A pedra rejeitada pelos construtores se tornou a pedra angular

Já vimos que os maçons, pedreiros ou templários são espiritualmente definidos pela sua associação com o projeto da construção do Templo de Jerusalém, no que se envolvem fraternalmente com a Sinagoga de Satanás contra a revelação da verdade do Amor de Deus.

O que ainda não vimos e talvez muito nos convenha é que sendo essa associação maligna uma organização a serviço do Príncipe deste mundo, a Velha Serpente, também é viável verificar o quanto o Culto do Ouroboros é representado nessa traição em outra forma de culto.

Isto é, sendo o corpo humano reconhecido pelo seu propósito espiritual, reconhecemos que serve como um templo onde o local mais sagrado é o coração, o altar do sacrifício, em que são queimadas as ofertas (a comida) à divindade adorada pelo administrador do templo, o que o mantém em funcionamento (o sangue bombeado que mantém vivo o corpo).

Ora, sendo assim, se o templo vivo do ser humano for criado em traição ao Espírito Santo, e as pessoas que guardam esses corpos viverem em cativeiro, alienadas da verdade de Deus e dirigidas ao culto dos ídolos e principalmente da Serpente do Mundo, então há uma função óbvia na reprodução humana em associação com essa perversão, desde que os encarnados num estado amaldiçoado e decadente são conduzidos ao culto, no templo de seus corpos e no altar de deus corações, aos falsos deuses deste mundo, entre os quais e em especial o próprio Ouroboros.

Os templários podem ser vistos, assim, como todos os construtores destes templos vivos dirigidos para a idolatria, de modo que os Avari continuem a usurpação do lugar de Deus no coração dos homens escravos da mentira do mundo.

Desde o Pecado Original a raça humana constituiu, assim, essa fraternidade de construtores de templos de idolatria, e traindo a Deus desde o início, rejeitaram a pedra angular, que era o Amor de Deus totalmente revelado mais tarde em Jesus Cristo, que encarnou justamente não do pecado humano, mas da virtude da santidade divina.

A pedra rejeitada pelos construtores, o Amor de Deus, que é o único legítimo Criador de todas as coisas para todo o sempre, se tornou a pedra angular, e isto é maravilhoso para nós, já que agora vivemos libertos da grande mentira do mundo e podemos reconstituir o culto verdadeiro nos altares dos nossos templos vivos.

Entendam que muito antes de qualquer organização templária ou maçônica querer erguer um edifício feito de pedras, o Terceiro Templo de Jerusalém, muito antes o Culto do Ouroboros ergueu milhões ou até bilhões de templos vivos dirigidos para o seu culto mentiroso e abominável, templos construídos pelos partícipes por omissão ou comissão do Pecado Original, como será feito até o fim do mundo.

Jerusalém e Roma: Cúmplices de Assassinato até o Fim do Mundo

Está escrito que tanto judeus quanto gentios pecaram e participaram da traição contra Deus. Isto fica óbvio desde o ponto de vista mas privilegiado possível, o mais universalista, que considera a realidade do Pecado Original, isto é, do Pacto Ouroboros.

Mas até hoje há quem se confunda a esse respeito e creia na boa vontade daqueles que herdaram os erros de seus pais, especialmente quando falamos de Israel e da Igreja Católica, e de todo mundo que se encontra no meio do caminho, cismáticos, reformistas, protestantes, etc.

Todos erraram e continuaram no erro, caso contrário nós não estaríamos aqui. Somos filhos da traição, da usurpação contra o Trono de Deus.

Quando Jesus veio pessoalmente declarar a Lei do Amor, ele foi perseguido, acusado, julgado, condenado e executado por uma aliança entre a quadrilha de Roma e a de Jerusalém, todos ansiosos pelo exercício de um poder temporal ilegítimo e incapazes de reconhecer a Majestade verdadeira quando ela se apresentou bem diante dos seus narizes.

Penso que esses cúmplices de assassinato vão juntos até o Fim do Mundo, numa aliança nefasta entre o Anticristo e o Falso Profeta, provavelmente encarnados, respectivamente, como o falso messias judeu em Jerusalém, e o último Papa em Roma, este último liderando a religião universal das Leis de Noé, fazendo todos os povos da Terra adorarem a Besta.

E é nessa cumplicidade que os filhos do diabo executarão as suas leis de extermínio, isto é, não bastando a renovação do sacrifício ritual de sangue, instalarão a regra do assassinato de cristãos fiéis ao Filho de Deus como prática sagrada, como mandamento divino. E pelos frutos conheceremos as árvores.

Chegará o dia em que a mera lembrança dessas duas cidades, Jerusalém e Roma, servirá apenas para a vergonha de toda a raça humana.

Como o Novo Israel segue os passos do Antigo

Dada a realidade da individualidade ou singularidade da substância espiritual, segue que todo entendimento da salvação ou da recepção da Graça na forma de uma coletividade implica numa corrupção do desígnio divino.

O Um por natureza criou cada alma na sua unicidade peculiar para a experiência do Amor com a função do exercício da liberdade individual de responder livremente e com total responsabilidade pessoal.

Aliás, pessoalidade é uma característica fundamental da relação amorosa entre os seres, analógica ao Amor perfeito entre Pai e Filho, as Pessoas divinas. Este é um indicativo muito forte do modo elementar de realização dos seres espirituais.

Que sentido faz então afirmar que um povo foi eleito por Deus para a salvação ou recepção da Graça, senão para servir de referência simbólica para a união espiritual da Igreja? Além disso o que nos restaria é a presunção da eleição de uma coletividade contra a consciência de Deus, o que seria absurdo de de esperar como desejo do próprio Criador.

A dispersão na Multiplicidade implica na corrupção da forma da Unidade, a forma mesma escolhida por Deus para a realização do seu projeto de salvação. O que interessa é o assentimento de cada alma, uma por uma, ao Amor divino. A manifestação do conjunto da Igreja em adoração a Deus é um resultado posterior da conversão de cada uma das almas que compõe o Corpo Espiritual de Cristo.

É verdade que o conjunto dos fiéis compõe uma potência de testemunho e confirmação no Espírito Santo que pode atuar a qualquer momento, mas apenas como agente intermediário. Antes o que há é a ação do Deus que moveu essa Igreja, então há a abertura individual para a verdade que a Igreja pode testemunhar, e por fim há a conversão de cada alma que pode reagir livremente às impressões recebidas.

A agência intermediária da coletividade é sempre verificável, mesmo quando pareça ser de outro modo, pelos vários enganos no entendimento das várias relações de causalidade, onde já se tem por costume ignorar as maiores potências tanto da divindade quanto da alma humana como singularidades, como quando Deus, por moção remota dos fatores interferentes, é preterido pela figura mais evidente das causas próximas que foram movidas por aquela Graça original.

Sendo as coisas assim, convém reconhecer como é que o Novo Israel se assemelha ao Antigo Israel, quando justamente o corpo espiritual dos crentes em Deus quer se tornar algo maior que a soma das suas partes, como que tomando propriedade superior à que Deus mesmo definiu como o propósito da salvação de cada alma.

O que Deus desde sempre desejou foi a afirmação da individuação humana capaz de reconhecê-lo na sua majestade. No Dia do Juízo abrir-se-ão os livros: um para cada alma. Não há um livro para o povo eleito, mas para cada eleito, isto é, se realizar o destino da sua eleição.

Todas as igrejas cristãs institucionalizadas, isto é, materializadas na forma de um poder temporal, desde a Igreja Católica até a última denominação protestante inaugurada ontem, incorrem por costume no erro do Israel temporal, carnal, coletivista: o bolchevismo espiritual.

Só há uma Igreja de Cristo, a espiritual da qual Jesus é a cabeça e nós somos o corpo, os crentes de que ele é o Filho de Deus, e é por participação na confissão dessa Revelação que católicos, ortodoxos, evangélicos ou quaisquer outros vão estar lado-a-lado no momento em que a execução das Leis de Noé pedir pela sua morte. Podem ter se estranhado enquanto viviam nas suas peculiaridades, mas reconhecerão uns aos outros na hora do testemunho da verdade. Não o farão, porém, enquanto membros de um grupo religioso, mas a despeito disso, já que as lideranças religiosas, instigadas pelo Falso Profeta (um Papa?), direcionarão as suas ovelhas para que caiam nas garras do Anticristo.

Cada vez que um “cristão” se levanta, como membro de um grupo, para atestar a eleição sua e dos seus contra a perdição de todos os demais, este representa, como Novo Israel, o mesmo vício do Antigo Israel, aquela nação que assassinou seus Profetas até chegar ao cúmulo de pedir a morte do próprio Messias.

Contra as três mentiras

Em revisitação ao tema abordado recentemente das três chaves da vida espiritual, convém reforçar as três mentiras essenciais que bloqueiam a experiência consciente e responsável da vida espiritual.

Não se deve confundir esta lista com uma outra que trata especificamente das três renúncias da Humildade, isto é, do reconhecimento de Maldade, Fraqueza e Ignorância.

Aqui estamos falando do caminho desde a vida apartada do Espírito Santo, do típico ser psíquico que não conhece as coisas de Deus, para a descoberta da verdade da essência humana, na linha já explicada neste blog e no meu canal no Youtube: que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida.

Essa libertação espiritual corresponde à destruição de três mentiras que dominam o ser humano psíquico, quais sejam:

  1. Que sabemos o que cremos;
  2. Que não podemos não crer no que cremos;
  3. Que alguma crença é melhor que a do Amor.

A primeira mentira é a de que sabemos o que cremos. Curiosamente, esta é uma realidade intelectualmente reconhecível até que com certa facilidade, desde que se pretenda levar as coisas a sério. O que o ser humano possui de domínio intelectual de fato se refere a poucas coisas, objetos ideais cuja pureza corresponde a um nível de abstração perfeito, como os princípios da metafísica, da lógica, etc. Estas poucas coisas podem ser multiplicadas no seu próprio domínio, como nos estudos matemáticos e geométricos, mas explorando apenas o território daqueles primeiros princípios autoevidentes. Por empolgantes que sejam tais reconhecimentos de uma verdade indestrutível (aletheia apodeixis), é necessário assumir que os campos da experiência humana que podem ser entendidos com esse grau de domínio são muito poucos, restando para a maior parte da experiência da nossa vida o nosso poder de crer no que seja conveniente, desde o que é possível até o que é provável. A opinião (Doxa: Eikasia e Pistis) alimenta o conhecimento (Episteme: Dianoia e Noesis) como a terra sustenta uma árvore. Um crescimento cognitivo é sempre possível, mas nem sempre garantido. O que é garantido é o elemento básico da experiência humana, que é a crença numa verdade antes possível, verossímil e provável, para só então, eventualmente, ser certa como domínio do intelecto humano. A nossa questão aqui não se trata de negar o que sabemos. Ao contrário: afirmar que sabemos poucas coisas, menos do que gostaríamos de admitir, entre as quais esta mesma verdade, uma conquista do espírito humano pelo menos desde Sócrates, mesmo antes de Jesus decretar o exemplo da Humildade. A queda da primeira mentira nos permite parar de fingir que temos um domínio que nos escapa.

A segunda mentira é a de que não podemos não crer no que cremos. Isso se dá pela observação do dom da Soberania do espírito humano concedido pelo Altíssimo que nos criou à sua imagem e semelhança. O que quer dizer que por maiores que sejam as pressões ambientais e circunstanciais, nenhuma força externa pode forçar o movimento interior da alma humana. Uma mônada só pode ser movida por si mesma, na perfeição da sua esseidade, singularidade e individuação. Deus fez assim para que nossa felicidade fosse a mais plena na Eternidade, com total voluntariedade. O reconhecimento desta forma de ser nos liberta da ilusão de que qualquer outra mônada, mesmo a divina, possa condicionar o nosso movimento interior, isto é, a crença livre. Embora outros seres possam causar uma impressão em nós, esse condicionamento é sempre analógico, mesmo quando os corpos são forçados por violência ou sedução, já que a fraqueza não muda o desígnio interior onde impera a liberdade de negar até a ação concretizada por sucumbência (como o atestou brilhantemente e claramente o Apóstolo). Aqui a mentira vencida é a da inviolabilidade das causas quando o objeto final é a liberdade humana, como por exemplo se faz nas práticas da Astrologia, da Psicologia, etc., tipicamente cheias de psiquismo.

A terceira mentira é a de que alguma crença é melhor do que a no Amor. Restando a alma humana reconhecer que crê livremente no que quiser, sobra a consideração daquilo que é mais conveniente dada a própria forma do Ser, seja a do Ser divino como amante, ou a do ser contingente como amado. Antes que se diga que esta consideração só pode resultar de um processo intelectual, é preciso apontar para a transcendência do princípio do Bem como imediato e autoevidente, necessário como premissa e anterior a qualquer raciocínio abstrativo. É verdade que o intelecto deve ser movido para a reflexão a respeito do princípio, mas este movimento da mente só pode partir da forma suprema do Bem como princípio fundamental acima de qualquer questionamento. O Bem, ou o Amor divino que o causa e que se identifica com ele, é forma mais essencial que constitui a substância de todos os seres. Tudo o que existe tem como causa final o Bem, ou Amor, que é o seu princípio e o seu fim. A última mentira que deve cair para a liberação completa da vida espiritual é a de que qualquer outra crença seja mais conveniente para quaisquer seres possíveis do que a do Bem, ou do Amor que causa o bem próprio de cada ente.

É o Espírito Santo de Deus quem nos fortalece na luta contra essas três mentiras fundamentais do psiquismo humano, levando-nos a renunciar à presunção de sabedoria, à suposta escravidão à exterioridade, e à falsidade de qualquer outro bem acima do próprio Bem e Amor divinos.

De que modo o Inferno é uma punição eterna

É muito comum e típico dessa raça de animais traidores do Amor de Deus o ato de julgar as coisas espirituais de acordo com o seu modo carnal de ser e de pensar.

E é assim que temos esse fenômeno curiosíssimo de que dentro de uma alma humana convivem de modo estranho as crenças de que Deus é amante e salvador, e ao mesmo tempo de que uma criatura produzida desde o arbítrio ou da permissão desse amante e salvador pode experimentar como destino eterno um estado de punição permanente na forma de uma tortura infernal.

Tudo o que Deus nos revelou sempre foi vantajoso para o nosso crescimento na vida espiritual, isto é, para a recepção do nobilíssimo dom do Discernimento.

O que quer dizer que quem deseje possuir a compreensão do sentido do Inferno como punição eterna poderia e deveria agir com dignidade e honrar a santidade divina buscando um entendimento que é compatível com a excelência do Criador. Não se deve interpretar as coisas espirituais ao modo humano, justamente ao modo de pensar deste ser decaído e amaldiçoado, filho da traição e usurpação, nascido e criado em cativeiro sob o domínio do mal. É o próprio Espírito Santo de Deus que nos salva dessa forma mentis corrompida e rastejante, mesquinha e impotente, e nos faz respirar os ares da liberdade contra a opressão de todo o mal. Isto é: o modo de entender os juízos divinos não pode ser humano e natural, mas deve ser gerado a partir da razão natural (que afinal é também um dom pela iluminação divina) esclarecida pelos dons sobrenaturais do Espírito de Deus.

E assim podemos considerar de que modo a condenação ao Inferno corresponde ao Amor divino como mais uma manifestação da sua supremacia.

Ora, dado o destino eterno excelente de uma mônada criada para aquela bem-aventurança totalmente compatível com a sua forma de ser, nenhuma punição poderia ser maior do que a frustração desse destino, isto é, a não realização do desígnio original do Amor de Deus.

A separação que uma mônada sofra do Amor de Deus implica na sua perda de ser. Esta é a Perdição: que uma individualidade deixe de ser, porque ser é a realização da forma da unidade.

A manutenção de uma alma, ou mônada livre e autoconsciente, num estado qualquer de subsistência que chamaríamos de infernal sob o aspecto de um sofrimento que não altere a sua manutenção no ser, implicaria numa realidade espiritualmente inútil: não podendo realizar-se na sua forma, também não poderia realizar a sua frustração e alcançar a misericórdia da sua extinção, mantendo-se desejosa do Bem e sempre distante dessa realização (este é o entendimento daqueles que erram na suposição da imortalidade da alma, por exemplo). Qual é o uso que o Amor de Deus teria, com vistas à glorificação do Nome, de tal possibilidade?

Somente um espírito atormentado, vivendo em estado verdadeiramente infernal, cheio de violência e agressão, mentira e ódio, poderia cogitar que uma realidade dessa espécie agradaria ao Espírito Santo de Deus.

E é por isso que a concepção do destino de tortura eterna num Inferno perene é mais uma invenção dos demônios para manter o poder das suas religiões sobre a Terra, usando dos recursos imaginativos que estes espíritos possuem e que repercutem muito bem no modo de ser do ser humano decaído e escravizado pela mentira do mundo. E de fato, os crentes na tortura eterna das almas humanas adoram a um deus torturador que se satisfaz com o sofrimento de suas criaturas, ou seja, adoram ao seu pai, o diabo, que sempre foi um mentiroso, acusador e assassino. Quem deseja crer nessas coisas merece mesmo até a “revelação” da sua crença na forma de sonhos, visões, etc., recebendo em si a punição pela sua ousadia de presumir o mal em ofensa contra a santidade da natureza divina.

Baseados no Livro da Revelação, chamado Apocalipse, temos de maneira muito mais clara e simples, do jeito que Deus gosta, a determinação da extinção da Morte e do Inferno, ou seja, a Perdição daqueles seres que tinham destino melhor designado pelo Amor divino, mas que então, frustrados na sua escolha, recebem a misericórdia final de não ser mais.

Este não ser mais, a Perdição, a extinção, ou aniquilação, constitui em si um modo de ser, como infernal?

Não, pois não é um modo de ser, mas o fim do ser de qualquer modo que seja.

As chamas da danação, ou Perdição, são portanto chamas destruidoras, e neste sentido a idéia do Inferno é uma figura de linguagem, um jeito de expressar aquela providência do juízo divino.

O Inferno como estado de ser certamente indica uma subsistência em distanciamento ou em recusa ao Espírito Santo, que é o caso do modo de ser dos anjos caídos, e daqueles seres humanos que vivem em pecado mortal de negação do Amor de Deus, estados correspondentes ao que na minha terminologia nomeei como Avari e Moriquendi, respectivamente: Os Relutantes e Os que Falam das Trevas.

Faz parte da misericórdia divina o decreto do término desse último modo infernal de subsistência, e é por isso que se diz que o Inferno e a Morte serão destruídos, já que não faria sentido dizer que Deus vai jogar o Inferno no Inferno.

De que modo o Inferno é uma punição eterna?

Do modo da Perdição, da extinção de uma individualidade cuja maior punição possível é a perda do ser que havia sido criado para o Amor.

E até nesse último caso mais frustrante reafirma-se o Amor divino na forma da misericórdia da extinção dos seres que só podem sofrer com a sua recusa da vida com Deus.

Quem recusa o Amor não merece viver, pois a sua vida seria espiritualmente inútil para a santidade divina.

O salário do pecado é a morte, no fim das contas não como uma punição, mas como último gesto de salvação, já que um ser que recusa o Amor de Deus perde o sentido da sua existência. A salvação do morto espiritual é a sua destruição, isto é, a sua libertação do seu modo de ser em recusa ao Amor. É preciso que estes seres sejam libertos de si mesmos, e esta é a única forma de salvação a que poderiam ser submetidos, na obstinação do seu orgulho. Deus salva, assim, até os que odeiam a salvação, pois salva-os de permanecerem existindo na sua forma miserável e sofrida de ser.

Não podeis suportar

É o próprio Deus Vivo quem condena a Teologia Dogmática de vez que nenhuma criatura poderia ter o poder de fechar o conhecimento das coisas sagradas num sistema definitivo, e a vida da Fé verdadeira requer uma concepção aberta em espírito de aprendizado e confiança sem garantias, ao modo típico da relação amorosa com o Criador.

Acontece que esse modo realista, necessariamente provisório, de viver em resposta contínua à direção do Espírito Santo, a vida na Presença, não pode constituir fonte de poder e autoridade para o governo da sociedade. Isto quer dizer que aqueles que são os descendentes dos traidores da Aliança de Deus, e que são tipicamente os continuadores desta Tradição de usurpação, têm o desafio de administrar uma sociedade cuja disposição à obediência pode ser muito convenientemente afetada pela presunção de autoridade espiritual. E tal situação leva o poder temporal a buscar suporte, usando de todos os elementos corruptores que lhes são comuns, no poder espiritual que deveria servir apenas para o convencimento das consciências dos homens livres.

Foi Jesus Cristo mesmo quem disse: “tenho muito mais a vos dizer, mas agora não podeis suportar“.

Reparem que ele não fala que teremos muito mais a descobrir, como num processo histórico de revelação contínua, como natural e temporal.

Não: ele diz que tem pessoalmente o que nos dizer como instrução direta, ensino, doutrina, capacitação espiritual, guiamento, magistério. E isto obviamente se dá pela ação do Espírito Santo, que já tinha prometido que nos enviaria para dizer-nos esse muito mais que precisaríamos saber, mas que então, à época apostólica, não seria suportável.

Isto quer dizer que não somente não é condenável, mas é ao contrário recomendável, que cada geração de cristãos esteja atenta ao seu momento de experiência da instrução do Espírito Santo. Essa experiência não invalidará nenhuma instrução anterior, obviamente, mas pode servir ao esclarecimento daquilo que foi experimentado antes por um viés que não continha a figura completa do seu sentido.

É assim que o verdadeiro respeito à Fé dos cristãos antepassados exige que eles sejam entendidos no seu contexto, o que não é historicismo, mas é justiça à correspondente incapacidade que cada geração tem de absorver o ensino do Espírito Santo sem incorrer no risco do escândalo. Ou seja, o insuportável aos apóstolos pôde ser melhor suportado pelas gerações seguintes que já teriam convivido com os desdobramentos históricos que eram indistintos para a mentalidade anterior.

Isto é desafiador, de vez que há uma percepção errônea do Pentecostes que confunde a missão específica da pregação às nações com infalibilidade dogmática, algo que contraria o próprio testemunho direto de Jesus Cristo, que é o único Mestre e autoridade realmente inquestionável. Quer dizer, ele mesmo já havia dito que aquela geração não poderia suportar uma verdade que desafiaria a fraqueza da sua Fé, e nisto foi, como em tudo, misericordioso, ao mesmo tempo em que provou que a comunhão daquela unção espiritual tinha um propósito específico que não tornava a teologia dos Apóstolos terminal como supõe a Tradição cristã.

Obviamente a supremacia do Espírito Santo na orientação de cada geração presente de cristãos supera infinitamente o testemunho indireto dessa orientação na expressão das gerações anteriores, mas como pode uma igreja institucional montada naquela forma anterior de testemunho passado estar ao mesmo tempo disposta a receber, de forma aberta, o testemunho presente? Não pode, porque o seu problema não é a vida na Presença de Deus –que é algo do domínio da substância monádica da vida espiritual, isto é, de cada indivíduo–, e sim a organização do poder temporal.

Em uma palavra: nas coisas espirituais o passado não é mais certo do que o presente. O mais certo é domínio divino, e o Espírito sopra onde, quando, como e a quem quiser.

Só que esta integridade espiritual está fora do controle dos domínios institucionais, sempre e por definição.

Se Deus quiser me revelar, por exemplo, a extensão da traição humana ancestral, e ao mesmo tempo a profundidade da mentira diabólica desde essa condição humana tão antiga, Ele dependerá de que eu primeiro me desarme dos meus dogmatismos que bloquearão essa nova consciência como proteção contra o risco do escândalo.

Por isso é que quando digo que é séria a hipótese de que o sacrifício de sangue tenha sido instituído, desde o início e muito coerentemente, pelos demônios e principalmente pelo Ouroboros, que é Lúcifer querendo tomar o lugar de Deus, isto obviamente viola a concepção religiosa que está ancorada naquela mesma consciência antiga.

A estes, como Jesus já dizia, diremos novamente hoje: não podeis suportar.

A História serve para a salvação dos eleitos?

Ouvi recentemente, de certo tomista renomado no país, que a “história serve para a salvação dos eleitos”. Aliás, esta afirmação foi repetida mais de uma vez em circunstâncias diferentes, em conversas diversas.

Gosto da lógica do serviço da existência contingente para a realização de uma causa final superior, e uso o tempo todo esse tipo de lógica. De fato, tudo o que é material e eficientemente causado o é para a realização das causas formal e final, de acordo com a designação de um decreto transcendente. O Logos divino chama todas as coisas a existir para um propósito bem designado e dentro de uma ordem bem definida.

Dito isto, não posso concordar tanto com a colocação do referido tomista, ou pelo menos não totalmente.

Realmente há uma função soteriológica na história deste mundo presente, como na de qualquer outro mundo que exista em condição análoga, isto é, para a definição da liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino.

Porém, a história deste nosso mundo em particular não decorre somente do arbítrio divino que determinou o campo de ação da liberdade humana. Esta liberdade humana já se manifestou ancestralmente na forma de uma traição fundamental que já foi bem localizada até mesmo pela tradição religiosa: o Pecado Original. E em decorrência dessa ruptura com o gesto de Aliança a partir da vontade do Criador, foi decretada uma também muito bem definida e ainda vigente Maldição contra a usurpação do erro humano da busca de emancipação do Amor do Eterno.

E eis o nosso problema: do jeito que se propõe, parece que é Deus quem deseja que mais almas se encarnem neste estado decadente e amaldiçoado, e não justamente os descendentes daquela traição ancestral que reproduzem, com seus atos, e por sua responsabilidade, o mesmo gesto de desobediência de seus pais. Esse gesto é o que que sustenta a justiça do próprio estado de Queda do qual cada nova geração nascida sem defesa, inocentemente, é obrigada a participar.

Assim, quando ouvimos a justificação das coisas presentes neste mundo, isto é, das mais variadas formas de sofrimento humano, tal situação é colocada na conta dos planos divinos, como se Deus tivesse que fazer uso de toda a miséria e loucura humana para a salvação dos seus, quando a verdade é que é o ser humano que ainda requer a experiência da vida na traição e usurpação, como seus pais, para alcançar o completamento da sua experiência espiritual diante de Deus.

É preciso desmontar e desmoralizar completamente essa narrativa trágica e fatalista que entende como inevitável o presente estado de coisas neste mundo, pois esta é uma fuga muito conveniente e covarde da realidade de que o ser humano é o responsável, pelo seu arbítrio, pela produção e perpetuação de todo o mal. Isto não deveria jamais entrar na consideração de uma necessidade divina, o que é indigno e desonroso perante a santidade do Criador. Quem tem necessidade da experiência do mal é essa raça maldita de traidores e mentirosos que ainda hoje continua debitando da economia salvífica de Deus aquilo que deveria pesar apenas sobre as suas próprias costas, como aliás acaba pesando por força da justiça do decreto da Maldição.

Por idolatria masoquista do sofrimento, por exemplo no símbolo da Cruz cristã, ou na idolatria naturalista da animalidade humana, ou qualquer outra, nossos irmãos continuam omitindo seu dever de consciência e responsabilidade. Preferem se comparar a animais, escravos e mercenários, do que assumir o chamado à dignidade da eleição filial ao Amor de Deus. E no maior descaramento depõem contra o Amor divino, dando testemunho das Trevas que lhes são peculiares, confundindo propositalmente o que Deus quer com o que Deus permite.

Se questionassem a qualquer momento o que Deus quer mesmo, veriam no Filho de Deus, encarnado Filho do Homem, o seu exemplo de vida perfeito e acabado: uma alma humilde e mansa, despretensiosa, separada da mistura do mundo, ansiosa apenas para o retorno à perfeição no seio do Pai. Isso obviamente não tem nada a ver com as formas de poder neste mundo, seja familiar, econômico, militar, político ou cultural. Ao contrário, é a renúncia de tudo isto.

Não falta nada a um cristão que queira cair em si, ainda menos a um tomista cujas luzes da razão natural já lhe deram privilégio maior ainda para aproveitar a oportunidade de assumir a verdade das coisas.

Será possível que aqueles que se dizem amantes da verdade possam começar a desejar de fato o objeto do seu amor?

A História serve sim para a salvação dos eleitos, mas não porque Deus quisesse que esta História fosse assim, e sim porque não deram outra chance a Ele, e o traíram desde o começo, forçando o seu Amor ao gesto mais extremo de misericórdia, como fazem até hoje.

Desde a primeira geração a nossa raça errou, e não satisfeita com sua rebeldia, repudiou todo testemunho verdadeiro que viesse da Palavra de Deus, assassinou cada Profeta do Senhor e finalmente completou a sua medida com a injustiça contra o próprio Cordeiro de Deus.

Pois bem, o Cordeiro está voltando como Leão para praticar o último gesto de misericórdia que é possível para com essa humanidade que permanece lhe traindo obstinadamente, dizendo que essa traição é a própria vontade do Senhor: vai salvar o seu resto que lhe pertence, e então exterminar completamente tudo o mais que não lhe tem serventia.

Humildade, Coração, Amor: as três chaves da vida espiritual contra a pretensão do psiquismo gnóstico

Devemos ter, em primeiro lugar e sempre, a clareza da natureza e origem sobrenatural dos dons espirituais que sustentam a vida interior do cristão, a saber, a Fé, a Esperança e o Amor, que são concessões da Graça divina a favor daqueles que aceitam voluntariamente a sua formação pela comunhão com o Espírito Santo de Deus.

Dito isso, convém compreender como pode ser movida a vontade humana no sentido da aceitação dessa direção espiritual da Graça divina.

Não nos cabe questionar a dispensação da Graça aos fiéis, mas interessa o entendimento do concurso das faculdades humanas na direção da recepção da vontade divina.

Ora, o que cabe ao ser humano é o esvaziamento da sua pretensão, a renúncia, a fuga do mal, a abstenção na participação do espírito do mundo, um deixar de ser por si, em suma, o fim da idolatria em geral, mas em especial particularmente do antropoteísmo humanista.

Então o que o ser humano deve fazer é deixar de ser idólatra de si mesmo, especialmente na forma da sua razão humana, que é o psiquismo gnóstico, que foi a forma da traição originária contra a Aliança com Deus no princípio dos tempos. Se todos nascemos do pecado original que se consubstancia na mentira da salvação sem Deus através da emancipação gnóstica, é preciso fazer a renúncia que os nossos pais não fizeram a esta mentira. E a reafirmação da verdade traída da Aliança com Deus é a confissão da condição humana decaída e amaldiçoada, o que nos livra da mentira de ser orgulhosos e pretensiosos.

Numa palavra: a primeira chave da vida espiritual é a Humildade.

Não foi nada casual o testemunho do próprio Filho de Deus quando este nos ensinou: “aprendei de mim, que sou humilde.”

Este é o ponto mais alto da tradição cristã, quando grandes ou pequenas autoridades das igrejas reafirmaram o valor da virtude da Humildade em face de todas as outras, já que tudo é Graça de Deus, o que valida o tributo humano ao Amor divino que é o próprio reconhecimento da exclusividade da origem divina das virtudes, de modo que esta virtude é a mais propriamente humana, embora obviamente também sustentada pela Graça como fundamento.

Quem não puder se esvaziar da mentira não terá lugar para o abrigo da verdade que não lhe pertence. E em nada isso fica mais claro do que no questionamento da vida psíquica do ser humano como sede da consciência, que dá lugar ao reconhecimento da vida espiritual como a verdade da substância humana diante de Deus.

Isto quer dizer que a sede da alma é o coração e não a mente: não vivemos diante de Deus respondendo pelo que dominamos com o nosso intelecto, mas sim pelo que acreditamos com a nossa liberdade.

Nossa imagem e semelhança à natureza divina não só se refere ao dom intelectual, mas também e sobretudo ao dom do livre-arbítrio, já que este supera aquele quando se permite questionar dialeticamente qualquer verdade evidenciada pelo intelecto (ou seja, mentir), como também projetar a imagem da verdade sobre o que é desconhecido na forma da crença. Se a vontade não fosse superior, não teria soberania sobre o intelecto, tanto na forma do questionamento legítimo quanto na forma da mentira, e nem daria uma resposta de valor moral com base em princípios e valores autoevidentes que a própria vontade assente livremente e reconhece como premissas ao poder racional da mente humana. Assim, a vida psíquica parte de crenças e termina em crenças, ou seja, age sob o império da soberania da vontade: inicia sua atividade a partir do que é assentido como verdadeiro e termina formulando a razoabilidade daquilo que será proposto como o verdadeiro.

O aporte do Intelecto na vida espiritual certamente existe e se dá na autoevidência das verdades metafísicas que confirmam a condição humana, inclusive a da soberania do livre-arbítrio sobre tudo o que não é matéria de evidência intelectual. Abaixo deste nível de atuação noético, a potência intelectual se torna um recurso dialético que trabalha na produção da imagem da verdade, a convite da soberania da liberdade da vontade humana.

Perceba-se que até mesmo a evidência mais inquestionável, de natureza lógica e noética, aletheia apodeixis, é convidada pela vontade livre que assente com o reconhecimento da legitimidade do império da verdade que é evidenciada.

Assim, o psiquismo gnóstico deve ser derrotado na nossa vida interior, ao assumirmos que não obteremos nenhuma salvação pelas luzes dos nossos domínios cognitivos que são servos da vontade livre, e o que interessa é o condicionamento dessa vontade livre ao seu objeto mais perfeito, que é o Amor de Deus.

A Humildade vence o psiquismo gnóstico e aponta para o Coração, sede da vontade livre, único lugar onde pode habitar o Espírito Santo do Deus verdadeiro.

O Coração é a segunda chave da vida espiritual, porque é o instrumento da ação da consciência, da responsabilidade e do poder de assentimento ao Discernimento do Espírito Santo. Vencida a pretensão do psiquismo gnóstico, resta-nos a consciência e responsabilização da vontade livre em acordo com o dom divino que nos permite discernir o sentido do nosso viver.

O ser humano deve reconhecer que se define pelos seus termos, e deve tornar translúcido o seu segredo, de modo que saia das trevas o motor do viver que se escondia atrás do maquinário raciocinante. A segunda chave derrota o segundo nível de mentira. Primeiro, destrói-se a mentira de que o domínio do intelecto move a vontade, quando o contrário é a realidade. Segundo, destrói-se a mentira de que a vontade é movida por forças exteriores numa dinâmica causal independente, quando a realidade é que a vontade move-se por si mesma ao seu arbítrio, de modo que essa moção deve ser consciente e responsável.

Tanto quanto a verdade da Humildade levou à verdade do Coração, a verdade deste levará então à verdade do Amor, que é a última chave da vida espiritual.

Pois nenhum outro objeto é tão perfeito e desejável para toda a liberdade, como o confirma facilmente o recurso ao dom do Intelecto, quanto o Bem, de modo que a única crença verdadeira é a que se dirige ao Amor divino, como o Amor é o desejo do Bem, e a única vida plenamente vivida diante de Deus uma vida em que a consciência humana assuma a responsabilidade de crer no Amor de Deus, com todas as consequências que derivam dessa decisão.

Humilde, o ser humano se rende à verdade do Coração, isto é, da sua liberdade de mover-se, inclusive intelectualmente, na direção do objeto do seu desejo, e finalmente se rende à verdade do Amor que é o objeto mais perfeito da vida espiritual.

Quando finge que domina uma verdade que lhe transcende, o ser humano se incha da pretensão gnóstica, e a sua cura está na libertação dessa presunção assumindo que o que lhe move é o desejo da sua vontade, mas que então nenhum objeto é tão amável quando o Bem de Deus, provido pelo Amor do Criador. Esse é o caminho da rendição espiritual desde a soberba gnóstica até a humildade cristã.

Não é para ser senhor da verdade que o ser humano recebeu o dom do seu Intelecto, mas para ilustrar, com a Graça de Deus que lhe provê as luzes da razão natural, a necessidade da rendição ao Amor divino como solução exclusiva da condição humana, justamente pela sua fraqueza, e não por uma falsa força. A suficiência é mentirosa, é o erro básico da emancipação da idolatria, e a renúncia humilde a essa pretensão é a correção do erro dos nossos ancestrais. O que resta é o ser humano corrigido pela sua causa final, que não é a de sábio, mas a de vivente, amante e amado.

A Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida.

Nunca vos conheci

Aprendi com o próprio Jesus Cristo, com seus apóstolos João e Paulo, e com cristãos de outras épocas como Agostinho, que existe sempre uma leitura espiritual e uma leitura carnal das Sagradas Escrituras, determinada pelo grau de consciência e discernimento de cada alma, o que por sua vez é definido pela intenção livre de cada coração humano de aceitar ou não a instrução do Espírito Santo.

Jesus faz um alerta terrível que deve abalar muitas almas por aí até hoje, quando disse que há quem o chame de Senhor e até faça muitas obras em seu Nome, mas que no momento da salvação pedirão por sua intervenção sem sucesso, quando ele dirá: “nunca vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade“.

Isso é maravilhoso e bem em linha com a maturidade espiritual cristã que identifica na mentira da hipocrisia o verdadeiro mal contra a santidade de Deus, e não na fraqueza humana. Até aí tudo bem.

O problema vem quando Jesus diz que ao perguntarem sobre a razão dessas coisas, ele afirma que falharam aqueles que, ao pedido de pão e água pelos menores irmãos, negaram essas coisas.

Imediatamente pensamos nos miseráveis da Terra, na caridade do amparo material, etc., o que parece confuso porque o que Jesus dizia era que justamente esse tipo de obra exterior era espiritualmente vazia se não correspondesse a uma inclinação correta do coração, de modo que alguém que seja honesto, mesmo que fraco nas obras, ou até omisso, poderia ser tido como fiel verdadeiro, enquanto que alguém muito bem sucedido nas obras externas poderia ser tido como falso e mentiroso, se a essa atitude exterior não correspondesse uma honestidade interior, principalmente no sentido da compra da salvação, ou seja, em um desejo de fazer negócios com o Amor divino.

Como resolver esse problema?

Resolvemos pela leitura espiritual.

Toda confusão deriva da leitura carnal, que tenta voltar sempre ao poder que o ser humano quer ter de se salvar por si mesmo, ou seja, de forçar Deus a agir de forma “amorosa” não como emanação livre da sua natureza, mas como contrapartida de uma relação de troca.

O que Jesus realmente quer dizer é que se você é um religioso que se nega a dar o testemunho do Amor de Deus na sua pureza e simplicidade quando isso lhe é pedido, você está negando o pão e a água aos fiéis.

Estas espécies são sempre símbolos do testemunho da verdade na linguagem divina. Deveria ficar muito evidente que é disto que o Filho de Deus está falando, já que ele veio para salvar os pecadores não com uma panacéia socialista, ou com uma revolução militar contra Roma, mas com o testemunho do Amor do Pai. Nunca que a fraqueza derivada dos medos humanos, muito naturais, frutos da condição de encarnação num mundo amaldiçoado e decaído, seria usada contra os fiéis. Mas a sua omissão ao dar testemunho do Amor do Pai revelado pelo Filho e, principalmente, nem tanto na forma da pregação, mas pela vida amorosa na forma do perdão e da misericórdia, isto sim é condenável, porque é uma falsidade, não é o esperado de um seguidor de Jesus Cristo.

Lembrem-se que Jesus, tentado no deserto, respondeu ao tentador: “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus“.

O Filho não veio emendar uma humanidade decaída e amaldiçoada que só poderá ter remédio com a destruição destas coisas velhas. Ele veio dar o testemunho do Amor do Pai, de modo que todo aquele que confie nesta promessa receba a herança a que está destinado. Isso é assim para todo que creia neste Amor e aja de acordo com esta crença, sendo sal da terra e luz do mundo, vivendo o perdão e a misericórdia. É uma obra muito mais excelente e santa, universal e poderosa.

Deste modo podemos parafrasear a sentença de Jesus, por exemplo, assim:

Apartai-vos de mim os que quiseram comprar a salvação diminuindo o Amor do Pai com seus próprios méritos, esforços, obras e virtudes.

Nunca vos conheci, pois vocês nunca quiseram ser salvos, mas só desejaram salvar a si mesmos.

Isso é o que condiz com a guerra de Deus contra a mentira da idolatria e da presunção, que é o único verdadeiro obstáculo que impede o trinfo do seu Amor: a recusa direta da salvação pela presunção do mérito espiritual.

Um avarento, um fraco qualquer, é apenas mais um pecador que pode a qualquer momento dizer “sim” para a salvação do Amor divino, a partir mesmo do reconhecimento de que não foi tão caridoso nas coisas materiais quanto poderia ou deveria ter sido. Este pode confiar no Amor de Deus que lhe salve de sua miséria espiritual.

Mas e o rico em obras aparentes, carnais, inclusive e principalmente com caridades materiais, especialmente as mais pirotécnicas?

Esse não sabe que precisa da misericórdia de Deus tanto quanto o avarento que se sabe pecador, e eis o seu grande engano, e a sua ruína: é um mentiroso que acha não não vive a mesma miséria espiritual do seu irmão mais fraco.

É assim que o pobre de espírito é um bem-aventurado, pois não se orgulha de si e assume a sua miséria, e por isso se diz que é na fraqueza humana que a força de Deus mostra todo o seu poder, pois sua força é o Amor para aqueles que desejam ser amados, e não recompensados por seus falsos méritos, já que diante de Deus ninguém se justifica, somente o Filho o faz diante do Pai.

Este é o testemunho cristão.

Eleuteriodiceia

Por que existe o mal no mundo?

A justificativa de Deus, ou Teodiceia, se dá pela incompatibilidade da natureza divina com qualquer ato criativo que viole a sua essência, ao mesmo tempo em que toda a razão limitada das criaturas contingentes deve ser entendida na sua posição de finitude como incapaz de produzir um juízo suficiente das razões que a transcendem.

Dado o rompimento da humanidade iluminista contra toda Metafísica que mantinha a segurança naquela noção da essência divina, restou à nossa época a desmoralização da Antropodiceia, ou a justificativa do homem por si mesmo.

Mas tudo que o ser humano encontra quando se enxerga no espelho é o pó que é por si mesmo e que nunca vai deixar de ser: uma arbitrariedade vaidosa e mentirosa. Sem Deus, seu caminho é o culto do Caos e do Nada, aquelas forças inferiores de que falavam os antigos quando se referiam ao tempo anterior ao Cosmos. Ou seja, esta humanidade tende à dissolução de uma entropia natural.

No entanto, podemos a qualquer momento romper com a própria ruptura. Maravilhosamente, ganhamos uma tal condição de distinção individual e de liberdade que conseguimos observar o resultado do movimento da história das ideias e julga-lo como insuficiente ou errôneo, ao ponto de nos movermos particularmente apartados da mentalidade da época. Isso sempre foi possível, é claro. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil, ao menos para as almas mais desejosas que, em quantidade, podem ser inversamente as mais escassas de todos os tempos.

Voltamos, se quisermos, à justiça da Teodiceia, e ainda a qualificamos com uma crença cristã que torna a consciência ainda mais clara e pura na contemplação da majestade divina. E de tal ponto de vista privilegiado, com total confiança no Amor divino como causa fundamental, podemos avançar no que sempre foi mais interessante do que a disputa da legitimidade da Providência, isto é, o entendimento das razões mais profundas da realidade a partir da pacificação do tema da justiça maior do Ser.

Nesse intuito encontramos a Liberdade como eixo central, nas mônadas criadas à imagem e semelhança da Mônada Incriada, que explica a necessidade do mal realmente possível para que a escolha mais conveniente seja também uma possibilidade real e não mera intenção.

Entramos, assim, no território da Eleuteriodiceia, ou a justificativa da Liberdade.

Em Deus, a perfeição da sua Vontade já comunica a essência perfeitamente benéfica e amorosa para a total integridade do Arbítrio divino.

Mas na liberdade dos contingentes o mesmo não ocorre. Eles precisam receber uma justiça que lhes ultrapassa. Essa garantia transcendente é o próprio Amor divino que designa a perfeição das criaturas de acordo com a sua forma de ser desde a sua origem.

Há, de modo crítico, um ápice ou cume nas várias formas das mônadas possíveis, que consiste naquela semelhança com a essência divina e que permite por esse recurso extraordinário a satisfação de uma perfeição incomparavelmente maior que a das demais mônadas não livres. Isto é assim ao ponto de que uma mônada livre, como a de um anjo ou de um ser humano que viva num estado de Comunhão e Glória (Coruscância), pode ser reconhecida como divina diante das demais mônadas que lhes são inferiores.

Sendo essa forma de ser tão mais perfeita a mais conveniente para a felicidade divina e para a maior glória do Nome de Deus, ela deve ser realizada necessariamente, do contrário a Criação não restaria perfeita e acabada.

É assim que o mal deve ser permitido pois, contido pela Providência da Maldição, tem seus efeitos temporalmente limitados, o que compensa infinitamente a bem-aventurança daqueles que aceitarem a vida como Graça pelo Amor de Deus.

Convém por fim lembrar do totalitarismo espiritual do Paraíso, ou da vida em total comunhão com o Espírito Santo, onde o estado voluntário de participação na perfeição divina significa a sublimação da liberdade específica de negação da bondade de Deus, de modo que não poderíamos existir como almas livres num estado de perfeição imediato pois não teríamos o poder de rejeitar essa realidade, o que significa que não poderíamos ser quem somos, mas somente análogos, como criaturas menores do Omniverso Interior. Para que recebamos a Vida Eterna é preciso antes passar pela mediação de uma experiência temporal que nos permita aceitar ou rejeitar o Amor sem sermos oprimidos pela supremacia da sua perfeição paradisíaca.

Justifica-se, assim, com a Eleuteriodiceia, tanto a realidade atual de qualquer mal temporal, como a nossa presença num mundo que contenha esse tipo de realidade.