Kataonami

Nada é mais característico da rebelião contra o Amor divino do que o fatalismo derrotista que tenta compensar a sua impotência espiritual com atos de efeito moral numa dimensão inferior, com o objetivo de escandalizar e aterrorizar.

A antiga Serpente do Mundo sabe muito bem que nada pode contra a supremacia divina. Resta-lhe, assim, contar com a fraqueza humana que abre uma brecha através da anuência espiritual da rejeição do Amor. Todo ataque espiritual contra os seres humanos tem sempre o mesmo objetivo final, infalivelmente: abalar a confiança no Amor divino, isto é, a Fé. Sem essa confiança, o ser humano está espiritualmente desarmado, vulnerável e perdido, errante num cosmos hostil e caótico.

Devemos dar um panorama estratégico ao nosso semelhante, compartilhando um pouco do que é a perspectiva do outro lado da frente de batalha, para que se tenha uma idéia do grau de desespero do inimigo. Sobretudo não podemos perder de vista que a agressividade do Mal deriva de sua profunda angústia, e de seu grande e elementar medo de Deus.

O próprio tempo simboliza a inevitabilidade da execução da sentença divina. Por isso podemos dizer, com firmeza, que o tempo é nosso aliado, isto é, se somos buscadores de Deus e amantes de seu Amor. O tempo sempre nos ajuda. Sua passagem garante a contínua consecução de um plano providencial, e a chegada de grandes e importantes determinações nas vidas de todos nós.

O tempo revela que o Amor é sempre vitorioso, mesmo neste mundo decaído, seja como consequência do progresso humano ou da falta deste.

Quando há progresso, fica evidente o abuso contra a crescente liberdade humana permitida pelas conquistas materiais da civilização, o que tende a pressionar na direção da emancipação dos escravos, então das mulheres, e finalmente dos filhos. É o protesto do Amor contra o Poder.

Quando não há progresso por qualquer razão, fica evidente a absurdidade de uma existência amaldiçoada, o que levará a uma negação a esse estado de coisas, sob quaisquer formas, seja pelo processo direto de liberação da descendência, ou indiretamente pela autodestruição, ou pela perseguição da emancipação através de alguma revolução, o que leva de volta ao progresso. É o protesto do Amor contra a Maldição.

De qualquer modo, é o Amor quem dá o Norte a todos os seres, mesmo quando estes estão pervertidos por alguma mentira profunda, como ocorreu com este mundo em particular, submetido à malícia do Pacto Ouroboros. Reparem que o ser humano não teria nenhuma energia para perseguir qualquer alvo, se este ao menos não se assemelhasse ao ideal do Amor verdadeiro, que é o que o leva à busca da liberdade revolucionária, ainda que esta seja desviada para a realidade exterior do homem, o que é evidentemente um erro. O alvo pontual é errado, mas o alvo espiritual é mais ou menos sempre o análogo mais próximo do plano divino. É assim que o diabo e seus auxiliares servem inescapavelmente ao plano do Criador de todas as coisas, levando mesmo o ser humano decaído e corrompido a um final onde o Amor será revelado como a verdadeira meta espiritual. Nosso Deus, que é o único, o verdadeiro, governa sobre todas as coisas com absoluta supremacia. Esquecer isso é descumprir o mandamento do Amor a Deus.

Muitos “cristãos” são confundidos por essa quadrilha de traidores que são os chefes religiosos, levados a crer exatamente no contrário: que o mundo fatalmente jaz no maligno como se algo de errado tivesse acontecido e nós estivéssemos rendidos, entregues ao poder do Inimigo. Nenhuma visão poderia ser mais falsa. Isso é Gnosticismo, a crença no demônio como demiurgo que nos prendeu numa realidade distante da verdadeira divindade. Ora, para o ser humano isso poderia ser verdade, desde o seu miserável ponto de vista. Mas para Deus toda essa configuração é irrelevante, e não há quem possa limitar o seu gesto de salvação no mínimo que seja. Quem pode nos afastar do Amor do nosso Pai? Ninguém a não ser nós mesmos, aprendizes da desconfiança luciferina, da dúvida infernal, da malícia das trevas. Tudo isso é uma questão de escolha.

Entendam, irmãos: até com as mais avançadas técnicas e planejamentos, com o engano mais elaborado e sutil, em tudo isso os Avari e os Moriquendi apenas servem ao nosso Senhor. E quanto mais acham que vencem e crescem em poder, mais se submetem a uma Providência poderosa que os submete.

Toda essa rebelião é passageira e, no devido tempo, observaremos como não passou de um aborrecimento para a história de nossas almas destinadas à imortalidade. O Altíssimo mesmo prometeu que tudo isso será em breve esquecido. Não se deixem intimidar por nada.

O mundo da usurpação felizmente está perdido e tem seus dias contados. Negue o mundo em seu coração e deixe-o para trás, e assim estará deixando toda a Perdição também para trás.

Questão: Essa visão parecerá impraticável e idealista demais aos olhos mundanos, não é?

Isso sempre foi assim e sempre vai ser assim até o fim do mundo. Nossa entrega espiritual ao Amor divino é insuportável aos que já pactuaram com o espírito do mundo. Deixe que os presunçosos se julguem sábios na sua maturidade fingida. Já desprezaram faz tempo toda a dignidade de suas próprias almas, toda Consciência, toda Responsabilidade. Falando francamente, são quase animais, e se identificam profundamente com essa animalidade, embora se julguem detentores de grandes direitos “humanos”, todos esses fundados no pó, é claro, ao qual não vão escapar se não encontrarem logo a santidade da desistência. É curioso que os humanistas são os que mais desprezam a verdadeira dignidade humana, que é o privilégio sagrado da eleição do Amor divino.

Questão: Sobre a questão do progresso, a luta do Conservadorismo contra a Revolução Permanente não conseguiria sair, portanto, dessa dialética?

Claro que não. É uma questão básica de princípios. O que há para ser conservado, se este mundo humano foi fundado numa mentira, no roubo, na traição, na usurpação? É isto o que queremos conservar? O legado de rebelião dos nossos pais contra o Amor divino? Não faz o menor sentido, espiritualmente. Mas faz sentido do ponto de vista do poder, já que a Conservação é necessária como defesa contra o absurdo da Revolução Exterior. É daí que a reação parece ser verdadeira, porque luta contra uma grande ameaça de desordem. Esse esquema é infalível. Poucos seres humanos conseguem superar essa dialética. O escândalo e o terror servem para isso: para consolidar mais profundamente o Grande Pacto Primordial. Toda energia responsiva que poderia ser legítima é desviada e canalizada para essas revoluções inúteis, a impotente tentativa de reforma do homem decaído.

O problema do progresso material, do ponto de vista do adversário, é que ele trará inevitavelmente maior progresso moral na forma da descoberta e do desenvolvimento da individuação humana. É um fato que no começo isso é lento, para poucas almas de cada vez. Mas aos poucos a liberdade contagia e se impregna. E em tempo o inimigo teria diante de si, mesmo que por meios não-teístas, um Antinatalismo naturalista e evolucionista, que apesar de não ser espiritualmente esclarecido poderia ser o suficiente para explicar, por exemplo, o Paradoxo de Fermi, e encaminhar a humanidade nesta direção como uma conclusão espontânea e impecável da sua racionalidade, em resposta à questão da Antropodisséia.

Questão: Isto parece estar tão distante do mundo em que vivemos. Será possível que as coisas chegassem a esse ponto?

Sim, basta refletir com alguma frieza e distanciamento. Ajuda nisso a lembrança da grandeza da Criação, no sentido do Omniverso. Vivemos oprimidos pela mesquinharia deste mundo, e dessa gente que acha que o seu destino mundano é uma grande coisa. Nossos líderes são cegos e mentirosos. Todos eles! Quem é que se levanta para dar o testemunho da pureza do Amor do Eterno? Quem é que revela que o Amor Dele nos basta? Esse testemunho é muito raro, e praticamente inexistente entre aqueles que devem satisfações ao respeito humano, esses escravos cujo deus é o ventre.

Esqueça tudo isso. Verifique a realidade em que vivemos. Onde o progresso já foi suficiente, a mulher já está emancipada. Um ser humano já tem o direito de escolher a mendicância no lugar da participação no Sistema da Besta. Sua escravidão não é nem justificada, e nem recomendada. E a mulher já pode viver uma vida inteira livre dos papéis de esposa e mãe, se quiser, sem que isso lhe seja imputado como crime. Ainda que haja ainda uma cultura de rejeição a essa liberdade, aos poucos as novas gerações abandonam os grilhões dos seus pais, precisamente porque a liberdade custa cada vez menos, materialmente falando. O próximo passo, já antevisto por uma cultura antinatalista embrionária, é a libertação dos filhos.

Isso é algo que os Avari não podem permitir, é claro. Mas a tentação de ter gerações de pessoas submetidas ao seu Sistema, já que isso é uma condição dessa emancipação através do progresso material, é grande demais e irresistível. Nenhum demônio pode abrir mão desse grau de controle, ainda que isso signifique a abertura de um espaço para a liberdade humana. Confiam na sua capacidade de condicionar essa humanidade emancipada numa forma mais sofisticada de escravidão. E não deixa de ser verdade que têm sucesso nisso. A questão é que cada cristão verdadeiro pode tirar proveito dessas condições de progresso material e moral para avançar no seu relacionamento com Deus às expensas desse plano demoníaco.

Questão: Mas isso não chegaria a um ponto em que já não seria possível viver a liberdade verdadeira dentro do Sistema?

Os cristãos espirituais jamais terão problemas com esse tipo de coisa. Porque Deus garante o sucesso da nossa busca espiritual, quando o seu Amor é o alvo. Isso é infalível, mais certo que qualquer conta aritmética ou proposição geométrica. No coração do fiel, ele sabe que é assim.

Se você precisar de uma afirmação disso, reflita sobre como o fim da liberdade já representa uma maior definição espiritual, justamente o tempo da Marca da Besta, quando o Inimigo vai ter que se expor à luz do dia. Não é uma grande ironia? O momento de maior triunfo para o mal será também o momento da sua maior vulnerabilidade. Porque sua subsistência era permitida enquanto ele servia justamente a um desígnio superior. Conforme consolidar-se a armadilha contra toda a liberdade humana, é verdade que os que ainda estiverem neste mundo serão perseguidos, exilados ou exterminados, mas isso só lhes deixará clara a opção espiritual de todas as partes envolvidas.

Entendam: quando o inimigo age nas sombras, ele age ambiguamente, e desse modo está a serviço do Criador que pode converter os meios diabólicos em instrumentos da sua Providência em favor dos seus amantes. Quando finalmente os Avari agirem às claras, não servirão mais da mesma forma, mas porque sua ambiguidade desaparecerá eles servirão no sentido da clareza do testemunho da escolha pela confiança no Amor divino, já que a rejeição do Sistema representará, ipso facto, a rejeição do mal.

Em suma, quem tem que se preocupar com a passagem e com os sinais dos tempos é o outro lado que quer disputar poder com Deus, ou aqueles que servem a esse mal, ou ainda os que preferem a ignorância e a ingenuidade. Deixe que estes se apavorem, porque de fato eles têm motivo.

Questão: Mudando o assunto, o que se pode dizer da idéia de que os poderes infernais querem reclamar a alma humana como sua propriedade, através dos pecados e da revolta contra a autoridade divina?

Não existe Direito onde não há Justiça, e não há Justiça onde não há Misericórdia. O inimigo não age a serviço porque quer, mas porque não tem escolha. O diabo não é um servidor da Justiça. Ele é um mentiroso, ladrão e assassino. Suas reclamações podem ser desprezadas. A Serpente não tem direito a nada. O Acusador foi acusado por Jesus, o véu foi rasgado e a verdade foi revelada, a quem tiver desejado o discernimento.

O pecado humano é a recusa do Amor. Quem recusa o Amor recusa a Misericórdia, e quem recusa a Misericórdia recusa a Justiça. Estes que fazem isso estão nas mãos do diabo não porque este tenha direito a alguma coisa, mas porque são espiritualmente alinhados, porque combinam bem uns com os outros.

Por isso digo que não há maior colaboração com o mal do que a acusação do semelhante através do serviço religioso. Os acusadores são funcionários do inferno. E a religião é uma proposta gnóstica, inescapavelmente, atribuindo poder ao diabo e a salvação ao conhecimento de Deus, como se a santidade fosse um mérito humano.

Isso tudo é assim para que a Obra de Deus seja reconhecida como a mais perfeita possível, mostrando a salvação somente a quem tem a humildade de crer na pureza do seu Amor.

Questão: Quer dizer, esta reclamação dos Avari funciona no máximo como analogia?

Nem como analogia funciona direito.

Se eu minto para você dizendo que uma pessoa deseja o seu mal, e você acredita em mim sem verificar a verdade do que eu disse, e então você colhe como resultado uma grande desgraça porque abriu mão do maior benefício que poderia ter obtido na vida através da relação com aquela pessoa de quem desconfiou e se afastou, eu estou “reclamando” a sua alma?

Não estou reclamando nada. Sou um mentiroso cujo mérito foi espalhar a minha mentira enganando outras pessoas. Diante do benfeitor, que é a única perspectiva que interessa, não estou fazendo nenhuma justiça. No máximo estou colaborando para que uma decisão livre seja tomada por uma pessoa que precisa decidir-se realmente sobre a questão da confiança no benfeitor. Mas não sirvo por amor à justiça, e sim por ódio ao bem.

O diabo não tem o direito de reclamar nada. Ele é escravizado pela sua própria malícia, se você pensar bem, porque através dela é forçado a servir à Justiça que ele mesmo odeia. Serve por mal, contra a sua vontade, e tentando enganar até o fim, inclusive com esse papo de que tem direitos.

Questão: Como é possível que os Avari enganem os cristãos com essa visão?

Eles não enganam os cristãos. Enganam os religiosos, que são os mesmos que vão dar as boas vindas ao Anticristo.

Ameaça ou esperança? O teste do inquilinato espiritual no Fim do Mundo

Gosto de soltar frases perigosas por aí, com o deleite de fazer uma provocação aliada a um testemunho verdadeiro.

Uma delas é:

“Amo o ser humano no varejo, mas odeio no atacado. Gosto de pessoas, mas detesto gente.”

Outra, mais relacionada com o nosso tema aqui, é a seguinte:

“Meu problema não é que o mundo acabe. É que ele continue, comigo dentro dele.”

Qualquer exilado espiritual que se sinta suficientemente despertencido vai desejar a mesma coisa, principalmente se confiar numa Providência transcendente que lhe garanta a confiança numa existência alheia à presente. O repouso na esperança em Deus deve chegar a tal ponto que toda a nossa vida atual possa ser considerada uma mera experiência passageira, de modo que tudo o que é desagradável se torna mais tolerável (Paixão), e tudo o que é desejável se torna mais resistível (Louvor). Somos como hóspedes temporários neste mundo. E, nesse espírito, não só a hipótese do Fim do Mundo se torna aceitável, como é algo francamente desejável na proporção da força do chamado daquela esperança. Este é um teste do nosso inquilinato espiritual: a possibilidade do fim de todas essas coisas é algo que nos soa como uma ameaça, ou como uma promessa?

Os moradores da Terra se identificam com ela. Não confiam muito em qualquer possibilidade que esteja para além. A aposta numa esperança que supere esta realidade parece ser algo muito arriscado. Ou até mesmo um tipo de loucura. Na idolatria das coisas presentes, não temem desprezar as ausentes. Ignorantes de sua própria dignidade espiritual, e do tamanho da herança que se lhes é oferecida, não imaginam como viveriam em maior liberdade e leveza se simplesmente confiassem num Amor superior que lhes deseja salvar. Preferem fazer todo tipo de acordo, concessão, compromisso, pacto ou tratado para tornar a sua vida aqui e agora o alvo de todos os seus anseios.

Os inquilinos, já acostumados com que a loucura do mundo julgue como louca a sabedoria fundada na pureza mais perfeita do Amor divino, longe de temerem o Fim do Mundo, anseiam por ele. E o mesmo decreto que estabeleceu a morte dos corpos produzidos em desobediência, o que aterroriza os moradores, é uma realidade aceita como verdadeira consolação divina, como um ato de Misericórdia, pelos inquilinos.

Inquilinos estes para quem muito mais próxima do que aquele evento único está a própria extinção de suas carcaças mortais, completando o ato de generosidade do Criador para com os seus amantes o fato de que este mundo sempre acaba para quem nele morre.

Um cheque sem fundo: Ahsoka, por Dave Filoni

Sempre foi verdade que os artistas, sendo também seres necessitados de recursos para subsistir, precisaram vender os seus serviços.

O Artista puro é o nosso Deus, que a tudo cria por ato amoroso, sem de nada necessitar para produzir a sua Arte.

Abaixo Dele, em especial neste mundo decaído, as coisas são bem diferentes. E faz parte da missão de um bom artista saber equilibrar os seus diversos interesses, a saber, os ligados à qualidade artística de sua obra com os ligados aos seus meios de subsistir.

Talvez um George Lucas tenha sabido encontrar seu equilíbrio ideal com Star Wars. Mas o que dizer dos atuais contratados da Disney? Poderiam eles, mesmo que quisessem, fazer a sua melhor arte, quando precisam atender a interesses corporativos tão mais complexos? Antes alguém precisava apenas comer e beber, vestir roupas e morar sob um teto. Hoje, a diretoria de uma corporação precisa justificar seus números no fechamento do último Quarter diante de um Conselho de Administração que representa os vastos e diversos interesses dos acionistas.

Ahsoka, a recente série da Disney, parece uma promessa falhada, não cumprida. É claro que os acionistas da Disney querem uma novela que se estenda o máximo possível. E isso impede que qualquer estória mais substancial seja contada. Já vimos isso antes. Tudo tem que ficar para depois. Sentimo-nos enrolados.

Gostei de Thrawn, e mais ainda de Skoll, mas o primeiro é mais saudado por memórias do que por realizações (que na série foram medíocres até aqui), e o segundo é só um representante de um futuro possível.

Ahsoka e sua aprendiz (como é mesmo o nome dela?) são murchas, sem gosto e incompetentes. Onde estão as suas virtudes? O máximo que acontece é que a Sabine (é esse o nome dela?) falha no seu dilema moral de abrir mão do resgate do seu amigo Ezra para impedir que o Império tenha chance de se reerguer com o retorno de Thrawn.

Apesar de tudo, não posso dizer que a série é ruim, espiritualmente falando. A coisa mais grave na mitologia de Star Wars sempre foi a adesão ao misticismo da idéia de mistura de Luz e Trevas através dos conceitos dos dois lados da Força. Mas isso não faz parte da temática de Ahsoka. Eles resolvem a questão? Também não. A esperança estaria em Skoll. Ele parece condenar o ciclo das existências, o que indiretamente poderia significar uma denúncia contra o Ouroboros. Eu não me importaria se essa hipótese viesse por meio da sua conversão numa espécie de supervilão apocalíptico. Talvez algo tão perigoso que forçaria até os lados da luz e das sombras (Ahsoka e Thrawn? Talvez ao ponto de justificar a ação de Sabine no fim das contas?) a se aliar contra essa nova ameaça. A Disney já nos acostumou com essa idéia de classificar os autores do Fim do Mundo como vilões (exemplos das franquias da Marvel: Ultron, Hela, Thanos, etc.). Afinal, esses cabalistas não odeiam Jesus Cristo? Ele não é o vilão mor contra o Sistema da Besta? Eles não temem o Retorno do Rei que está vindo para destruir o império da mentira?

Mas Skoll ainda não se tornou nada. Nem mesmo esse supervilão. E é claro que qualquer superação heróica dos lados da Força já foi abandonada com a fraqueza moral de Luke Skywalker no Episódio VIII de Star Wars. Ali nós tínhamos uma chance. Podemos falar mais disso no futuro.

Por enquanto, com apenas uma temporada de oito episódios, Ahsoka não significa nada e não mudou nada na nossa vida, como o depósito de um cheque sem fundo.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD:

Hipótese: P&A 5 (Morto-Vivo)

M. Maior – Gratidão/Soberba5
M. Maior – Obediência/Rebelião5
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo5
Ataques Avari-Moriquendi5
Testemunho ES-Calaquendi5
Nota EMD5,0

Valor Espiritual:

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria 5
Louvor/Sedução 5
Paixão/Terror (Sabine não aceita a perda de Ezra)3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo 5
Nota Espiritual4,7

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)3
Informação5
Diversão4
Nota Cultural4,0

Nota Final: 4,6 (IMDB: 7,7)

Porque as mulheres lêem mais livros e porque isto é crucial para o futuro da humanidade

Em minha labuta na produção do Livro das Tendências, identifico continuamente entre os livros mais vendidos (e supostamente mais lidos) aqueles títulos sobre os quais se diria que foram tipicamente produzidos para um público feminino, especialmente para as moças de até uma certa idade.

Isto quer dizer que as mulheres lêem mais que os homens?

Sim e não.

Vou dar um exemplo pessoal: certamente minha mãe leu mais que o meu pai durante sua vida, mas também é certo que eu li mais do que a minha mãe.

Acontece que por ter decidido aprofundar-me em questões intelectuais que exigiam o estudo mais dedicado, vi-me não só com o desejo, mas também com a oportunidade de fazer este trabalho específico (já que eu estive mais livre do que ela, que tinha que cuidar da casa, de um marido e de quatro filhos). De modo que eu só li mais do que a minha mãe, neste exemplo, porque este foi um propósito muito particular que eu me atribuí, e que tive a chance de realizar. Se meu pai tivesse desejado trilhar este caminho, ele poderia ter feito o mesmo, e ter lido até mais do que eu, como muitos outros o fazem, aliás.

Então o que quero dizer é que, fora de um propósito específico que o justifique, comparando-se o público não intelectualizado em geral, as mulheres lêem mais que os homens, e isso sempre foi assim.

Mas qual é o motivo?

Apelando para os recursos de entendimento que nos foram dados por um Weininger, por exemplo, vemos os homens idealizarem a vida e lançarem-se às suas aventuras de exploração, enquanto as mulheres suportam esses empreendimentos realizando da melhor maneira o ideal proposto. Alguns poucos homens certamente idealizaram uma vida mais intelectual, racional, ou ao menos culturalmente rica, e a estes poucos seguiram-se exércitos de mulheres dispostas a realizar esse ideal da forma mais perfeita que pudessem.

A mulher é preocupada em fazer o que deve ser feito, partindo da proposta que alguns homens idealistas colocaram, e nisso ela é mais fiel, responsável, diligente e esforçada que todos os outros homens que não têm o mesmo ideal. É assim que uma mulher, até mesmo uma moça, pode ser mais educada que seu pai, que seus irmãos, que seu marido, e que os seus próprios filhos.

Mas digamos que você deteste Weininger, ou ao menos a hipótese dele. Ainda assim, como explicar a realidade que observamos?

A mulher é a educadora natural e imediata de seus filhos.

Esse é um de seus maiores poderes, se não for o maior deles: o de educar nada menos que a humanidade inteira.

Alguns homens idealistas podem propor grandes coisas, mas quem vai transmitir isso para a próxima geração? Serão as mães dessa geração, capazes de captar o ideal proposto e de convertê-lo em uma visão de mundo que possa orientar os seus filhos.

As mulheres lêem mais, em comparação com o homem médio não intelectualizado que não tem a busca específica do conhecimento, porque elas se interessam pela sua grande responsabilidade de aprender o melhor para transmitir o melhor aos seus filhos. Essa é a sua grande responsabilidade, e o seu grande poder.

E por que isso é crucial para o futuro da humanidade?

Não está óbvio? A humanidade futura vai viver uma vida cujo sentido foi ensinado pelas mães dessas gerações vindouras.

A quem quiser influenciar o futuro, nada pode ser mais poderoso do que a interferência no papel da mulher na sociedade humana, em primeiro lugar na disseminação de idéias de continuidade, e em segundo lugar na disseminação de idéias de ruptura.

É a mulher que vai ter o futuro nas mãos, conforme escolha acreditar na conservação do status quo, ou na mudança.

É a mulher que vai fazer a cabeça do seu marido não-intelectual, e também a cabeça de seus filhos que vão levar muitos anos para entender o que aconteceu e anotar a chapa do caminhão que os atropelou.

Mas quem vai fazer a cabeça da mulher?

Até certo ponto, quem fazia isso era o homem mais intelectualizado, aquele que quando resolve se dedicar a esse tipo propósito muito específico acaba se tornando um líder na sua área.

Mas hoje, com a emancipação das mulheres, na consequência da verdadeira revolução da libertação cristã (que não tem nada a ver com o conservadorismo institucional, obviamente), já não sabemos mais.

Agora a mulher pode, finalmente, fazer a sua própria cabeça.

Que livros as mulheres vão querer ler, e no que vão querer acreditar?

Mais: que livros elas vão querer escrever?

O homem que idealiza uma mulher a quem só cabe realizar o seu desejo, esse homem que é um conservador, obviamente quer recapturar essa rebelde e colocá-la de volta no seu devido lugar. E muitas mulheres gostam disso, permanecendo presas ao decreto da Maldição que lhes determinou como destino, pela rejeição do Amor divino, o dever de agradar o homem e realizar o seu desejo.

Como a mulher pode se livrar dessa prisão imposta pela Maldição, essa mesma que os conservadores, servos da Serpente do Mundo, querem lhe impôr a todo custo?

Nenhuma mulher terá jamais o poder de fazer isso por si, como também nenhum homem é capaz de fazê-lo. Quem nos liberta é o Altíssimo. O mesmo que decretou a Maldição para limitar a nossa perdição é quem ofereceu a Salvação verdadeira, que vem somente pela sua mão.

Aí os sexos já não importam mais.

Como a mulher obtém a libertação?

Do mesmo modo que o homem deve fazer para sair da sua própria escravidão, ou seja, livrando-se dos atos de rebelião que levaram a esse estado de coisas: rejeitando o casamento e a maternidade, todo o Pacto Ouroboros, parando de seguir e imitar Adão e Eva para seguir e imitar a Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida.

A mim parece óbvio que a superação de todo sexismo se dá na busca pela perfeição mais universal que existe, que é a do Amor divino. Somos igualmente amados pelo Criador de todas as coisas, e antes de sermos maridos e esposas, pais e mães, filhos e filhas, devemos ser somente irmãos e irmãs desejosos pela Redenção prometida pelo nosso Salvador.

Se as mulheres vão acreditar nisto ou não, é um mistério.

Se confiarmos nas profecias bíblicas (e não o devemos?), não será esse o caso: quando vier o Filho do Homem, todos estarão comendo e bebendo, casando e dando-se em casamento, ou seja, estarão vivendo no pleno desejo da continuidade deste mundo decaído, desconfiando ou até mesmo desprezando qualquer possibilidade de redenção divina.

Mas o destino de muitas não determina o destino de cada uma.

Uma só mulher que procure a Deus basta para que no Céu os anjos façam toda uma festa, com certeza.

Qual é o significado da passagem de Apocalipse 22:15? Quem não vai entrar no Paraíso?

Diz a Escritura: “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira.”

Essa “lista” pode variar um pouco dependendo da edição da Bíblia que cada pessoa usa. A citação acima veio da Bíblia de Jerusalém. Já a citação indicada pelo próprio autor da pergunta fala de feiticeiros no lugar de mágicos (até aí nada de muito diferente), mas inclui os adúlteros, que não constam da outra versão, e nem de outras mais antigas que podem ser consultadas. Por que existe esta diferença?

Para começo de conversa, devemos ter em mente que Deus não precisa de checklist para verificar quem entra ou não no Paraíso. E, aliás, os cristãos também não deveriam precisar. Pense comigo: se você está em paz com Deus e confia no Amor Dele, qual é o seu problema de saber quem vai ou não entrar no Paraíso? Esse assunto não diz respeito a nós e ao nosso relacionamento com Deus. Sendo assim, esse alerta existe, exatamente como a antiga Lei mosaica, para a advertência daqueles que desprezam o Amor de Deus, para que estes estejam notificados sobre o seu destino e não aleguem ignorância em sua defesa. Eventualmente pode servir também ao cristão morno, da Laodicéia, para que perceba sua própria mentira o quanto antes.

É claro que a inclusão dos adúlteros causa confusão, porque se estes são os adúlteros espirituais, essa categoria já está representada pelos idólatras (são sinônimos), e se, por outro lado, isso se refere aos adúlteros carnais, lá atrás essa questão já tinha sido levantada e resolvida (Mt 5:27), quando Jesus esclareceu que qualquer pessoa que tenha o desejo do adultério no seu coração já o cometeu diante de Deus, mais uma evidência de que o ser humano não pode se salvar por suas virtudes, mas somente pela pura força do Amor divino.

Ora, se é assim, por que alguém incluiu isto nesta passagem? É uma típica interferência religiosa que vai na direção à escravidão da carne e contra o discernimento espiritual. Ao invés de ensinar a libertação contra esse sacramento dos infernos chamado Matrimônio, as igrejas permanecem consagrando as uniões carnais, o que mantém o problema da desordem que advém do adultério, inevitavelmente tanto quanto à luz do dia se segue a escuridão da noite. O caos gerado pela ignorância e pelo desprezo da liberdade pode fazer a religião cristã chegar ao ponto de ter que colocar os adúlteros na lista de Ap 22. Novamente, se os adúlteros são os espirituais, esses já são os idólatras que constam da mesma passagem. Esse tipo de coisa é muito comum na religião. É o mesmo problema do aborto: as igrejas não ensinam a liberdade contra a reprodução de escravos neste mundo, bem ao contrário, incentivam a continuidade do esquema todo, e então devem lidar com a questão contínua da gravidez indesejada, algo que vai continuar existindo até o Fim do Mundo. Se o ensinamento moral estabelecesse toda gravidez como a continuidade do Pacto Ouroboros, a condenação do aborto seria mais absoluta e perfeita, porque qualquer ato que levasse a esta situação já seria condenável in limine, sem a necessidade de se fazer distinções cansativas que só geram mais confusão.

Esta é a nossa situação: já não basta ter que lidar com uma natureza decaída e com a vida num mundo governado por Satanás, é preciso também tratar com as perturbações adicionais que nos são acrescentadas pela Religião, essa gigantesca e inútil máquina de desentortar bananas. Claro que prefiro viver num mundo ordenado, onde a paz é mantida pela força desse tipo de instituição. Viver na total anarquia seria pior ainda. Mas um mal menor não deixa de ser um mal, não nos custa lembrar.

Mas, enfim, o que significa essa lista de pessoas que não vão entrar no Paraíso?

É uma descrição de pessoas que não querem viver com Deus.

Perceba que não se trata aqui de dizer que alguém QUER entrar no Paraíso, para a Vida Eterna, e então Deus chega e diz: não quero que você entre. Não é isso! Quem pratica essas coisas que Deus descreveu e se identifica com essas atitudes ao ponto de não ter nenhum arrependimento –ou seja, possui o desejo de continuar com a sua prática indefinidamente–, pois bem, essa pessoa não tem o que fazer no Paraíso, porque já é da sua escolha livre não querer viver com Deus e não querer se converter dessa decisão.

É por isso que se diz que a Lei só serve para os que a odeiam, porque os amantes de Deus não precisam que nenhuma Lei lhes seja forçada desde fora, já que gostam de praticar as coisas que agradam a Deus porque apreciam a instrução que Ele lhes dá em seus corações, e se ainda assim eventualmente falham, não tardam a reconhecer seu erro e a persistir no caminho da Salvação, principalmente com Humildade, confiando no Perdão divino (“se tropeça, não chega a cair, porque Deus lhe sustenta“).

Então, quem vai ficar de fora da Vida?

Vai ficar de fora quem quer ficar de fora.

A Justiça de Deus é perfeita, e se chama Misericórdia, o poder de dar a cada um o que cada um pede, inclusive a morte a quem prefere a morte.

O heroísmo da desistência

Não é tão difícil assim conceber a hipótese de que num mundo decaído a desistência da participação no mesmo é um tipo de nobreza heróica.

Todos os que sempre se divertiram com a suposta absurdidade da filosofia cínica de Diógenes estão antes muito engajados com sua própria participação no esquema do mundo, principalmente em suas mentiras.

Uma grande obsessão de Diógenes era a de encontrar um homem honesto. Como cristãos, sabemos a quem ele buscava. Mas se Diógenes, ainda pagão, simplesmente ignorante, podia se frustrar na sua busca, embora se mantivesse fiel a ela até o fim, que direito temos nós, cientes da Revelação de Jesus, de sermos menos fiéis à verdade da vida humana neste mundo?

O que quero dizer é que com a Revelação Cristã nós temos tudo o que é necessário para completar o gesto de renúncia à mentira do mundo que se iniciou com a filosofia moral de Sócrates e de Diógenes. Temos hoje o que eles ainda não tinham: a decisão humana de rejeitar a Verdade plenamente. Isso nos permite rejeitar ao mundo também plenamente. A decisão dos Moriquendi está tomada. Os Calaquendi estão desembaraçados da mentira, libertos pelo Filho de Deus que se fez Filho do Homem.

O heroísmo da desistência é ensinado por Diógenes, que elogia a capacidade humana de rejeitar sua própria pretensão ao desistir de seus planos de poder e conquista. É uma atitude Noldor, pois honra o que podemos chamar de Princípio de Indeterminação das Mônadas. Este Princípio, que também podemos chamar de Singularidade Monádica (ou, ainda, de Inquilinato Espiritual), é o que revela que o ser humano aliado ao Amor de Deus reconhece imediatamente a escravidão dos papéis sociais de poder num mundo decaído. A um amante e amado de Deus, buscar o poder neste mundo (“sou isto”, “sou aquilo”, “fiz isto”, “fiz aquilo”) significa uma diminuição da sua substância, pois a promessa divina para cada mônada livre é muito superior a qualquer possibilidade de realização neste mundo decaído. O único poder legítimo é aquele determinado pela Providência divina que, por ser perfeitamente amorosa, é infalível. Toda perseguição de poder por parte das mônadas criadas implica na traição contra essa verdadeira autoridade.

Simbolicamente, este é o mistério da Lua Nova: na presença do Sol, o papel da Lua é o de se apagar para que brilhe a luz verdadeira. Quando cresce, por sua vez, a Lua Cheia não está plena de si mesma, mas da memória do Sol, grávida da luz verdadeira ela cumpre sua função de lembrar da verdade que não é sua propriedade, e então brilha dando testemunho dessa verdade que lhe transcende.

O heroísmo da desistência, postura da nobreza e da sabedoria Noldor, cumpre o que está dito: “fugir do mal, eis a inteligência”. Trata-se de clamar pelo dom divino da Vigilância, que nos permite enxergar sem medo a verdade deste mundo decaído e ter todas as forças não só para recusar a participação em seus crimes, mas também para dar o testemunho de sua corrupção e da alternativa de fidelidade ao Amor divino.

Alexandre, esse anticristo educado dentro da Filosofia consagrada, foi derrotado pelo testemunho de Diógenes, esse “filósofo menor”, que diante da pretensiosa e falsa majestade humana só viu o eclipse da majestade divina.

Do cálculo de tudo à razão de nada: Eu Robô, por Isaac Asimov

Tudo é Mente, ou Números, falando pitagoricamente, no livro Eu Robô de Isaac Asimov.

Não estaríamos tão mal assim se o problema fosse apenas a revisitação das idéias da filosofia pré-socrática. Infelizmente, porém, Asimov, não satisfeito com os problemas da humanidade passada, nos leva numa viagem em direção aos problemas da humanidade futura.

Com o progresso tecnológico o ser humano tende a expandir esta experiência que já faz parte do nosso presente: a vitória sobre as causas materiais e eficientes em detrimento da derrota sobre as formais e finais. Conseguimos viver cada vez mais e melhor, e com cada vez menos sentido. A robótica prometida por Asimov não chega a nenhuma outra conclusão. A humanidade ganhará o poder de calcular tudo ao mesmo tempo em que não vai entender a razão de mais nada. Digo “razão” naquele sentido mais profundo da vida humana: o telos, a finalidade, o motivo.

Não existe vida espiritual na ficção deste autor, embora saibamos melhor que tudo tem sentido espiritual, inclusive a recusa de dar sentido espiritual às coisas. Nosso guia que representa a sabedoria em Eu Robô é a psicóloga roboticista Susan Calvin. Eis um exemplo da sua grande sabedoria:

Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. A humanidade não está mais sozinha.”

Até mesmo aqueles pagãos pré-socráticos chamavam o universo de Cosmos, indicando a confiança numa ordem superior, e entendendo o mundo como o seu lar, e não como uma realidade a ser enfrentada. Asimov obviamente começa já declarando a sua premissa gnóstica. Se existe uma Maldição, esta não deve ser aceita de forma nenhuma: deve ser enfrentada, derrotada e conquistada. Tudo se resume a isso. O velho mito prometéico que apela para o espírito de rebelião dentro do homem.

Do mesmo modo a suposta solidão do ser humano também apresenta não só o total desprezo pela Presença, mas até mesmo a ingenuidade com relação a qualquer outra dimensão que não seja esta que o ser humano habita. Não há Deus, não há anjos nem demônios, e tudo está morto, exceto esse verdadeiro milagre que veio do Caos chamado ser humano.

A questão da criação de seres artificiais é muito empregada na ficção, e costuma apresentar dilemas e dicotomias falsas, principalmente no questionamento dos supostos direitos e dignidades das criações humanas em comparação com seus criadores. Ora, sem Deus o homem se torna o falso deus de si mesmo, o que torna essa questão indiferente. Não faz diferença o ser humano tratar os robôs como seus iguais ou como seus semelhantes: seu suposto valor autônomo, sem um desígnio divino que determine sua origem e seu destino, já não existe, e dessa perspectiva para baixo tudo pode fazer sentido porque nada faz sentido de fato, porque é uma pura arbitrariedade.

Não há nenhum problema com os robôs. O problema está no criador dos robôs: se este está desligado de Deus, sua vida não fará sentido nenhum, seja com mais ou menos robôs, ou com maior ou menor igualdade entre si.

Se o ser humano é eminentemente psíquico –e este é o ser que decreta, gnosticamente, que tudo é feito de Números ou de Mente–, ele pode criar seres mais ou menos psíquicos á sua imagem e semelhança que sejam portadores da sua mesma dignidade, já que esta foi reduzida à capacidade psíquica.

Qual é, afinal, a diferença essencial entre seres humanos e robôs?

Só pode ser uma diferença determinada por uma razão transcendente, por uma origem humana baseada na própria substância divina, com o propósito monádico de um destino eterno. Essa diferença é total e absoluta. Mas se, kantianamente, toda a transcendência já foi abolida do pensamento humano, daí para baixo tudo se resume ao pó, seja mais ou menos qualificado no seu próprio plano de insignificância.

Asimov quer que sintamos grandes simpatias pelos robôs, e certa reserva ou até mesmo desgosto com os nossos semelhantes. Um traço obviamente gnóstico.

Ao que parece este autor foi o responsável, nesta obra, pela invenção das chamadas Três Leis da Robótica, isto é, da programação universal para quaisquer robôs portadores de cérebros positrônicos, a saber:

Lei 1- Jamais causar dano a seres humanos ou, por omissão, deixar que sofram danos;

Lei 2- Obedecer as instruções humanas, exceto quanto violar a Lei 1;

Lei 3- Fazer o que for preciso para se preservar, exceto quando violar as Leis 1 e 2.

Asimov parece ter predileção pela análise lógica, pela dedução, assim como pela indução e pela investigação em geral. Seus contos exploram as diferentes possibilidades de experiência com a aplicação das Três Leis em cenários mais ou menos exóticos.

Toda essa experiência lógica e psicológica traz o interesse imediato da própria experiência ética da vida humana, que é espelhada no experimento fictício com os robôs. É uma ficção científica, mas não passa de ser, como sempre ocorre em qualquer literatura, um reflexo da realidade humana. No fim das contas o ser humano está sempre falando ou de Deus, ou de si mesmo.

Lembro-me, no sentido da idolatria denunciada no livro Eclesiástico, da passagem que diz: “Diante de um rosto aparece uma imagem. Do impuro que se pode tirar de puro? Da mentira que verdade se pode tirar?” Essas são boas perguntas a se fazer a Asimov e a todos os futurologistas que se animam com as promessas desse progresso. O que vai sair disso tudo, senão a mesma vaidade debaixo do sol, e o correr atrás do vento?

O que o estímulo à invenção dos robôs parece fazer é incentivar a multiplicação da entropia deste mundo, e a perversão da genuína criatividade monádica, como se estes seres humanos escravos da Maldição e do Poder tirassem inspiração das suas potências espirituais para gerar uma maior dissipação de suas forças e maior decadência, ao invés de se concentrar no ideal eterno, como no caso da criação dos Periannath, por exemplo. Toda essa saga de emancipação serve apenas para a prorrogação das limitações decretadas ao ser humano decaído: escassez, inviolabilidade das causas, e irreversibilidade dos efeitos. Pretendendo se tornar mais livre, este ser apenas expande a sua prisão.

A Dra. Susan Calvin nos dá outro exemplo da inevitável equiparação do pó ao pó, desde que o ser humano crie autômatos programados com seus ideais psíquicos: “Não se pode diferenciar entre um robô e os melhores seres humanos.” Claro que não, Dra. Susan. Se as máquinas foram programadas para realizar o maior ideal humano possível, o máximo desempenho moral que os seres humanos podem atingir é o de se igualar às suas próprias criações. Isto é uma falácia chamada petitio principii, Petição de Princípio. A perfeição ideal das máquinas é uma premissa, e não uma conclusão, como pode parecer.

Isso é psiquismo puro, a profecia de Protágoras: o homem como medida de todas as coisas.

Em determinado momento se coloca a dúvida sobre se um robô poderia ser eleito para um cargo público, como se essa fosse uma elevada questão moral e política.

Não é: sem uma responsabilidade diante de uma Autoridade transcendente, que diferença faz se o homem governa a si mesmo diretamente, ou através dos robôs programados para emular o seu psiquismo? A questão é vazia.

O que não quer dizer que Asimov não tenha uma visão política condenável, principalmente ao idealizar, como bom discípulo (consciente ou não) de Kant, o governo global sob o comando de um Coordenador Mundial.

Dos capítulos 1 a 8 Asimov nos apresenta casos variados de robôs que são quase sempre simpáticos, inocentes ou vítimas. Ele próprio diz numa carta anexada à edição que quis mudar a perspectiva do robô como vilão, ou monstro. Trabalhou fiel ao seu desejo, sem dúvida.

O que eu não gostei muito foi que ele esperou chegar ao último Capítulo 9, “O conflito evitável“, para declarar suas idéias mais importantes, as quais se fossem expostas desde o início talvez nos permitiria gastar menos energia tentando decifrar qual é a visão de mundo do autor.

Vejamos algumas citações relevantes:

No final das contas a Máquina é apenas uma ferramenta, que pode ajudar a humanidade a progredir mais rápido ao tirar de suas costas o peso dos cálculos e das interpretações. A tarefa do cérebro humano continua sendo a que sempre foi: descobrir novos dados a ser analisados e inventar novos conceitos a ser testados. É uma pena que a Sociedade pela Humanidade não entenda isso. Eles seriam contra a matemática ou contra a arte de escrever se tivessem vivido na época oportuna. Esses reacionários da Sociedade alegam que a Máquina rouba a alma do homem. Eu noto que os homens capazes ainda são poucos em nossa sociedade. Nós ainda precisamos do homem que é inteligente o bastante para pensar nas perguntas apropriadas a se fazer. Talvez, se pudéssemos encontrar homens assim em número suficiente, essas alterações [com ineficiências] com as quais o senhor (O Coordenador Mundial) se preocupa não ocorreriam.”

Essa passagem me fez refletir sobre várias coisas.

Em primeiro lugar, por que temos essa obsessão com o progresso tecnológico? Me parece validar aquela tese, sobre a qual falei no meu último livro, do perenialismo transhumanista que vai na direção da fantasia deus ex machina, ou seja, na construção de um artefato que permita a encarnação dos demônios para uma existência “imortal”.

Em segundo lugar, em nenhum momento o progresso é explicado por uma causa final que o justifique. O que quer dizer que o progresso é o próprio ideal de si mesmo: a humanidade teria que progredir para… progredir mais, indefinidamente. Obviamente não há Teodicéia num mundo de ateus. Mas, curiosamente, não há também nenhuma Antropodicéia. Essa questão filosófica parece não ter passado nem perto de uma reflexão.

Por fim, o que a burocracia tecnocrática quer não são seres humanos, mas justamente máquinas na forma humana, incapazes de verdadeira independência. A “Sociedade pela Humanidade”, herdeira dos “Fundamentalistas”, tem razão sobre o roubo da alma humana no ponto crucial que diferencia a forma da nossa espécie: o livre-arbítrio. Porém, a liberdade não pode ser inserida num cálculo, e portanto não pode ser ensinada para um computador, por mais avançado que este seja. Todo cálculo é uma razão sobre proporções determinadas. Mas a liberdade é justamente a singularidade de um ser capaz de produzir efeitos indeterminados por quaisquer elementos exteriores. Isso não quer dizer que a vontade livre é irracional. Antes, a liberdade é supraracional, transracional, ou metaracional, já que se dirige aos fins mais excelentes que justificam o emprego de qualquer racionalidade secundária. Isto é: as causas finais e formais justificam as materiais e eficientes. Jamais um robô vai compreender isso. Ele não pode subir a esse nível de entendimento. Mas é claro que o ser humano pode se rebaixar ao nível do raciocínio robótico, como parece ser o caso nesta passagem que declara o desejo por seres humanos mais úteis por serem justamente mais maquinais.

Asimov quer que sejamos todos mais burros no processo mesmo de crer que estamos ficando mais inteligentes.

Outra passagem: “Se a fé dos homens nas Máquinas pode ser destruída a ponto de elas serem abandonadas, teremos a lei da selva de novo.” Isso é propaganda de totalitarismo tecnocrático. E é puro Gnosticismo. A idéia de fé nas máquinas remete diretamente a fé na Razão, na Ciência e no Conhecimento, como se esses fossem os elementos salvíficos da experiência humana.

Em certa parte há a condenação do pessoal reacionário, novamente: “Homens que acreditam ser fortes o bastante para decidir por conta própria o que é melhor para si.” Ora, eles acreditam ser fortes, ou antes acreditam serem livres? Isso é Gnose pura. O conhecimento como força obriga os ignorantes a obedecerem aos sábios, mesmo que não creiam nessa autoridade. A realidade da liberdade humana é totalmente desprezada. Só sobra a força pura, e os ignorantes são os mais fracos, portanto incapazes de decidir o que é melhor para si mesmos.

Asimov ainda diz, por um personagem: “Desobedecer às análises da Máquina é deixar de seguir o caminho ideal.”

Ideal de quem? Da máquina? Do inventor da Máquina? De uma Razão Pura representada por uma intelligentsia humana totalmente fiel ao ideal?

Essa é uma mistura perfeita de psiquismo com gnosticismo e com ingenuidade. E equivale ao suicídio moral da humanidade: é o próprio desejo de morrer na forma de uma filosofia pseudoracionalista.

Vejam ainda: “Só as Máquinas sabem [todas as respostas], e elas estão seguindo nessa direção e levando-nos consigo.” … “Todos os conflitos se tornaram por fim evitáveis. Apenas as Máquinas são, de agora em diante, inevitáveis!

Não precisamos mais do Espírito Santo.

Temos o Logos encarnado na forma de máquina para nos salvar!

Seria cômico, se não fosse trágico.

E há repercussões esotéricas, quando por exemplo Susan Calvin diz, no fim: “Acompanhei tudo desde o início, quando os pobres robôs não podiam falar, até o fim, quando eles se colocaram entre a humanidade e a destruição.”

Talvez essa destruição seja aquela que os Illuminati desejam adiar indefinidamente, ou seja, a do próprio Fim do Mundo. De algum modo essa pode ser uma fantasia demoníaca: a de garantir a sua sobrevivência através da perenidade do Annuit Coeptis, mediante o emprego de um sistema que faça o ser humano prescindir totalmente de uma redenção verdadeira.

Para encerrar, o próprio Asimov, em sua carta, parece não querer esconder muito o seu gnosticismo, como quando diz: “Não conseguiria acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha de ser a sabedoria.”

Isto quer dizer: se o conhecimento nos traz um mal, a solução é redobrar a aposta num conhecimento melhor, uma sabedoria mais perfeita, como se essa não pudesse trazer um mal pior ainda, como provou o caso de Salomão, ídolo gnóstico e Illuminati.

Aliás, o testemunho de Asimov não contém um óbvio tertium non datur, a falácia do terceiro excluso?

Não estamos presos a escolha da sabedoria ou da ignorância, já que a ignorância assumida toma a forma da virtude moral da Humildade. Solução que aliás era a preferida de David, aquele ungido que agradou a Deus mais que seu filho, o “sábio”.

Para Asimov, ao menos nesta obra, não existe vida espiritual, e não existe liberdade humana, existe somente uma triste série de cálculos que levam do nada ao lugar nenhum.

Tudo está muito bem calculado e significa exatamente nada.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD: 1,0

Hipótese: P&A

M. Maior – Gratidão/Soberba0
M. Maior – Obediência/Rebelião5
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo3
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo0
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD1,8

Valor Espiritual:

Humildade/Presunção0
Presença/Idolatria 0
Louvor/Sedução 5
Paixão/Terror 5
Soberania/Gnosticismo0
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo 0
Nota Espiritual1,4

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)1
Informação1
Diversão3
Nota Cultural1,7

Nota Final: 1,6

A escravidão do Poder e a liberdade do Amor

Talvez não haja maior genialidade na obra de Wagner do que a humilhação dos amantes do Poder em face da redenção daqueles que são fiéis ao Amor, conforme dramatizado na tetralogia de O Anel dos Nibelungos.

Enquanto Wotan e Alberich se engalfinham numa disputa mortal pelo governo do mundo, tendo que apelar para os estratagemas mais complexos e sofrendo as consequências mais angustiantes por sua perseguição ambiciosa do Poder, as Filhas do Reno são apresentadas como fiéis ao simples Amor representado pelo Ouro do Reno no seu estado ótimo, isto é, como potencial puro repousado no leito do grande rio.

O Rio Reno representa as Águas Primordiais, um símbolo da Possibilidade Universal, isto é, de tudo o que pode vir a ser desde o ideal. Wagner, alemão, idealista e romântico, não podia deixar de exaltar a possibilidade em face da realidade, e as Filhas do Reno, com seu canto e sua dança ao redor do Ouro do Reno, fazem homenagem ao puramente possível, em atitude de esperança confiante, na paz e alegria do repouso num poder superior que lhes trará a salvação.

Wotan e Alberich, por sua vez, são perseguidores do poder. Não podem repousar em nenhuma esperança num poder superior que os venha resgatar no futuro. Não: eles precisam salvar a si mesmos agora, obtendo poder e controle sobre o mundo. Embora Alberich seja tratado como um completo vilão, Wotan mostra-se tão escravizado pelo poder quanto seu inimigo. A única redenção que virá aos deuses será na justiça da sua própria extinção, quando Brunhilda realizará aquilo que seu pai jamais teve a coragem de fazer: a renúncia do poder na restituição do Anel às Filhas do Rio, para que se converta na sua forma original, como Ouro do Reno, de instrumento de dominação em objeto de louvor ao poder da verdadeira divindade.

Vejamos uma passagem bastante esclarecedora neste sentido, no Ato II da segunda ópera, Die Walküre:

Wotan: “Estou pego em minha própria armadilha e sou menos livre que qualquer humano. Esta vergonha merecida! Este merecido pesar! Os deuses estão em um perigo terrível! Nada resta senão raiva e lamentação! Eu sou o mais triste de todos. Se eu o disser em voz alta, não perderei então o comando da minha própria vontade? O que eu digo a ninguém exceto a mim mesmo continua não dito, e falando contigo eu estou apenas falando comigo mesmo. Quando os prazeres do amor de juventude se foram, eu desejei em meu coração o poder. Esse frenético desejo me impeliu a tomar o mundo para mim mesmo. Involuntariamente desonesto, eu agi deslealmente, fazendo tratados que me aliaram com enganosos e malignos poderes. Loge atraiu-me a tudo isso, e então ele desapareceu. No entanto, eu não podia abandonar o amor, e no meu poder eu o desejei. Embora Alberich tenha nascido uma criatura temível da noite, ele se libertou disso e ousou amaldiçoar o amor. Por sua maldição ele ganhou o brilhante Ouro do Reno, e com ele um poder incalculável. Eu o fiz perder o anel que criou com um truque, mas não o devolvi de volta ao Reno. Eu o usei para pagar por Valhalla, o castelo que os gigantes construíram para mim e a partir do qual eu governei o mundo. Erda, a mais sábia das mulheres, disse-me que deveria abrir mão do anel, e me alertou sobre o destino eterno. Eu queria que ela me dissesse mais, mas ela desapareceu silenciosamente. Então eu perdi toda a leveza do coração, e desejei apenas o conhecimento divino. Mergulhei nas profundezas da terra. Lá eu seduzi Erda com o poder do amor. Eu a fiz compartilhar sua sabedoria e me explicar tudo. Ela me deu seu conhecimento. Em retorno, eu lhe dei uma descendência. A mulher mais sábia do mundo me deu a ti, Brunhilda. Eu te trouxe com oito irmãs. Através de vocês Valquírias eu quis afastar o que Erda me ensinou a temer: um fim vergonhoso para os imortais. Desse modo nossos inimigos nos encontrariam fortes em batalha. Eu te enviei para encontrar-me heróis, homens que nós antes tínhamos mantido em servidão. Homens que nós subjugamos, e que prendemos com tratados para mantê-los em cega obediência. Você foi enviada para colocá-los uns contra os outros, para testar suas forças em furiosas batalhas, para que eu pudesse reunir os guerreiros mais bravos no salão de Valhalla. Há outra coisa sobre a qual Erda me alertou. Alberich nos ameaça destruir com seu exército. Ele me odeia com uma fúria invejosa. Mas agora eu não temo suas forças sombrias. Meus heróis me darão a vitória. Mas se a qualquer momento ele ganhar o anel de volta, então Valhalla será perdida. Ele amaldiçoou o amor, e através de sua inveja ele usaria o anel para trazer uma vergonha sem fim a todos os deuses. Ele jogaria meus bravos heróis contra mim e usaria a sua força para fazer-me guerra. Eu tentei encontrar um meio de manter o anel longe de meu inimigo. Um dos gigantes ao qual eu dei um dia o amaldiçoado ouro como pagamento pelo trabalho, Fafner, o gigante, guarda o ouro maldito pelo qual ele matou seu irmão. Eu teria que apanhar de volta o anel que eu o paguei como salário. Mas desde que eu fiz um tratado com ele, não posso atacá-lo. Impotente diante dele, minha coragem me falharia. Esses são os grilhões que me prendem. Eu me tornei governante do mundo através de tratados, e esses tratados agora me escravizam. Apenas um homem pode fazer o que eu não pude. Um herói, alguém a quem eu nunca ajudei, um estranho ao deus, livre de seus favores, voluntariamente e sem comando, e partindo apenas de sua própria necessidade, com suas próprias armas. Ele poderia fazer o que eu não posso, e o que eu nunca pedi que fizesse, ainda que seja a única coisa que eu deseje. Esse homem que luta contra os deuses, e que ainda assim lutará por mim, esse inimigo amigável, como eu poderia encontrá-lo? Como posso criar um homem livre a quem eu nunca protegi e que ao me desafiar se tornará o meu mais querido amigo? Como posso criar este Outro que já não é mais parte de mim e que, de sua própria liberdade, pode fazer o que eu sozinho desejo? Que destino desgraçado para um deus! Me repugna que eu me encontre apenas a mim mesmo em tudo o que faço. Esse outro que eu desejo, nunca posso encontrar, pois o homem livre deve criar a si próprio. Só posso produzir servos para mim mesmo.”

Fricka, a protetora dos contratos de casamento, foi quem imediatamente denunciou o autoengano de seu marido, para o grande desgosto deste que se viu então obrigado a pedir pela morte de Siegmund. Embora deteste a intervenção da esposa, por tudo o que isso representa, Wotan é escravo de si mesmo, de sua ambição de poder, que é o que lhe impede de realizar a sua vontade final, e que foi o que lhe impeliu em direção ao objeto de sua ruína em primeiro lugar, a construção de Valhalla, a morada dos “deuses” que ele mesmo desejará ver destruída.

A pista da liberdade não estava em nada disso, nem em Valhalla e nem no Anel de Poder, mas naquela bem-aventurança das Filhas do Reno, cuja suposta ingenuidade e tolice foi troçada pelos soberbos Alberich e Wotan, que no desprezo do puro Amor conseguiram apenas atrair a desgraça e a maldição para si mesmos.

A verdadeira arte divina de criar seres que livremente desejem amar é o que escapa a Wotan, o falso deus, ladrão e usurpador, mentiroso e tirano, que ao menos teve uma última lucidez ao decretar um desejo correto em face de seu fracasso espiritual: o desejo pelo fim, realizado finalmente por Brunhilda, a heroína fiel ao Amor.

Com Götterdammerung Wagner realiza uma profunda justiça na forma de sua arte, um grande alerta contra a ambição do Poder, e o elogio da confiança no Amor.

Gandula espiritual: o que faço e para quem faço

Desejo que todos os meus semelhantes, meus irmãos e irmãs que assim como eu nasceram em cativeiro, continuem firmes até o fim em sua jornada, como um jogador de futebol persiste até o gol (the goal, “a meta”).

Como viver no Brasil e evitar as metáforas futebolísticas? Não aprecio o esporte como o fazia aquele saudoso frasista, mas posso usar as simples imagens dessa unanimidade cultural para transmitir meu próprio recado.

Vejo-me, assim, como uma espécie de gandula espiritual: à beira do campo da vida, pronto para agarrar todas as bolas que querem escapar do campo, e jogando-as de volta ao plano da vida humana, confiando que um desígnio divino as dirige. Meu trabalho é o de servir as almas que repudiam sua condição de existência, para que aprendam a aceitar a Providência e a voltar a sua rejeição ao alvo correto: a mentira da idolatria.

Já que alguns se perguntaram e outros mais o podem fazer mais adiante, convém desde já declarar o que eu faço e para quem eu faço, ou seja, o mandato e o nicho deste trabalho. Isso permite liberar os desinteressados de perder seu tempo com o que não lhes importa, e ao mesmo tempo convidar todos aqueles que descubram um alinhamento de interesses.

O Mandato, ou o que fazemos, já foi declarado antes, mas vou repetir.

É composto de três elementos:

  1. Dar o testemunho de que Deus nos ama e de que nós precisamos de seu Amor;
  2. Dar o testemunho de que todos nós vivemos muito mais baseados em crenças do que em conhecimentos, e de que nos convém, portanto, assumir a responsabilidade integral por elas, com tudo o que elas implicam;
  3. Dar o testemunho de que a Maldição decretada para a limitação da rebelião contra o Amor deve ser aceita com todas as suas consequências, principalmente a morte dos corpos decaídos das pessoas que amamos e do nosso próprio.

Qualquer pessoa que receba esses três testemunhos tem a possibilidade posterior de aceitá-los ou de rejeitá-los, integralmente ou em partes.

Porém, meu intuito não é o de dar estes testemunhos indiscriminadamente a qualquer um, mas especificamente para as bolas jogadas para fora do campo, por assim dizer. Isto é, para as almas que já iniciaram uma jornada espiritual própria de busca através da primeira fase, que é a de negação do valor da vida de idolatria. Esse buscador espiritual já é capaz de intuir de algum modo o vazio da mentira dos ídolos, assim como já deve sentir as dores do despertencimento e da disfuncionalidade num mundo que já não lhe faz mais sentido.

O Nicho, ou a pessoa a quem dirigimos o serviço explicado no Mandato, é a pessoa chamada por Deus naquela fala de Jesus em Mt 11:28-30:

Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve.”

A pessoa que acredita neste chamado deve ser servida.

Até o Fim do Mundo, ela não pode ser abandonada à própria sorte, enquanto existir um único cristão que ainda possa dar o testemunho da Vida Boa, da Boa Notícia, isto é, da salvação que Jesus Cristo nos trouxe.

A quem não se identifique com o Nicho e nem se interesse pelo Mandato, o recado é claro: não tenho como lhe servir. Vá e viva como achar que deve. Meu dever é estar pronto para lhe servir se isso for necessário. Se um dia você precisar de mim, eu estarei lá por ti. O ideal é que nenhuma bola caia fora, mas se alguma perigar de cair, o gandula precisa estar lá para fazer o seu serviço.

A quem se identifique, o convite está aí para aprender tudo o que for conveniente para o transcorrer de sua própria jornada espiritual.

Reflexões do Vazio sobre si mesmo: A biblioteca da meia-noite, por Matt Haig

Já faz tempo que a psique ocidental é tratada com os analgésicos espirituais e amortecedores morais da autoajuda, na vã tentativa de compensar o vazio existencial que cresce sem parar.

Conforme a escravidão material da Maldição é compensada pelo progresso civilizacional, o sentido da existência dessa massa de escravos é continuamente desmontado. A especialidade da nossa raça era a de ser escravizada num cativeiro trabalhoso de manter e cheio de perigos. Se vivemos mais livres de um trabalho contínuo e de grandes ameaças iminentes, que sentido de vida nos resta?

Nossa sociedade chegou ao ponto de se especializar no autoengano ao ponto da alucinação coletiva em torno das mentiras mais sofisticadas, uma farsa que vai dar trabalho para cada nova geração desvendar. Ao lermos A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig, revisitamos o hospício a céu aberto da mentalidade contemporânea, e revemos mais uma vez as impotentes reflexões do Vazio sobre si mesmo.

Ao viver uma vida sem Deus –e, vejam bem, falo do Deus verdadeiro, o centro e o ápice de nossas vidas, o Primeiro e o Último, o fundamento e o objetivo, a origem e o fim–, nenhuma mônada pode dar conta de si mesma, por mais potente que se considere, e por mais privilegiada que seja a sua “visão quântica” dos muitos universos possíveis. Toda a relação do Múltiplo consigo mesmo é entrópica por natureza e tende ao declínio e à dissolução, pois dissipa sua energia ilimitadamente. Todos os seres contingentes precisam do Ser Absoluto de potência infinita para lhes conceder continuamente a vida e a graça. Por si mesmos, os entes criados são pedaços vazios de possibilidades equivalentes ao Nada de onde foram tirados pela vontade amorosa de seu Criador. Por isso se diz, diante da rebelião contra o Amor, que o ser humano veio do pó, e ao pó retornará.

Tudo o que Nora Seed, a protagonista da história, faz, é tirar as minimamente honestas conclusões dessa total devastação espiritual da experiência humana vivida na rejeição da Presença e do Amor de Deus. Isso obviamente a leva a desejar a morte depois que algumas circunstâncias a pressionam para além do psiquicamente suportável, especialmente a perda do emprego e a morte de seu gato.

A história concluirá que Nora sofre do medo de viver, no sentido da recusa de experimentar uma vida não refletida, e neste sentido apresenta uma moral antifilosófica, fatalista, trágica e existencialista.

No sentido espiritual, é um conto que estimula o Pacto com a Morte e o Psiquismo, desempenhando assim seu autor o papel de Bispo no Sistema da Besta, legitimando a existência decaída através de diversos testemunhos de justificação da experiência da vida humana sem Deus.

As coisas boas fazem o todo valer a pena“, uma das crenças de Nora, por exemplo, é um clássico testemunho Moriquendi.

A Sra. Elm, a bibliotecária que serve como interlocutora constante de Nora na experiência da Biblioteca da Meia-Noite, produziu por sua vez o importante testemunho de que “a única maneira de aprender é vivendo“, desclassificando e desmoralizando qualquer busca por Discernimento e Sabedoria, e equivalendo o ser humano a um rato de laboratório preso num labirinto. Ela teria razão, sem dúvida, com relação ao caso dos Falmari, os salvos da Segunda Ressurreição, os seres humanos que realmente têm que apanhar até o limite para aprender. Mas se ainda estamos aqui, não temos então uma eleição muito melhor disponível, a do destino Noldor?

O livro produz uma ficção científica baseada na Física Quântica, que é o mais novo esparadrapo no kit de primeiros-socorros da literatura de autoajuda. Nora não consegue morrer de uma vez, e vai parar na tal Biblioteca com a Sra. Elm, onde vai poder experimentar outras possibilidades de vida a partir de seus arrependimentos, tudo com o objetivo de recuperar o desejo de viver na sua vida original.

Eventualmente Nora recuperará o desejo de viver numa conclusão não muito convincente de que ela poderia rever sua vida original com olhos repletos de novas possibilidades. A compaixão com as pessoas que concretamente foram beneficiadas pela sua existência naquela realidade é o ponto forte da narrativa (o aluno de piano e o vizinho idoso), mas me lembra a solução de compaixão do Schopenhauer: como aplicar um band-aid numa fratura exposta.

Uma das experiências alternativas que mais a impressionou foi, obviamente, a de casar e ter filhos. Parabéns ao autor, está trabalhando firme mesmo na manutenção deste mundo decaído. O Ouroboros está orgulhoso. Só recomendo ser um pouco mais competente: em certa parte diz que “Nora se deu conta de que não era culpa sua que os pais jamais tivessem sido capazes de amá-la como seria esperado: incondicionalmente“, mas depois diz, quando Nora tem a experiência do casamento e da maternidade, que “ela sentiu o poder daquilo, o poder apavorante de amar incondicionalmente e de ser amada incondicionalmente“. Ué, Nora superou seus pais? Ela ficou melhor que eles? Quando foi que isso aconteceu? Não será mais provável que Nora tenha se tornado mentirosa como seus pais? Ou ao menos que tenha se enganado tanto quanto eles?

Para mim a mensagem sutil da história é: mulheres, meninas, esqueçam esse negócio de filosofia e sentido de vida, simplesmente casem e tenham filhos. O Ouroboros agradece. Consciência pra quê mesmo? Deixem a Serpente se alimentar…

Em certo momento um grande segredo da vida humana é revelado quando Nora, numa de suas expedições quânticas, sobrevive ao encontro com um urso polar: “fazer parte da natureza era fazer parte da vontade de viver“. Quer dizer, toda aquela consciência do Vazio pode ser resolvida de modo simples, desde que o ser humano aceite equiparar-se a um animal e que não queira ir muito além disso.

Há situações na história em que a legitimação fatalista da humanidade decaída chega aos cumes, principalmente nas conversas de Nora com a Sra. Elm, representante dessa suposta sabedoria quântica.

Exemplo:

A tristeza é parte intrínseca do tecido da felicidade. Não dá para ter uma sem a outra.”

É a famosa mistura de Luz e Trevas que tanto interessa à Serpente do Mundo, pois o mal só sobrevive com a parasitagem do bem.

Comparemos isso com o que diz o Apocalipse:

Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!

Cada um faça a sua escolha.

Querem outros exemplos de testemunho Moriquendi neste livro?

Vejamos:

Não há uma vida sequer em que a pessoa possa existir num estado permanente de felicidade absoluta. E imaginar que exista uma vida assim só acrescenta mais infelicidade à nossa vida.”

E:

Nora: ‘Parece impossível viver sem machucar as pessoas.’ Sra. Elm: ‘Parece impossível porque é impossível’.

Quer dizer, Jesus Cristo e seu testemunho do Amor e da Ressurreição não vale absolutamente nada para essa gente. Nada, nada, nada. Só lhes resta, é claro, fazer o Pacto com a Morte. De preferência não entendendo lhufas de nada, como reafirma a Sra. Elm em outra parte: “Você não precisa entender a vida. Precisa apenas vivê-la.” Assinado: A Serpente do Mundo, por seu procurador.

Talvez esotericamente Nora tenha escapado da Biblioteca e voltado à sua vida original passando pelo Corredor 11, um número bem conhecido do pessoal que, digamos, assim, não estão muito a fim do Amor de Deus.

A decisão final do masoquismo de Nora, e de seu assentimento espiritual com a mistura de Luz e Trevas desde mundo decaído, é declarada nas seguintes expressões conclusivas:

Minha vida será milagrosamente livre de dor, desespero, mágoa, coração partido, dificuldades, solidão, depressão? Não. Mas eu quero viver? Sim. Sim. Mil vezes, sim.”

Não é uma adesão à esperança cristã da Vida Eterna, a salvação divina. Não. É uma adesão ao sofrimento mesmo. É a afirmação do valor existencial do mal. É um testemunho Moriquendi.

E também:

Ela aceitou as sombras da vida de um jeito que jamais havia feito, não como fracasso, mas como parte de um todo, como algo que ajuda outras coisas a serem ressaltadas, a crescerem, a existirem.”

Eis uma declaração cuspida e escarrada de que o Bem precisa do Mal, e a Luz das Trevas. Mais óbvio que isso, impossível.

Antes que se diga que o autor apenas se perdeu no tema, com seu conhecimento de filosofia eu tenho certeza de que ele poderia acertar o alvo espiritual, se quisesse.

Por exemplo, esta obra perde a chance de mergulhar numa interessantíssima reflexão sobre o Princípio de Indeterminação das Mônadas, ou Singularidade monádica, ao rejeitar por exemplo o modelo de Diógenes de Sinope que elogiava o heroísmo de quem desistia de qualquer plano mundano como uma vitória que honra a verdadeira forma humana destinada ao plano divino, defendendo as mônadas da decadência da identificação com quaisquer manifestações inferiores. Nora poderia ter sido uma heroína cínica, mas até esse paganismo seria perigoso demais, porque poderia abalar a paz e segurança do Sistema da Besta.

Mas esta já é uma história que não foi escrita, e que provavelmente jamais será.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD:

Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba2
M. Maior – Obediência/Rebelião2
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo0
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD2,0

Valor Espiritual:

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria (a mera hipótese da transcendência é desprezada)1
Louvor/Sedução 3
Paixão/Terror 5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo (causas finais preteridas pelas eficientes)1
Nota Espiritual3,2

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)0
Informação1
Diversão0
Nota Cultural0,3

Nota Final: 1,8