A Arte para Goethe: reflexo do Belo ou imitação da imitação?

Aborrecido com sua vida em Frankfurt, que já se tornou algo tediosa, e temeroso de que seu destino lhe leve a uma vida limitada como a de seu pai, Goethe tem grandes expectativas com sua vida acadêmica. Quer ir para a Universidade de Göttingen estudar as letras antigas. Mas seu pai vence e lhe envia para Leipzig para estudar Direito. Goethe fala da importância de ter independência, de desbravar o mundo, de fazer seu próprio caminho, mas isso soa artificial e incompatível com sua experiência. Não que ele devesse insistir demais na pretensão artística. Mas não precisava mentir que buscava uma liberdade que na verdade lhe custava caro demais. Meu problema nunca é a fraqueza, é sempre a mentira. Seja antes filhinho de papai, bonzinho e obediente, fraco e nada heróico, mas honesto, do que um falso artista puro.

Em Leipzig o autor expande a humilhação da sua suposta independência ao aprender que para ganhar algo do mundo (respeito, prestígio, atenção, etc.), ele precisa perder algo de si. Muda suas vestes, seu modo de falar, e até suas preferências estéticas. Reclama, se irrita, mas não se rebela. Vai dando um jeito em tudo. É um indivíduo político, adaptável, fluído. Sanguíneo, como já notamos. Goethe nunca é decisivo demais nas suas ações. Diz admirar a ação e a resolução, a firmeza e a seriedade, mas na prática mostra que prefere ser flexível e mutável, e é nessas coisas que encontra uma vantagem maior. Detesta as cobranças do mundo, mas não deixa de fazer o que lhe pedem. Se sabe aprender a apreciar as novidades aprendidas –e ainda bem, porque expande sua experiência–, também não deixa de notar, mais uma vez, as contradições e os jogos dos que se pretendem mestres, especialmente nas Artes. Goethe percebe que o mundo é falso e mentiroso, mas isso não lhe revolta. Ele se torna um aprendiz do Sistema da Besta, um neófito que reluta mas persiste, um iniciado apenas um pouco tímido nos pactos sociais.

A certa altura ele declara que a função da sua arte é a de representar os seus estados interiores e chega a dizer que toda a sua obra poderia ser vista como uma grande confissão. Isso é muito saudável e estaria ótimo se acabasse por aqui. Aquém de grandes pretensões civilizacionais, essa Arte mais pura é a expressão de um sobrevivente numa condição desafiadora.

Quem nos dera o autor buscasse somente essa simplicidade. O mundo exterior lhe encanta demais. Seja a Natureza, ou o Homem, ou até a própria Religião (surpreendentemente), algo lá fora precisa corresponder ao que vai dentro de si. Goethe declara a importância dos sacramentos religiosos e da unidade dessa experiência com a da vida interior. Demonstra, assim, o seu caráter morno, e uma predisposição à Legitimação da Mistura, sem interesse na Separação. O que não é surpreendente num artista, essa categoria de ser que costuma trair o Ideal, os imitadores da imitação como diria Platão (ou amantes de espetáculos).

Ora, a unidade de símbolo e simbolizado é a da expressão da verdade, e não de um efeito de multiplicação dos seres. Em outros termos, ou o que expressamos reflete o Belo (ou o Verdadeiro), ou é apenas essa imitação da imitação que nos distancia do Ser real.

Goethe chega a dizer o seguinte: “Ele [o cristão] tem de se acostumar a ver a religião interna de seu coração apenas como outra face da religião institucional da igreja.”

Que curioso, para mim se dá exatamente o contrário: na melhor das hipóteses a religião institucional se revela como uma face da experiência da vida interior na Presença de Deus. O Reino de Deus não está dentro de nós? Já vejo que Goethe e eu não nos bicamos nas coisas do espírito, e me parece que isso não vai acabar bem.

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