O privilégio da perspectiva cristã

Quem me dera ter nascido num mundo lotado de cristãos convictos do privilégio da sua perspectiva, anunciando o verdadeiro Evangelho em toda parte, glorificando o Altíssimo de maneira impecável e perfeita todos os dias.

Tenho que me contentar com o suficiente fato de que pelo menos algumas pessoas neste mundo ainda entendem o que é a Boa Notícia, ou pelo menos possuem algum desejo de entender, e que pela santa misericórdia do Eterno eu mesmo pude receber a liberdade de crer em Jesus Cristo.

Façamos as honras? Vamos novamente testemunhar?

Meu sonho é produzir o último discurso, a solução final da questão cristã. Claro que ainda não o posso, mas ao menos tenho a chance de treinar para quem sabe chegar lá um dia (embora já sabemos que não é matéria para esta vida).

Partimos da premissa do idealismo transcendental, de que a Unidade e o Bem são a forma do Ser (unum, verum et bonum convertuntur), e de que na sua infinitude o Bem só pode ser cogitado por uma mente finita como o melhor possível de acordo com a forma do limite de seu próprio intelecto e vontade em dado momento de uma jornada particular de busca e entendimento. Assim, a filosofia cristã é ao mesmo tempo universalidade e particularidade: dá o testemunho do processo do conhecer e desejar, testemunho que deve ser formulado com pretensão universalista, mas que reflete sempre uma experiência particular impossível de ser totalmente replicada em outra alma. O que é a filosofia cristã? É o amor pela verdade do Evangelho no coração de um filósofo cristão que testemunha, numa fórmula universal compreensível por analogia, a experiência da sua vida espiritual. A verdade em si nunca é relativa, ela é absoluta como posse do Intelecto divino, isto é, enquanto conhecimento que o Absoluto tem de si mesmo, ao qual cada alma criada terá o acesso parcial que corresponde à sua forma particular de ser. Isto quer dizer que a verdade em si mesma enquanto conteúdo da consciência divina é absoluta, mas enquanto conteúdo de consciência de um ser finito é relativa à sua forma limitada de ser. E não poderia ser de outra forma, porque só em Deus o objeto do Intelecto é pleno em ato. Daí que qualquer premissa realista é defeituosa por definição, querendo recompor a totalidade desde sua perspectiva limitada, partindo “de baixo para cima”, ou do Múltiplo ao Uno. O que honra a essência divina é o uso que o intelecto criado faz da sua potência para contemplar o que lhe transcende como fonte da compreensão do Ser, “de cima para baixo”, do ideal para o real, e do transcendente para o imanente. Esta forma de ciência é espiritual, superior, porque é uma contemplação amorosa (usando um termo caro ao Olavo), ou seja, é um ato íntegro que sintetiza Intelecto e Vontade, realizando a máxima da filosofia cristã do intellige ut credas, credas ut intelligas (“conhecer para crer, crer para conhecer”).

Dada essa premissa, que podemos afirmar?

O único e verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas, sempre foi pleno em si, na substância do seu ser divino. Deus conheceu e amou, satisfeito no seu Ser uno e trino, sendo visão da visão e amor do amor, conhece e é conhecido, ama e é amado pela Eternidade.

Absoluto e imperturbável na sua felicidade, paz e alegria, desejou como manifestação gratuita da sua majestade criar outros seres que vivessem, na sua condição, algo da sua gloriosa felicidade.

Agora, isto pode ser difícil, mas é preciso compreender a inefabilidade do ser abscôndito de Deus, que é o único capaz de conhecer e amar a sua verdadeira natureza infinita. Como poderia então o Absoluto criar seres que pudessem viver, no seu aspecto próprio, limitado e finito, a sua glória divina que só Ele mesmo conhece e ama plenamente? Em suma, como o Santíssimo, o Santo dos Santos, infinitamente separado e transcendente a qualquer substância que não seja a sua própria, poderia imprimir a sua experiência de ser a outro ser?

Só poderia fazê-lo criando seres completamente separados e análogos ao seu ser, singularidades indeterminadas com a potência de realizar o análogo da operação divina em suas próprias substâncias limitadas, e portanto capazes de experimentar, pela recepção da pura luz divina no seu ser, um reflexo da Glória do Criador.

Criou, assim, seres à sua imagem e semelhança, capazes, por seu Intelecto e Vontade, de conhecê-lo e amá-lo no reflexo de suas próprias substâncias.

Cada uma dessas criaturas foi feita para a plenitude designada pela Sabedoria da Providência divina que, já conhecendo eternamente a forma final que limita e define cada criatura, tem um propósito próprio para a realização do ser de cada um que criou, propósito cuja experiência chamamos de Paraíso.

Deus sempre soube, por sua eterna Onisciência que domina a totalidade dos futuros contingentes, que nenhuma criatura poderia realizar plenamente a sua liberdade na condição paradisíaca sem que antes experimentasse o seu próprio arbítrio de aceitar o desígnio divino. Qualquer criatura alcançaria eventualmente um estado paradoxal que constituiria defeito na forma de uma dúvida sem conteúdo, por não poder conceber condição melhor do que aquela em que já estaria, mas por não poder afirmar que de fato e de direito escolheu esta realidade, por perfeita que fosse. Isto quer dizer que este nunca poderia ser um verdadeiro Paraíso, porque a liberdade nunca seria plenamente satisfeita. É preciso que cada criatura livre viva o Paraíso verdadeiro, sem mácula e perfeito, o que exige que cada um decida realizar essa possibilidade como puro arbítrio, o que é impossível ser escolhido no próprio usufruto dela, dado que todas as demais condições fora da própria indeterminação do ser ou não ser já estariam realizadas perfeitamente.

Se tudo é bom, como pode um ser livre decidir escolher o que é bom?

Por outro lado, se um ser livre não pode escolher o que é bom, não se pode dizer que a bondade é plena na sua experiência, por mais que tudo mais o seja, porque a liberdade da própria criatura não é boa para si mesma, já que não possui o conhecimento total de seu próprio arbítrio.

Em suma, a plenitude perfeita do Paraíso exige que a criatura conheça a sua própria liberdade de escolher o Bem divino, e esta escolha só pode ser feita em qualquer condição inferior à plenitude designada pela Providência, no exato grau exigido para que cada criatura não desista do Amor divino, e ao mesmo tempo que não sofra nenhuma imperfeição na sua liberdade interior de dizer “sim” ao Criador de modo impecável e eternamente pleno.

A criatura que vive eternamente no seu estado paradisíaco precisa possuir, nesta perfeição, a consciência plena da sua própria liberdade de ter escolhido esta vida.

A suprema arte divina, a mais bela e sábia de todas, é a Providência da circunstância exata que satisfaça o grau interior de perfeição que cada criatura requer para a aceitação livre do Amor divino, ou seja, a garantia da precisa condição necessária à atualização da fórmula interior de aceite de cada alma.

Conhecendo a sua liberdade interior de amar o Bem, a criatura se torna capaz finalmente de se separar daquelas trevas de que teve de se servir, por sua escolha e integral responsabilidade, para discernir a conveniência do Amor divino para si.

Ser ou não ser amado?

Eis a única questão real que se põe a cada criatura, requerendo de si a confiança naquilo que ainda não se experimenta, já que se experimentasse não poderia confiar e nem escolher o Bem com verdadeira liberdade.

Dito tudo isso, lembremos que são incontáveis os mundos, universos e multiversos possíveis em que Deus realiza a sua obra, dado que cada criatura foi feita, à sua imagem e semelhança, para possuir integralmente as próprias dimensões ilimitadas de ser. O que quer dizer que, substancialmente, são incontáveis as criaturas herdeiras da Glória divina e, portanto, são igualmente incontáveis os seus mundos e dimensões particulares, em potência.

Vivemos a experiência deste mundo particular no qual nascemos como se ele fosse substancial em si mesmo, mas qualquer ciência séria, física ou metafísica, deverá finalmente reconhecer, mais cedo ou mais tarde, a indeterminação de qualquer realidade per se sem a relação com aquele que a percebe, isto é, como diria Leibniz, que o real é a Percepção que a mônada tem de seu próprio reflexo.

Vencida essa questão, resta-nos considerar que há a experiência do comum e universal, isto é, da mutualidade, e esta é mais simplesmente explicável como mútua representação das mônadas sem janelas, atualizada pela luz divina em sincronia e simultaneidade, do que por uma muito mais complexa e problemática série causal que atribuiria realidade a qualquer ser que não seja a substância simples. É inútil fazer com mais aquilo que pode ser feito com menos (Ockham).

Pior: a atribuição de substância à realidade exterior à alma constitui idolatria por um declínio da forma pura da luz refletida na mônada para a atribuição de luminosidade própria ao seu reflexo, como se fosse presumido que a Lua cheia emitisse sua própria luz e não apenas refletisse a luz que recebe do Sol (exemplo histórico: considerar João Batista um “santo” e não enxergar nele apenas o reflexo da glória de Jesus Cristo). Esse erro de idolatria é a origem da parasitagem e usurpação do Amor divino, o culto gnóstico da mistura de Luz e Trevas como origem constitutiva da realidade.

Assim, a natureza daquilo que entendemos como “realidade” não se trata de Simulação ou Holograma, mas da operação divina de criação santificada que produz a mutualidade para que cada criatura possa escolher ser ou não ser amada por si, isto é, crer ou não na transcendência do Bem em face da realidade manifestada.

Em algum grau todas as criaturas na ante-sala do Paraíso deverão realizar a sua escolha de crença na pureza da luz transcendente de Deus, ou na falsidade da mistura de luz e trevas (isto é, entre o ser e o não-ser), de modo que algum mundo terá que ser sempre manifestado para que possa ser crido como ens proprium gerado pela mistura. Esta é, por exemplo, a razão do nosso nascimento neste mundo, ou melhor, da manifestação da representação do nascimento do “nosso corpo” neste mundo.

Por mais que uma teologia honesta alcance a realidade do Pecado Original, como por exemplo na idéia do Pacto Ouroboros, não podemos daí fazer a redução antinatalista, porque esta exclui o propósito da Providência divina, por desconfiar dele ou mesmo desprezá-lo totalmente, o que já constitui uma deliberação de quem tem mais crença na integridade da mistura do ser do que na da sua pureza (como se dá com os que adoram o Caos, o Nada, etc.).

Amar a Deus e ao próximo é amar a liberdade de Deus e também a do próximo: tanto a do Criador de permitir a manifestação da liberdade humana, quanto a de cada criatura de conhecer a sua própria liberdade, já que tudo isto é o próprio sentido da vida presente. O ódio contra essa liberdade é apenas uma fraqueza de fé, facilmente curável pela vida espiritual, mas impossível de se resolver no âmbito exclusivo do psiquismo.

Sobretudo, no espírito de amor ao próximo, devemos receber e cultivar a inteligência de respeitar a jornada individual de cada alma, já que somente o Criador conhece a medida própria da experiência necessária a cada uma para atingir a solução espiritual, bem como as potências particulares que devem ser nutridas para cada caso. Há uma fórmula precisa para cada alma, conhecida apenas pelo Altíssimo. Na nossa ignorância, só podemos respeitar e aceitar esse mistério. A obra de Deus se realiza num muito exato e apropriado PROCESSO, e a integridade desse ultrapassa todos os nossos tolos idealismos, mesmo que supostamente cheios da caridade cristã. Mas que caridade pode superar a confiança no triunfo do Bem?

Entendido tudo isso, o que nos cabe?

A quem ficar clara a necessidade espiritual da liberdade humana, resta terminar o movimento interior de escolha do Bem na própria vida interior, que é o Primeiro Mandamento de amar o Amor divino que livremente nos concedeu a promessa do Bem eterno, bem como o outro movimento interior de produzir o melhor testemunho possível, com ações e palavras, para que as outras almas sejam incentivadas a desejar e escolher a confiança no mesmo Bem, que é o Segundo Mandamento de amar ao próximo como a nós mesmos, isto é, desejando para o outro o melhor que podemos desejar para nós mesmos, que é uma vida cheia de fé, esperança e amor. Certos dons espirituais, quando esclarecidos e assumidos, podem auxiliar nesta jornada (o que já falamos na explicação das várias Libertações, do Realismo Responsável, e da contemplação da Mônada e dos Sete Dons particulares).

Esse é o Evangelho, a Boa Notícia, a verdadeira comida e a verdadeira bebida de que estão esfomeados e sedentos todos os seres humanos.

É o anúncio da Cruz, que é a morte da mentira.

E é o anúncio da Ressurreição, que é a vida da verdade.

Mas só podemos dar o que primeiro recebemos: daí que só pode dar o testemunho do Amor divino quem o recebeu em si.

Se existisse uma escola de filosofia cristã sobre a qual eu fosse o responsável, esse seria o seu mandato: a recepção e a doação do testemunho do Amor, que é o privilégio da perspectiva cristã.

Um testemunho que antes recebemos de Jesus Cristo, porque nisto consiste o Amor: em que não fomos nós que amamos, mas foi Deus quem nos amou primeiro.

Natsu 2024

É o San’yaku:

Yokozuna TERUNOFUJI

Ozeki HOSHORYU

Ozeki KOTOZAKURA

Ozeki TAKAKEISHO

Ozeki KIRISHIMA

A Filosofia na Idade Média, livro por Étienne GILSON

Panorama da história das idéias:

História da busca do acordo ou da separação entre Teologia e Filosofia: o encontro da Revelação Cristã do Evangelho e da Patrologia com a Filosofia Grega de Platão, Aristóteles e dos Neoplatônicos

Dentre as valiosas e inteligentes considerações do autor, talvez a mais preciosa seja a de que se enganam tanto aqueles que atribuem mérito a um dogmatismo teológico acabado na filosofia da idade média, quanto aqueles que desmerecem o período como se fosse apenas um intervalo entre as grandes luzes da antiguidade e da modernidade: erram ambos, já que foi a Idade Média que produziu a liberdade, pelo menos em germe, contra todo dogma, e que preservou a capacidade da filosofia, para não falar da cultura em geral, de amar uma verdade que transcende todos os tempos.

O grande desafio e mérito da Filosofia Medieval foi o de aprender com a Teologia cristã a rejeitar os dogmas gnósticos da Filosofia grega, e de aprender com a Filosofia grega a rejeitar os dogmas gnósticos da Religião cristã. Essa noção foi quase que totalmente perdida na história das idéias, exceto por alguns filósofos cristãos que não perderam a pista, como Leibniz. De resto, a historiografia tende a cultuar algum tipo de gnosticismo, seja o da Religião Cristã, ou o da Filosofia Grega, demonstrando que esses impulsos são suprahistóricos, imanentes ao homem como uma constante tentação. A solução é uma fórmula descoberta pelo esforço da cultura filosófica cristã: crer para conhecer e conhecer para crer, isto é, viver a Vontade pelo Intelecto e o Intelecto pela Vontade, mirando no ideal de um Bem sempre transcendente.

Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,3

Natsu 2024

É o San’yaku:

Yokozuna TERUNOFUJI

Ozeki HOSHORYU

Ozeki KOTOZAKURA

Ozeki TAKAKEISHO

Ozeki KIRISHIMA

Ficção Americana, filme por Cord JEFFERSON

Quando vejo este ator que protagonizou Ficção Americana, só consigo lembrar do Bernard de Westworld, uma das melhores séries, senão mesmo a melhor de todos os tempos (a 1ª Temporada) para o meu gosto.

Aqui o ator representa um personagem culto, um escritor negro que luta contra a indiferença do mundo à sua sofisticação enquanto os estereótipos raciais são elogiados e promovidos. Ao mesmo tempo ele vive um drama familiar: a saúde mental de sua mãe se deteriora, e a sua irmã, maior aliada no cuidado da mãe, morre logo no início do filme. Seu irmão não liga para nada e não dá o suporte necessário, já que está vivendo a sua própria estorinha particular e sagrada de sexo e drogas que não pode ser interrompida por nada deste mundo.

De birra, o nosso autor escreve um livro cheio de tolices e dos clichês que despreza, e manda para ser avaliado por intermédio de seu agente editorial.

Não surpreendentemente, o livro é bem aceito e lhe causa um sucesso espantoso. Conflitado por essa realização inesperada, o autor prossegue na farsa de que é um fugitivo da polícia contando a sua história de marginalizado, já que os lucros disso ajudarão a sustentar a mãe nos cuidados necessários.

Sem entrar em maiores detalhes do filme, o que temos aqui é uma peça de drama leve num mundo em que o noticiário já é suficientemente pesado. Pensando em tudo o que Hollywood costuma produzir, até que o filme não é dos piores.

Mas espiritualmente, que proveito podemos tirar disso, se é que podemos tirar algum?

O grande ganho vem do atenuado senso de Louvor da parte do protagonista. É fraco e meio desqualificado, mas está lá: ele não aprova nem deseja participar de uma porcaria de vida, numa porcaria de sociedade, senão dentro dos limites do que lhe é estritamente necessário. Mantém a sua seriedade até mesmo diante dos apelos do charme de uma candidata a esposa que, apesar de ser muito decente, não passa no teste de integridade moral ao apreciar a obra clandestina do nosso autor. É uma alma pequena que só vai diminuir o valor do outro.

O apelido do personagem principal já lhe profetiza o destino: “Monk”, que quer dizer “monge”, isto é, aquele que prefere a reclusão sagrada do que a mistura com o mundo profano.

Corretamente, Monk não decai ao nível do julgamento moral do próximo, seja de sua família ou de qualquer outro. Ao contrário, até sabe apreciar a alegria alheia, embora saiba que ela é apenas uma tolice e, por esta razão, que não pode participar dela. Isto fica claro na cena mais poderosa do filme, para mim, que é quando ele observa a festa de casamento da empregada de sua mãe.

Falando na mãe de Monk, esta lhe diz que ele é como o pai, um gênio, e que gênios são pessoas que não sabem como lidar com as outras.

Sendo gênio ou não, Monk não tem o valor redentor necessário para emprestar o seu Louvor ao próximo, razão pela qual a parte ruim da estória acaba se tornando mais prejudicial do que a parte boa foi lucrativa: o filme transmite a legitimidade do Sistema da Besta e valida o espírito de Ingenuidade.

Afinal de contas, Monk pode até ser um gênio, mas não é o dono da verdade. No máximo, é dono da sua própria verdade, e isso não melhora a situação de ninguém além dele mesmo.

Um bom monge tem o Evangelho, a verdade realmente redentora e universal, aquela que não só separa a alma do mundo, mas que a faz brilhar sobre ele, atraindo a todos os de boa vontade com a promessa de salvação.

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,4

Corra!, filme por Jordan PEELE

Este mundo não é um lugar onde nascemos para viver uma vida cheia de realizações, satisfações e sucessos.

É uma selva cheia de serpentes, uma estepe cheia de lobos, um deserto cheio de escorpiões.

E as selvas, estepes e desertos foram todos dominados pelo pior predador de todos, o ser humano, que inventou o pior dos ambientes que a natureza jamais havia sonhado: a sua civilização, o maior disfarce instalado em cima da realidade violenta e brutal de seu fundador.

Corra! nos mostra essa realidade de maneira crescente e quase insuspeita.

O protagonista é um jovem negro que namora uma moça branca por algum tempo, e que finalmente é convidado para conhecer a família dela.

Quando chegamos lá descobrimos um pessoal estranhamente bem educado e bem disposto com a presença do estranho num ambiente lotado de brancos. Suspeitamos de uma coisa aqui, outra ali: a mãe da menina que dá a entender gostar de usar hipnose com propósitos benéficos, os serviçais negros que trabalham na casa da família como zumbis, etc.

E então finalmente descobrimos o que já era de se esperar, que todo esse pessoal (a namorada inclusa) é racista e desumano, e que montaram um esquema de escravidão com uma metodologia moderna e heterodoxa: a menina serve de isca para atrair incautos namorados negros que eventualmente são hipnotizados pela mãe e dominados a tal ponto que são forçados a participar naquela sociedade do jeito que os brancos desejam, seja como empregados, como amantes, ou até como doadores de órgãos, como será o caso do nosso protagonista que é leiloado como propriedade para um homem cego que deseja enxergar novamente.

A sorte do nosso protagonista foi que descobriu alguns truques em tempo de se libertar do processo de dominação, e por fim que o seu amigo, que é agente do TSA (aquele serviço chato que opera ostensivamente nos aeroportos dos EUA desde o 11/09), resolve investigar o seu sumiço e acaba resgatando-o no final.

Corra! manipula o forte componente racista da cultura norte-americana para criar um terror moderno que se não nos ensina grandes coisas do ponto de vista espiritual, ao menos colabora para a abertura de certo censo de vigilância, e para a idéia crítica de que é uma tolice ingênua querer fazer desta vida um passeio agradável num mundo amigável. Infelizmente isso ficou restrito ao componente racial, mas não é difícil extrapolar o sentido para a condição humana como um todo.

Daí aprendemos a inteligência, que é correr do mal, sempre.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,9

Nevoeiro Misterioso, filme por Frank DARABONT

Não espere um final feliz em nenhuma estória que tenha sido contada ou inspirada pelo mestre do terror Stephen King. E para a nossa finalidade aqui também não adianta esperar nada espiritualmente produtivo, por razões óbvias.

Eu até gostaria de dizer que este filme é apenas ruim, mas a nossa situação é ainda pior, porque é um filme estúpido.

Temos um pai de família ilhado com seu filho num supermercado enquanto a sua cidade é cercada por uma névoa misteriosa cheia de monstros perigosos. Todo o filme gira em torno do mistério do que está acontecendo.

No original em inglês o sentido do título é mais completo, já que Mist quer dizer névoa, ou nevoeiro, que é um termo que também dá a etimologia de “mistério”. O desconhecido gera todo tipo de reação no ser humano, e esse é o tema do filme.

Em primeiro lugar existe a reação de descrença e ceticismo da parte de figuras antagônicas que obviamente vão pagar caro o preço por sua visão crítica, da forma mais sangrenta possível, do jeito que o povo gosta.

Em segundo lugar existe a reação de integração entre o fenômeno atual e a visão mística e religiosa da população local, estimulada pela personagem de uma mulher mais ou menos histérica e carismática que vai vincular os fatos vividos pela comunidade com um certo senso meio desencaixado das profecias bíblicas a respeito do fim dos tempos.

A realidade nua e crua, nos termos mais materialistas, é a de um incidente numa base militar próxima, onde as forças armadas teriam supostamente aberto um portal por onde a névoa e seus monstros puderam entrar no nosso mundo, vindo de uma outra dimensão.

De fato, quem faz o mal entrar no mundo é o ser humano, mas o terror mais real é o mais prosaico e ignorado de todos, já que ninguém seria obrigado a experimentar nem a primeira das maldades se sua exposição não fosse forçada pelo nascimento num mundo decaído e amaldiçoado. Mas vamos deixar isso para lá.

Eventualmente o fanatismo da líder religiosa do supermercado faz com que o nosso protagonista resolva empreender uma fuga com alguns aliados, algo que vai terminar da forma mais estúpida possível quando o combustível do carro de fuga acaba e eles surpreendentemente não sabem o que fazer com esse fato mais previsível do que o pôr-do-sol de todo santo dia. Desesperado, o nosso herói resolve matar todos os seus companheiros de fuga, inclusive seu filho. Mas ao término da estória, descobre que a salvação estava muito próxima, com a chegada de um comboio militar de resgate. Uma última olhada acusatória da parte de uma mulher à qual o nosso herói recusou ajudar no início do filme soma ao remorso uma última pitada de culpa.

O que dizer de um final tão patético, para não dizer mesmo, como já disse, estúpido?

Só posso dizer que é uma apologia do mal como triunfo do caos e do absurdo, e essa é a intenção não digo nem do gênero do terror no cinema como um todo, mas do espírito mesmo de Terror, ou Pacto com o Inferno, que é o maior beneficiário desse tipo de “arte”.

Não existe redenção, nem superação, nem salvação de nenhuma espécie.

Ao fim até mesmo a pentelhíssima chefe religiosa do supermercado, apesar de seu absurdo radicalismo de líder teocrática, ao confiar numa providência do jeito mais torto e corrompido possível, estava mais próxima de alcançar uma solução para o problema através do seu sistema de sobrevivência, que apesar de nefasto tinha alguma eficiência ao manter certa ordem social, do que nosso herói ilustrado e esclarecido que não aguentou nem mesmo a tentação de matar seu próprio filho.

Neste sentido este filme mostra os horrores da religião ao mesmo tempo em que mostra a sua necessidade, de vez que diante do desconhecido até a fé mais deturpada e desviada é mais forte do que a crença na salvação que dependa de recursos próprios, a qual tende a acabar na sua fraqueza cedendo ao desespero inevitável de quem não crê em nada além e acima de si mesmo.

O filme conta esta estória espiritual: o filho inocente de um pai descrente é apresentado a um mundo cheio de perigos e ameaças desconhecidas, e quando seu progenitor é desafiado a protegê-lo até o fim depois de já ter escolhido encarnar a criança neste mundo, falha miseravelmente ao sucumbir ao desespero derivado da sua falta de fé.

Nota espiritual: 3,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção3
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,0

Behemoth, Leviathan, Blake, Olavo e Dugin: as duas faces do Ouroboros

Não querendo ir muito a fundo agora, mas interessado não obstante em notar algumas particularidades da nossa cultura mais tradicionalista, conservadora e direitista, quero chamar a atenção para o uso que se faz daquelas figuras bíblicas monstruosas no Livro de Jó, o Behemoth e o Leviathan, dentro do discurso político contemporâneo, ao menos dentro de certo pensamento que pretende ser entendido de simbolismos e misticismos, ao estilo ocultista.

Se algo aliás precisasse ser levantado como prova contra a pretensa caridade cristã desse pensamento político, seria suficiente apontar para esses segredos esotéricos. As coisas de Deus são simples e claras, embora possam ser, e muitas vezes são, também profundas e sutis. Mas os mistérios de Deus não estão ocultos de forma que uma coisa signifique outra, ou seja, uma violação à veracidade do valor de face da Revelação. E este é o problema mais antigo do cabalismo e da tradição como um todo (e de todas as religiões), porque advém de uma esperteza humana que se diz a herdeira mais fiel possível da Revelação, mas na qual só podemos confiar através de seres humanos iguais a quaisquer outros: eles invertem as coisas. Tudo pode ser falsificado, inclusive a santidade e a caridade com maneiras pirotécnicas que traem a pureza das coisas divinas com sinais, prodígios, milagres, e todo tipo de truque que se possa imaginar.

Idealmente, porém, não precisamos nem levantar essas reflexões, porque a desmoralização do político cristão se dá pela força mesma da sua incongruência de querer misturar a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens. Quem quer se eleger em nome de Jesus Cristo para ter poder sobre os homens pretende ser justo diante de Deus e sábio diante do próximo, e as duas coisas são condenáveis. Uma realidade completamente diferente é a do dever de estado de quem se vê, por circunstâncias providenciais, com o poder político que nunca desejou e nem tramou a posse. Nestes casos aplica-se a filosofia política, como na situação da herança de um poder que legitima o direito divino dos reis. Mas uma eleição já não é um processo cuja origem viola essa integridade moral? Quem se candidata não tem pretensão de ter o poder e, assim, não se coloca como sábio ou justo o suficiente? O governante mais justo é sempre relutante, e faz o contrário de um candidato: foge do poder com todas as suas forças, porque teme o mal, isto é, tem a verdadeira inteligência. Este é quem deveria governar, aquele que nunca se colocaria no poder por si mesmo, mas que só pode ser colocado pela ação de uma força divina inescapável, como vemos no caso de Davi em contraste com Saul. Por isso os “governos cristãos” desde a época dos reis medievais já não existem mais nem sequer como possibilidade. A própria democracia garante isso, que só o mal possa triunfar, porque só quem se pretende bom o suficiente para ser candidato pode ser eleito. Daí só resta a escolha do mal, mesmo que seja do chamado “mal menor”, essa pobre e fraca consolação moral, um remédio sempre insuficiente. E se disserem que todas as outras formas de poder sustentam tiranos, então está provado com isso não o mérito da democracia, mas o demérito de toda a sociedade humana que pretende governar a si mesma, quando o seu único governante deveria ser Deus. O governo de Deus equivaleria ao mútuo desarmamento e à multiplicação dos reinos e nações, junto com grande paz e prosperidade, o amplo direito migratório, e por fim o aumento progressivo da adesão das pessoas livres à vida consagrada, significando a superação do Pacto Ouroboros e o chamado voluntário da humanidade ao Segundo Advento e ao governo do Rei dos Reis, Jesus Cristo (v. Capítulo “A melhor geração” em A Coruscância).

Mas voltando ao tema principal, o ocultismo. Enquanto a menção divina aos monstros bíblicos presta santamente à inspiração de humildade e temor no coração de Jó, a Gnose (a salvação pelo conhecimento secreto) quer nos dizer que sempre tem algo mais por trás, e que esse algo é mais importante do que o que pensamos sobre a primeira impressão, ao ponto de que pode ser chamada de “a verdade” de fato, oculta sob as primeiras impressões e decifrável somente pelo sábio especialista, o ocultista, o esotérico, o iniciado nas etimologias, numerologias, etc. Essa mentalidade valoriza o segredo e um certo elitismo esotérico que é típico de todas as religiões, que é o que as torna comuns e enraizadas no grande segredo de todos que é a Tradição Primordial, isto é, o próprio Pacto Ouroboros.

Quando William Blake produz a imagem da luta entre os monstros, sua idéia não é aquela simples da inspiração do temor e da humildade. Essas virtudes são para os ignorantes, não iniciados. A idéia de Blake é a de um processo de produção de realidades pelo controle de oposições, como na alquimia. E é por isso que a identificação do Ouroboros com o Leviathan é equivocada (assim como a identificação dele com o Behemoth, ou Demiurgo): antes, o Ouroboros se liga à figura do controlador de ambos os monstros, já que é a relação entre os dois que constitui o ciclo de criação, destruição e renovação que mantém tudo sob o controle do “criador”. Mas este, se cria algo, é como criador de uma mentira, aquela mesma que será destruída pelo sopro da verdade de Jesus Cristo. O “deus” da imagem de Blake não é o verdadeiro Criador de todas as coisas, que na pureza da sua santidade nunca precisou fazer uso do mal para produzir o bem, mas é o usurpador do lugar de Deus, que precisa fazer o uso dialético de forças antagonistas para obter o controle dialético a realidade. O Ouroboros, como já expus antes, controla as oposições ao seu propósito, que é o de manter almas escravas do seu sistema de dominação, gerando ao lado da tese a antítese, e ao lado do Behemoth, o Leviathan.

Agora, entre os entendidos (ou iniciados?), tradicionalistas de certo direitismo contemporâneo, temos figuras como Olavo de Carvalho no Brasil, ou Alexandr Dugin na Rússia, que concordam com o misticismo esotérico de Blake.

De minha parte não posso disputar, falando simbolicamente, contra a idéia de que haja uma guerra de monstros, mas esta pode ser identificada dentro do ser humano desde a origem e mais apropriadamente, como em Gênesis 3, do que na mitologia dos monstros do livro de Jó.

Quando a mulher e a serpente são condenadas a perpetuamente manter-se em conflito até o fim dos tempos, a mulher pisando na serpente, e a serpente mordendo o pé da mulher, já temos aí a imagem da dominação do Ouroboros: a mulher servindo à perpetuação do estado decaído, querendo livrar-se da maldição e da perseguição da serpente, e a serpente atormentando a mulher e sua descendência com a sua acusação da desobediência a Deus. Exatamente as duas faces do Gnosticismo, o exotérico e o esotérico, Behemoth e Leviathan, a Tradição e a Revolução.

Aqui no Brasil, Olavo trouxe a imagem dos monstros em luta e o uso simbólico dessa figura na introdução do seu livro A Nova Era e a Revolução Cultural. Aliás, usou até mesmo a ilustração de Blake na capa do seu livro, e o mencionou no texto. Vejamos algo do que ele diz sobre o tema:

Não conheço essa “aplicação rigorosa do simbolismo cristão” que foi mencionada, e até poderia ir atrás, mas suspeito de que se trata de segredos impossíveis aos não iniciados, porque na minha modestíssima leitura bíblica não entendi nada disso do livro de Jó. Mas, novamente, não sou iniciado nesses mistérios, e cá entre nós não estou muito interessado em ser.

O fato é que até este ponto Olavo elogiava o recurso da vida interior, como vida espiritual (ou ao menos um resquício dela), em direção ao escape da dialética dos monstros, embora já tenha apontado para a obediência de Behemoth em contraste com a rebelião de Leviathan, o que é uma idéia problemática para dizer o mínimo. Ou talvez não seja, se pensarmos que o criador de Behemoth e Leviathan é o Ouroboros que se coloca no lugar de Deus, e a quem ambas as reações significa submissão ao seu poder, seja a obediência ou a rebelião, o gnosticismo exotérico das religiões, ou o gnosticismo esotérico das seitas e heresias.

Senão vejamos quais são as qualidades do “obediente” Behemoth: ele impera “pesadamente sobre o mundo“, criado em “unidade de essência” com o homem, um “poder macrocósmico e uma força latente na alma humana“, um “poder material“, ele é o “peso maciço da necessidade natural“, ele é a “natureza” que combate contra “as forças rebeldes antinaturais“, e é a “necessidade implacável“.

Quais dessas qualidades apontam para a santidade de Deus? Nenhuma.

Deus é Amor, ele é revelado assim pelo Filho de Deus em pessoa, que pessoalmente renunciou ao seu poder de julgar e destruir para indicar a natureza da essência divina no perdão e na misericórdia.

Literalmente Jesus abriu mão do seu poder para exercer o seu amor.

Transformar pedras em pães, ser resgatado de um salto no abismo ou governar todas as nações da Terra, todas essas tentações resistidas por Jesus Cristo mostram a supremacia da sua santidade, do que é a verdadeira realeza espiritual, sobre a falsa majestade de um poder cego e monstruoso que trai o Amor, que é a essência do monstro Behemoth.

O Behemoth é um monstro que, se tem função, como veremos, é a de no fim ser destruído com o seu insuspeito parceiro, o Leviathan, para que seja revelada a perversidade da mentira do Oubororos, a Serpente do Mundo.

Isso quer dizer que o Behemoth é o deus dos tradicionalistas, assim como o Leviathan é o deus dos revolucionários.

Um arrasta o homem para a servidão da carne e do sangue, e o outro domina a revolta contra essa servidão dirigindo-a contra o Deus verdadeiro, acusando-o de ser o Demiurgo deste mundo com a intenção de aprisionar almas inocentes sob a escravidão da matéria.

Ambos os monstros servem ao Ouroboros, ou até mesmo constituem o espírito da Serpente do Mundo, porque seja como obedientes ao diabo na manutenção da terra decaída e amaldiçoada, ou seja como aliados dele na rebelião contra o Deus verdadeiro, de qualquer modo ambos tradicionalistas e revolucionários são servos do mesmo mal que quer manter o império da sua usurpação.

Aqui está o ponto marcante que evidencia essa interpretação: o poder de Behemoth reside no ventre. Esse é o deus dos tradicionalistas: o ventre humano através do qual se perpetua o Pacto Ouroboros. Já verificamos várias vezes o valor desse simbolismo da união do masculino e do feminino, quando falamos do hexagrama, do esquadro e compasso da maçonaria, etc. O encontro dos sexos é o poder que sustenta o Ouroboros. A “obediência” ao poder da “necessidade implacável” sustenta uma natureza que não é posta como decaída e amaldiçoada por decorrência da queda em Gênesis 3, obviamente, mas como se fosse a pura manifestação do desejo de Deus e não uma realidade decorrente da ruptura espiritual com o Criador. Afinal, esse “deus” gnóstico faz uso das trevas junto com a luz, do mal junto com o bem, etc.

Olavo devia ter alguma intuição ou mesmo esclarecimento dessas coisas, quando chama a ambos de monstros e de “forças cegas”, aos quais opõe a vida interior na qual o ser humano poderia vencer “com a ajuda” de Jesus Cristo. Obviamente essa é uma diminuição iniciática da verdadeira salvação, já que a vitória contra o mal e a mentira é uma ação divina, e ao homem cabe apenas aceitar e receber a Graça da sua salvação. Mas pelo menos parecia haver até aqui uma certa possibilidade de superação da dialética dos monstros, ou, se quiserem, das alternativas políticas. De forma ambígua e obscura, é verdade, mas possível de qualquer modo.

Em outra parte, num escrito separado e futuro, Olavo parece ter dado notícia disso com outra menção a esses símbolos:

De novo o Behemoth é o “monstro do bem”, o “hipopótamo da ordem divina” contra o “crocodilo da rebelião“, uma idéia provavelmente advinda do simbolismo egípcio onde o enfrentamento dessas feras nas cercanias do Nilo sempre sugeriu noções espirituais àquele povo. E perguntemo-nos: por quais meios veio o esoterismo egípcio impressionar a visão moderna, senão pela influência das sociedades ocultistas?

Mas, e de novo ambiguamente, parece que o confinamento do conflito espiritual entre os monstros “no interior da alma” poderia levar à sabedoria. E isso eu não posso negar, já que o entendimento do propósito comum entre os gnosticismos exotérico e esotérico me ajudou muito a compreender a dimensão da dominação do Ouroboros sobre esta humanidade de cativos. Essa conclusão, porém, Olavo não pode tirar, porque para ele justamente um lado da monstruosidade deste mundo têm a suposta razão do serviço obediente a Deus.

E para mostrar como o modesto erro dessa noção poderia levar a grandes erros como consequências futuras, temos o desenvolvimento da idéia desde uma perspectiva de confinamento do conflito no interior da alma até uma ação justificada no próprio conflito externo, com a desculpa da dialética histórica:

Aqui já não se trata apenas de vida interior, mas de ação externa, com efeitos na cultura, na política, etc. É engraçado que se lermos atentamente ao que Olavo diz aqui, percebemos que ele ainda tem uma linguagem que dá conta do quadro maior, embora ele não assuma as necessárias repercussões disso. Ele mesmo diz que a esquerda não é o mal encarnado, e que o espírito revolucionário pode ser ora direitista, ora esquerdista. Isso poderia levar a conclusões excelentes, se o filósofo buscasse a essência comum dos monstros a serviço do Ouroboros, porque a verdadeira revolução contra o governo de Deus é a traição do Pecado Original. Mas ele não faz isso. E se não faz, é porque já decidiu sair da esfera do esclarecimento da luta interior para o da participação na dialética histórica. Olavo já não quis somente buscar e dar o testemunho da verdade para a glorificação de Deus àquelas poucas almas interessadas. Não lhe basta. Quer ser influente, quer alterar o curso das coisas, o destino das massas (a “rocha nua” que os maçons querem transformar no “Estado” para construir o Reino de Deus na Terra), e por isso se engaja também na atualidade onde supostamente a esquerda teria de ser combatida até que certo equilíbrio de forças pudesse ser restaurado (“até que a roda da História complete seu giro“). Por isso podemos dizer que, até onde enxergamos, Olavo escolheu ser um Bispo no Sistema da Besta ao deixar de denunciar o esquema do Ouroboros, e ao participar da legitimação do mesmo pela validação do Tradicionalismo, do Behemoth.

Tive o privilégio de verificar a consolidação dessa decisão no decorrer de uma década na qual acompanhei mais de perto o trabalho do filósofo. Aos poucos Olavo deixou de se importar com a sua pesquisa de maior valor, aquela que só tinha repercussão com uns poucos –e qualquer aluno mais antigo sabe que ele sempre deixou seus grandes projetos pelo meio do caminho–, e passou cada vez mais tempo se engajando na cultura de massas, com o incentivo da busca do poder político e religioso na suposta missão de treinar uma futura elite política brasileira.

Olavo morreu, mas o Tradicionalismo continua firme e forte. E temos o exemplo daquele outro filósofo russo, Dugin, com quem aliás Olavo chegou a disputar certa vez o tema da Nova Ordem Mundial.

Dugin também interpreta o Leviathan como a força do ateísmo, da desordem e da modernidade. O monstro das águas precisa ser derrotado. Seu adversário é o monstro da terra, da tradição, da religião, da ordem, etc., o Behemoth. Puxando esse simbolismo para o que lhe interessa, que é a justificação do papel histórico e, porque não dizer, messiânico, da Rússia, no “coração da terra”, Dugin afirma que o Leviathan está encarnado no processo histórico derivado da manifestação do poder do Império Britânico, marítimo, colonialista, mercantilista, capitalista e globalista, em oposição ao Behemoth que se encarna na manifestação do poder do Império Russo, terrestre, tradicionalista, nacionalista, socialista. As ideologias que representam a concentração dessas duas manifestações, por sua vez, são o Atlantismo e o Eurasianismo.

Talvez o que escape (ou não?) a Dugin, como escaparia a Olavo, é a evidência de que o processo histórico inteiro de desobediência a Deus se dá através desse conflito dialético, porque é o desenvolvimento do Ouroboros contra Deus, usando de ambas as forças de obediência e de rebelião para dirigir a sua grande e primordial rebelião contra o governo divino.

Escatologicamente, enxergamos isso no Fim dos Tempos quando tudo é revelado, finalmente (daí que o último livro bíblico se chama Revelação, ou “Apocalipse” em grego, porque é o tempo da revelação não só de Deus na pessoa do Filho, mas do inimigo como o Ouroboros, o Pai da Mentira): a Besta do Mar e a Besta da Terra se unem contra o Criador de todas as coisas, revelando sua verdadeira natureza.

De um lado, pela Gnose Tradicional, ou Exoterismo Gnóstico, o Tradicionalismo identificava o Ouroboros como se fosse o Deus verdadeiro, exigindo a perpetuação do Pecado Original, o sacrifício de sangue, o temor do inferno, e a obediência à tradição.

De outro lado, pela Gnose Revolucionária, ou Esoterismo Gnóstico, para controlar as oposições e dominar as dissidências, o Revolucionarismo identificava o Deus verdadeiro como Demiurgo que fez a substância espiritual decair para a material, aprisionando almas inocentes no seu esquema de poder.

No Fim dos Tempos finalmente Behemoth e Leviathan juntam-se para fazer guerra aberta e declarada contra Deus, a Besta da Terra e a Besta do Mar, o Falso profeta e o Anticristo. Uma humanidade unida no espírito da grande rebelião.

Note-se: a Besta da Terra fará com que todas as nações do mundo adorem a imagem da Besta do Mar.

Isto quer dizer que o fingimento da ortodoxia religiosa no suposto serviço do Deus verdadeiro se converterá na validação da grande rebelião luciferina, de modo que a Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros, será revelada como a Religião Universal.

É por isso que qualquer desejo sincero de obediência ao Deus verdadeiro sempre vai entrar em conflito com a ortodoxia religiosa, inevitavelmente, porque o Espírito Santo dá o testemunho da verdade que está fora das mentiras da Tradição. O Senhor nos antecipa desde já aquela última Revelação, mostrando-nos, pelo menos até onde nos for suportável, que todas as religiões estão enraizadas naquela Tradição Primordial que é o Culto da Serpente.

A Serpente do Mundo, o Ouroboros, terá a sua mentirosa rebelião destruída com o sopro da verdade que sairá da boca do Filho de Deus, como sabemos.

Até lá o que podemos fazer é fechar os livros dos “mestres” do simbolismo oculto, Olavo, Dugin e tutti quanti, e reabrir o Livro de Jó, o primeiro dos livros de sabedoria, para reaprender o sentido mais simples e profundo da lição divina: o de que a vitória divina é garantida, infalível e devastadora, e que a salvação humana está na humildade que sai da frente do seu Senhor, que lhe abre o espaço para sua obra, a Ele que já declarou: “a mim pertence a vingança“.

Não temos que realizar nenhuma missão social, cultural ou política, porque estas vitórias são vazias e capturadas pelo engenho dialético do Ouroboros.

Nossa vitória é interior, na dimensão da nossa alma, na forma da renúncia ao mal e da participação na corrupção do espírito do mundo, com o desejo da realização da ação divina na nossa alma e no mundo.

Nossa submissão ao Ouroboros se dá pelas ambições da vida mundana: familiar, econômica, política, cultural, etc., o querer participar do destino do mundo, um mundo que já foi acusado, julgado e condenado pelo Espírito Santo.

A nossa entrega ao Deus verdadeiro se dá pela vida espiritual, que é o desejo de participar da Eternidade.

A pescaria das almas: a arte da fidelidade e da integridade

Presta um bom serviço quem honra a própria natureza em fidelidade ao ideal que a formou, no lugar de prestar culto e pagar tributos a outras demandas estranhas a sua essência. É assim que nos aproximamos de Deus conforme estranhamos tudo no mundo que diminua a evidência da sua bondade e do seu governo justo, como o que deriva da história da usurpação humana contra o Trono.

Digo essas coisas em caráter de introdução dos meus leitores ao problema, bem típico, que ando enfrentando agora: o da escolha entre a fidelidade a uma forma de trabalho mais ideal e perfeita, porém menos funcional, ou outra mais adequada ao sistema do mundo humano, mas menos adequada para a chamada do próximo a um nível melhor de entendimento da realidade.

Pode-se pensar que esse tipo de questão é menor, ou até uma futilidade, mas só julga assim quem não possui mais (se é que já possuiu) o poder de apreciação da verdade das formas das coisas. Somos humanos e, portanto, capazes pela nossa liberdade para definir os mais sutis e efetivos caracteres das nossas ações, de modo a produzir influência em nós mesmos e nos outros de modos muito variados e ricos, com tanto mais poder quanto mais algumas almas queiram manter-se ignorantes do sentido daquilo que lhes impressiona. Quando dizemos, por exemplo, que alguém sofre de apeirokalia, estamos falando disso certamente: de uma profunda incapacidade de percepção de sutilezas. E pois bem, eis a questão mesma que se me apresenta: tratar de temas que requerem uma riqueza maior na sua lida da forma como merecem, ou na forma de um mundo que as despreza na sua sutileza.

Ora, se o mundo detesta o valor do detalhe das coisas, e o meu trabalho é o de “pescar homens”, ou seja, resgatar os que tiverem olhos e ouvidos para receberem um chamado para fora da confusão em que foram enfiados, como farei isso se me preocupar com a forma que mais agrada ao espírito do mundo de cujas garras mesmas eu desejo livrar aqueles irmãos que estão perdidos por força dele?

Usar do mundo sem se deixar escravizar por ele: essa é a lição do Apóstolo, e é uma grande tarefa que exige uma sabedoria que apenas Deus pode nos dar. É assim que uso a língua portuguesa, os computadores, a internet, etc. E devo ir além, abandonando a preocupação de agradar o mundo nas suas preferências que tendem à dissolução das almas, e produzindo o que tem maior valor de acordo com uma régua mais benéfica.

Essa medida mais positiva leva em conta a essência espiritual do ser humano: a sua liberdade. E a liberdade é a primeira coisa vendida no altar dos sucessos mundanos. Faz-se o que é preciso ser feito, e assim aos poucos o comprador da vitória vende dia a dia a sua integridade moral, a sua felicidade, a sua liberdade de ser quem é.

É preciso escolher entre ser feliz ou ter razão.

A felicidade é uma realidade interior que resulta da ação da paz de Deus no nosso coração, porque estamos reconciliados com Ele e conosco mesmos. Esse estado só pode resultar da fidelidade à verdade tal como ela está refletida na nossa consciência. A verdade plena pertence apenas a Deus, ela nunca é nossa posse plena, mas algum reflexo dela sempre toca nossa alma, e uma consciência limpa é a que resulta da fidelidade à verdade que está refletida no nosso interior.

O ser humano aprendeu a mentir dizendo assim para si mesmo: já que não tenho aquele conhecimento divino e perfeito das últimas realidades, não preciso ser fiel ao pouco que vejo, porque não posso garantir plenamente nem esse pouco, então vivo com certa permissão para mentir, fingir, presumir, etc. É o caminho do orgulho, da soberba, da presunção.

Muito mais prudente é o passo que vai na direção da humildade e que aprende a valorizar o pouco que tem em si: por menor que seja a verdade na qual posso acreditar, se isso que tenho é o suficiente para que eu viva bem de acordo com a minha consciência, sem traição ao que já percebo e intuo, devo viver honestamente em fidelidade a esse pouco, confiante de que o muito que me escapa de algum modo está de acordo com o pouco que me foi dado. Esse é o caminho da humildade.

Querer ter razão neste mundo é o equivalente a total prostituição moral e intelectual, isto é, à venda da nossa herança divina de seres livres e inteligentes em troca de qualquer sucesso temporário que nos é oferecido.

Digo “mundo” num sentido muito específico, aquele do bolchevismo espiritual que denunciei na minha Monadofilia. É a grande corrupção da carência de pertencimento, uma consequência da força da parte mais animalesca do nosso ser, que tende a querer se agrupar, imitar, seguir, etc., violando aquela natureza divina que exige de nós o contrário: a individuação, a separação, a consciência singular, etc.

Posso (e até devo) querer ter razão e sucesso num sentido particular, que é o de impressionar e influenciar o próximo no sentido do reconhecimento das coisas divinas, da bondade, da verdade, da beleza, da justiça, etc. A minha ação parte da unidade e chega na unidade: da unidade divina que me resgatou da confusão e atualizou minha própria unidade de ser criado com a grande honra da imagem e semelhança da unidade divina, realizo-me agindo para afetar o espírito de unidade do próximo, da outra alma humana que continua experimentando alguma confusão derivada da idolatria do mundo, de modo que essa unidade se reconheça na mesma honra da criação divina e deseje por si realizar sua unidade na unidade de Deus.

Por isso digo que não se trata de um quietismo, como pode parecer o elogio da vida interior a quem falte o discernimento dessas coisas. Não é nada disso. É uma ação forte, decisiva, cheia de desejo de sucesso, e por que não até mesmo cheia de ambição. Mas tudo do jeito certo, com a orientação certa, e isto quer dizer que devemos desprezar os modos do mundo, ainda que usemos dele e dos seus recursos para fazer avançar a ação mais conveniente para a nossa vida espiritual.

Como posso despertar o desejo de realização da liberdade individuante no próximo, se para isso eu usar dos meios que o mundo usa para a finalidade contrária, isto é, para a dispersão das almas na idolatria generalizada e no desprezo da Presença e das coisas de Deus?

Não devemos nos impressionar com números, embora queiramos que eles cresçam quando forem na direção correta. Tudo que é quantitativo deve ser qualificado, porque se não for não significa nada. É assim que vemos os grandes empreendimentos da cultura de massas, e até de certa alta cultura, todo esse testemunho produzido pelo Bispo do Sistema da Besta para afastar as pessoas da consciência do Criador. São massas e massas, mas dirigem-se ao vazio, e por isso anulam a força do seu agregado, porque vão se tornando um agregado sem substância verdadeira, conforme aproximam-se do nada que tanto amam, do vazio que é próprio dos seus ídolos.

Um de meus grandes interesses é o de transmitir precisamente esta mensagem: a de que cada um de nós deve se encorajar pela perdição do mundo, e não o contrário.

Sim! Encorajar e até aprender a gostar da dissolução mundana. Mas como?

Simples: quando vejo o mundo mergulhando no seu próprio caos, só posso enxergar essa realidade porque não participo dela. E se não participo, é porque Deus me separou na sua obra de salvação.

É assim que “estar sozinho” na verdade se revela o contrário disso: afastados da confusão do mundo, estamos com Deus, a melhor companhia por toda a Eternidade, e estamos em comunhão espiritual uns com os outros, por mais ilhados que nos sintamos.

Grandes tristezas são futilmente sentidas por almas desavisadas que se atormentam com o desejo de participar de um mundo no qual já sabem que não há esperança de nada verdadeiro, já que suas próprias consciências lhes serviram para denunciar as grandes e pequenas mentiras que sustentam esse espetáculo humano. Meu trabalho deve ser o de afetar esse tipo de alma com a mensagem correta, e é claro que não poderei fazer isso usando do mesmo espírito do mundo que deve ser denunciado.

Digo todas essas coisas com quase quatro décadas de experiência do mundo. Aprendi a desconfiar confiando, a desacreditar acreditando, a despertencer pertencendo, a desengajar engajando. Quis ser muitas coisas e uma a uma aprendi a desgostar de todas elas: de ser acadêmico, de ser rico, de ser religioso, de ser político, etc. Finalmente entendi que é melhor querer ser algo muito mais simples, porém mais misterioso: aquilo a que o Criador de todas as coisas me destinou, ser amado por Ele. E hoje, aqui e agora, isso significa ser uma testemunha, ou um pescador de almas, se formos imitar aqueles que quiseram imitar Jesus Cristo.

Essa pescaria é a arte de ser fiel e íntegro à verdade que denuncia o mundo e elogia a Deus. E por isso mesmo, quanto melhores formos nessa arte, mais o mundo nos odiará e desejará a nossa destruição. Ótimo: aquilo que sempre esteve oculto virá a ser revelado. Ou por acaso os espíritos imundos que me queriam acadêmico, rico, religioso ou político não me odiaram sempre por desprezar os seus prêmios mundanos, e não quiseram sempre me destruir? Isso sempre foi verdade. É isso que os perdidos do mundo devem entender, e o quanto antes: a função da sua perdição no mundo é o seu encontro em Deus. Feita a primeira parte, falta a segunda, a própria causa final desse desajuste.

Falo aos desajustados, despertencidos e disfuncionais, porque estes eu tenho certeza de que o mundo não conseguiu enganar, ou pelo menos não completamente. Porque não há ninguém que está mais perdido para Deus do que aquele que está totalmente achado no mundo, que se levanta sobre todos os seus irmãos com grande vaidade e orgulho. Por acaso vamos invejar esse destino miserável e infeliz? Não se inveje a suposta felicidade e alegria dos soberbos, porque tudo isso é falso e está para ser destruído num piscar de olhos. A esperança dos enaltecidos se revelará uma total farsa. Mas a nossa esperança no Eterno, quem a destruirá, se é o próprio Criador quem a constituiu? Quem chamará a Deus de mentiroso e infiel?

Um por um, tudo aos poucos, mantendo a fidelidade e a integridade, é assim que eu penso sobre o meu trabalho. O dia em que quisesse seguir as modas da maioria, seria o dia da minha perdição. E isso sempre foi impossível para mim, graças a Deus, porque o Altíssimo sempre me deu um ânimo de profundo desgosto com a falsidade do mundo, na verdade desde que eu sou criança. Sim, desde bem pequeno vejo como o meu semelhante é mentiroso, horripilantemente falso, farsante, e que a sua canalhice começa quando mente para si mesmo e vai se convencendo da virtude da sua safadeza. Tudo isso que o mundo faz é baseado na desconfiança de Deus. O ser humano que aprendeu a desconfiar do Criador é um aprendiz do primeiro ser que fez isso, sim, aquele coitado.

Eis a essência da mentira que provém da desconfiança: é uma escolha livre.

Quem desconfia do Amor de Deus se dá mil e uma razões que seriam supostamente suficientes para a justiça da sua posição, mas toda essa arquitetura de idéias está baseada numa única coluna, que é uma crença livre, a crença de que Deus não é bom. A mentira consiste no fingimento de que toda essa estrutura posterior não está baseada numa decisão totalmente livre e arbitrária, de vez que se a alma do desconfiante desejasse seriamente produzir as evidências no sentido inverso, da confiança no Amor de Deus, poderia fazer isso plenamente, e a grande safadeza consiste no fingimento de que isso não seria possível. Eis a arrogância e o orgulho no seu estado mais puro: a postura de sabedoria que tem um segredo escondido, aquele primeiro pecado oculto nas profundezas da alma, tido como esquecido para sempre, mas que será resgatado e evidenciado no fim de todas as coisas, para uma grande humilhação. Grande humilhação! Meu Deus, eu quero ver o Dia do seu Juízo, o dia do triunfo da justiça, mas mesmo assim meu coração tem medo.

Todas essas vergonhas terminarão escancaradas. O homem mentiroso não terá mais onde se esconder, o seu truque será desfeito num instante. Sua proeza teatral, seu fingimento todo, tudo isso desabará numa grande catástrofe, e sua realidade será exibida, como está escrito: está pobre, cego e nu.

Mas não quero falar dessa gente. Deixe que eles estão aproveitando o prêmio da sua traição no pouco de tempo que têm. Voltemos aos chamados de Deus, os que ainda não sabem mas querem ser pescados. A estes o melhor serviço deve honrar a sua vontade de fidelidade e integridade, e por isso deve ser um serviço fiel e íntegro, sem cultuar o espírito do mundo, nem lhe pagar tributos. Não é fácil fazer isso, se alguém quer fazer por si mesmo, mas Deus é mestre e seu guiamento é perfeito. Ele nos ensinará a arte da sua pescaria espiritual.

Historia del Anticristo, livro por Alberto Ezcurra MEDRANO

Arquivo completo PDF do livro: link

Neste livro encontramos uma tentativa de explicar tudo o que existe de mal no mundo desde a perspectiva cristã pelo projeto do espírito do Anticristo especificamente encarnado ou identificado com o judaísmo.

Para a sensibilidade mais moderna essa visão pode parecer estranha, mas é uma questão de perspectiva. A antiguidade e o medievo cristãos entendiam com facilidade e clareza que aqueles que eram verdadeiramente seguidores de Moisés aceitaram a Revelação Cristã como legítima, e os que a rejeitaram são justamente aqueles que se dizem judeus mas não o são, a Sinagoga de Satanás daqueles que acreditam em mandamentos humanos. Apesar de alguma tolerância ser possível, no seio da cristandade esta realidade sempre apresentou conflitos. Um dos problemas que deu inclusive margem para o desenvolvimento da história apontada por Medrano foi a reserva ao povo judeu do exercício da usura e do mercantilismo, contra a cultura cristã política e econômica da caridade, do preço justo, etc.

Embora o autor acerte em revelar muitos dos vais e vens das conspirações em nível global, seja de uma certa gangue de financistas internacionais, ou das várias conspirações políticas revolucionárias através de organismos como a Maçonaria, como católico ele erra ao não reconhecer a contribuição da sua própria religião ao problema que denuncia. É fácil culpar uma conspiração judaico-maçônica por todos os males do mundo, na segurança de uma religião institucional supostamente isenta de participação no governo do diabo sobre o mundo. Difícil é aceitar até que ponto a própria fundação da sua religião está enraizada em valores e princípios que vêm daquela traição ancestral contra o Amor de Deus.

Nas suas conclusões preditivas o autor também erra ao tentar reconhecer a Rússia como nação resistente ao Anticristo, exatamente como o fazem hoje muitos conservadores e tradicionalistas cegos ao amplo esquema dialético do Ouroboros.

Apesar de tudo isto, podemos considerar esta obra produtiva no sentido da informação do leitor sobre diversos temas e fatos que costumam escapar totalmente à imaginação e entendimento do público em geral. Seu mérito está no favor de abrir várias brechas no estudo histórico, em resgate a uma visão cristã mais pura e menos compromissada com os modernismos do mundo atual.

Vejamos algumas passagens relevantes.

Eventualmente vem à minha mente a idéia de que de certa forma nós vivemos num mundo inventado pelos judeus. Mas eu corrijo esse pensamento com a evidência de que a única coisa que se pode dizer a respeito dos judeus é que eles têm uma tradição bastante antiga, o que lhes deu mais experiência com o Pacto Ouroboros e com todas as decorrências da traição contra o Amor de Deus. Ou seja, a única coisa pela qual se destacam é pela grande experiência na maldade, estando apenas um tanto na frente de todos os outros povos que de um jeito ou de outro acabam fazendo a mesma opção espiritual dos judeus, isto é, continuam perpetuando o mal a cada geração. Os filhos dos santos só conhecem o Paraíso. Todos os outros nascidos neste mundo são filhos de traidores, de um modo ou de outro. Os judeus não são especialmente perversos, são apenas mais experientes.

A base da cidade terrena é o Pacto Ouroboros a qual todas a religiões cristãs subscrevem quando recomendam o casamento como um sacramento e a multiplicação dessa nossa espécie decaída e amaldiçoada. Se os judeus se aproveitam dessa falta de discernimento dos outros povos, isso apenas lhes beneficia lateralmente, como aos Avari que tiram vantagens da desobediência humana em geral.

A denúncia do Naturalismo é um dos pontos mais altos do trabalho de Medrano, que acerta em cheio no reconhecimento da idolatria naturalista como origem da decadência espiritual do homem que se identifica com o pó e se torna assim, como diz a escritura, “escravo da maldição e do poder“.

Mas não adianta acusar o judaísmo de ser o promotor dessa mentalidade, quando os cristãos são muito mais culpáveis por acreditarem nela, já que conheceram uma Revelação muito mais excelente a respeito da essência da sua vida espiritual.

Aqui temos um dos elementos mais importantes no entendimento da geopolítica moderna desde o ponto de vista do milenarismo messiânico, que é a total concordância e colaboração entre os conceitos de Globalismo e Sionismo: a restauração do mundo (tikkun olam) requer simultaneamente a dissolução de todas as identidades nacionais ao redor da legitimidade da nação dos sacerdotes que realização o Reino de Deus na Terra, a nação de Israel, cuja capital Jerusalém se tornará o centro não só do mundo, mas até mesmo do universo.

Quem não compreender imediatamente que qualquer tentativa de realizar o Reino de Deus neste mundo redundará no governo do Anticristo, não entendeu nada da escatologia cristã.

Para começar, Hitler foi uma expressão política da visão prussiana e protestante, de mundo, sendo criatura do Exército alemão e de mentalidades antijudaicas e antimaçônicas como de um Ludendorff. Se existem méritos de uma reação nacionalista contra as revoluções, estes vieram desde uma cultura que não era particularmente eclesiástica. Por outro lado e de diversas maneiras, a Igreja Católica do Século XX pode ser entendida como muito mais colaboracionista com as revoluções do que o autor estaria disposto a admitir.

Hitler não estaria em melhores condições de vencer se tivesse feito uma cruzada cristã contra os bolcheviques, porque Deus não tem nenhuma satisfação com qualquer política deste mundo, senão com os indivíduos que ouvem o seu chamado de libertação. Ao contrário, providencialmente o governo do Anticristo é confirmado como consequência da desobediência que persiste e é mais perversa justamente do lado cristão da história. Que todos os demais queiram manter-se em estado de traição, é compreensível dada a sua ignorância, mas que os cristãos façam isso, eis o que mais justifica, moralmente, a vitória da conspiração anticristã.

Não é incrível como Medrano está tão perto da verdade, mas ainda mantém-se longe o suficiente de qualquer chance importante de libertação da mentira por isentar o seu próprio cristianismo católico de participação no culto naturalista?

Como é possível que ele não consiga ver a repetição do Culto do Ouroboros, revelado pelo cabalismo que denuncia, dentro da sua própria tradição católica?

Isto é assim porque, como eu já disse antes, nunca existiu e nunca vai existir uma tradição cultural de liberdade contra o Ouroboros.

Medrano, como todos nós que já nascemos neste mundo, é filho da participação da Tradição Primordial pela desobediência de seus pais. Quem são o Ele-Ela que dão vida à Serpente do Mundo? São os pais, imitadores de Adão e Eva, e não de Jesus e Maria.

Ele chegou muito longe nas suas descobertas, mas não conseguiu ligar os últimos pontos da sua investigação que o levariam a esquecer finalmente o problema dos judeus e entender a essência do governo do Anticristo. Para isso precisaria entender que Jesus não veio trazer a paz, mas a espada, e que os inimigos do homem estão dentro da sua própria casa.

Nota espiritual: Calaquendi

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,1

A salvação das indeterminações particulares para a Eternidade

O Reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 17:21)

Provavelmente não existe assunto mais excelente do que o Amor de Deus, e nem maior alegria do que contemplar a promessa divina para as criaturas feitas à imagem e semelhança de seu Criador.

Ocorre que os vários expedientes de dispersão distraem o ser humano e o afastam de si mesmo, sendo que é no seu interior que ele pode encontrar tanto a confirmação da supremacia do Amor, quanto a validade da sua promessa.

O que é um ídolo? É um objeto externo de culto que leva o homem a procurar a verdade e a salvação fora de si mesmo, quando o Deus verdadeiro se revela na intimidade do coração contrito, humilde e “esmagado” pela majestade do Eterno. Um ídolo é uma mentira, uma ilusão, um vazio.

Quem puder ter apreciado o que disse a respeito da Coruscância, ou da Eleuteriodiceia, já pode ter entendido do que se trata toda a experiência humana, isto é, a causa final da nossa vida.

Entendeu o Espírito Santo do Criador que não haveria maior felicidade que lhe glorificasse na Eternidade do que a de seres criados à sua imagem e semelhança para o usufruto da mais plena liberdade possível a qualquer criatura. Isto é a salvação: levar as almas a aceitarem espontaneamente a individuação das suas singularidades como indeterminações particulares tornadas infalíveis pela comunhão voluntária com o Espírito Santo.

Por outro lado, a Perdição nada mais é do que o desvio de uma alma que rejeitou a infalibilidade que lhe permitisse a individuação na Eternidade.

Da nulidade espiritual dos falsos deveres de estado

Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando Deus o chamou.” (I Corínthios 7:24)

A invenção de falsos deveres de estado como defesa contra a falta de sentido de uma vida sem Fé apenas multiplica os sofrimentos a que o homem já está submetido por nascimento.

É sem mentira que se cumprirá toda a Justiça. Quando mente, o homem apenas fala do que lhe é próprio e reflete as suas trevas interiores, tentando encontrar no reflexo das boas intenções da sua alma algo que nunca esteve lá, porque somente a Deus pertence o Amor.

A grande beleza dos verdadeiros deveres de estado consiste justamente na sua integridade espiritual, já que certamente eles derivam da vontade ou da permissão divina.

Toda a visão de confiança na Providência divina por trás de cada circunstância da vida nos permite alcançar o verdadeiro repouso, a paz do Senhor que é confiado como o nosso Bom Pastor.

O homem foi criado reto, porém procura complicações sem conta.

Pior, esse mentiroso quer ser respeitado na sua escolha de desprezar o Amor do Pai. É claro que esses nossos irmãos e irmãs devem ser amados. Mas que amor pode existir na confirmação da ilusão? Se respeitamos como legítima qualquer decisão autodestrutiva, não estamos encorajando a mentira e incentivando o afastamento de Deus?

Devemos, portanto, ter todo o cuidado para que nossa compaixão e caridade não sofra sequestro para o serviço da mentira. Quando o próximo carece de Discernimento, devemos compensar isso com a nossa própria prudência, mesmo que ao preço de desagradar.