Metropolis, filme por Fritz LANG

Análise do título F0020, Metropolis, filme por Fritz LANG.

O filme começa facilitando a nossa vida com o seguinte Epigrama: “o mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!” A película terminará com um final feliz, repetindo a mesma idéia.

O coração, porém, é enganador e traiçoeiro, e pode nos fazer iludir e mentir para nós mesmos e para os outros. O amor, que é o desejo do bem, por outro lado, é infalível, desde que seja dirigido ao seu objeto mais adequado, isto é, a um Bem transcendente que só pode ser concebido idealmente na presente condição humana.

O filme não quer saber de nada disso, porém. O problema do ser humano é presente, mundano, temporal, terreno. Apesar disso, não nos engana muito com relação à qualidade dessa experiência. É um retrato fiel do Sistema da Besta e do Pacto Sadomasoquista, embora omita que esse mecanismo seja alimentado pela grande falta do povo, o Pecado Original.

Por exemplo, quem é Moloch, que recebe os sacrifícios das vidas humanas para a manutenção do sistema? É a máquina social, política e econômica? Não. É um operador do Ouroboros que depende diretamente da continuidade da Tradição Primordial. O sofrimento humano é congênito, ou melhor, herdado como condição adjacente à continuidade do costume.

O filme gosta de trabalhar simbolismos profundos, como o da imagem da Besta do Apocalipse que ganha vida, e que se torna a própria Grande Prostituta. Esta representaria, inicialmente, a vitória contra o Decreto de Gênesis 3. Mas esse homem-máquina, por fim, levará a humanidade à beira da destruição, culminando o processo mais ou menos natural da dialética histórica na luta de classes.

O herói, Freder, apaixona-se por Maria, a heroína que profetizará a vinda do Mediador (Mittler) para conciliar a Cabeça com as Mãos, isto é, a classe dos capitalistas com a classe dos trabalhadores. Ela conta o mito de uma Torre de Babel em que os homens se desentendem por conflitos de interesses (de classes), o que impede a consecução de um projeto de triunfo da humanidade. O lema dessa civilização é o de que “grande é o mundo e seu criador, e grande é o homem“. O verdadeiro Criador de todas as coisas não disputa lugar e nem qualidade com o que quer que seja. Logo, esse “criador” é na verdade o Usurpador, o Ouroboros.

O filme parece ter antecipado um tema que será muito comum na cultura cinematográfica mais tarde, que é a idéia do cancelamento do fim do mundo.

No fim o herói intermedia a cabeça e o coração, isto é, as partes da luta de classes. Isto pode representar a intelligentsia como um todo, inclusive e especialmente os artistas, que é o papel do Bispo no Sistema da Besta: normalizar e legitimar a Mistura.

É preciso nos aprofundarmos mais para explicar a qualidade espiritual de um roteiro que reconhece e embeleza o projeto da Torre de Babel?

Nota espiritual: 2,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,4

“Tomados da velha perspectiva imediatista.”

Citação L0036-C02, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Os líderes e representantes do Sistema da Besta vivem de explorar o sofrimento com promessas de falsas soluções, e em nenhum momento a premissa da perpetuidade é questionada seja por socialistas ou por liberais.

Sowell questiona, com razão, as políticas imediatistas que reinstauram uma situação que poderia (e deveria) ser imediatamente constatada como de alto risco. Os mesmos líderes políticos que gastam o dinheiro público com o resgate de populações que vivem em áreas de risco de desastres naturais mais tarde usam de seu poder e dos recursos estatais para reinstalar essas populações nas mesmas áreas, ou seja, perpetuam a condição problemática que justifica a sua existência como agentes públicos.

Lula, por exemplo, aqui no Brasil, deu graças a Deus pela “pandemia”, porque isso reabilitaria a visão pública da necessidade de um Governo e um Estado forte. Estamos muito perto de uma confissão de que certos problemas públicos são necessários para se justificar certas soluções públicas.

O que Sowell não assume, porém, é que não há nenhuma condição “com um histórico definido e cujo futuro pode ser previsto” mais antecipável do que a da escravidão de uma humanidade que deve servir ao ideal de progresso civilizacional, como aqueles antigos escravos do Faraó. Por que Sowell não questiona a validade desse projeto? Porque ele serve a esse projeto, como liberal, tanto quanto qualquer outro intelectual socialistas também serve, apenas com sinais trocados. Se não servisse, Sowell poderia imediatamente questionar a conveniência dessa perspectiva.

É óbvio que os amantes do projeto, como Sowell, vão afirmar que nunca antes na história da humanidade os seres humanos foram tão capazes de garantir uma qualidade de vida tão elevada, com os confortos promovidos pelo progresso tecnológico, econômico, etc., comparando-se com os dados históricos.

Isso pode até ser verdade, mas não muda os fatos mais brutais da equação:

1- Que nenhuma alma jamais foi encarnada com seu consentimento, ou seja, a participação no projeto do progresso da humanidade é tratada como compulsória, produzida por um fait accompli;

2- Que nenhum progresso tecnológico e econômico pode evitar as dores, traumas e sofrimentos humanos, mas apenas produzir uma condição de remediação e compensação, no espírito da legitimação da Mistura de Luz e Trevas. Por outro lado, existem novas formas de sofrimento geradas pelo mesmo progresso, e que não podem ser desconsideradas nesta equação;

3- Que mesmo que o projeto seja justificado por um progresso futuro que alcance a solução de todos os problemas humanos num futuro distante, além dessa promessa não ter nenhuma garantia de cumprimento, qualquer um ainda terá sempre o poder e o direito de crer que este projeto não convém à verdadeira finalidade da forma substancial do ser humano, e até ao contrário, pode-se crer que este projeto signifique exatamente aquilo que é relatado como empreendimento contrário, por exemplo, ao desígnio divino, como se vê nos relatos a respeito do Dilúvio, da Torre de Babel, e nas profecias a respeito do Apocalipse.

Talvez quem esteja tomado da velha perspectiva imediatista seja o próprio Sowell, já que mesmo sem nenhuma consideração espiritual que releve o desígnio divino, também opta por ignorar a possibilidade de um progresso moral concomitante ao progresso material e tecnológico da humanidade, o que leva por exemplo à queda generalizada das taxas de natalidade.

Sowell serve ao pensamento econômico que traduz o crescimento do PIB como uma benfeitoria social, sempre relativizando o status quo mediante a ameaça de uma miséria muito maior que em nenhum momento ele imagina que possa ser impedida pela mera ruptura do costume do Pecado Original.

É claro que é melhor ter acesso à uma rede de eletricidade, ou de água encanada, do que não ter.

Mas melhor ainda é não precisar de nada disso, considerada a simples hipótese de uma dispensação mais favorável pela provisão de um poder superior cuja autoridade foi usurpada.

Sowell, exatamente do mesmo modo que qualquer socialista que se encontrasse no exato ponto oposto no quadro geral das ideologias do mundo, deixa subentendido que os seres humanos não possuem nenhuma escolha com relação à continuidade da condição humana tal como ela é, por ser um crente naquilo que ele chama de “visão trágica”. Isto é mentira.

Nós temos o poder de fazer uma escolha melhor, e essa escolha foi abundantemente atestada e realizada por vários modelos de santidade, seja no oriente ou no ocidente, e em especial, no quadro da cultura cristã, por ninguém menos que Jesus Cristo, e também pela Virgem Maria.

Não estamos presos à imitação de Adão e Eva, e do Pecado Original.

Mas é claro que o deus deste mundo, a Serpente que se alimenta da perpetuação da Mistura de Luz e Trevas, jamais aprovará que seu Pacto seja denunciado, e tentará de toda forma que a liberdade do Evangelho seja reprimida e deturpada tanto quanto possa, por todos os recursos de que dispõe, entre os quais e especialmente o recurso do domínio da própria Religião Cristã.

“É muito fácil considerar qualquer coisa que vai mal como sendo culpa de alguém.”

Citação L0036-C01, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Uma importante categoria de pensamento do autor é essa da “visão trágica”, que ele propõe como realista, em contraste com a visão dos intelectuais ungidos que na opinião de Sowell são idealistas irresponsáveis.

Eu estaria totalmente disposto a concordar com Sowell, se ele somente apontasse o erro da mentalidade progressista. Porém, o autor quer nos fazer optar por um lado da dialética do Ouroboros: o da Tradição. Nos liberta do idealismo imanentista do homem do futuro, mas nos aprisiona no idealismo imanentista do homem do passado. O costume é a sua Lei, como se nós fôssemos descendentes de pessoas que, na sua maioria, eram sensatas e responsáveis. Isso jamais foi, e jamais será, provado. É uma pura crença.

É evidente que a “certa apreciação” de Sowell contém uma premissa embutida, já dada como pressuposta e evidenciada, uma falácia chamada petitio principii, uma petição de princípio que dá por concluída a idéia que deveria demonstrar em primeiro lugar. Caso contrário, Sowell se daria ao trabalho de recomendar uma apreciação da condição humana de forma geral, ao invés de declarar que ela é trágica de forma sumária, como faz. E por que os leitores de Sowell não vão questionar essa premissa? Porque eles estão muito ocupados, distraídos com os vários argumentos anti-progressistas e anti-revolucionários, ou seja, com a sua obsessão na participação no teatro da Dialética do Ouroboros.

Mas é fácil questionar a posição de Sowell, restituir a sanidade do verdadeiro realismo, e de quebra demolir toda a estrutura do seu argumento liberal-conservador: uma tragédia se caracteriza por ser um drama sem culpa. A condição humana só seria trágica, portanto, se o seu drama (que economicamente é determinado pelo fenômeno da Escassez) se realizasse sem nenhuma culpa, ou seja, sem nenhum condicionamento moralmente livre, como se esse estado de coisas fosse integralmente condicionado por um fator de força maior fora do controle humano. Acontece que o ser humano surge na sua condição não como um vegetal que brota do chão, como uma beterraba ou um repolho, e nem como um animal que brota do instinto reprodutivo, como os filhotes das vacas e das porcas, mas de uma ação humana, ou seja, como um produto da comissão ou da omissão da agência moral de um ser livre e responsável. Isto quer dizer que a condição humana é produzida pelo arbítrio humano. E tanto isso é verdade que qualquer ser humano pode contrariar o seu instinto animal e impedir, de livre e espontânea vontade, a produção da condição humana na sua descendência direta. Se podemos aceitar ou negar o instinto animal, isto quer dizer que temos a responsabilidade moral pela decisão de fazê-lo. Em suma: a condição humana, inclusive a da existência sob a contingência da Escassez, é produzida pelo arbítrio humano que decide pela sua continuidade, ou que no mínimo se omite quando poderia arbitrar, o que caracteriza negligência.

Não, a condição humana não é trágica. Isso é uma mentira. Uma grande mentira. A Grande Mentira. A Mentira Primordial, também chamado de Pecado Original, ou, como gosto de chamar, Pacto Ouroboros.

A incapacidade ou, mais provavelmente, o desinteresse em identificar a realidade dos fatos da condição humana, é o que alia, surpreendentemente, liberais e socialistas, conservadores e revolucionários: todos eles são escravos do Ouroboros, e todos esses intelectuais, de direita ou de esquerda, trabalham como Bispos no Sistema da Besta, normalizando a mistura de Luz e Trevas e legitimando a escravidão da raça humana.

A solução para a morte e o sofrimento não é política, mas é espiritual.

A solução não é de direita nem de esquerda, mas de Cima, e vem de Deus: os filhos dos santos não passam fome, não adoecem, não temem o mal e não morrem, porque são poupados desse tipo de existência, ao menos no que depende do arbítrio de seus potenciais pais e mães, isto é, sem prejuízo da necessidade arbitrada pela sua RSMM. Podem até vir a sofrer, em alguma realidade, porque precisam dessa experiência por si mesmos, mas não vão sofrer porque seus pais quiseram.

Band of Brothers, série por Erik JENDRESEN

Análise S-0009, Band of Brothers, série por Erik JENDRESEN.

A série conta a história da Companhia E, do Batalhão S-2, do 506º Regimento, da 101ª Divisão de Paraquedistas do Exército Americano durante a Segunda Guerra Mundial.

O roteiro se desenrola quase como que narrando um documentário, de modo que não há muita margem, devido ao realismo pretendido, para grandes conclusões de teor espiritual a partir do material.

O horror e o absurdo da guerra são compensados pelo elogio da bravura individual, por eventuais atos de heroísmo, e por fim por uma certa narrativa de correção ideológica, embora neste último caso com bastante cautela. Esse procedimento não deixa de compor, porém, uma narrativa de legitimação da mistura de Luz e Trevas. Exceto por alguns personagens aqui e ali que parecem perceber a verdadeira insanidade da guerra, o restante encontra-se seguramente ancorado na proteção de seus deveres de estado, inclusive e principalmente Winters, que é o nosso protagonista.

Vejamos um resumo do que encontramos nos episódios:

1- “Currahee“: Treinamento da Companhia Easy em Tacoma, no estado da Geórgia. O capitão Sobel é um bom disciplinador, mas o tenente Winters é um líder tático competente. Os sargentos fazem um motim contra o comando de Sobel, e como resultado ele é enviado para uma escola militar, e Winters é enviado para o combate na Europa.

2- “Day of Days“: Operação Overlord, um empreendimento militar de complexidade admirável, mas com impacto militar menos relevante do que se imagina, no contexto da derrota da Alemanha. A importância do Dia D ainda é enaltecida até hoje como um eco da propaganda Aliada.

3- “Carentan“: O soldado Blithe sofre de cegueira histérica, e aprendemos com o tenente Speirs a vantagem da aceitação da morte no contexto da luta armada. Ele elogia a ação “sem misericórdia, sem compaixão, sem remorso”, e diz que “toda a guerra depende disso”. De fato, como você vai fazer um ser humano matar o outro, se ele não se tornar mais ou menos inescrupuloso? Curioso foi já ter visto um padre brasileiro elogiar o discurso de Speirs, inclusive comparando essa virtude militar com a vocação sacerdotal, com o uso da batina como se fosse uma mortalha, etc. Quer dizer, a fraqueza de Blithe não tem nenhuma legitimidade, só a força de Speirs.

4- “Replacements“: Operação Market Garden. Os Aliados dão os alemães por vencidos, se arriscam demais, e tomam uma surra.

5- “Crossroads“: Winters protege os prisioneiros alemães da vingança de Leibgott. É um líder completo, com estofo moral.

6- “Bastogne“: Operação Wacht am Rhein. Sem as vantagens logísticas e de suporte aéreo, os americanos são triturados em Bastogne. O médico Eugene testemunha a insanidade da guerra.

7- “The Breaking Point“: Estresse máximo, e a importância do sacrifício para determinar o sagrado. O sofrimento é a moeda de compra do que é humanamente valorizado.

8- “The Last Patrol“: Winters faz um relatório falso para evitar a perda desnecessária de vidas. Um heroísmo mais discreto, mas não menos potente.

9- “Why We Fight“: A liberação de um campo de prisioneiros na Bavária afeta todos os soldados. O valor moral da atuação Aliada é afirmado como acima de todos os interesses e ideologias, o que nunca é verdade exceto quando a ação é de renúncia espiritual aos poderes do mundo e de testemunho do Amor divino, o que obviamente não tem nada a ver com a participação numa guerra.

10- “Points“: A paz veio, mas a condição humana continua sendo precária, e sem o foco da guerra muitos homens ficam mais perdidos do que quando carregavam deveres de estado mais pesados.

Exceto pelo testemunho da miséria da condição humana através da percepção de personagens como Welsh, Blithe, Compton e Nixon, em geral a série apenas reforça a legitimação da mistura de Luz e Trevas, ainda que de forma atenuada, dado o caráter de quase documentário desta obra.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,9

“Talvez aquele que seja verdadeiramente homem devesse parar de pensar quanto tempo viverá.”

Citação L0035-C05, em Górgias, livro por PLATÃO.

Aqui Sócrates já começou sua resposta às idéias temerárias de Cálicles.

Começamos pela obviedade de que a ambição máxima de preservação daquilo que já está destinado à dissolução só pode ser uma irracionalidade. Porém, ainda que a destinação dos corpos humanos, individualmente considerados, nos permitisse considerar esse nível de liberdade, ainda há que se tratar da ambição da preservação coletiva, isto é, do problema da imortalidade simbólica que constitui alternativa que poderia, para alguns, justificar algum tipo de preservação no nível da civilização, ou da espécie.

Aqui temos uma ambiguidade, porque Sócrates não propõe nenhuma visão que ultrapasse a consciência coletiva da alma grega, especificamente ateniense. É por isso que se pode elogiar a preservação do Estado por vários meios, inclusive através da guerra. E o que é ambíguo é o sentido do destino a que Sócrates se refere: é a legislação dos homens, ou a divina? Esta deveria ser considerada como a mesma, ou eventualmente elas divergem, ou até mesmo podem se opôr?

Não podemos pedir muito de Platão. Ele já nos deu, afinal, muita coisa. Com sua idéia do “homem verdadeiro”, alethôs ándra, ao menos a mesquinhez da dimensão da vida individual é superada por considerações superiores, seja a da perenidade sob uma lei estatal ou natural que implica na perpetuação do Estado ou da espécie, seja a da Eternidade sob o governo divino.

A forma de governo sob a qual vivemos, como já afirmei, constitui uma idéia ambígua: é uma lei natural, humana ou divina, ou uma mistura de tudo isto?

Mas a escolha do melhor depois da submissão ao dado inescapável da nossa mortalidade individual já nos permite adquirir uma perspectiva superior, mesmo que nos embrenhássemos em outros enganos. Podemos (e devemos) fazer uma escolha melhor entre os vários idealismos, mas tudo isso já supera a luta inútil contra o Decreto divino de Gênesis 3.

Por fim, cabe-nos recomendar, algo em linha com algumas distinções sugeridas pela visão de gênero de Weininger, que o idealismo talvez seja uma virtude mais masculina, afinal de contas, já que o realismo tende a ser a virtude mais feminina, e isso obviamente só aumenta a responsabilidade do homem de reconhecer o que transcende a experiência imediata da vida humana no sentido animal. O cultivo das coisas corporais ou espirituais é uma responsabilidade de quem pode se dispor a fazer essa escolha.

“Não te parece vergonhoso estar no estado em que julgo que estás?”

Citação L0035-C04, em Górgias, livro por PLATÃO.

Encontramos aqui as ousadas proposições de Cálicles, o interlocutor de Sócrates que conseguiu somar, à sua tolice, a sinceridade. O próprio Sócrates elogia essa postura, pois finalmente pode responder a um questionamento que muitos teriam desejado propor, mas que poucos quiseram assumir.

Não é esta, afinal, uma opinião comum a respeito da Filosofia até hoje?

A vontade de buscar uma Verdade que transcende o domínio humano sempre vai separar os seres humanos: aqueles, afinal, que querem sobretudo servir ao Amor sempre serão desprezados por aqueles que querem sobretudo servir ao Poder.

A diferença que resta é a seguinte, porém: qual destino é imortal?

O dos amantes, ou o dos ambiciosos? Dos amorosos ou dos furiosos?

Toda a administração das coisas mundanas que Cálicles elogia está destinada a continuar a futilidade da vaidade humana, como a que vimos denunciada no Eclesiastes. É tudo “correr atrás do vento”, pois nada muda realmente, e “não há nada de novo sob o sol”.

Já a consideração das coisas eternas dispensa os amantes dessa Eternidade de desgastar-se demasiadamente com aquilo que é transitório, mas ao risco de colocá-los nas mãos desses mais espertos e ambiciosos vilões desse pesadelo chamado História.

Curiosamente, Cálicles reconhece algum mérito da Filosofia na nutrição das almas dos jovens, como o aprendizado de uma arte inspiradora que será passageiramente aproveitada num processo com finalidades bem assentadas no sucesso mundano, isto é, nas grandes ambições das famílias, tribos, nações, e da Humanidade como um todo.

O adulto, porém, que continua nutrindo esses interesses que deveriam ser passageiros e temporários, é chamado no mínimo de tolo, isso quando não for um corruptor da juventude, exatamente como Sócrates será qualificado pelos seus acusadores mais tarde no processo que o levou à morte.

Vejam como isso antecipa a consciência cristã: Jesus deixou claro que quem o seguisse, ou seja, quem desejasse essa liberdade das coisas mundanas pelo amor das coisas eternas, seria perseguido e odiado pelo espírito do mundo.

Nós precisamos absorver com toda intensidade o impacto desse testemunho de Cálicles: é o próprio espírito do Anticristo, avant la lettre, anunciando a nossa condenação por cumprir o Primeiro Mandamento, ou seja, por amar a Deus e tudo aquilo que é divino acima de todas as coisas.

“Felicidade não era ser livrado do mal, mas não tê-lo contraído em tempo algum.”

Citação L0035-C03, em Górgias, livro por PLATÃO.

Nesta passagem que pode parecer ter menor importância, encontramos o testemunho direto de que a pureza, ou separação, de bem e mal, é algo superior à qualquer nível de mistura.

É verdade que, dada a condição da mistura, é melhor se livrar da maldade do que se corromper pela mesma. E ainda é melhor que, se corrompido, pague-se uma pena purgatória, do que não pagar nenhuma.

Mas o estado original de separação e imunidade, um estado ótimo da alma, não pode ser ignorado como o maior dos bens, como a maior das felicidades.

Embora não diga, Platão poderia discorrer sobre os motivos da mistura, já que considera a separação como o estado ideal. Nisto talvez se perdesse com uma mitologia mais ou menos gnóstica, como de costume. Nossa tarefa aqui, no entanto, é verificar que o ideal, na sua pureza própria, dispensa a mistura.

Se todos os seres humanos preservassem essa noção –algo que provavelmente em algum ponto da nossa criação no meio do cativeiro, enquanto ainda éramos bem jovens, ainda percebíamos com alguma clareza–, eles poderiam dispensar todos os maiores envolvimentos com a mistura sob a ilusão da obtenção de benefícios mundanos, e assim estariam livres do carregamento de um peso excessivo em suas vidas.

Digo por mim: ainda que de forma obscura, não deixo de me lembrar vagamente de ter essa noção de ser forçado, pelas pessoas mais velhas ao meu redor, em optar por algum tipo de anuência com relação a esta vida na forma de uma troca do aceite do pior pela ambição do melhor. O cultivo da filosofia platônica, ou ao menos de algum idealismo mínimo, já seria suficiente para contrapor a influência dessa cultura de cativeiro.

“Se fosse necessário cometer injustiça ou sofrê-la, escolheria sofrê-la de preferência a cometê-la.”

Citação L0035-C02, em Górgias, livro por PLATÃO.

Neste alto ponto moral da filosofia socrática-platônica, reconhecemos já os ecos mais promissores de uma consciência da realidade espiritual, para não dizer até mesmo monádica.

O mal é um fato espiritual que existe, como tal, no interior da alma humana.

Naquilo que normalmente presumiríamos consistir a maldade, isto é, nos seus efeitos na vida exterior, Sócrates vê somente consequências de movimentos interiores que são não somente mais relevantes como causas, mas também mais persistentes por qualificar o estado espiritual de um sujeito agente.

Ser bom, ou ser mau, é algo que está, portanto, totalmente sob o nosso controle: podemos não controlar os efeitos da maldade alheia sobre a nossa vida, mas temos o total domínio da nossa qualidade moral de disposição e da nossa reação ao mundo que nos cerca.

Quando depois os estóicos elogiarão o autocontrole e o autodomínio, nada mais farão do que continuar esse legado da autoconsciência moral humana iniciada pelo menos desde Sócrates.

Igualmente, quando os gregos receberem o Evangelho que recomenda a mansidão contra todo tipo de maldade e agressão, suas almas não serão totalmente surpreendidas com essa solução espiritual. Deus já havia, afinal, visitado as nações com a sua Lei do Amor, cada qual nutrindo aquilo a que pudesse se dispor ouvir.

Reparem, na postura de Sócrates, que ele não deixa de ser humano, e nem recomenda que vivamos uma ilusão: entre sofrer ou causar um mal, ele prefere não participar nem como paciente, e nem como agente. Não há masoquismo, não há nenhuma Cruz forçada, ou voluntária. O que há é uma escolha, quando não existe escapatória, de aceitar o mal infringido como algo melhor do que infringir o mal aos outros.

Terminadas as experiências morais provisórias e temporárias neste mundo, que restará das nossas almas, senão aquilo que cultivamos no nosso interior diante de Deus?

Sócrates tem essa preocupação. Embora use uma mitologia datada e localizada, com os três juízes Aiaco, Radamanto, e Minos, fazendo o papel do Juízo Final de Deus, a idéia de uma Justiça imortal não deixa de acertar ao menos parcialmente no seu alvo. Até a idéia de recompensas ou punições depois da morte terrena é secundária à importância do bem da Justiça em si mesma.

Górgias, livro por PLATÃO

Em Górgias, o diálogo se dá em torno do tema da Retórica, iniciando pela disputa do objeto desta arte, mais ou menos no mesmo padrão que vimos na discussão sobre o objeto da arte sofística no livro anteriormente analisado, Protágoras.

É afirmado, e com razão, que há uma grande diferença entre a persuasão que move a crença e o ensino que transmite o conhecimento, sendo a Retórica uma atividade dirigida para o primeiro tipo de objetivo.

Um agravante no resultado da conduta do retor, em linha com a sua disposição mais interessada no convencimento do que no conhecimento, isto é, com amor maior à produção da imagem da verdade do que à descoberta da verdade, é que ele se torna mais convincente, sendo ignorante da matéria sobre a qual discursa, do que o especialista que possui maior conhecimento do assunto, mas menor conhecimento da arte retórica.

Mas fica implícito também, e entendemos isso em análise apartada já publicada, que se o público ignorante não distingue a competência de um conhecedor da de um argumentador para produzir o seu próprio juízo, e igualmente não pode confiar indiscriminadamente numa solução de certificação institucional –já que a sociedade não é mais capaz de eliminar o engano do que o são os indivíduos que a compõem–, ao fim parece ser mais razoável que cada um tenha mais amparo na solidez de uma Soberania esclarecida enquanto dom, respondendo à sua própria consciência, do que na impossível tarefa de desfazer-se de todo tipo de ignorância que prejudica um juízo.

O componente mais nobre do Górgias é a defesa socrática do bem próprio da Justiça, usufruído na alma do seu amante (ou seja, um testemunho da vida interior), na fórmula de que é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la, e que é melhor ser punido por um mal do que sair impune. Analisamos isto de forma apartada, como foi muito merecido. No contexto desse tema, Sócrates exalta a sua posição de requerer apenas o testemunho do seu interlocutor (seja Pólo ou o próprio Górgias), em contraste com o procedimento sofístico de buscar o ganho das causas com o arrolamento de testemunhas em maior número e de maior prestígio. O discernimento moral da parte de Sócrates é espetacular. Como que, diante disso, até hoje as pessoas perdem tempo com filosofias tão inferiores, como o estoicismo, etc., para não falar das várias idolatrias religiosas que colocam o foco no exterior do homem, quando existe um testemunho tão excelente como este, pagão, com mais de vinte séculos de história?

Do meio do diálogo para o fim, Sócrates disputa com o mais enfezado e arrogante de seus adversários, Cálicles, que faz uma defesa absurda da lei da natureza (do mais forte), ao modo nietzscheano, darwinista, nazista, etc. Sócrates o humilha, embora faça uso de uma mistura entre convenções e intuições genuínas. Elogia a religiosidade, e até cita, ao fim, o mito de um juízo final com punições aos tiranos, mas não sem deixar a marca da sua humildade declarando que um dia algo melhor poderia ser revelado, e sem terminar por enfatizar que o maior objetivo do bem é ele mesmo, praticar a justiça, a moderação, etc.

Sutilmente, no meio do caminho Platão evidencia como a alma é mais livre e soberana da parte de quem resiste à produção do mal, do que da parte de quem quer resistir ao sofrimento do mal, já que ao primeiro basta a Vontade, mas ao segundo se exige que à Vontade seja somado o Poder, o que tende a corromper todo aquele que teme ser vítima de injustiça, porque ambiciona um domínio que vai para além de si mesmo. Um elogio formidável ao dom de Paixão.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno9
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,9

“Aquele que não conhece será mais convincente ao dirigir-se aos ignorantes do que aquele que conhece.”

Citação L0035-C01, em Górgias, livro por PLATÃO.

Temos um grande, e na verdade insolúvel, problema aqui: os ignorantes não podem conferir quem possui ou não a autoridade para discursar a respeito daquilo que ignoram.

A conclusão deve ser a de que todas as provisões sociais de certificação são em última análise precárias no que concerne aos temas mais fundamentais que não podem ser conferidos por resultados, como a qualidade da vida espiritual, a Salvação da alma, etc.

Apesar de o objetivo inicial da filosofia platônica em um documento como o Górgias ser o descrédito da doxa, ao fim, bem entendidos os limites intransponíveis da ignorância humana, e os perigos da Presunção, terminamos por obter uma recomendação indireta do dom da Soberania.

Sócrates (e/ou Platão) foi responsável por essa importante conquista do espírito humano na história: a admissão da sua falibilidade, e da sua grande capacidade para transformar a mentira numa arte.