Porque as mulheres lêem mais livros e porque isto é crucial para o futuro da humanidade

Em minha labuta na produção do Livro das Tendências, identifico continuamente entre os livros mais vendidos (e supostamente mais lidos) aqueles títulos sobre os quais se diria que foram tipicamente produzidos para um público feminino, especialmente para as moças de até uma certa idade.

Isto quer dizer que as mulheres lêem mais que os homens?

Sim e não.

Vou dar um exemplo pessoal: certamente minha mãe leu mais que o meu pai durante sua vida, mas também é certo que eu li mais do que a minha mãe.

Acontece que por ter decidido aprofundar-me em questões intelectuais que exigiam o estudo mais dedicado, vi-me não só com o desejo, mas também com a oportunidade de fazer este trabalho específico (já que eu estive mais livre do que ela, que tinha que cuidar da casa, de um marido e de quatro filhos). De modo que eu só li mais do que a minha mãe, neste exemplo, porque este foi um propósito muito particular que eu me atribuí, e que tive a chance de realizar. Se meu pai tivesse desejado trilhar este caminho, ele poderia ter feito o mesmo, e ter lido até mais do que eu, como muitos outros o fazem, aliás.

Então o que quero dizer é que, fora de um propósito específico que o justifique, comparando-se o público não intelectualizado em geral, as mulheres lêem mais que os homens, e isso sempre foi assim.

Mas qual é o motivo?

Apelando para os recursos de entendimento que nos foram dados por um Weininger, por exemplo, vemos os homens idealizarem a vida e lançarem-se às suas aventuras de exploração, enquanto as mulheres suportam esses empreendimentos realizando da melhor maneira o ideal proposto. Alguns poucos homens certamente idealizaram uma vida mais intelectual, racional, ou ao menos culturalmente rica, e a estes poucos seguiram-se exércitos de mulheres dispostas a realizar esse ideal da forma mais perfeita que pudessem.

A mulher é preocupada em fazer o que deve ser feito, partindo da proposta que alguns homens idealistas colocaram, e nisso ela é mais fiel, responsável, diligente e esforçada que todos os outros homens que não têm o mesmo ideal. É assim que uma mulher, até mesmo uma moça, pode ser mais educada que seu pai, que seus irmãos, que seu marido, e que os seus próprios filhos.

Mas digamos que você deteste Weininger, ou ao menos a hipótese dele. Ainda assim, como explicar a realidade que observamos?

A mulher é a educadora natural e imediata de seus filhos.

Esse é um de seus maiores poderes, se não for o maior deles: o de educar nada menos que a humanidade inteira.

Alguns homens idealistas podem propor grandes coisas, mas quem vai transmitir isso para a próxima geração? Serão as mães dessa geração, capazes de captar o ideal proposto e de convertê-lo em uma visão de mundo que possa orientar os seus filhos.

As mulheres lêem mais, em comparação com o homem médio não intelectualizado que não tem a busca específica do conhecimento, porque elas se interessam pela sua grande responsabilidade de aprender o melhor para transmitir o melhor aos seus filhos. Essa é a sua grande responsabilidade, e o seu grande poder.

E por que isso é crucial para o futuro da humanidade?

Não está óbvio? A humanidade futura vai viver uma vida cujo sentido foi ensinado pelas mães dessas gerações vindouras.

A quem quiser influenciar o futuro, nada pode ser mais poderoso do que a interferência no papel da mulher na sociedade humana, em primeiro lugar na disseminação de idéias de continuidade, e em segundo lugar na disseminação de idéias de ruptura.

É a mulher que vai ter o futuro nas mãos, conforme escolha acreditar na conservação do status quo, ou na mudança.

É a mulher que vai fazer a cabeça do seu marido não-intelectual, e também a cabeça de seus filhos que vão levar muitos anos para entender o que aconteceu e anotar a chapa do caminhão que os atropelou.

Mas quem vai fazer a cabeça da mulher?

Até certo ponto, quem fazia isso era o homem mais intelectualizado, aquele que quando resolve se dedicar a esse tipo propósito muito específico acaba se tornando um líder na sua área.

Mas hoje, com a emancipação das mulheres, na consequência da verdadeira revolução da libertação cristã (que não tem nada a ver com o conservadorismo institucional, obviamente), já não sabemos mais.

Agora a mulher pode, finalmente, fazer a sua própria cabeça.

Que livros as mulheres vão querer ler, e no que vão querer acreditar?

Mais: que livros elas vão querer escrever?

O homem que idealiza uma mulher a quem só cabe realizar o seu desejo, esse homem que é um conservador, obviamente quer recapturar essa rebelde e colocá-la de volta no seu devido lugar. E muitas mulheres gostam disso, permanecendo presas ao decreto da Maldição que lhes determinou como destino, pela rejeição do Amor divino, o dever de agradar o homem e realizar o seu desejo.

Como a mulher pode se livrar dessa prisão imposta pela Maldição, essa mesma que os conservadores, servos da Serpente do Mundo, querem lhe impôr a todo custo?

Nenhuma mulher terá jamais o poder de fazer isso por si, como também nenhum homem é capaz de fazê-lo. Quem nos liberta é o Altíssimo. O mesmo que decretou a Maldição para limitar a nossa perdição é quem ofereceu a Salvação verdadeira, que vem somente pela sua mão.

Aí os sexos já não importam mais.

Como a mulher obtém a libertação?

Do mesmo modo que o homem deve fazer para sair da sua própria escravidão, ou seja, livrando-se dos atos de rebelião que levaram a esse estado de coisas: rejeitando o casamento e a maternidade, todo o Pacto Ouroboros, parando de seguir e imitar Adão e Eva para seguir e imitar a Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida.

A mim parece óbvio que a superação de todo sexismo se dá na busca pela perfeição mais universal que existe, que é a do Amor divino. Somos igualmente amados pelo Criador de todas as coisas, e antes de sermos maridos e esposas, pais e mães, filhos e filhas, devemos ser somente irmãos e irmãs desejosos pela Redenção prometida pelo nosso Salvador.

Se as mulheres vão acreditar nisto ou não, é um mistério.

Se confiarmos nas profecias bíblicas (e não o devemos?), não será esse o caso: quando vier o Filho do Homem, todos estarão comendo e bebendo, casando e dando-se em casamento, ou seja, estarão vivendo no pleno desejo da continuidade deste mundo decaído, desconfiando ou até mesmo desprezando qualquer possibilidade de redenção divina.

Mas o destino de muitas não determina o destino de cada uma.

Uma só mulher que procure a Deus basta para que no Céu os anjos façam toda uma festa, com certeza.

O heroísmo da desistência

Não é tão difícil assim conceber a hipótese de que num mundo decaído a desistência da participação no mesmo é um tipo de nobreza heróica.

Todos os que sempre se divertiram com a suposta absurdidade da filosofia cínica de Diógenes estão antes muito engajados com sua própria participação no esquema do mundo, principalmente em suas mentiras.

Uma grande obsessão de Diógenes era a de encontrar um homem honesto. Como cristãos, sabemos a quem ele buscava. Mas se Diógenes, ainda pagão, simplesmente ignorante, podia se frustrar na sua busca, embora se mantivesse fiel a ela até o fim, que direito temos nós, cientes da Revelação de Jesus, de sermos menos fiéis à verdade da vida humana neste mundo?

O que quero dizer é que com a Revelação Cristã nós temos tudo o que é necessário para completar o gesto de renúncia à mentira do mundo que se iniciou com a filosofia moral de Sócrates e de Diógenes. Temos hoje o que eles ainda não tinham: a decisão humana de rejeitar a Verdade plenamente. Isso nos permite rejeitar ao mundo também plenamente. A decisão dos Moriquendi está tomada. Os Calaquendi estão desembaraçados da mentira, libertos pelo Filho de Deus que se fez Filho do Homem.

O heroísmo da desistência é ensinado por Diógenes, que elogia a capacidade humana de rejeitar sua própria pretensão ao desistir de seus planos de poder e conquista. É uma atitude Noldor, pois honra o que podemos chamar de Princípio de Indeterminação das Mônadas. Este Princípio, que também podemos chamar de Singularidade Monádica (ou, ainda, de Inquilinato Espiritual), é o que revela que o ser humano aliado ao Amor de Deus reconhece imediatamente a escravidão dos papéis sociais de poder num mundo decaído. A um amante e amado de Deus, buscar o poder neste mundo (“sou isto”, “sou aquilo”, “fiz isto”, “fiz aquilo”) significa uma diminuição da sua substância, pois a promessa divina para cada mônada livre é muito superior a qualquer possibilidade de realização neste mundo decaído. O único poder legítimo é aquele determinado pela Providência divina que, por ser perfeitamente amorosa, é infalível. Toda perseguição de poder por parte das mônadas criadas implica na traição contra essa verdadeira autoridade.

Simbolicamente, este é o mistério da Lua Nova: na presença do Sol, o papel da Lua é o de se apagar para que brilhe a luz verdadeira. Quando cresce, por sua vez, a Lua Cheia não está plena de si mesma, mas da memória do Sol, grávida da luz verdadeira ela cumpre sua função de lembrar da verdade que não é sua propriedade, e então brilha dando testemunho dessa verdade que lhe transcende.

O heroísmo da desistência, postura da nobreza e da sabedoria Noldor, cumpre o que está dito: “fugir do mal, eis a inteligência”. Trata-se de clamar pelo dom divino da Vigilância, que nos permite enxergar sem medo a verdade deste mundo decaído e ter todas as forças não só para recusar a participação em seus crimes, mas também para dar o testemunho de sua corrupção e da alternativa de fidelidade ao Amor divino.

Alexandre, esse anticristo educado dentro da Filosofia consagrada, foi derrotado pelo testemunho de Diógenes, esse “filósofo menor”, que diante da pretensiosa e falsa majestade humana só viu o eclipse da majestade divina.

A escravidão do Poder e a liberdade do Amor

Talvez não haja maior genialidade na obra de Wagner do que a humilhação dos amantes do Poder em face da redenção daqueles que são fiéis ao Amor, conforme dramatizado na tetralogia de O Anel dos Nibelungos.

Enquanto Wotan e Alberich se engalfinham numa disputa mortal pelo governo do mundo, tendo que apelar para os estratagemas mais complexos e sofrendo as consequências mais angustiantes por sua perseguição ambiciosa do Poder, as Filhas do Reno são apresentadas como fiéis ao simples Amor representado pelo Ouro do Reno no seu estado ótimo, isto é, como potencial puro repousado no leito do grande rio.

O Rio Reno representa as Águas Primordiais, um símbolo da Possibilidade Universal, isto é, de tudo o que pode vir a ser desde o ideal. Wagner, alemão, idealista e romântico, não podia deixar de exaltar a possibilidade em face da realidade, e as Filhas do Reno, com seu canto e sua dança ao redor do Ouro do Reno, fazem homenagem ao puramente possível, em atitude de esperança confiante, na paz e alegria do repouso num poder superior que lhes trará a salvação.

Wotan e Alberich, por sua vez, são perseguidores do poder. Não podem repousar em nenhuma esperança num poder superior que os venha resgatar no futuro. Não: eles precisam salvar a si mesmos agora, obtendo poder e controle sobre o mundo. Embora Alberich seja tratado como um completo vilão, Wotan mostra-se tão escravizado pelo poder quanto seu inimigo. A única redenção que virá aos deuses será na justiça da sua própria extinção, quando Brunhilda realizará aquilo que seu pai jamais teve a coragem de fazer: a renúncia do poder na restituição do Anel às Filhas do Rio, para que se converta na sua forma original, como Ouro do Reno, de instrumento de dominação em objeto de louvor ao poder da verdadeira divindade.

Vejamos uma passagem bastante esclarecedora neste sentido, no Ato II da segunda ópera, Die Walküre:

Wotan: “Estou pego em minha própria armadilha e sou menos livre que qualquer humano. Esta vergonha merecida! Este merecido pesar! Os deuses estão em um perigo terrível! Nada resta senão raiva e lamentação! Eu sou o mais triste de todos. Se eu o disser em voz alta, não perderei então o comando da minha própria vontade? O que eu digo a ninguém exceto a mim mesmo continua não dito, e falando contigo eu estou apenas falando comigo mesmo. Quando os prazeres do amor de juventude se foram, eu desejei em meu coração o poder. Esse frenético desejo me impeliu a tomar o mundo para mim mesmo. Involuntariamente desonesto, eu agi deslealmente, fazendo tratados que me aliaram com enganosos e malignos poderes. Loge atraiu-me a tudo isso, e então ele desapareceu. No entanto, eu não podia abandonar o amor, e no meu poder eu o desejei. Embora Alberich tenha nascido uma criatura temível da noite, ele se libertou disso e ousou amaldiçoar o amor. Por sua maldição ele ganhou o brilhante Ouro do Reno, e com ele um poder incalculável. Eu o fiz perder o anel que criou com um truque, mas não o devolvi de volta ao Reno. Eu o usei para pagar por Valhalla, o castelo que os gigantes construíram para mim e a partir do qual eu governei o mundo. Erda, a mais sábia das mulheres, disse-me que deveria abrir mão do anel, e me alertou sobre o destino eterno. Eu queria que ela me dissesse mais, mas ela desapareceu silenciosamente. Então eu perdi toda a leveza do coração, e desejei apenas o conhecimento divino. Mergulhei nas profundezas da terra. Lá eu seduzi Erda com o poder do amor. Eu a fiz compartilhar sua sabedoria e me explicar tudo. Ela me deu seu conhecimento. Em retorno, eu lhe dei uma descendência. A mulher mais sábia do mundo me deu a ti, Brunhilda. Eu te trouxe com oito irmãs. Através de vocês Valquírias eu quis afastar o que Erda me ensinou a temer: um fim vergonhoso para os imortais. Desse modo nossos inimigos nos encontrariam fortes em batalha. Eu te enviei para encontrar-me heróis, homens que nós antes tínhamos mantido em servidão. Homens que nós subjugamos, e que prendemos com tratados para mantê-los em cega obediência. Você foi enviada para colocá-los uns contra os outros, para testar suas forças em furiosas batalhas, para que eu pudesse reunir os guerreiros mais bravos no salão de Valhalla. Há outra coisa sobre a qual Erda me alertou. Alberich nos ameaça destruir com seu exército. Ele me odeia com uma fúria invejosa. Mas agora eu não temo suas forças sombrias. Meus heróis me darão a vitória. Mas se a qualquer momento ele ganhar o anel de volta, então Valhalla será perdida. Ele amaldiçoou o amor, e através de sua inveja ele usaria o anel para trazer uma vergonha sem fim a todos os deuses. Ele jogaria meus bravos heróis contra mim e usaria a sua força para fazer-me guerra. Eu tentei encontrar um meio de manter o anel longe de meu inimigo. Um dos gigantes ao qual eu dei um dia o amaldiçoado ouro como pagamento pelo trabalho, Fafner, o gigante, guarda o ouro maldito pelo qual ele matou seu irmão. Eu teria que apanhar de volta o anel que eu o paguei como salário. Mas desde que eu fiz um tratado com ele, não posso atacá-lo. Impotente diante dele, minha coragem me falharia. Esses são os grilhões que me prendem. Eu me tornei governante do mundo através de tratados, e esses tratados agora me escravizam. Apenas um homem pode fazer o que eu não pude. Um herói, alguém a quem eu nunca ajudei, um estranho ao deus, livre de seus favores, voluntariamente e sem comando, e partindo apenas de sua própria necessidade, com suas próprias armas. Ele poderia fazer o que eu não posso, e o que eu nunca pedi que fizesse, ainda que seja a única coisa que eu deseje. Esse homem que luta contra os deuses, e que ainda assim lutará por mim, esse inimigo amigável, como eu poderia encontrá-lo? Como posso criar um homem livre a quem eu nunca protegi e que ao me desafiar se tornará o meu mais querido amigo? Como posso criar este Outro que já não é mais parte de mim e que, de sua própria liberdade, pode fazer o que eu sozinho desejo? Que destino desgraçado para um deus! Me repugna que eu me encontre apenas a mim mesmo em tudo o que faço. Esse outro que eu desejo, nunca posso encontrar, pois o homem livre deve criar a si próprio. Só posso produzir servos para mim mesmo.”

Fricka, a protetora dos contratos de casamento, foi quem imediatamente denunciou o autoengano de seu marido, para o grande desgosto deste que se viu então obrigado a pedir pela morte de Siegmund. Embora deteste a intervenção da esposa, por tudo o que isso representa, Wotan é escravo de si mesmo, de sua ambição de poder, que é o que lhe impede de realizar a sua vontade final, e que foi o que lhe impeliu em direção ao objeto de sua ruína em primeiro lugar, a construção de Valhalla, a morada dos “deuses” que ele mesmo desejará ver destruída.

A pista da liberdade não estava em nada disso, nem em Valhalla e nem no Anel de Poder, mas naquela bem-aventurança das Filhas do Reno, cuja suposta ingenuidade e tolice foi troçada pelos soberbos Alberich e Wotan, que no desprezo do puro Amor conseguiram apenas atrair a desgraça e a maldição para si mesmos.

A verdadeira arte divina de criar seres que livremente desejem amar é o que escapa a Wotan, o falso deus, ladrão e usurpador, mentiroso e tirano, que ao menos teve uma última lucidez ao decretar um desejo correto em face de seu fracasso espiritual: o desejo pelo fim, realizado finalmente por Brunhilda, a heroína fiel ao Amor.

Com Götterdammerung Wagner realiza uma profunda justiça na forma de sua arte, um grande alerta contra a ambição do Poder, e o elogio da confiança no Amor.

Gandula espiritual: o que faço e para quem faço

Desejo que todos os meus semelhantes, meus irmãos e irmãs que assim como eu nasceram em cativeiro, continuem firmes até o fim em sua jornada, como um jogador de futebol persiste até o gol (the goal, “a meta”).

Como viver no Brasil e evitar as metáforas futebolísticas? Não aprecio o esporte como o fazia aquele saudoso frasista, mas posso usar as simples imagens dessa unanimidade cultural para transmitir meu próprio recado.

Vejo-me, assim, como uma espécie de gandula espiritual: à beira do campo da vida, pronto para agarrar todas as bolas que querem escapar do campo, e jogando-as de volta ao plano da vida humana, confiando que um desígnio divino as dirige. Meu trabalho é o de servir as almas que repudiam sua condição de existência, para que aprendam a aceitar a Providência e a voltar a sua rejeição ao alvo correto: a mentira da idolatria.

Já que alguns se perguntaram e outros mais o podem fazer mais adiante, convém desde já declarar o que eu faço e para quem eu faço, ou seja, o mandato e o nicho deste trabalho. Isso permite liberar os desinteressados de perder seu tempo com o que não lhes importa, e ao mesmo tempo convidar todos aqueles que descubram um alinhamento de interesses.

O Mandato, ou o que fazemos, já foi declarado antes, mas vou repetir.

É composto de três elementos:

  1. Dar o testemunho de que Deus nos ama e de que nós precisamos de seu Amor;
  2. Dar o testemunho de que todos nós vivemos muito mais baseados em crenças do que em conhecimentos, e de que nos convém, portanto, assumir a responsabilidade integral por elas, com tudo o que elas implicam;
  3. Dar o testemunho de que a Maldição decretada para a limitação da rebelião contra o Amor deve ser aceita com todas as suas consequências, principalmente a morte dos corpos decaídos das pessoas que amamos e do nosso próprio.

Qualquer pessoa que receba esses três testemunhos tem a possibilidade posterior de aceitá-los ou de rejeitá-los, integralmente ou em partes.

Porém, meu intuito não é o de dar estes testemunhos indiscriminadamente a qualquer um, mas especificamente para as bolas jogadas para fora do campo, por assim dizer. Isto é, para as almas que já iniciaram uma jornada espiritual própria de busca através da primeira fase, que é a de negação do valor da vida de idolatria. Esse buscador espiritual já é capaz de intuir de algum modo o vazio da mentira dos ídolos, assim como já deve sentir as dores do despertencimento e da disfuncionalidade num mundo que já não lhe faz mais sentido.

O Nicho, ou a pessoa a quem dirigimos o serviço explicado no Mandato, é a pessoa chamada por Deus naquela fala de Jesus em Mt 11:28-30:

Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve.”

A pessoa que acredita neste chamado deve ser servida.

Até o Fim do Mundo, ela não pode ser abandonada à própria sorte, enquanto existir um único cristão que ainda possa dar o testemunho da Vida Boa, da Boa Notícia, isto é, da salvação que Jesus Cristo nos trouxe.

A quem não se identifique com o Nicho e nem se interesse pelo Mandato, o recado é claro: não tenho como lhe servir. Vá e viva como achar que deve. Meu dever é estar pronto para lhe servir se isso for necessário. Se um dia você precisar de mim, eu estarei lá por ti. O ideal é que nenhuma bola caia fora, mas se alguma perigar de cair, o gandula precisa estar lá para fazer o seu serviço.

A quem se identifique, o convite está aí para aprender tudo o que for conveniente para o transcorrer de sua própria jornada espiritual.

Linguagem

A OITAVA Alegação é a de que a linguagem humana, como a de qualquer criatura, deve ser sempre considerada provisional e discricionária, como um reflexo da sua natureza limitada, em benefício da Humildade e contra a Pretensão, sendo o último e menos importante produto da cadeia de consciência, onde a linguagem é parte do pensamento, o pensamento é parte da percepção, a percepção é parte do ser, o ser é parte da realidade, e a realidade é parte da possibilidade, assim como todas as possibilidades são partes da Possibilidade Universal, de modo que qualquer proposta de limitação da realidade possível aos limites do escopo do pensamento e da linguagem humana é aqui denunciada como um erro.

Jesus, Alegria dos Homens

A SÉTIMA Alegação é a de que Jesus é a Alegria dos Homens pela sua revelação da verdadeira natureza amorosa de Deus e, consequentemente, da salvação humana através da confiança exclusiva na Graça, de modo que qualquer outra alegria é secundária diante desta realidade espiritual fundamental.

Palavra de Deus

A SEXTA Alegação é a de que a Palavra de Deus não é um objeto para a inteligência de nenhuma criatura, incluindo a humana, sendo a própria essência divina e criativa de Deus, absoluta (separada) e infinita, viva e transcendente a qualquer forma de controle além da Vontade do próprio Criador.

Infalibilidade

A QUINTA Alegação é a de que quanto mais infalível qualquer texto sagrado ou interpretação for considerado, menos pode ser usado como uma interface espiritual pela consciência individual em seu relacionamento com o Criador, de modo que a verdadeira autoridade é desprezada em face da proeza da virtude ou do intelecto humano, e assim o Entendimento como um presente gratuito é recusado ou diminuído.

A4: Bíblia

A QUARTA Alegação é a de que a Bíblia certamente contém: (a) partes adulteradas, (b) partes incluídas para além da intenção de seus autores originais, (c) partes traduzidas incorretamente, (d) afirmações equivocadas baseadas na falibilidade humana, assim como não inclui partes originalmente escritas e posteriormente removidas, todos estes fatos pela razão tanto de erro humano não intencional quanto por razão de intenção maliciosa, sem nenhum prejuízo ao poder do Espírito Santo para usá-la efetivamente e eficientemente para os seus propósitos.

A3: Autoridade

A TERCEIRA Alegação é a de que a única Autoridade irrecusável é a que nunca pode ser provada, portando qualquer alegação baseada em uma prova absoluta é vazia de substância, de modo que a Verdade nunca é uma propriedade de criaturas relativas e criadas sob formas limitadas por natureza, não obstante criaturas racionais possam ter acesso a abstrações ideais que podem ser submetidas a demonstrações não confundidas com alegações sobre realidades concretas.