A Religião para Goethe: uma prática boa para os outros

Continuamos o estudo do De minha vida de Goethe.

A certa altura do Sétimo livro, encontramos mais uma amostra daquele mesmo comportamento, como autor, que Goethe exibiu quando reportou o Carnaval de Roma em sua Viagem à Itália: a separação entre o valor social e a estima social da coisa. Isso incomoda. Se ele não é religioso na prática, o que significam todos aqueles elogios à Religião? É apenas um rito social. O autor quer se ver bem com a sociedade que em boa parte ainda é religiosa. A impressão que cresce em mim é a de que Goethe tem pavor de ser isolado, de ficar sozinho contra a multidão. Sua inteligência, sensibilidade e sutileza o levariam a essa posição de uma elite natural no meio da ignorância, mas ele quer ter sua função social, quer o reconhecimento, quer fazer parte, etc. Então temos um testemunho que resta ambíguo no final das contas.

Mas como devemos julgar essa escolha do autor, espiritualmente? O que isto significa?

Que Goethe como produtor de cultura escolheu agir como Bispo no Sistema da Besta, traindo não só a Deus, mas a si mesmo, àquele ideal de artista puro que ainda possuía quando decidiu sair da casa do pai em Frankfurt. O subtítulo “Poesia e Verdade” talvez já sirva de confissão subconsciente de que as duas coisas não andam sempre juntas. Mas há que se admirar, pelo menos, que Goethe não escondeu essas contradições na sua autobiografia.

Para que fique claro o problema que encontramos aqui, convém analisar mais minuciosamente os elogios que ele faz à Religião, ponto a ponto. E também vale a pena lembrar que ao que consta, se a Wikipedia ainda presta para alguma coisa, Goethe era maçom, tendo sido iniciado inclusive antes do começo da redação deste livro. Vejamos: “Goethe era maçom , tendo ingressado na loja Amalia em Weimar em 1780, e frequentemente aludia a temas maçônicos de fraternidade universal em sua obra. Ele também era atraído pelos Illuminati , uma sociedade secreta bávara fundada em 1 de maio de 1776.” Por que isto seria relevante? Porque para essa fraternidade a importância da Religião é totalmente funcional, como um instrumento de trabalho no ordenamento da sociedade, e como parte da construção daquela futura utopia que é o de uma Nova Ordem submetida ao Terceiro Templo. Não sei até que ponto Goethe se aprofundou nos mistérios desde sua iniciação, mas se ele de dispôs a fazer essa escolha, cabe-nos lembrar do que significa esta associação.

Vejamos as partes que requerem uma maior atenção, entre os seus elogios das práticas religiosas. Ele exalta principalmente a Religião católica, por esta ter um pacote mais completo de dispositivos salvíficos. Mas, cá entre nós, essa sua predileção deve ter um grande peso para o lado estético da coisa, que tanto lhe importava.

Diz o autor: “Sobre essas mãos unidas, o padre dará sua benção e, nisso, o laço que os une se tornará indissolúvel. Não tardará muito e esses cônjuges trarão aos pés daquele mesmo altar uma pequena criatura à sua imagem, que será então purificada com a água sacra e incorporada de tal forma ao corpo da igreja que ela só perderá esse benefício mediante a mais aberrante renegação. Quanto às coisas do mundo, a criança aprenderá por ela mesma os caminhos da vida, mas quanto às questões divinas, precisará de instrução. E tão logo se prove que sua instrução se deu por completa, essa criança será recebida no seio da igreja como um verdadeiro cidadão, como um devoto legítimo e de boa vontade —não sem sinais externos que mostrem a importância dessa ação. Somente então esse indivíduo se reconhecerá definitivamente como cristão.”

Primeiro, não existe poder humano capaz de tornar o laço matrimonial indissolúvel. A realidade não evidencia isso abundantemente? Então Goethe já está falando da Religião como uma obra de ficção, um simbolismo bonito, mas desligado da realidade. Segundo, é interessante o uso da expressão “pequena criatura à sua imagem”, que alude diretamente à geração de Set no Capítulo 4 do livro do Gênesis. Ora, esta passagem enfatiza que esta é uma ação humana, uma criação secundum quid, não simpliciter. Seria muito fácil e apropriado, se isto fosse legítimo diante de Deus, afirmar que Adão e Eva geraram Set à imagem e semelhança de Deus, e não de si mesmos. A expressão bíblica é muito forte e significativa, e é curioso que Goethe use a mesma linguagem aqui. Terceiro, quando o autor afirma que só através dos sacramentos da igreja o indivíduo poderá se reconhecer definitivamente como cristão, ele se coloca como legitimador desse esquema de cobradores de impostos e atravessadores, como se o Amor de Deus não pudesse converter um coração pela pura virtude de sua Graça. Qual foi a participação daquele Centurião romano (aquele que tinha a maior fé em todo Israel) na instrução da igreja e nos sacramentos? E qual foi a participação de Dimas, o Bom Ladrão, nessa instrução e nos sacramentos? O que Jesus provou em diversos casos, além desses dois citados, foi o mais óbvio, e que Goethe quer negar aqui: que Deus faz o que Ele quer, e não deve nenhuma satisfação para essa verruga cósmica chamada ser humano. Que patético!

Continua o autor: “Ele poderá confidenciar seus feitos e suas faltas, suas carências e suas dúvidas a um homem muito distinto, especialmente dedicado a esse ofício. Esse homem saberá tranquiliza-lo, adverti-lo, fortalecê-lo, penitencia-lo —agora apenas de modo simbólico; e, pela absolvição de todos os seus pecados, ele o abençoará e o mandará de volta, de alma pura e limpa, para o quadro de sua humanidade.”

Primeiro, viola-se o que o Evangelho revelou, isto é, que ninguém vai ao Pai a não ser por Jesus Cristo, e que ninguém se coloca como Mestre e Sacerdote aos homens senão o próprio Filho de Deus. É Jesus quem recebe nossas confidências, carências e dúvidas, ele, que é muito mais do que qualquer “homem muito distinto”. Jesus é quem realmente nos tranquiliza, adverte, fortalece e penitencia. E é ele quem nos absolve e nos abençoa. Que ser humano poderia ousar pretender ter o poder para fazer essas coisas? Que insanidade é essa? É o veneno de Aarão, tudo de novo, o povo preferindo se relacionar com homens do que com Deus. Segundo, a alma pura e limpa é aquela já em comunhão plena com o Espírito Santo, ou seja, já salva pela Ressurreição. Antes desse acontecimento, tudo o que fazemos é crescer no Espírito, mas sempre permanecendo carentes. Terceiro, o objetivo espiritual nunca deveria ser esse retorno “para o quadro de sua humanidade”. O alvo é a comunhão com o Espírito Santo através da Ressurreição. Goethe enfatiza, portanto, novamente, o aspecto social da Religião, o papel ordenante e legitimador da Cidade dos Homens. O apego a Deus, por outro lado, nos tira do mundo, nos separa do mundo. Como um cristão poderia ignorar esse chamamento do Evangelho?

Diz ainda Goethe: “É por meio desse encadeamento esplêndido de atos igualmente sublimes que, por mais distantes que possam se encontrar um do outro, berço e túmulo se unem finalmente na continuidade de um mesmo círculo.”

Que figura grotesca! Deus afirmou o seguinte: eu não desejo a morte de ninguém. A morte é o salário do pecado, é uma invenção humana produzida pela desobediência, pela traição ao Amor divino. Goethe elogia a Religião como esse sistema que mantém em continuidade o círculo que leva do berço ao túmulo, quando o chamado do Evangelho, da Boa Notícia, é a derrota da morte e a ruptura desse círculo, para que hajam novos Céus e nova Terra. Aqui fica muito óbvia a associação da Religião com a Tradição Primordial do Pacto Ouroboros. Goethe confessou algo tremendo, enquanto provavelmente acreditava estar fazendo outra coisa, é claro.

E por fim o autor afirma: “Ouviremos dizer que um homem pode ser bendito, abençoado e sagrado pela força divina. Mas para que isso não pareça um dom natural, essa grande bendição, que implica sempre uma grande obrigação, só poderá ser transmitida ao outro por alguém de direito. Assim, o maior bem que é dado ao homem alcançar —não o podendo conquistar sozinho, nem dele se apropriar por si mesmo— será passado adiante e perpetuado sobre a Terra através dessa hereditariedade espiritual. De fato, a ordenação do sacerdote o tornará capaz de realizar tudo o que for necessário para celebrar tais atos sacramentais. E, na consagração de seus atos, a multidão toda será abençoada, sem que para tanto lhe seja necessário qualquer outro esforço que não o de manter sua fé e sua confiança incondicional.”

Primeiro, não faz sentido nenhum que se tenha que afirmar que a bênção divina não pareça um dom natural, desde que toda a vida, sob todas as formas, é um dom divino. Isto só seria necessário como uma emenda para uma visão baseada na Idolatria. Mas a emenda sai pior do que o soneto: ao se evidenciar que um dom divino não tem a aparência de um dom natural, subentendido fica que os dons naturais não provém de Deus. Quer dizer, o que pareceria corrigir a Idolatria na verdade a confirmaria mais ainda, como que afirmando que alguns bens naturais não provém do Amor divino. Segundo, que o benefício implique “sempre uma grande obrigação” é uma negação direta da ação da Graça de Deus, justamente para que, como diz o Apóstolo Paulo, o homem se encha de orgulho. Terceiro, se o benefício só pode ser transmitido por alguém de direito, isso automaticamente exclui todos os seres humanos e evidencia a exclusividade da virtude de Deus, e isso nos dois sentidos: não apenas só Deus possui a virtude da sua bondade, mas também só Deus possui a virtude do seu poder. Quarto, o “maior bem que é dado”, se é dado não é conquistado e nem apropriado, mas somente recebido. Dizer que o ser humano, sozinho, não conquista ou não se apropria do maior bem, não só não faz justiça à pureza da Graça e do dom da Salvação como honra exclusiva de Deus, como ainda complica a situação inserindo o que seria um ladrão individual a uma quadrilha de ladrões da qual se tornará dependente para fazer o seu roubo.

Então podemos observar que ou Goethe não sabia do que estava falando ou, se sabia, estava fazendo troça contra a Religião, recomendando algo que já saberia ser condenável.

Mas isso somente se ele fosse muito coerente, mas quem disse que um artista precisa disso?

Eis a questão: todo esse elogio da Religião não significa nada para o Goethe real, como aquele Carnaval romano que já vimos antes.

Na prática o autor percebe os muitos problemas da Religião como instituição humana, e principalmente se incomoda muito com as ameaças, que ferem a sua sensibilidade. Afinal, o que Deus tem a ver com as obsessões morais dos religiosos? Na prática ele se distancia de tudo isso.

Então ele acha a Religião uma coisa excelente e muito bela, para os outros. Para si mesmo o bonitão preferia a boa e velha Liberdade.

Não só ele usa um discurso duplo –façam o que eu digo mas não façam o que eu faço–, mas ele despreza a verdadeira Liberdade que vem do Evangelho. Não ouve nenhum chamado, não quer saber de nada que o leve a transcender este mundo, não quer nenhuma Separação.

Jesus para ele, como tudo o mais, só serve para duas coisas: para manter a sociedade em ordem, e para ser um símbolo estético, como uma estátua ou uma figura num quadro.

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