) e optar pelo Pecado Original (a Árvore da Gnose). É nisto que consiste, realmente, a “semente de Lúcifer”: a decisão humana livre e totalmente imputável de se rebelar contra o Amor divino, imitando a rebelião dos anjos caídos. Essa é a primeira correção necessária: não foi Deus quem rejeitou seus filhos, mas foram eles que o rejeitaram.

Daí em diante, o homem, movido por seu Pacto com Lúcifer (o Pacto Ouroboros), perpetuou a sua rebelião na Terra, mediante o Pecado Original, produzindo a sua própria filiação gerada como Obras da Carne, uma filiação submetida à maldição divina de Gen 3,22 que perdura enquanto perdurar a desobediência, ou seja, a prática do Pecado Original.

Essa é a ordem correta dos fatos.

Os seres humanos não “desejaram ser livres”, mas sim rebeldes e soberbos, na presunção de viver sem o Amor divino. Não quiseram sair “debaixo do jugo”, mas da Graça, exatamente como os Avari.

Mas a Graça extraordinária de Deus, movida por sua infinita Misericórdia, produziu o recurso sempre suficiente do Perdão e da filiação adotiva, em favor daqueles que foram gerados à partir do pecado das Obras da Carne, bastando tão somente que quaisquer destes descendentes do pecado rejeitem a rebelião e decidam pela aceitação do Amor divino. Essa Graça, que sempre operou, manifestou-se de forma eminente e definitiva na Revelação do Filho de Deus, Jesus Cristo, para a libertação de todos que desejarem a Salvação.

Com relação a essa suposição de que “o que o Bode representa”, isto é, o espírito de rebelião e desobediência, “faz parte do mais íntimo do ser humano”, isto é apenas mais uma mentira, entre tantas.

O que faz parte da intimidade humana é a Liberdade de escolha, especialmente a de confiar ou desconfiar do Amor divino.

Quanto ao suposto problema de “como fazer morrer o desejo”, isto não faz sentido nenhum. Deus não quer matar nenhum desejo humano, mas quer que aprendamos a dirigir todos os nossos desejos a Ele, que é o único que pode desfazer a confusão e nos purificar dos enganos a que fomos submetidos pelo nascimento nesta condição decaída e amaldiçoada. Deus é o guardião dos nossos desejos: repousamos Nele e dirigimos a Ele todas as nossas esperanças. Não é preciso manter o desejo “aprisionado”. Ao contrário: tentando ser felizes por nós mesmos, somos prisioneiros e escravos do pecado, isto é, do engano de procurar a felicidade sem Deus. Já ao dirigir todos os nossos desejos à Deus, estamos livre da desgraçada ilusão de crer que produziremos a nossa própria felicidade.

O testemunho da rebelião apenas reproduz, para maior vergonha daqueles que se submetem a esse espírito, a grande confusão, ignorância e estupidez que resulta desse estado.

“Deus impôs regras demais. Impediu o desabrochar da Sua Criação.”

Vejamos mais uma passagem do livro O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

Isto não passa de mais uma mentira, e bem esdrúxula, por sinal.

Como que Deus poderia ter colocado alguma regra que impedisse o homem de fazer o que quisesse, se a premissa mesma do satanismo é a de que não só se pode, mas que se deve desobedecer a Deus?

Evidentemente, sendo Deus quem Ele É, Absoluto, se quisesse determinar qualquer regra inviolável (como de fato determinou várias), esta não poderia ser desobedecida.

Assim, a possibilidade da desobediência, que é a escolha dos bodes, requer que uma dessas duas premissas seja válida: ou o Deus Criador de todas as coisas não é verdadeiro (o Único), e portanto não é capaz de determinar uma regra inviolável, ou o que se chama de “regra” nada mais é do que uma opção boa em face de outras piores, a qual é oferecida para o exercício da liberdade humana.

A limitação da condição humana só pode ser bem compreendida espiritualmente se aceitarmos, em primeiro lugar, que metafisicamente é impossível que exista qualquer ser criado que não seja definido pelos limites da sua forma substancial de criatura, e em segundo lugar, que a contingência de uma limitação não necessária metafisicamente (que é a condição de Cruz, ou de realização da Razão Singular de Mistura Mínima) é conveniente para o exercício da liberdade de aceitar o Amor divino antes da Coruscância (vida eterna paradisíaca).

A não aceitação da limitação é, portanto, sempre uma atitude de rebelião: ou uma rebelião contra a estrutura da realidade, ou a rebelião contra a Providência divina que determina o melhor quadro circunstancial para a realização da liberdade humana com vistas à bem-aventurança.

Deus não só não limita a nossa felicidade, como faz exatamente o contrário: produz toda a realidade necessária para que ela ocorra.

“Ele faz, mas depois Ele mesmo destrói.”

Mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, volume 2 da série Filho do Fogo de Daniel Mastral:

Como esses falsários podem se colocar como sábios, se ignoram que o conteúdo das suas proposições já está integralmente contido como possibilidade espiritual dentro da Revelação divina? Somente, é claro, contando com a ingenuidade humana, e com a ignorância generalizada das coisas de Deus.

Diversos livros bíblicos declaram que o erro na criação humana provém do desvio da liberdade que podia aceitar ou rejeitar o Amor divino.

Quando Deus se vê “equivocado” ou “arrependido”, isto é sempre declarado apenas como um caráter relacional do Criador com a sua criatura, mostrando uma reação de frustração ou decepção para que o ser humano saiba que o seu Deus não é indiferente à sua indecisão, ainda que sempre tenha sabido qual ela seria. A liberdade humana, ainda que totalmente prevista pelo conhecimento divino dos futuros contingentes, não deixa de ser real na própria dimensão da sua manifestação.

Esse testemunho satanista quer excluir da equação justamente o fator mais determinante da situação de fracasso espiritual: a Vontade livre para aceitar ou rejeitar o Amor divino.

Por outro lado, e muito convenientemente, em associação a esta dispensa da responsabilidade moral derivada da Vontade livre, é criada uma mitologia fatalista na qual Deus já teria abandonado o homem como uma criação defeituosa, de modo que nada restasse ao ser humano senão tirar as consequências desse destino já determinado e inalterável.

Isso é uma grande mentira.

Essa mentira é alimentada pelo espírito demoníaco, já apartado da Graça divina, que inveja e odeia a nossa liberdade de escolher o Amor do Pai, porque estes espíritos já decidiram para sempre rejeitar o mesmo. O fatalismo do qual querem nos convencer é derivado da fatalidade de que eles já se fecharam eternamente na sua rebelião, e a tentativa de associar a liberdade humana a essa rebeldia demoníaca é apenas um gesto desesperado de quem só tem como consolação, na sua miséria espiritual, a esperança de fazer outras liberdades lhes acompanharem no mesmo erro.

Sim, Ele faz, mas depois Ele mesmo destrói aquilo que fez, quando sua criatura rejeita a Graça de seu Amor e requer, assim, a correção da sua miséria pela misericórdia da sua extinção.

“As religiões falsas não agradam nem a Deus nem a Lúcifer”

Quantas respostas certas existem à questão de “quanto é 2 + 2”? Uma só.

Mas quantas respostas erradas existem à mesma questão? Ilimitadas.

Dado um único Destino correto, que é a causa final da vida humana, qual seja, o aceite do Amor divino que abre as portas do Paraíso, qualquer caminho que não leve a esse Destino é enganoso, não importa qual seja a semelhança ou profundidade que possa ter em comparação com o único caminho bom e verdadeiro.

Assim, não há nenhum privilégio da parte do Satanismo em relação a qualquer outro tipo de doutrina, como se fosse possível que um caminho errado pudesse ser melhor, ou mais correto, que qualquer outro caminho igualmente errado.

O que existe é um grau de frieza mais puro, equivalente ao grau de quentura mais puro, que de certo modo pode instalar o satanista num nível mais verdadeiro de escolha por conta da justaposição do seu engano como uma inversão mais perfeitamente simétrica da Verdade. Mas isto seria um privilégio, ou alguma vantagem de algum tipo?

Vejamos esta passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Mastral:

Esse testemunho identifica como verdade um Cristianismo que é antes muito mais uma religiosidade potencialmente tão enganosa quanto o Satanismo, do que uma Revelação divina. Eu mesmo já denunciei que o Cristianismo não passa do Culto do Mashiach ben Yosef.

A Verdade não pode ser produto de um culto humano, como uma religião. A Verdade só pode ser uma propriedade da essência divina. Assim, podemos e devemos afirmar que o EVANGELHO é a Verdade, sendo uma Revelação divina, uma Graça pura doada para a glória do Amor de Deus.

O Satanismo é tão incorreto e mentiroso, no seu objetivo, quanto qualquer outro tipo de “religiões falsas”, inclusive o próprio Cristianismo!

O máximo que existe é essa pureza negativa, a pureza da frieza da negação direta e mais explícita contra o Amor divino, mas que vantagem se pode atribuir a esse ponto de vista, em face de todos os outros tipos de engano?

E o pior de tudo –e aqui começamos a identificar um provável caminhar de Mastral em direção ao testemunho do espírito de Ingenuidade–, que vantagem temos na denúncia contra o Satanismo, se esta apenas nos joga nos braços do Cristianismo?

As religiões falsas agradam sim a Lúcifer, qualquer uma delas, inclusive o Cristianismo, porque elas afastam da pureza do Amor de Deus que é revelado no Evangelho de Jesus Cristo.

“Os conceitos orientais tinham a ver com o que aprendi na Irmandade”

Quando afirmo que o Pacto Ouroboros é a Tradição Primordial, refiro-me a um princípio espiritual que unifica na origem toda a evolução da humanidade nos seus diversos ramos.

A idéia me foi sugerida por uma premissa comum nos estudos das religiões comparadas: a de que havia, nos primórdios da história humana, uma única religião que posteriormente foi dividida em tradições diversas. É claro que eu inverti o propósito comum do Perenialismo: identifiquei essa união primordial com a religião da Torre de Babel antes da dispersão causada por Deus em Gênesis 11, e depois fui mais além ainda, e identifiquei a Tradição Primordial com a Religião de Adão, a Religião do Homem, o Culto do Ouroboros.

Dito isso, as iniciações satânicas podem ter muitas formas e sabores, às vezes por caminhos aparentemente insuspeitos para a mente extremamente crédula e ingênua do ocidental comum.

O que pode haver de comum, enfim, entre, por exemplo, espiritismo ou necromancia, artes marciais, festas orgiásticas, maçonarias, a divulgação de ídolos da música e do cinema, sacrifícios de sangue, esoterismos ou ocultismos em geral, meditação transcendental, uso de drogas alucinógenas, yoga, bruxaria, o culto da democracia, pactos entre mafiosos, doutrinas gnósticas, rituais religiosos e organizações especializadas em chantagem?

São todas práticas potencialmente iniciáticas que revelam um aspecto daquela Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros. O inimigo do homem diversifica nos investimentos que faz na sua Perdição.

Vamos ver o que nos diz o Daniel Mastral neste outro trecho de “O Descortinar da Alta Magia“:

A “verdade” que o autor está confirmando é aquela da Tradição Primordial: a Gnose que propõe que o homem seja o deus de si mesmo, capaz de manipular e dominar a natureza e a si mesmo para obter o seu próprio bem de forma totalmente independente do Amor divino.

Não podemos negar a realidade das energias, nem dos canais de acesso aos poderes ínferos (os “portais”, ou “chakras”), pois o que nos interessa não é o conhecimento da Multiplicidade que há debaixo da Unidade divina, mas sim a consciência da nossa decisão de confiar no Amor ou traí-lo em nome do Poder.

Há quem confunda a consistência da riqueza e do detalhe da Criação com a veracidade do propósito do uso desse conhecimento para finalidades que devem ser moralmente julgadas de forma independente. Isso se dá por influência dos espíritos de Idolatria e Ingenuidade, como consequência da rejeição aos dons de Presença e Vigilância, respectivamente.

O pensamento mágico não faz sentido para as coisas divinas

Enquanto, por um lado, a Magia significa uma capacidade ou um poder contingente, ligado aos paradigmas da escassez, da causalidade e da irreversibilidade, a Onipotência, por outro lado, significa a capacidade irrestrita de um Poder Absoluto.

Toda vez que encontramos algum testemunho, onde quer que seja, mesmo na Bíblia, que fale das coisas divinas como se falasse de coisas mágicas, ou seja, do exercício de um poder contingente, estamos, na melhor das hipóteses, lidando com uma confusão, como uma infelicidade na tradução de termos, e na pior das hipóteses, estamos lidando com mentiras que pretendem colocar, no lugar de Deus, aquele que é o Usurpador.

Não se pode, nem se deve, querer misturar as coisas divinas com as coisas não divinas, aquilo que é santo e puro com aquilo que não é.

Isto vale também, e de forma especial até, para o problema da Salvação.

O Amor de Deus é a própria essência divina: o centro e o motor do Poder divino, por assim dizer.

Se Deus ama, quem pode lhe impedir o seu gesto de salvação?

E se Deus salva, de que outro recurso Deus precisa fazer uso, senão da pura manifestação da sua Vontade soberana?

Não existe meio ou intermédio para ação divina, e nem existe uma terceira instância diante da qual a ação divina precise se justificar.

Quando Deus faz uso de um meio, ou parece justificar uma medida, essa maneira de proceder é apenas uma concessão da bondade divina às limitações do intelecto humano, ou uma garantia da consecução de alguma revelação profética, mas nunca pode ser tratado como uma referência a qualquer tipo de limitação por parte da Onipotência, o que por definição é sempre uma contradição.

Convém, porém, aos poderes das trevas, produzir a confusão entre as coisas divinas e as não divinas, para dirigir a adoração que é devida a Deus para outros alvos, como aos Avari que usurpam o Nome, e para impedir que os homens encontrem o verdadeiro repouso na suficiência do Amor divino, fazendo-os tentar a obtenção do controle da sua própria salvação, e idolatrando os meios causais no lugar da santidade divina. Isso pode levar inclusive a religiosidade cristã a repetir os enganos dos antigos paganismos de todo tipo de origem, como verificamos na cultura judaica, na greco-romana, etc.

“Cadê o Absoluto? Tudo é relativo… Tudo vai da interpretação!”

Vamos ler algumas passagens escolhidas do segundo volume da série Filho do Fogo, de Daniel Mastral, o livro intitulado “O Descortinar da Alta Magia“.

Nesta passagem lemos uma argumentação satanista (real ou inventada?) a respeito da integridade da revelação luciferiana, em contraste com as contradições e antinomias bíblicas, mais ou menos como os islâmicos argumentam, em defesa da suposta integridade do Corão.

Antes da leitura em si, lembremos que a mente humana opera dialeticamente de forma inevitável. Não há premissas, sejam satanistas ou islâmicas, ou de qualquer espécie, que não sejam ilimitadamente questionáveis. Pois o inquestionável é o autoevidente que subsiste num tal nível de pureza abstrativa, que nunca é o suficiente para explicar a totalidade da condição humana. Isto quer dizer que as nossas crenças, na maior parte dos casos, são acreditáveis justamente porque são questionáveis, o que torna o nosso assentimento imputável como uma decisão moral, e não uma mera constatação dedutiva. Vemos isso inclusive na doutrina do método científico, como com a Falseabilidade de Popper. Isto é primário demais, e não deveria ser preciso explicar. Vivemos um período tenebroso e ao mesmo tempo irônico: uma grande ignorância justamente na época da disseminação do conhecimento, na “Era da Informação”. O ser humano tem cada vez mais acesso à informações e cada vez menos capacidade de saber o que elas significam.

Para ficar claro, o ponto cego da argumentação abaixo é a própria arbitrariedade de aceitação das premissas da “revelação” satanista como se fossem autoevidentes, quando obviamente não o são. Um estudante primário de lógica deveria ser capaz de compreender isto em menos de cinco minutos.

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Como é que uma pessoa minimamente sagaz não se perguntaria se a suposta adulteração da Bíblia não tivesse se dado justamente em favor de uma manipulação satanista?

Como é que se poderia dispensar o mal feito em nome de Deus e da Bíblia, como uma ação justamente demoníaca, de usurpação e mentira?

Não denunciou Jesus ao diabo como o “pai da mentira“, e “mentiroso desde o princípio“? Também não denunciou a manipulação e adulteração do testemunho da Palavra, ao ponto de chamar aqueles religiosos que o perseguiram de filhos do diabo? E mais ainda, não disse ele que mesmo no futuro os verdadeiros cristãos seriam perseguidos por aqueles que acreditariam estarem fazendo a obra de Deus?

Sendo assim, é evidente que esta argumentação é um jogo rasteiro que só pode confundir os ignorantes.

Sim, a Verdade é uma só, e não é relativa, mas o Absoluto não é nossa propriedade, e esta é a razão da rebelião gnóstica contra o Criador, partindo do próprio espírito de Lúcifer, que não aceitou o limite do seu entendimento diante do seu Criador.

E é por isso que os satanistas gostam tanto de Lúcifer, porque este falso deus se dispõe à fazer negociatas e a trocar favores, bem ao gosto da imundície espiritual de seus seguidores. Gostam de um falso deus que está mais à sua disposição para fazer conspirações e barganhas, então no fim das contas eles todos se merecem.

Para que fique claro, a relatividade do conhecimento da Verdade divina é uma disposição determinada pela limitação da forma substancial de qualquer criatura. Isto não é inescapável por um capricho divino, mas por uma necessidade metafísica.

Só se pode aproximar da santidade divina quem oferece a pureza da confiança do seu próprio amor.

O desejo de domínio gnóstico, por sua vez, só pode possuir a falsidade do vazio dos ídolos, e a mentira dos demônios como falsos deuses.

Ave Crux Spes Unica: O Caminho das Ovelhas

Por que a Cruz é a nossa única salvação?

Dispensado o engano da magia de sangue como impureza indigna da santidade divina, e justificado o modo pelo qual o Cordeiro de Deus “tira o pecado do mundo”, como já vimos, resta entender de que modo a Cruz representa uma salvação para a humanidade.

Quando Jesus afirma que ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, está indicando o sucesso do seu exemplo para que seja seguido: a Cruz, a Morte e a Ressurreição.

É preciso que experimentemos a medida de mistura determinada pela Providência divina (v. Razão Singular de Mistura Mínima), que simbolicamente está representada pela vida de Cruz, para que o nosso aceite ao Amor divino seja plenamente real.

Deus só pode ser adorado “em espírito e em verdade”. Isto é: não só nominalmente, simbolicamente, como através de uma representação, mas através de fatos concretos que exigem a nossa reação interior, livre, cheia de sentido espiritual.

Nossa integridade espiritual é inevitavelmente testada pelo peso da Cruz, e nosso arbítrio de aceite ou rejeição é exercido inequivocamente diante do Altíssimo. Podemos mentir para nós mesmos, e uns aos outros, mas não há mentira diante de Deus.

A Cruz é, assim, o Caminho das Ovelhas: é o Caminho da Obediência.

Essa Obediência, por sua vez, não é uma cegueira, como um fideísmo.

A Obediência é um fruto do dom da Humildade, do reconhecimento da santidade divina, e da nossa confissão do desejo pela salvação que vem exclusivamente do Amor divino.

Os Bodes, escravos de seus próprios desejos e da sua própria mentira de querer viver sem o Amor do Criador, medem a disposição de aceitação da Cruz, da parte das Ovelhas, como uma tola submissão, mas não percebem que eles é que são os escravos destinados à dispersão e dissolução. Os Bodes não entendem a confiança amorosa, porque não a desejam para si mesmos, e portanto medem a disposição das Ovelhas usando a sua régua distorcida e pervertida, porque só enxergam a submissão ao Poder e à Maldição à qual estão presos por escolha.

A Cruz é a única salvação porque a aceitação da experiência moral da mistura é um requisito para a passagem para o nosso destino. Sem aceitação da Cruz, não pode haver aceitação da Morte, e sem a aceitação de ambos, não pode haver Ressurreição.