“Tudo que produz uma ilusão é conceituado como ‘Magia’.”

Neste próximo trecho de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral, temos um testemunho que começa a se aproximar da síntese mais simples a respeito da essência das artes arcanas, ou mágicas:

O problema é que, por aproximado que este testemunho seja da essência das coisas, ele não alcança o âmago na sua maior simplicidade, além de constituir um tipo estranho, entre tantos outros, de “revelação” satânica.

Qual é o sentido, da parte de quem denuncia o Deus cristão, de chamar algo de “Verdade preestabelecida por Deus“? Antes, o discurso dos opositores da obra divina deveria chamar a Revelação divina de mentira. Essa linguagem usada por Mastral denuncia a provável perversão de um discurso original que teria outra consistência, ou ainda, com maior probabilidade, uma pura invenção de pueril credibilidade, isto é, feita para enganar pessoas ingênuas.

Além deste problema da legitimidade deste testemunho, é conveniente verificar que o mesmo não atinge, como falamos, a essência das coisas: em suma, o poder mágico de encantar nada mais é do que o poder de mentir.

A mentira é um produto do Intelecto que gera a imagem da verdade a partir de quaisquer subsídios mais ou menos críveis, movido por uma Vontade prévia de acreditar no que é falso.

O sucesso do efeito da mentira é totalmente dependente da disposição daquele que é enganado, pois sua Vontade primeiro teve de dispensar o dom de Vigilância, e acatar o espírito de Ingenuidade, para então mover o Intelecto na produção da imagem da verdade que será tomada por crível a partir de determinados indícios que serão arbitrariamente confiados.

Mastral não mostra isso com a clareza que conviria, ao menos não até este ponto. Então que fique claro o que ele não pôde ou não quis nos dizer: o poder na mentira está nas mãos do que é enganado por ela. Um mentiroso só tem poder sobre quem é ingênuo de acreditá-lo. Se a escritura já declarou “maldito o homem que confia no homem“, quem se pode dizer vítima inocente depois de receber o alerta da Revelação?

Assim, o poder que os satanistas tem de enganar o mundo inteiro é muito mais uma concessão da fraqueza das suas vítimas, do que uma força própria que lhes dá a condição de domínio. Antes de mais nada, foram os nossos pais que nos venderam ao diabo, como reféns do seu Pacto Ouroboros, e foi isso que constituiu a base da entronização do Príncipe das Trevas sobre este mundo, e não uma competência própria das forças demoníacas. Desde Adão e Eva, o poder da Serpente dependia de um arbítrio corrompido da parte de suas vítimas, ou seja, é um poder que se projeta sobre a fraqueza alheia, e não como uma potência própria, de modo que esse relacionamento espiritual entre os seres humanos decaídos e os espíritos das trevas constitua uma perversão do relacionamento entre os fiéis e Deus através do Amor que ampara a sua fraqueza.

Operando sempre como inversão das coisas espirituais, a relação dos homens corrompidos com os demônios imita, de forma pervertida, a relação dos homens fiéis com Deus: assim como Deus é encontrado na fraqueza humana que clama pelo seu Amor, o engano diabólico é encontrado na fraqueza humana que clama pelo engano da Mentira através da credibilidade da sua Ingenuidade.

A importância da mistura de Luz e Trevas na Bíblia para o Discernimento

Nas leituras que já fiz dos livros de Daniel Mastral até agora (da série Filho do Fogo), a pedido de um seguidor, fica evidente, seja aquilo realidade, ou ficção, ou ainda uma mistura de fatos com invenções, que é importante, no decorrer da suposta iniciação satânica, da denúncia dos absurdos da parte de Deus, conforme a leitura de diversas passagens, seja do Antigo, ou do Novo Testamento.

Embora não devam faltar, no futuro, oportunidades de tratar de passagens específicas que sigam esse tipo de raciocínio, é conveniente afirmar a importância do fato da mistura de Luz e Trevas no testemunho bíblico como oportunidade para o nosso Discernimento.

Começando pelo mais básico dos princípios, que já foi repassado várias vezes no meu trabalho, mas que não custa reiterar, é preciso distinguir com muita clareza entre o que é a Palavra de Deus em si mesma, do que é um testemunho da Palavra de Deus.

A Palavra de Deus é o Logos divino, ou seja, é o próprio Deus: a Palavra é, portanto, viva, eterna, absoluta, abscôndita, inefável, etc., ou seja, tem todas as qualidades da excepcionalidade divina.

Já o testemunho da Palavra de Deus, é um produto do Intelecto e da Vontade de qualquer mônada criada que pode fazer alguma afirmação sobre o que foi objeto de sua contemplação a respeito da natureza divina.

Qualquer testemunho da Palavra, por definição, não tem a inerrância e infalibilidade da Palavra de Deus nela mesma, e muito menos na reprodução do seu conteúdo que é ilimitadamente vulnerável a quaisquer interferências do arbítrio humano. Ou seja, a mesma liberdade humana que pode produzir, num dado momento, um testemunho fidedigno da Palavra de Deus, pode no momento seguinte errar, seja por lapso, ou por malícia, ou ainda pode ter o seu produto posteriormente submetido a nova possibilidade de erro, etc.

Bem entendido esse princípio, se Deus, na sua santidade, não pudesse ser desconfiado pelo arbítrio humano, mediante a ação de uma mentira com esse propósito específico, como Ele poderia ser confiado com igual usufruto do arbítrio humano?

Eis a importância da mistura de Luz e Trevas, não apenas de forma geral por todo o mundo, mas especificamente na corrupção do testemunho bíblico da Palavra de Deus: é necessário que a Liberdade humana se exerça com total potência, sem obstruções. Para esta finalidade foi preciso que o Usurpador se colocasse como se fosse deus, e que constituísse um falso conhecimento das coisas divinas, e uma falsa forma de culto do sagrado, para que cada ser humano exercesse a sua discricionariedade espiritual.

Portanto, não só não devemos estranhar o tipo de raciocínio da lógica satanista, mas ver nela a confirmação daquilo que já está anunciado no Apocalipse: que o sujo continue a sujar-se.

E para tanto, é preciso que haja os recursos necessários a esta decisão. Esta é a razão da mistura na Bíblia.

Toda alma humana deve ter, à sua disposição, o recurso da dúvida subsidiada por uma ambiguidade que força o arbítrio humano a definir a sua própria decisão. Por isso Isaías diz: “tu és um Deus que se esconde“, e também porque Jesus diz: “se a luz que há em ti forem trevas, quão grandes serão as trevas!“, etc.

Função dual das causas aristotélicas

As causas Material e Eficiente da filosofia aristotélica caracterizam a qualidade objetiva da Percepção, como função para a agência moral da liberdade das Mônadas, ou ainda, conferem a qualidade da Nitidez da Percepção da qual deriva o conhecimento da Multiplicidade.

Já as causas Formal e Final da mesma filosofia caracterizam a qualidade subjetiva da Percepção, ou a própria instância da atualização da liberdade, ou ainda, conferem a qualidade da Cristalinidade da Percepção da qual deriva a intuição da Unidade.

A tentação do Poder, na forma da Idolatria, provém da obsessão com as causas Material e Eficiente, o saber de quê as coisas são feitas, e o de como elas são feitas, como território de domínio da psique humana pela Multiplicidade.

Já a liberdade do Amor, na forma da vida na Presença, provém da apreciação das causas Formal e Final, o saber de quê as coisas são, e o de para o quê elas são, como território da contemplação amorosa do Ser como Unidade.

Em suma: a riqueza objetiva da Percepção, no seu detalhe, é uma condição da atualização da liberdade das Mônadas criadas, de modo que o livre-arbítrio atribua quididade e finalidade para os seres conforme a sua conveniência e possa, assim, abrir-se para a Presença ou para a Idolatria.

Quando falamos, por exemplo, da sublimação da inviolabilidade das causas, da irreversibilidade dos efeitos, e da finitude da escassez, falamos da escolha de crença na superação das qualidades derivadas da observação das causas Material e Eficiente, em favor de uma mais conveniente apreciação das causas Formal e Final.

O par de causas Material-Eficiente tende ao Múltiplo e à dispersão, ou centrifugacidade da alma, enquanto o par de causas Formal-Final tende ao Uno e à concentração, ou centripetacidade da alma.

O crime de Caim/Horus, e a inocência de Abel/Sanguinius

E assim cairá sobre vós todo o sangue dos justos derramado sobre a terra, desde o sangue do inocente Abel até o sangue de Zacarias, que matastes entre o santuário e o altar.” (Mateus 23:35)

Pela influência de meu sobrinho nº 2, voltei a revisitar um certo conteúdo de ficção científica sobre o qual não pensava havia tempos, o universo de Warhammer 40k.

Em grande parte essa revisitação não geraria frutos dignos de nota dentro do meu trabalho, não fosse a observação de uma certa analogia funcional entre aquela mitologia e a do Gênesis, uma comparação que talvez nos ajudasse a compreender melhor algo que pode ser muito útil, algo que já foi abordado e explicado antes, mas que possivelmente não tenha ficado tão claro quanto deveria: o quanto que Caim foi realmente criminoso na sua ação, e o quanto que Abel era inocente.

Relembrando a mitologia edênica da Bíblia, no Capítulo 4 do Gênesis encontramos Adão iniciando seus filhos no culto divino, a primeira forma de religião referenciada nas sagradas escrituras. Abel oferece um sacrifício aceitável para a divindade, enquanto o sacrifício de Caim é tido como insatisfatório. Abalado pela rejeição da sua oferta, Caim é tomado de uma fúria assassina, e acaba se vingando através do homicídio de seu irmão, tornando-se assim um exilado da sociedade adâmica, e um construtor de uma alternativa civilizacional rival daquela de seu futuro irmão Set.

A Tradição nos informa que Caim perdeu a graça de Deus em virtude, em primeiro lugar, de ter se recusado a fazer a sua melhor oferta no ritual de sacrifício, entregando restos da sua colheita ao invés das primícias, ao contrário de Abel que entregou a melhor parte de seu rebanho. Em segundo lugar, alertado por Deus para que não caísse na tentação da vingança, ele ignora o guiamento divino e termina por se associar com o espírito que lhe incutiu o ódio pelo irmão.

A Revolução, porém, informa algo diferente: a recusa de Caim de sacrificar o seu melhor, ou mesmo de sacrificar sangue como seu irmão Abel, derivaria de sua ciência da mentira de seu pai. Consciente de que Adão trocou o culto do Deus verdadeiro, no antigo Jardim do Éden, pelo culto do falso deus, a Serpente do Mundo, Caim teria rejeitado a obediência ao culto ensinado por seu pai, ou seja, teria recusado participar na Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros. Como consequência da sua recusa, porém, ele foi rejeitado pelo deus de Adão, e também por seus pais, e teria sido tentado pela fúria ao ver o sucesso de seu irmão Abel que, enganado por seus pais, não obstante obteve triunfo e glórias ao ter se submetido ao Sistema da Besta. Incapaz de tolerar a injustiça, Caim cai ele próprio na tentação, decorrente dessa tristeza, e mata o seu irmão.

Embora a Tradição sempre pareça nos contar a historia mais coerente, simplesmente porque usa a cultura do status quo (toda a narrativa reiterada por séculos pelas religiões cristãs), e também porque nos permite relaxar na hipótese menos sinistra, ela nunca explica o salto tremendo de Gênesis 3 até Gênesis 4, ou seja, a abrupta transição da situação de rebelião e condenação à morte até a situação de normalização do culto através do sacrifício de sangue.

Não é difícil cogitar a hipótese de que Adão e Eva trocaram de fato de divindade, e que o culto religioso mostrado em Gênesis 4 seja o Culto do Ouroboros. Afinal, mais tarde o Deus verdadeiro (e quem mais seria?) não nos diz que não tem prazer no derramamento de sangue, e que para o seu Espírito o verdadeiro sacrifício é a oferta de um coração contrito?

Por outro lado, Jesus, a maior autoridade, nos informa que o diabo é o Pai da Mentira, e que é “mentiroso desde o princípio“.

Usurpador por natureza, o Ouroboros sempre desejou tomar o lugar de Deus diante do homem, em primeiro lugar causando o distanciamento entre o Criador e a criatura através a malícia da desconfiança, e em segundo lugar oferecendo a alternativa de si próprio como salvador através da oferta da Gnose. O Pacto Ouroboros é o comércio entre os usurpadores, anjos caídos e humanos, para criar o seu império de rebelião.

Porém, Jesus diz também que Abel foi o primeiro inocente vitimado pela colaboração dos homens com os demônios. Como isso poderia ser verdade, se Abel fosse cúmplice de seus pais no Culto do Ouroboros?

Para compreender esta hipótese, ou seja, a de que Abel teria participado do Culto do Ouroboros e, ainda assim, que tenha sido inocente, nós temos que compreender os fenômenos da malícia e da inocência num nível mais profundo do que o normal.

E nisto é que pode convir, finalmente, o simbolismo daquela mitologia de Warhammer 40k: Horus e Sanguinius, ambos filhos do Imperador, correspondem em seus papéis a Caim e Abel, filhos de Adão.

Horus é influenciado por uma visão (ou por uma série de visões?) em que vê seu pai, o Imperador, manipulando a história e usando de toda a sua influência para alcançar o status de divindade, enganando seus filhos a respeito de seus propósitos megalomaníacos. Essa visão tem uma origem demoníaca (ou “caótica”) e o objetivo de criar divisão e conflito no Império, de modo que as forças do Caos pudessem triunfar contra a Humanidade. Crendo na visão, porém, Horus não percebe o quanto ele próprio é manipulado, e acaba por causar a guerra civil que terminará com o assassinato de seu irmão Sanguinius, antes que seu pai finalmente o mate e seja então, como consequência, cultuado como o Deus-Imperador da Humanidade. Assim, Horus acaba colaborando para a concretização daquela visão contra a qual se rebelou.

A sugestão mais frutuosa para a compreensão da mitologia do Gênesis vem da forma como o esclarecimento de Horus se inicia: a visão, embora tenha uma origem e uma intenção maligna, não revelava, afinal, um futuro contingente plenamente realizável? O Imperador não aceitaria, afinal de contas, a sua própria entronização como divindade, às custas do sacrifício de seus filhos e de todo o povo? Sim, o conteúdo da visão era verídico. Apenas não ficou claro para Horus o papel decisivo da sua própria intervenção na história, isto é, a contribuição do efeito da sua queda na malícia na produção do mal que sua visão anteviu.

Já Sanguinius, por sua vez, ainda que enganado pela mentira de seu pai, tendo sido não obstante fiel até o fim, pode ser considerado inocente ainda que sofresse de uma ilusão.

Pois eis a realidade espiritual: não é a Gnose da ciência do segredo que salva, como pensaria Horus, mas é a confiança amorosa que aproxima do Bem ao rejeitar a desconfiança maliciosa. Por mais enganado que fosse por seu pai, Sanguinius, mantendo-se fiel e rejeitando a malícia de Horus, estava mais próximo do Bem que lhe era possível do que seu irmão. Confiando em seu pai, Sanguinius na verdade confiava numa Providência maior que havia dado ao Imperador a autoridade e o poder por qualquer razão que transcendia o seu entendimento. Ou seja, por trás da enganação, havia a confiança num governo verdadeiramente divino por trás. Já Horus, desconfiado do Imperador, desconfiava junto também do governo divino da realidade, razão pela qual o seu crime é total, apesar de suas razões, assim como a inocência de Sanguinius é total.

Está escrito: com Deus estão o enganado, e também aquele que engana.

Também: não temeis por conspirações e segredos.

E por fim, Deus diz: não me procurai no Caos.

Isto quer dizer que a única coisa pela qual podemos nos responsabilizar é pela confiança ou não num governo divino maior, uma Providência que regula todas as coisas, inclusive e especialmente todas as injustiças e sofrimentos. Sanguinius confiou, e Horus caiu na malícia.

A vida com Deus está no repouso na confiança de que nada escapa ao seu divino Poder, e que tudo é sempre convertido, finalmente, para o bem daqueles que amam a Deus.

Percebemos assim como a obra divina é perfeita, mesmo no uso da liberdade com tendências maliciosas: se não for dada à Serpente a liberdade de tentar Adão, como é que ele pode decidir confiar ou não no Amor divino? Igualmente, se Caim não for tentado pela visão do culto do falso Deus, como é que ele poderia decidir agir diferentemente?

Nesta hipótese, a intervenção do Deus verdadeiro vem depois da ação da tentação que serve de campo de exploração para a liberdade humana. Ou seja, inicialmente Caim foi apenas influenciado por espíritos realmente demoníacos, ainda que estes em parte dissessem a verdade, isto é, que Adão traiu o Deus verdadeiro, e que o sacrifício de sangue era feito a um falso deus. A intenção infernal por trás dessa iluminação gnóstica, porém, era justamente que Caim se tornasse orgulhoso de sua Gnose, e que enxergasse a si próprio como melhor que seus pais e que seu irmão. Esse mesmo orgulho foi depois a causa da sua queda, por não suportar o louvor ao mérito de Abel.

Mas antes do assassinato de Abel, o Deus verdadeiro não deixa de chamar Caim para a verdade, dizendo: se a tua intenção é a correta (isto é, a de rejeitar a traição de seus pais), porque ficas triste? Não deverias levantar a cabeça?

Essa sugestão é excelente e cheia do Espírito Santo: uma vida com Deus, na sua Presença, ignorando a usurpação e desobediência da humanidade. Era preciso que Caim se libertasse do orgulho contra seus pais, e da inveja assassina contra seu irmão.

Mas Caim rejeita o Espírito Santo, e assim sua visão se torna uma prisão na malícia, no orgulho e na inveja. Seu crime é indesculpável.

Já Abel, apesar de ser enganado por seus pais e pelo próprio Ouroboros, tendo sido não obstante fiel e confiante num Bem maior, foi inocente até o fim, e duplamente inocente: não só foi enganado pelo Ouroboros e por seus pais, mas também foi traído por seu irmão cheio de malícia e ódio.

Ao contemplarmos a cena do assassinato de Sanguinius por Horus entendemos como a Gnose sempre dá um falso poder que leva à hybris e à ruína: o verdadeiro poder está na confiança no Bem transcendente.

O Caos tentou Horus. O Ouroboros tentou Caim.

A opção de Horus/Caim era a de aceitar a liberdade da contingência de seu pai, bem como a primazia de seu irmão.

Assim, a visão do futuro contingente talvez não fosse falsa, mas de qualquer modo a reação de Horus/Caim deveria ser a de amar a liberdade até o fim: a sua própria, a de Deus, e a do próximo.

Parafraseando a sabedoria socrática: é melhor ter a sua liberdade violada, do que se tornar o violador da liberdade alheia.

O mal, afinal, sempre está naquele que o causa, e não naquele que o sofre.

A presença ignorada de Deus, livro por Viktor FRANKL

Ainda que limitado pelo âmbito da sua especialidade, isto é, pelo ângulo de um médico, o Dr. Frankl consegue pressionar os limites do Psiquismo humano para reconhecer a razão de ser do que nos transcende, mais ou menos como um kantiano. E tem um sucesso louvável no seu empreendimento.

Muito respeitoso com as ousadias, ou pretensões mesmo, das teorias das demais escolas de psicologia, Frankl não teme ser Humilde, ou talvez parecer ingênuo, e reclama o direito do homem de ser livre e de se autodeterminar espiritualmente. Sua defesa do arbítrio humano contra os condicionamentos naturais e ambientais nos causa um alívio. E sua crítica ao fatalismo determinista de tipos como Jung chega a nos divertir. Até aqui eu poderia pensar que toda psicologia tende a ser idolátrica, como toda astrologia, mas Frankl me impede de continuar pensando assim. A ciência séria é, afinal de contas, sempre possível.

A linguagem de Frankl talvez não seja a que mais facilitaria o nosso entendimento hoje, principalmente o que ele entende sob o conceito de religião em geral. Esclarecendo: na busca do sentido, e na liberdade humana de crer neste sentido, Frankl está falando da vida espiritual do ser humano, a qual pode ou não ser mais ou menos identificada com determinado conjunto de símbolos na linguagem de uma religião determinada. Esta interpretação, por sua vez, não é forçada, como ficará claro nas palavras do próprio Dr. Frankl que serão citadas logo mais.

Em síntese, esta obra de Frankl defende a dignidade espiritual do ser humano no limite do que é suportável dentro da discussão da psicologia. Não consegue alcançar as alturas de uma teologia, ou de uma filosofia metafísica, mas faz justiça à vida espiritual na sua própria dimensão, sem grandes ressalvas.

Vejamos algumas citações:

Esta é, possivelmente, a melhor defesa do dom de Soberania no contexto da psicologia. Na direção contrária à superlotação do id como condicionante da pessoa humana, Frankl declara que o ser humano começa a existir enquanto eu que recebe a sua circunstância e que determina o seu ser diante dela, responsavelmente. Indiretamente, esta é também uma defesa da Presença contra o espírito de idolatria: os elementos exteriores ao Eu limitam o campo da liberdade, mas não a determinam.

A idéia de Destino é espiritualmente ambígua, mas razoável como índice da Providência divina. Cabe ao ser humano colher na sua concretude aquilo que é dado como inescapável, e então decidir aceitar isto como condição desejada ou permitida por uma Vontade divina. O foco obsessivo nas consequências da causalidade psicofísica tende a camuflar ou até a negar completamente este elemento vital da experiência espiritual humana. Frankl não deixa isso acontecer sob o seu juízo. É um herói, uma testemunha espiritual entre os grandes da psicologia.

Não é surpreendente, e até mesmo assombroso, que Frankl possa corrigir a perspectiva comum da causalidade, e reconhecer a prioridade das causas fundamentais sobre as intermediárias? Nossos pais carnais não nos dão a idéia do Pai Celeste, mas antes Deus é quem nos provê pais carnais para que o conheçamos por analogia, esperando o maior em virtude do menor, etc. Como diz Jesus, por exemplo: “se até vos que sois maus sabei dar coisas boas aos vossos filhos…“. Isto é: tudo o que experimentamos como bondade das relações familiares é apenas uma amostra que aponta para a perfeição divina, que é o alvo máximo da vida humana.

Eis uma defesa impecável da integridade do dom da Presença, ainda que sem declará-lo explicitamente. Frankl toma o cuidado de afastar as idéias erradas a respeito do que ele chama de “Deus inconsciente”, sem deixar de defender a experiência humana de um encontro espiritual com o que nos transcende infinitamente.

O vício psicológico de tratar o ignorado como “inconsciente” talvez ainda seja um resquício indevido da cosmovisão psíquica a partir da qual Frankl trabalhou. Afinal, se a ignorância é constitutiva de qualquer ser limitado, que sentido há em chamar o desconhecido, ou misterioso, de “inconsciente”, senão como uma tentativa de exercer alguma forma de controle, ou ao menos de reconhecimento, para que sejamos amparados da necessidade pura de confiar no Amor divino? Qualquer idéia de “inconsciente” é espiritualmente problemática, mesmo a de Frankl.

Talvez a saída seja apenas mística, ou teológica, no amparo do conceito de Mistério. Mas este, obviamente, não pode entrar em linha de conta de uma psicologia.

Fiquei satisfeitíssimo que um médico tenha operado essa justa correção na visão de mundo do Psiquismo. O ser humano completamente manipulado pelos impulsos que determinam o seu ser, interior e exteriormente, nunca existiu e nunca existirá. Ao contrário, ser humano significa ter liberdade interior diante de qualquer circunstância, ainda que sem o poder de modificá-la exteriormente, mas sempre podendo assentir e rejeitar, desejar e repelir, etc.

As experiências mais toscas, ou meramente exteriores da religiosidade, camuflam essa realidade, mas um exame atento sempre mostrará o fato inegável da liberdade em operação debaixo, nem que seja na responsabilidade da própria alienação. Justificar o movimento do arbítrio à partir somente de impulsos externos ao Ego é o mesmo que desumanizar o humano, e tirar-lhe a sua maior dignidade, que é a de ter sido feito à imagem e semelhança de seu criador.

Aqui Frankl já se aproxima da própria Monadofilia, ou ao menos do aspecto da singularidade indeterminada da alma humana.

Confesso que senti alívio, depois que o autor usou tantas vezes a idéia de “religião” na sua obra, ao saber que ele não fez a confusão que o uso do termo poderia ter sugerido, entre o que é a liberdade interior de viver diante do Deus verdadeiro, e as formas exteriores de expressão dessa realidade individual sob símbolos coletivos.

Já que nem tudo pode ser perfeito, aqui Frankl mostra a sua associação com um dos lados da dialética do Ouroboros, justamente o da Tradição.

Embora seja verdade que a sociedade moderna ofereça riscos determinados ao ser humano atual, e que estes riscos específicos possam e devam ser identificados, não é verdade que o ideal humano esteja no tempo, isto é, no passado, tanto quanto do ponto de vista progressista também é um erro afirmar que o ideal esteja no tempo futuro.

A solução espiritual mais impecável e simples é a do idealismo transcendental, fora e acima de todos os tempos. Como homem de ação, Frankl com razão buscou fontes imanentes de exemplo, e encontrou algo assim no passado da humanidade, mas igualmente um progressista o poderia fazer idealizando o homem do futuro. O único homem verdadeiramente ideal, porém, é o da Eternidade, constituído por sua plena comunhão interior com o Espírito Santo.

Nesta passagem Frankl se posiciona favoravelmente à uma solução pela linha do Realismo Responsável, através das Liberalidades do amor contingente, e pela linha do Idealismo Transcendental através do recurso do dom da Paixão, através do qual Deus nos permite converter todo sofrimento em repouso na Providência.

Ainda que pudesse ter ido além se o quisesse, que ele tenha chegado longe assim partindo do ponto de vista de uma psicologia, é algo muito admirável, e torna o seu trabalho único e recomendável acima de todos os outros.

A linguagem da vida interior é a própria vida espiritual: é a nossa honestidade de sermos carentes diante do nosso Criador, confiantes na sua excelente qualidade de Amante fiel e perfeito.

Neste sentido Frankl não só supera as limitações da psicologia, como também da própria religião como um todo.

E abre o caminho para a ação humana que está acima de qualquer outra: a do testemunho e da amizade.

Quanto mais amamos a Deus e ao próximo, mais verificamos a imensa profundidade da diversidade criada pelo Altíssimo, e nos libertamos da mesquinhez e tolice da restrição do nosso entendimento de acordo com símbolos e critérios que só existem para a conveniência da ordem social.

Vida espiritual, em suma, é a experiência real do ser humano que não cabe mais dentro de nenhum papel social: nem familiar, nem econômico, nem político, nem religioso. É uma alma livre que fala para outras almas livres sobre a sua experiência amorosa da vida e de Deus.

Que um psicólogo tenha nos dado a abertura para considerar essa realidade sobre todos os interesses específicos da sua especialidade, é algo muito louvável.

Nota espiritual: 6,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo9
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final6,0

Crítica da Razão Pura, livro por Immanuel KANT

Nesta obra, o Professor Kant me pareceu uma espécie de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde da Filosofia: misturando o que parece ser muita Humildade com pouca Soberania, e pouca Pretensão com muito Gnosticismo.

Seu procedimento é enfadonho, embora não deixe de ser estimulante a um tipo bem determinado de mentalidade que goste de abstrações filosóficas.

Se tivermos em mente apenas a finalidade prática da Filosofia para a vida humana, nos perguntaríamos sobre esta obra: foi muito barulho por nada? Poderia ter feito o mesmo, mas com menos?

Mas nosso julgamento não é literário, e não importa o grau da chatice de um autor, se ele é produtivo espiritualmente, isto deve ser levado em conta acima da sua escolha de formalização.

Em termos espirituais, Kant mistura justamente excelentes considerações que podem nos ajudar muito na descoberta do dom de Humildade, com outras tantas mais evidências de corrupção gnóstica através de várias infiltrações ao longo de sua obra.

Assim, um espírito vigilante poderia fazer uso dos recursos filosóficos à favor do elogio da Humildade, dispensando o resto, mas não poderia obter essa própria Vigilância través da obra de Kant, porque ele não tem praticamente nenhuma para dar.

O Intelecto humano é excelente para se dar limites, se assim o desejar. Isso Kant provou de modo incontestável. Ao mesmo tempo, ele não pode reconhecer o arbítrio da Vontade se esta não se submeter ao seu exame, e assim a mentira gnóstica toma conta de um sistema esclarecido na sua superfície, mas totalmente obscuro nas suas profundezas. Essa é a realidade que encontrei na Crítica da Razão Pura.

Talvez o desgosto com o dogmatismo religioso tenha levado não só Kant, mas muitos outros, a uma reação desmedida na outra direção. Curiosamente, o próprio Kant alerta contra o dogmatismo ateístico, porque este sem dúvida é perigoso ao status quo, mas ele não fala de razões para se obter progresso fora do seu paradigma social e histórico, ou seja, não dá alternativas reais, que poderiam substituir o ateísmo, contra o poder do dogmatismo religioso.

Parece que Kant quer fundar uma nova Religião universal, da Razão, o que seria sempre um culto humanista e antropocêntrico, como com razão é acusado pelos Tradicionalistas. E assim mantemo-nos novamente na Dialética do Ouroboros, sem grandes novidades.

Só posso entender isso como um novo fracasso da Filosofia, possivelmente pela perturbação dos seus interesses próprios diante de circunstâncias históricas, sociais e culturais, ou até de interesses pessoais da parte do filósofo.

Há um desperdício aqui. Muito se poderia ter feito para reconhecer o dom de Soberania em sua assustadora integridade, o que só aumentaria o grau de consciência a respeito da responsabilidade humana. Essa possibilidade foi totalmente frustrada por Kant, possivelmente por ser ele não um filósofo despreocupado, mas um Professor da Real Academia de Ciências, portanto uma autoridade com função social, da qual dependia o governo da sociedade em algum grau.

Nunca posso, de minha parte, resistir à observação de que o Poder é sempre corruptor por si, e de que exercerá todas as vezes uma influência nefasta quando aquele que é tentado não aceita de Deus o dom de Vigilância, presumindo que a sua experiência se dá num mundo decaído e amaldiçoado, sob domínio de Satanás, e destinado ao governo final do Anticristo.

Não é necessário se fazer uma adesão voluntária e consciente ao Sistema da Besta para servi-lo: basta rejeitar o dom de Vigilância que o Espírito Santo nos provê, e abraçar o espírito de Ingenuidade. O que por sua vez só se dá quando se rejeita também o dom de Discernimento, e se aceita a influência do Psiquismo.

Eis que um Bispo do Sistema da Besta se constitui tão somente pela sua vontade de legitimar o mesmo, seja qual for o entendimento de sua forma em seus próprios termos de maior ou menor ilusão, ou seja, justificar o status quo da Mistura e a ação dos Usurpadores do Nome, ao invés de defender a causa da Separação.

Kant poderia julgar tudo isso apenas como um outro tipo de ingenuidade dogmática, é claro.

Mas, quid est veritas?

Nota espiritual: 3,6 (Moriquendi)

Humildade/Pretensão8
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,6

Ceticismo em Kant: local de passagem, nunca de permanência

Kant, repetindo-se como sempre, tem razões mas não tem razão.

É verdade que o Ceticismo, ainda que seja um descanso contra a pretensão dogmática, como a saída de um calabouço para se respirar ares puros, não pode constituir um local de permanência, pois as questões vitais para um ser consciente requerem uma resposta positiva, não somente negativa. O ser humano, liberto de sua prisão dogmática, precisa encontrar uma nova moradia.

Porém, Kant mostra-se tentado pela possibilidade da Gnose ao afirmar que devemos fixar residência definitiva numa certeza completa, seja a do conhecimento ou ao dos limites dele.

Temos aí uma perfeita ambiguidade: onde está a possibilidade da certeza, na posse da Gnose, ou na sua Crítica?

Presumiríamos, já que Kant se propôs a produzir uma Crítica infalível, que ele buscaria qualquer certeza somente por este caminho, mas isso não é assim. De fato, a Crítica da Razão deixa em aberto o passo seguinte, que pode ser tanto o de uma especulação metafísica guiada pelos limites da Crítica, quanto o de um refúgio no território dos conhecimentos garantidos pelos mesmos.

Assim, movido primariamente, seja pelo interesse da Vontade, ou do Intelecto, o ser humano se vê livre para escolher o caminho da Humildade ou da Pretensão, de modo que a filosofia kantiana, ao menos na Crítica da Razão Pura, pode ser entendida como contribuinte ao esclarecimento da condição humana, mas não no sentido da indicação do melhor caminho a percorrer, pois isto ultrapassaria o grau de certeza a que o filósofo se limitou.

Porém, como ele próprio diz, nenhum Ceticismo, nem mesmo o da própria Crítica, pode ser terminal.

Nenhum ser humano pode repousar na dúvida: ele decide todos os dias no que acredita para deliberar seus movimentos internos e externos. Mesmo que possuindo o esclarecimento da Crítica, o que fará esse ser humano, senão decidir novamente qual é, para si, a natureza e a finalidade da sua realidade?

Usando os termos da alquimia, diríamos que nenhuma alma subsiste com a consistência espiritual do Mercúrio: é necessário obter a estabilização do Enxofre e alcançar a solidez do Sal.

Ou, usando os termos da ficção científica popular Matrix, diríamos que só a pílula azul é terminativa. A função da pílula vermelha (seja ela um Ceticismo, ou uma Crítica), é a de dissolver o cristal anterior, isto é, o dogmatismo precedente que perdeu efeito, para que se obtenha uma nova síntese, um novo cristal com efeito.

Kant não nos dá sinal dessa escolha terminativa, ao menos não nesta obra.

Assim, sua Crítica pode até enxergar os limites do Ceticismo, mas em si não passa de uma continuidade esclarecida do mesmo, sem dar o passo seguinte por si.

A Crítica da Razão Pura ainda é Mercúrio, ainda é a pílula vermelha.

Perversa Ratio de Kant: o denunciante denuncia a si mesmo

Parece que Kant aqui se perdeu num entendimento que vinha razoavelmente bem, guiado mais pela sutileza do idealismo por pura analogia, e voltou à certas obscuridades do ceticismo empirista. Isso pode se dar a qualquer um de nós quando caímos justamente no pesado empreendimento de querer dominar objetos que só se oferecem à contemplação amorosa, mas que recusam a violência gnóstica.

Ele tem razão, contra o dogmatismo, que não se pode postular as razões determinadas de um ser supremo ordenador a priori, mas parece se esquecer de que ele próprio descobriu, e não faz muito tempo, que a causa da série dos condicionados só pode estar num incondicionado fora da série, de modo que a natureza só conhece (ou dá a conhecer) a necessidade de uma instância que legisle sobre si internamente, mas não pode atribuir os motivos dessa legislação. A teleologia de uma Razão transcendente sempre explica a natureza, mas não pode ser explicada por ela.

Aqui parece que o denunciante da perversa ratio acaba denunciando a si próprio: a total transcendência do ser supremo com relação à natureza criada, na busca das finalidades últimas, não constitui um antropomorfismo necessariamente, mas é apenas buscado na sua integridade como capaz de justificar o conjunto natural com fins que o ultrapassam, de tal modo que o próprio Kant observou que o dever descoberto pela consciência pode até contrariar o interesse da Lei Natural na contingência da experiência.

Parece-me que Kant começa a fazer uma escolha, mas não a quer ter esclarecida, afinal de contas. Uma coisa estranha, num filósofo do Esclarecimento.

Ele não quer a Fé num transcendente, mas procura a Gnose do criador de uma natureza que contenha a finalidade total, de origem transcendente, embutida dentro da contingência. Isso é um procedimento de um Furioso, obviamente.

Kant: um confesso Bispo do Sistema da Besta?

Eis que o filósofo prussiano nos dá referências simbólicas estranhas, inusuais na sua obra, indicando talvez um comprometimento com o Iluminismo que vai além da mera contribuição de suas investigações particulares: seria isso o sinal de um envolvimento espiritual mais profundo?

É claro que a confirmação disso seria sempre impossível, e mesmo a aferição de uma maior probabilidade nesta direção requereria uma investigação mais ampla, tanto da sua obra como um todo (e não só da Crítica da Razão Pura, por exemplo), quanto também de relatos biográficos que nos permitisse compor um quadro mais compreensível.

Mas já temos aqui uma indicação neste sentido, que não pode ser ignorada.

Quem tem em mente “uma torre capaz de alcançar o céu“?

Não é o herdeiro dos Usurpadores, aqueles mesmos que foram dispersos por Deus em Gênesis 11?

E para que não se afirme que Kant imaginou algo sem referência ao mito bíblico, ele próprio menciona logo em seguida, no exato contexto da mesma explicação, o problema da “confusão das línguas“, uma referência imediatamente conectada com o mesmo simbolismo.

Está ele querendo nos confessar algo, através do emprego deste simbolismo?

Ora, se ele empregasse esse tipo de linguagem de forma generalizada no seu estilo literário, nós poderíamos diminuir essa impressão e nos considerar apenas algo paranóicos.

Mas Kant não usa essa linguagem quase nunca. Extremamente rigoroso no emprego dos seus termos, e repetitivo na sua escolha, nós reparamos facilmente quando ele se desvia do padrão.

Isto parece ter acontecido mais na Edição “B”, a segunda edição da Crítica, onde ele adota por exemplo a postura reativa de formalizar proposições em diálogo com “vocês“, possivelmente os seus críticos. É possível detectar também na Edição B que o filósofo ficou mais à vontade, como que confirmado nas suas pretensões de algum modo, talvez já reconhecido suficientemente para se arrogar a capacidade de dar palpites com relação ao futuro do Iluminismo e da Educação em geral na Prússia, por exemplo, e através desse seu procedimento não é difícil imaginar que a sua referência à Torre de Babel seja uma mensagem clara, nem tão codificada assim, para parceiros num determinado projeto espiritual, que eu chamo de Sistema da Besta.

Confessio est regina probationum: a confissão é a rainha das provas.

Mas ele ainda não confessa.

O que diz aqui, neste mero parágrafo entre tantos, pode ser apenas uma brevíssima aventura literária onde os símbolos podem ter sentido equívoco para o nosso uso.

Porém, temos instrumentos de Discernimentos suficientes para entender o professor Kant mais provavelmente envolvido com o projeto Gnóstico do que o contrário.

Pelos frutos conhecereis a árvore: por acaso o esclarecimento da Fé cresceu com a influência da obra kantiana, e com o Aufklärung em geral, ou ocorreu o contrário?

Agnus Dei: como o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo?

Se, a partir da hipótese do Pacto Ouroboros, o sacrifício ritual de sangue sempre foi instituído no âmbito do Pecado Original da aliança entre homens e demônios, enquanto o Deus verdadeiro sempre aceitou o sacrifício espiritual do Orgulho, isto é, um sacrifício de comunhão na forma de Humildade, como poderíamos entender a idéia de que Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus, aquele que “tira o pecado do mundo”?

In limine, esta expressão poderia ter sido simplesmente apostada às Sagradas Escrituras para reforçar o Pacto Ouroboros, podendo ser discriminada à partir do Discernimento dos Espíritos.

Porém, convém avaliar como esta idéia é espiritualmente viável. E isto sempre, para todas as expressões bíblicas: a hipótese da corrupção, apesar de essencial, não deve ser usada como razão de dispensa ao Discernimento. Ao contrário, devemos nos sentir sempre mais incentivados a aprender o sentido das coisas diante de Deus.

Dito isso, podemos encontrar, na forma correta da adoração à Deus, ou seja, “em espírito em verdade”, duas possibilidades:

1. O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo para os obedientes, ao liderar seus seguidores na aceitação da Cruz, ao ensinar a Humildade e a mansidão, e ao ordenar o Perdão como exigência da Lei do Amor. Isto imediatamente não apenas bloqueia a proliferação da ação maligna no mundo, como tende a remediar e até mesmo curar completamente os males produzidos nas almas, na medida em que a fidelidade à Jesus como Filho de Deus se espalha pela Terra;

    2. O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo para os desobedientes, ao ser aceito como sacrifício de sangue único e suficiente, de modo que possa ser interrompido o ciclo de violência da parte daqueles que temem o Inferno e que acham que compram a salvação através do ritual da religião cristã, praticando, se não o Arrependimento, pelo menos a Penitência, para não falar das práticas pagãs de pactos com os demônios através das outras formas de sacrifício de sangue.

    Qualquer idéia mística que entenda a ação de salvação que vem de Jesus como um recurso mágico e não espiritual, isto é, como um Poder divorciado do Intelecto e da Vontade, serve apenas para justificação social do segundo tipo de possibilidade que foi acima aventado.